LITERATURA E ARTES PLÁSTICAS


Augusto de Campos
Concretismo

Carlos Eduardo Silva Barbosa

[email protected]

Especialista em Literatura Brasileira

Pela Universidade Salgado de Oliveira.

Mestrando em Filosofia da Linguagem

 pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia

da Universidade Federal de Goiás.

Goiânia, 2005.

 

                                                  

A relação que se estabeleceu ao longo do tempo entre literatura e pintura ou outras artes plásticas na história da arte criou uma relação tal que torna freqüente a existência de poemas inspirados em quadros e pinturas criadas a partir de textos, histórias, ditos populares, etc, como, segundo alguns trabalhos (Derrida, 1999; Ferreira, 2005), ocorre com o soneto de Baudelaire, os cegos, evocando o quadro de Pieter Bruegel, intitulado A Parábola dos Cegos, de 1568:

 

 Pieter Bruegel, A Parábola dos Cegos

 

Os Cegos


Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!
Iguais aos manequins, grotescos, singulares,
Sonâmbulos, talvez, terríveis se os olhares,
Lançando não sei de onde os globos tenebrosos.

Suas pupilas, onde ardeu a luz divina,
Como se olhassem à distância, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Se um deles a sonhar sua cabeça inclina.

Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silêncio infinito. Ó cidade!
Enqu
anto em torno cantas, ris e uivas ao léu!


Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! também me arrasto! e, mais do que eles pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?”

Baudelaire – Os cegos. Trad. Ivan Junqueira

Bruegel caracterizou-se como um pintor de provérbios. E, segundo uma perspectiva moderna, seria possível dizer que Bruegel parece apelar em sua obra para a "cegueira" do observador (Ferreira, 2005), levando-o a ver seus quadros com um "olhar inocente".

            O conceito do "olhar inocente" é definido por E. H. Gombrich (In. Ferreira, 2005) como o mito, persistente e multiforme, da visão pura, neutra, de um olhar capaz de apreender o real-em-si. O que, para Nelson Goodman, seria um "olhar cego" (sic.).  

            Ao lado do entusiasmo modernista pelo "olhar inocente", porém, há uma sensação de irremediável perda. Quando Bruegel pinta provérbios, ainda que de um ponto de vista crítico, ele não está propriamente submetendo a pintura ao discurso verbal, mas expressando as condições de um mundo onde a arte de contar era possível porque a experiência vivida era partilhada pelos indivíduos de uma mesma comunidade (sic.).

            Desta forma a pintura, a literatura e mesmo a escultura do concretismo e suas derivações podem ser observadas no contexto histórico-social em que se inserem, sob diversas perspectivas e interpretações. Em Nelson Goodman (1972), todas as artes, alográficas e autográficas têm uma função cognitiva. Assim, a arte não se limita ao da evocação ou expressão de sentimentos, mas inclui cognição, como já discutido no tópico NELSON GOODMAN – o fim prático, o gosto pessoal, a emoção e a satisfação como possíveis critérios para determinar limites entre as produções intelectuais.

Para Ernest Gombrich, o reconhecimento daquilo que está no campo de visão do observador é estruturado por aquilo que o observador espera ver. Mas a maneira como se compreende visualmente o mundo requer modificações decorrentes dos "esquemas" prévios em que se apóia o observador. Gombrich sugere que podemos ver a história da pintura como um processo experimental através do qual as nossas aptidões visuais são gradualmente aperfeiçoadas pelas modificações corretivas que os pintores introduzem nos esquemas de que se dispõe para representar o mundo visível (Taylor, 2004).

 

            No concretismo, críticos como Ferreira Gullar, Wlademar Cordeiro e Mario Pedrosa imprimem certos moldes (ou “esquamas”) à arte. Grandemente influenciada por esses personagens (Carvalho, 2002), a arte abstrata se opõe à arte figurativa promovendo uma ruptura entre arte e representação, como pode ser visto nas figuras anteriormente apresentadas. Para Ronaldo Brito a “linhagem geométrica das artes plásticas”, que se desenvolvia no Brasil modelou a arte concreta mais significativamente que “simplesmente o entusiasmo por recentes exposições de (...) Mondrian ou Max Bill” (fig. 4), que lançaram os manifestos ‘De Stijl’ e arte Concreta (1936), respectivamente, nas primeiras décadas do século XX. Mas Bill tinha a intenção de incorporar processos matemáticos à produção artística.

Assim, de uma obra de arte, que pode ser interpretada de diversas formas, sem que uma pressuponha o erro de outra, entende-se que não há limites entre a poesia e as artes plásticas.

Apesar de existirem extremos, que talvez seja a forma mais comum de arte, e desta não há grandes divergências, por exemplo, sobre que Os cegos, de Baudelaire, seja um poema  ou que A Parábola dos Cegos, de Pieter Bruegel, seja uma obra plástica de pintura, outras obras como o Poema Pássaros, neoconcreo, de Ferreira Gullar, impõe dificuldades sobre serem literatura, escultura ou pintura, e são passíveis de maiores discussões.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CARVALHO, Helba. Da poesia concreta ao poema-processo: um passeio pelo fio da navalha. São Paulo: USP, 2002. Originalmente apresentado como dissertação de Mestrado à Universidade de São Paulo.

Derrida, Jacques. Mémoires d'aveugle l'autoportrait et autres ruines.  Paris: Réunion des Musées Nationaux, 1992.

Ferreira, Ermelinda. Que procuram no céu todos esses cegos?, 2005. Disponível em http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/ermelinda_ensaios4.htm. Acesso em 20 abr. 2005.

GOODMAN, Nelson, ELGIN, Ctherine Z. Reconceptions in philosophy & other arts & sciences. Brish Library: London, 1988.

Gullar, Ferreira. Poema Pássaro, de. In: Carvalho, 2002, p. 75. Poema.

Taylor, Paul. Arte e verdade, 2004. Disponível em <http://www.criticanarede.com/arteeverdade.html> Acesso em 15 fev. 2005.

 

 



Ferreira Gullar

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