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REPRESENTAÇÃO E IMITAÇÃO: UMA ABORDAGEM FOUCAULTIANA DE ceci n’est pas une pipe, de René Magritte |
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Carlos Eduardo Silva
Barbosa
Mestrando
em Filosofia da Linguagem pelo
Programa de Pós-Graduação em Filosofia da
Universidade Federal de Goiás. Goiânia,
2006. Michel
Foucault, que morreu no ano de 1984, aos 57 anos, na década de 1950
mostrou-se mais particularmente atraído pelas artes e em especial pelo
surrealismo, e em 1973 publicou o livro “Isto
não é um cachimbo”, analisando a obra
de René Magritte (fig. 3, fig. 4).
FIGURA 1 - Les deux mystères. FIGURA 2 - Les deux mystères.
A obra se refere
a uma pintura a óleo, chamada La
trahison des images (Ceci
n’est pas une pipe). Em 1926, o pintor já tinha feito uma
primeira versão, intitulada Sans titre (La pipe); em
1928/1929, foi pintada a “versão clássica”, e em 1966, Magitte
insere o quadro “Traição”
em outro quadro maior, contendo um “novo” cachimbo sobre o cavalete,
suspenso no “ar”. Essa é a pintura que constitui o foco da análise
de Foucault e que o próprio Magritte designou Les
deux mystères.
Foucault (1988) apresenta suas idéias sobre semelhança, que
seria uma “falsificação”. O que é semelhante a um objeto, é de
uma natureza diferente desse objeto, é uma “imitação” dele. Desta
forma, assim como a pintura do castelo de Marlborough, ainda que muito
semelhante, não é o castelo, de fato o cachimbo representado por René
Magritte, é apenas isto: uma representação de um cachimbo. Nas
palavras de Magritte: “O
famoso cachimbo... Como
fui censurado por isso! E
entretanto... Vocês podem encher de fumo, O Não,
não é mesmo? Ela
é apenas uma representação. Portanto,
se eu tivesse escrito sob meu quadro: ‘isto
é um cachimbo, eu
teria mentido.” (Magritte
In: Foucault, 1988, contracapa) Magritte levanta a
questão de ser a escrita “ceci
n’est pas une pipe” um “malfeito provisório”, que na
pintura poderia dar a idéia de poder ser facilmente corrigível ao se
apagar a “escrita” ou a imagem presente no quadro em que se
encontra. Mas esta é, para Foucault, penas a menor das incertezas.
Outras são: havendo duas “representações” de cachimbo, seria mais
correto afirmar que são dois cachimbos ou dois desenhos de um mesmo
cachimbo? Ou um cachimbo e seu desenho? Ou dois desenhos, representando
cada um deles um cachimbo? Ou dois desenhos dos quais um representa um
cachimbo e outro não? Ou dois desenhos em que nem um é ou representa
um cachimbo, mas sim um outro desenho que ele sim, representa o(s)
cachimbo(s), “de tal forma que sou obrigado a perguntar: a que se
refere a frase escrita no quadro? Ao desenho, debaixo do qual ela se
encontra imediatamente colocada?” – e não ao cachimbo flutuante?
“Mas talvez a frase se refira precisamente a esse cachimbo desmedido,
flutuante, ideal – simples sonho ou idéia de um cachimbo”
(Foucault, 1988, p.13). Desta forma, a “frase” estaria dizendo que o
cachimbo deve ser observado no desenho preso ao cavalete – o desenho
flutuante não é um cachimbo. Mas Foucault insiste que essas questões
ainda não são esclarecedoras: o cachimbo de baixo, está solidamente
preso em um espaço delimitado por largura, altura e profundidade, ou
seja, está em sua “estável prisão” (Foucault, 1988, p. 14). Mas o
cachimbo grande encontra-se suspenso, “desmedido”, ele poderia estar
empurrando o quadro para longe? Ou estaria exatamente sobre o cavalete,
“como uma emanação, um vapor, que teria acabado de se desprender do
quadro – fumaça de um cachimbo tomando ela própria a forma e o
arredondado de um cachimbo”? Ou ele se encontraria atrás do cavalete,
maior do que em princípio parece? Foucault (1988, p. 15) nota ainda a
forma como o cavalete está colocado no assoalho (fig. 2):
instavelmente, com apenas três finas pontas em contato com o assoalho:
o cavalete estaria em queda iminente? “Desabamento do cavalete, da
moldura, da tela ou do painel, do desenho, do texto?” transmitindo a
idéia de fragmentos que não poderão mais se reconstituir – “toda
essa desordem no chão, enquanto lá em cima o grande cachimbo sem
medida nem parâmetro persistirá em sua imobilidade inacessível de balão?”
