BIOGRAFÍA EM FORMA DE POESIA

Gióia Júnior


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1 - Minha gênese

2 - Para mamãe doente

3 - Éramos quatro num quarto

4 - Uma vida em minha vida

 

 


1 - Minha gênese

(Para meu pai)

Trago em meu sangue o germe da peleja...
Venho da luta em que o gigante velho,
tendo atacado a tradição da Igreja,
abraçou a verdade do Evangelho.
 
Venho da guerra... O Gladiador ousado
não conhece a derrota, sangra, cai,
mas levanta-se além, revigorado -
- venho da luta ingente de meu Pai.
 
Queira Deus que essa fibra de gigantes
seja o cerne da minha fronte ousada,
seja a força da minha nutrição.
 
Vede que são iguais nossos semblantes:
Vem chegando meu Pai da derrubada
e eu vou partindo para a plantação!

São Paulo, 14 de fevereiro de 1949

 

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2 - Para mamãe doente

(Aos 14 anos Gioia Jr. compôs esse poema dedicado à sua mãe (D. Elza Gióia) que se ausentara da família por motivo de doença).

(No dia das Mães)

Neste dia alegre de felicidade,
neste dia lindo de poesia e canto,
vem-me aos olhos tristes esse orvalho santo
que se chama pranto;
pois tenho saudade
da mamãe querida que partiu doente,
pra longe da gente,
numa outra cidade
ir beber um pouco de felicidade.
 
Vejo tanta força pelo mundo afora,
vejo tanta vida pelo espaço além;
como eu fico triste ao ver que foi-se embora
minha mãe querida,
que minh'alma adora,
procurando força, procurando vida,
quando a humanidade tanta vida tem!
 
Eu quisera dar-te um pouco do meu ser,
eu quisra dar-te a minha própria vida,
minha mãe querida
que eu adoro tanto,
doce e meigo encanto
que me viu nascer.
 
Mas, como não posso, peço a Deus Potente:
"traz mamãe bonita, traz mamãe contente,
tras mamãe risonha,
pois minh1alma sonha
vê-la satisfeita, vê-la sorridente;
traz mamãe bem forte para alegrar a gente.
 
Pode por acaso o tenro passarinho
longe da mãezinha ter felicidade?
O bichinho morre triste de saudade...
pobre... pobrezinho...
 
Traz mamãe depressa, ó Deus, escuta a prece,
pois o dia tomba e a noite escura desce,
e eu estou morrendo bem devagarinho,
sem o seu afago... sem o seu carinho...
sem o seu afago... sem o seu carinho..."

Campo Grande, 1946

 

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3 - Éramos quatro num quarto

(dedicado aos maninhos que precocemente foram chamados para glória. Hoje os 4 moram novamente juntos ao lado do Pai Celeste (que privilégio!)).

Éramos quatro num quarto:
Guta, Paulo, Erasmo e eu;
quarteto de alegres sonhos,
até que Erasmo morreu.
 
Paulo era forte e bonito,
mais forte que Guta e eu;
sobre ele também a morte,
como um raio, se abateu.
 
Ficamos dois; eu e Guta -
outros vivem mar além -
mas o certo é que conosco
veio morar mais alguém.
 
Veio morar a saudade,
que só nos falou depois:
que éramos quatro num quarto num quarto,
mas agora somos dois!

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4. Uma vida em minha vida

 

Perdi-o
Não o tenho
Telefonarei para a sua casa e, da distância,
voz um tanto abafada, palavras de ternura de rosa
(desta mesma rosa amarela que está sobre a mesa
em que escrevo) ele não falará comigo.
Irei buscá-lo em meu pequenino carro barulhento,
para as longas visitas habituais, e ele não irá comigo.
Não estará mais lendo em sua biblioteca (a mesma
colmeia de onde vinham seus sermões).
Não irá mais orar à cabeceira de minha cama, quando
eu estiver doente.
Seu púlpito está vazio.
Tristemente vazio.
Onde os largos gestos firmes?
As mãos para trás e o corpo todo sentindo o
sermão na ponta dos pés?
Nos aniversários, não lerá para nós o salmo
predileto.
No natal enfeitará de saudades nossas possíveis
alegrias.
O terno preto dos domingos, levou-o um pobre.
O chapéu inconfundível, real como a vida, dorme
sobre o cabide.
Não há mais sol ou chuva que desçam sôbre sua
cabeça pintada de neve.
"Eu irei para êle porém ele não virá para mim.
Não o tenho. Perdi-o.
Há coisa mais triste?
Leu meus primeiros poemas.
- Não está bom não filho, está um tanto forçado.
Poesia é algo muito natural, assim como a respiração,
entende? -
Queria que o filho escrevesse melhor.
Um dia escrevi um poema para mamãe que estava
doente e longe da gente.
Levei ao escritório para que o lesse.
Leu-o e não disse palavras.
Tirou os óculos, enchugou uma lágrima, depois
me abraçou e chorou. Chorou muito.
Quantas visitas fez?
Quantos sermões pregou?
Em quantos estados semeou?
Quantas almas levou para o aprisco do Mestre?
A quantos confortou, esclareceu, encaminhou,
dirigiu, ensinou, orientou, guiou, salvou?
Não sei. De uma coisa eu sei, "que eu era
cego e agora vejo"!
Trocarei bens e glória, prazeres e planos por
uma migalha de seu sorriso, por uma gota do
brilho dos seus olhos.
Dele resta o vazio que ninguém preenche.
Não morreu no entanto.
Está no trabalho que fez,
nos livros que escreveu,
nos sermões que pregou,
nas almas que levou a Cristo,
na igreja que dirigiu,
Em mim.
No que penso, no que falo, no que escrevo,
no que vivo.
Meu exemplo, meu estímulo, meus poemas,
Minha saudade.
Minha enorme saudade.
Minha vida.
Uma vida em minha vida!
 
(Crônica dedicada ao saudoso pai que hoje canta,
junto a Deus, o Cântico da Glória do Senhor!).

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