Bach e os instrumentos de teclado

Parte II

 

O pedagogo das teclas

 

 

 

Apesar de Bach ter conhecido apenas um esboço do que se tornaria o piano, e não ter dedicado seus esforços nesse instrumento, seus princípios desenvolvidos principalmente para o clavicórdio tornaram-se a sua base e hoje são atuais e aprovados pela ciência do sec.XX.

Bach não escreveu um método para teclado, mas através dos relatos de seus filhos, principalmente C. Ph. Em. Bach em seu livro entitulado: “A Verdadeira Arte de Tocar Instrumentos de Teclado”, a biografia de N. Forkel e os dizeres da introdução das invenções e sinfonias do próprio Bach, nos fornecem informações sobre o seu sistema de ensino para teclado.

A postura de mão ensinada era com os dedos arcados, a articulação deveria ocorrer na base do metacarpo, tornando as falanges passivas, sem se dobrarem. Esta forma de execução ainda hoje é muito usada em passagens rápidas levemente desligadas, geralmente chamadas de “ perlé ”.

Os dedos deveriam ficar em contato com o teclado evitando erguerem-se muito de sua superfície e enquanto um dedo tocava os outros permaneciam em contato com as teclas sem serem tencionados. A economia de movimentos e a independência dos dedos facilitam o  controle do som, aumentam a precisão evitando esbarros e não sobrecarregam a musculatura.

A técnica ensinada, visava principalmente o uso dos dedos, pois o virtuosismo romântico e as teclas pesadas do piano que exigiria do intérprete o maior uso dos movimentos do braço e do corpo, estavam longe de existir e tanto o cravo como o clavicórdio têm teclas além de leves mais rasas. O braço era usado mais horizontalmente, conduzindo a mão às teclas necessárias e os dedos as empurravam para baixo, do que verticalmente para impulsionar a mão.

 No princípio, segundo Forkel, o aluno deveria fazer exercícios durante 6 meses a 1 ano. Geralmente alguns  alunos se cansavam e começavam  a se desmotivar. Então Bach, com toda sua genialidade musical, compunha obras ao alcance e que suprissem a necessidade técnica do aluno, gerando uma das primeiras e mais fantásticas obras pedagógicas, que foram incorporadas pelo pelo piano, sendo seu estudo praticamente inevitável, as Invenções e Sinfonias.

          Após aperfeiçoá-las de esboços antigos, em 1723 Bach conclui seu trabalho, e em seu prefácio escreveu:

“ Um guia sincero, no qual o amante da música para teclado, e particularmente aqueles que desejam aprender, é mostrado de forma clara não somente de como executar corretamente a duas vozes, mas também, progressivamente como tratar 3 vozes contínuas corretamente e bem, e ao mesmo tempo não só ser inspirado com boas invenções mas desenvolvê-las propriamente; e acima de tudo adquirir uma maneira cantabile de execução e ganhar um bom exemplo de  composição. “

          Com estas palavras mostra-se a finalidade de seu ensino em busca da sensibilidade, a expressão dos sentimentos deve aflorar na música, e todo trabalho técnico digno, tem por finalidade este objetivo e não mero exibicionismo mecânico. Bach exemplificava a seus alunos tocando as obras inteiras dizendo: “Isto deve-se tocar assim...” e mostrava o caráter da obra, envolvendo-os no espírito da composição sem retirar-lhes a individualidade, possibilitando uma idéia geral que acelerava os resultados. Gyorg Sándor em seu livro “On piano playing” aconselha professores que toquem piano e consequentemente quando necessário ilustrem suas exigências, e eu complementaria dizendo que estudar piano com um professor que não toca ou jamais tocou é como aprender um idioma estrangeiro com alguém que não o fala. Um bom pianista nem sempre é um bom professor, mas um bom professor sempre é um bom pianista.

          No moderno ensino de piano podemos ver claras influências de Bach, que se adaptaram com o tempo e a necessidade e tornaram-se o alicerce deste instrumento.

 

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