Dessas idéias, parece ficar claro que “representação” não
é algo absoluto, incontestável, para Foucault, principalmente
observando-se que ele inicia o último parágrafo da parte I do livro
com a frase “dessa incerteza, sequer estou seguro”. Mas o que “representa(ria)” ou “denota(ria)” o quadro de Magritte, ou uma obra como a de Magritte? Qual a relevância do que está posto sob um dos cachimbos “ceci n’est pas une pipe”? Foucault, cita Magritte (In: Foucault, 1988, p.51): “Num quadro, as palavras são da mesma substância que as imagens”.
O ‘isto’
(este desenho que vocês estão vendo, cuja forma sem dúvida reconhecem
e do qual acabo de desatar os liames caligráficos) ‘não é’ (não
é substancialmente ligado a..., não é constituído por..., não
recobre a mesma matéria que...) ‘um cachimbo’ (quer dizer, essa
palavra pertencente a sua linguagem, feita de sonoridades que você pode
pronunciar e cujas letras que você lê neste momento traduzem)” (Foucault,
1988, p.29) (fig. 5). Então, o texto “Isto não é um cachimbo”, permitiria diversas leituras, diagramadas por Foucault. A primeira delas, a já apresentada na última citação.
A
obra se refere a uma pintura a óleo, chamada La
trahison des images (Ceci
n’est pas une pipe). Em 1926, o pintor já tinha feito uma
primeira versão, intitulada Sans
titre (La pipe); em 1928/1929, foi pintada a “versão clássica”, e em
1966, Magitte insere o quadro “Traição”
em outro quadro maior, contendo um “novo” cachimbo sobre o cavalete,
suspenso no “ar”. Essa é a pintura que constitui o foco da análise
de Foucault e que o próprio Magritte designou Les
deux mystères.
Foucault (1988) apresenta suas idéias sobre semelhança, que
seria uma “falsificação”. O que é semelhante a um objeto, é de
uma natureza diferente desse objeto, é uma “imitação” dele. Desta
forma, assim como a pintura do castelo de Marlborough, ainda que muito
semelhante, não é o castelo, de fato o cachimbo representado por René
Magritte, é apenas isto: uma representação de um cachimbo. Nas
palavras de Magritte: “O
famoso cachimbo... Como
fui censurado por isso! E
entretanto... Vocês podem encher de fumo, O Não,
não é mesmo? Ela
é apenas uma representação. Portanto,
se eu tivesse escrito sob meu quadro: ‘isto
é um cachimbo, eu
teria mentido.” (Magritte
In: Foucault, 1988, contracapa) Magritte levanta a
questão de ser a escrita “ceci
n’est pas une pipe” um “malfeito provisório”, que na
pintura poderia dar a idéia de poder ser facilmente corrigível ao se
apagar a “escrita” ou a imagem presente no quadro em que se
encontra. Mas esta é, para Foucault, penas a menor das incertezas.
Outras são: havendo duas “representações” de cachimbo, seria mais
correto afirmar que são dois cachimbos ou dois desenhos de um mesmo
cachimbo? Ou um cachimbo e seu desenho? Ou dois desenhos, representando
cada um deles um cachimbo? Ou dois desenhos dos quais um representa um
cachimbo e outro não? Ou dois desenhos em que nem um é ou representa
um cachimbo, mas sim um outro desenho que ele sim, representa o(s)
cachimbo(s), “de tal forma que sou obrigado a perguntar: a que se
refere a frase escrita no quadro? Ao desenho, debaixo do qual ela se
encontra imediatamente colocada?” – e não ao cachimbo flutuante?
“Mas talvez a frase se refira precisamente a esse cachimbo desmedido,
flutuante, ideal – simples sonho ou idéia de um cachimbo”
(Foucault, 1988, p.13). Desta forma, a “frase” estaria dizendo que o
cachimbo deve ser observado no desenho preso ao cavalete – o desenho
flutuante não é um cachimbo. Mas Foucault insiste que essas questões
ainda não são esclarecedoras: o cachimbo de baixo, está solidamente
preso em um espaço delimitado por largura, altura e profundidade, ou
seja, está em sua “estável prisão” (Foucault, 1988, p. 14). Mas o
cachimbo grande encontra-se suspenso, “desmedido”, ele poderia estar
empurrando o quadro para longe? Ou estaria exatamente sobre o cavalete,
“como uma emanação, um vapor, que teria acabado de se desprender do
quadro – fumaça de um cachimbo tomando ela própria a forma e o
arredondado de um cachimbo”? Ou ele se encontraria atrás do cavalete,
maior do que em princípio parece? Foucault (1988, p. 15) nota ainda a
forma como o cavalete está colocado no assoalho (fig. 2):
instavelmente, com apenas três finas pontas em contato com o assoalho:
o cavalete estaria em queda iminente? “Desabamento do cavalete, da
moldura, da tela ou do painel, do desenho, do texto?” transmitindo a
idéia de fragmentos que não poderão mais se reconstituir – “toda
essa desordem no chão, enquanto lá em cima o grande cachimbo sem
medida nem parâmetro persistirá em sua imobilidade inacessível de balão?”
