Bach e a retórica

 

 

 

 

A música no período barroco sofreu várias mudanças que fundamentam a música ocidental ainda hoje, e sem dúvida uma das mais proeminentes é a influência da retórica.

         Na idade média as sete artes liberais faziam parte da transmissão do saber. Dividiam -se em: Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e trivium (retórica, dialética e gramática). Assim, como podemos observar a música era tratada como uma arte da matemática, e fundia-se com suas irmãs; com a astronomia, tivemos a música das esferas de Kepler, com a geometria, as formas e estruturas complexas da polifonia dos flamengos que podem ser observadas como uma catedral e com a aritmética os recursos de aumentação, diminuição entre tantas possibilidades que foram usadas pelos músicos do período e que se estendem aos dias de hoje.

         No final da renascença o trivium passa a permear a música e no Barroco se estabelece uma linguagem nova em que a retórica tem forte influência.

         A retórica na música diz respeito ao seu poder de persuasão, de convencer o ouvinte da mensagem transmitida. Principalmente na Alemanha esta capacidade de persuasão na música é muito estudada e resulta na doutrina dos afetos (Affektenlehre).

         A música medieval não tinha a obrigação de despertar o sentido de um texto. Os motetos politextuais são prova disso, às vezes, têm três letras com diferentes assuntos e idiomas, explorando mais a métrica das palavras do que o sentido (afeto) do texto.

Com a releitura da retórica de Aristóteles, a lingüística mistura-se as artes e a música se torna uma linguagem, mesclando–se ao trivium gerando seu discurso retórico, seus contrastes dialéticos e suas frases e períodos gramaticais, expressando um estado d’alma universal.  

         Bach mescla sua música com o trivium, mas não abandona o quadrivium. Os recursos matemáticos de suas obras são nítidos e muitas vezes podem conter símbolos numéricos. É interessante observar que várias de suas obras cíclicas são múltiplas de 3: 15 Invenções, 15 Sinfonias, 6 Suítes Francesas, 6 Suítes Inglesas, 30 Variações Goldberg, 6 suítes p/ cello solo etc... Seria uma menção a Santíssima Trindade? Não se sabe, mas são muitos indicativos para ser mera coincidência.

          Em nome desta capacidade de prover a catarse (purificação da alma segundo Aristóteles) Bach rompe com regras em função do sentido, pois a música tinha deixado de ser uma arte somente matemática.

         Para toda regra musical Bach tem uma exceção incontestável. Por exemplo: as quintas e oitavas paralelas, no período, eram consideradas erros na escrita, porque interrompiam a fluência musical. Bach, no entanto usa-as cadencialmente na boca de Pedro quando nega Cristo (Paixão segundo São Matheus), o efeito valoriza o sentido e a situação deste momento, em que nenhuma regra poderia contrariar. Nos tratados sobre a doutrina das figuras musicais (Figurenlehre) onde são criadas correspondências diretas com os recursos da retórica e algumas puramente musicais, observa-se normalmente a rupturas de normas em prol da valorização de um afeto.

         Bach com seu discurso musical une a matemática com a linguagem onde é difícil dissociá-las, estão tão unificadas que resultam num terceiro elemento transcendente, que torna sua música uma expressão universal, hoje mais apreciada do que nunca e um infindável banquete aos interpretes e musicólogos.

 

 

“Bach é como um astrônomo, que com a ajuda de cifras, descobre as mais maravilhosas estrelas”. F. Chopin.

 

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