O SOL ESTAVA alto
sobre Barra do Sul. Quando o relógio da Igreja
Matriz marcou dez horas da manhã, o sinal ecoou
no Colégio Larissa Kalvin, dando início a algazarra
das crianças e adolescentes do bairro em que
a escola se localizava: o recreio havia finalmente
chegado! O colégio era o maior da cidade e
oferecia o ensino de pré a oitava série no período
matutino e vespertino, reservando o período
noturno para o segundo grau. Os quatro blocos
do colégio, onde ficavam as salas de aula, se ligavam
atravéz de passarelas com um enorme galpão no centro
do terreno.
No corredor sul dois jovens se sentaram num
dos bancos de mãos dadas. Ambos eram alunos
da oitava série.
Márcio era um rapaz de quinze anos extremamente
bonito, de olhos azuis e cabelos escuros, chamava
muito a atenção de praticamente todas as garotas
do colégio.
Ana, apesar de ter a mesma idade, já tinha
um aimagem de mulher. Os cabelos castanhos
estavam presos em um longo rabo de cavalo e
seus olhos castanhos estavam fixados nos de
Márcio.
- Ana, eu preciso falar uma coisa pra você.
Ana encarou Márcio, séria.
- O que foi? - Ela perguntou, já preocupada.
- Eu... eu... - Márcio gaguejava olhando furtivamente
para os lados.
- Fala Márcio! - Ela quase grita de ansiedade.
- Bem, - Márcio respira fundo - , você quer
se casar comigo?
Ana olha para o namorado sem reação por alguns
instantes. Depois, como que saindo de um transe,
dá um leve tapa no ombro de Márcio.
- Bobo.
Os rostos se aproximam e os lábios se tocam
num beijo que não foi notado pela maioria dos
alunos.
Os dois se conheceram pouco depois da chegada
de Márcio em Barra do Sul, vindo de São Paulo,
sua terra natal. Logo que entrou no colégio
ele já foi alvo de recadinhos e bilhetinhos
apaixonados de várias alunas, mas Márcio não
se interessou por nenhuma delas. Ele conheceu
Ana no mesmo dia que chegou ao Larissa Kalvin
pela primeira vez. Ele havia ido até a biblioteca
antes de começar a aula. Leitor assíduo, Márcio
ficou encantado com a quantidade de livros
que a escolha oferecia. Logo ele achou um que
ele procurava a muito tempo e o tirou da estante
para folheá-lo. Quando olhou de volta para
a estante seus olhos se cruzaram pelo vão da
estante com os de uma moça. A magia do momento
pegou os dois de tal forma que na hora ambos
se esqueceram do resto do mundo, ficando ali,
olhos nos olhos por alguns instantes. Márcio
sentiu como se conhecesse aquele olhar de muito
tempo. Só o sinal indicando o início da primeira
aula tirou os dois desse contato visual.
Mais tardde, para a alegria de Márcio, ele
descobriu que Ana estava na mesma sala aonde
ele foi encaixado. Ele se sentou do outro lado
da sala e naquele dia não conseguiu olhar para
a frente, parecia que seus olhos haviam sido
presos naquela moça. Ele viu que ela retribuia
o olhar e sorriu.
Na chegada do recreio ele tomou coragem e
foi falar com ela. Ana estava tímida e ficou
extremamente nervosa quando viu Márcio vir
na direção dela.
- Olá. - Ele cumprimentou. - O meu nome é
Márcio.
- O aluno novo. - Ana respondeu sorrindo.
- Vi você na biblioteca. Gosta de ler?
- Adoro. - Márcio sorriu de volta. - Você
tem os olhos mais lindos que já vi.
Ana ficou ainda mais sem jeito.
- Obrigada.
Dia após dia os dois foram se aproximando
e se conhecendo até que um dia um dos professores
do Larissa Kalvin, Gilberto, de geografia,
pediu um trabalho em dupla e escolheu ele mesmo
as duplas. Márcio e Ana cairam juntos.
- Oi. - Márcio disse, puxando uma cadeira
e se sentando ao lado de Ana.
- Oi. - Ela sorriu. - Alguma idéia sobre esse
trabalho sobre massas?
- Muitas.
Márcio pegou o livro e começou a expor suas
idéias para que Ana aprovasse e os dois fizeram
o trabalho juntos. Ana parecia beber cada palavra
do colega.
- E então, o que você acha? - Márcio encerrou.
- Maravilhoso. - Ela respondeu. - Você parece
um gênio em física!
- Que isso... - Márcio corou.
O trabalho rendeu nota máxima para os dois
que passaram a conversar mais depois desse
dia. Márcio sentia que seu coração batia forte
cada vez que ele se lembrava de Ana e que ele
não conseguia parar de pensar nela.
Uma noite, em sua casa, Márcio estava sonhando
acordado e ouviu sua mãe comentar com seu pai.
- Esse menino está apaixonado.
"Sim" foi a resposta que o coração dele deu
a ele mesmo e com essa constatação ele não
teve mais dúvidas: iria pedir Ana em namoro!
No dia seguinte, na hora do recreio, ele chamou
Ana para conversar numa das mesinhas ao lado
da passarela leste. Ana parecia ansiosa.
- Olha, já vou dizendo que não sou bom nisso.
- Márcio começou a falar, sentindo-se corar.
- Mas o fato é que eu estou apaixonado por
você, Ana. Desde o primeiro momento que eu
te vi naquela biblioteca a dois meses atrás.
Ao contrário da reação esperada por Márcio,
Ana abriu um sorriso enorme e, dando a volta
na mesa, o abraçou. Naquele momento, nenhuma
palavra era necessária.
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Logo na semana seguinte Márcio
quis ir até a casa de Ana para pedí-la oficialmente
em namoro ao pai dela. Antônio a princípio
pareceu desconfiado, mas Márcio o encarou com
coragem e determinação até provar a ele que
sua intenção com Ana era a melhor possível.
Por fim Antônio autorizou o romance dos dois
jovens e eles passaram a se ver todos os finais
de semana.
Após um jantar na casa de
Márcio, onde foram apresentados Tiago e Iara,
os pais de Márcio, à Ana, os dois se sentiam
felizes.
Tudo na vida deles nesses
quase três meses desde o encontro na biblioteca
até aquele recreio era digno de um conto de
fadas.
Ana sorria ainda com o pedido
de casamento de Márcio.
- É sério? - Ela perguntou.
- Seríssimo. - Ele respondeu.
- Mas a gente pode? Somos
de menor.
- Quero que você me diga agora
se aceita se casar comigo daqui a três anos.
Ana riu feliz. Mas antes que
ela pudesse responder o sinal para voltar para
a sala de aula havia tocado.