Dessas idéias, parece ficar claro que “representação” não
é algo absoluto, incontestável, para Foucault, principalmente
observando-se que ele inicia o último parágrafo da parte I do livro
com a frase “dessa incerteza, sequer estou seguro”. Mas o que “representa(ria)” ou “denota(ria)” o quadro de Magritte, ou uma obra como a de Magritte? Qual a relevância do que está posto sob um dos cachimbos “ceci n’est pas une pipe”? Foucault, cita Magritte (In: Foucault, 1988, p.51): “Num quadro, as palavras são da mesma substância que as imagens”.
O ‘isto’
(este desenho que vocês estão vendo, cuja forma sem dúvida reconhecem
e do qual acabo de desatar os liames caligráficos) ‘não é’ (não
é substancialmente ligado a..., não é constituído por..., não
recobre a mesma matéria que...) ‘um cachimbo’ (quer dizer, essa
palavra pertencente a sua linguagem, feita de sonoridades que você pode
pronunciar e cujas letras que você lê neste momento traduzem)” (Foucault,
1988, p.29) (fig. 5). Então,
o texto “Isto não é um cachimbo”, permitiria diversas leituras,
diagramadas por Foucault. A primeira delas, a já apresentada na última
citação.
Outra forma de leitura possível seria: ‘Isto’
(este enunciado que você vê se dispor sob seus olhos numa linha de
elementos descontínuos, e do qual isto
é ao mesmo tempo o designante e a primeira palavra) ‘não é’ (não
poderia equivaler nem se substituir a ..., não poderia representar
adequadamente...) ‘um cachimbo’ (um desses objetos que você pode
ver lá, acima do texto, um figura possível, intercambiável, anônima,
portanto inacessível a qualquer nome)” (Foucault, 1988, p.31) (fig
6). O
diagrama proposto para este caso é a fig. 6. Desta
segunda forma, o desenho do cachimbo seria uma “exemplificação” do
objeto que aquelas letras reunidas não são – uma vez que elas são
“letras reunidas...” e não um cachimbo.
Ainda em uma terceira possibilidade, o enunciado seria ‘Isto’
(este conjunto constituído por um cachimbo em estilo caligráfico e por
um texto desenhado) ‘não é’ (é incompatível com...) ‘um
cachimbo’ (este elemento misto que depende ao mesmo tempo do discurso
e da imagem, e cujo jogo, verbal e visual, do caligrama, queria fazer
surgir o ambíguo ser)” Ou
seja, todo o conjunto, a obra de Magritte que se vê (“isto”), não
é aquele objeto recurvado em que se coloca fumo...
Esse é o contexto de interpretação apresentado por Nelson
Goodman no item 6 do capítulo 1: Representa
como (Representatio-as),
que será denominado aqui por “representation-as”. Se
a obra de Magritte é uma imitação, ou cópia que procura se aproximar
ao máximo da imagem do(s) objeto(s) “cachimbo”, ela não iria muito
além da descrição de Foucault: um
cachimbo desenhado com cuidado e, em cima (escrita a mão, com uma
caligrafia regular, caprichada, artificial, caligrafia de convento, como
é possível encontrar servindo de modelo no alto dos cadernos
escolares, ou num quadro-negro, depois de uma lição de coisas), esta
menção: ‘Isto não é um cachimbo’ (...). A outra versão (...).
Mesmo cachimbo, mesmo enunciado, mesma caligrafia. Mas em vez de se
encontrarem justapostos num espaço indiferente (...) o texto e a figura
estão colocados no interior de uma moldura
(...). Em cima, um cachimbo exatamente igual ao que se encontra
desenhado no quadro, mas muito maior. (Foucault, 1988, p. 11-12)
Um “caligrama” e diversas possibilidades interpretativas. Uma
obra de arte, mas que assim o é não por imitar ou copiar o objeto
cachimbo, e sim por não contrariar a “enigmática” definição de
arte.
Assim, considerando que ao representar um objeto, uma pintura tem
que se referir a ele, e ainda, que a representação não é fixada para
todos os receptores/observadores da obra, a pintura de Magritte se
refere a algo mais ou menos indefinido. O critério de imitação não
poderia ser usado para definir qualquer dos aspectos analisados na obra.
Supondo que a obra de Magritte ‘represente’, por exemplo, “as
possibilidades da arte moderna”, por menos determinado ou claro que
isso seja, aqueles dois cachimbos com uma frase escrita sobre o menor
deles, é símbolo para “as possibilidades da arte moderna”, uma vez
que uma pintura tem que se referir ao objeto que representa e isto
implica em ser símbolo dele. Referências Bibliográficas FOUCAULT,
M. Isto não é um cachimbo.
Trad. Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. GOODMAN,
Nelson. Languages of Arts, an
approach to a theory of symbols, 2 ed.
Hackett Publishing: Indianapolis, 1976 WITTGENSTEIN.
Investigações Filosóficas.
São Paulo: Abril Cultural, 1979
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