Métodos Biográficos
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o método biográfico, o objecto de estudo
é o indivíduo, na sua singularidade. Este é o aspecto incontornável
e marcante desta metodologia. O levantamento de histórias das vida
pode fazer-se com base em biografias, autobiografias, mas igualmente
em diários, portólios e outras fontes de informação similares. É
enorme a riqueza e complexidade da informação recolhida. Esta é a
razão pela qual este tipo de estudos são também designados de
intensivos, em oposição, aos de natureza extensiva, que recorrem a
técnicas como os questionários estandartizados destinados a grupos
mais ou menos extensos.
A Escola de Chicago
As histórias de vida como objecto de
pesquisa científica, deram origem a um notável conjunto de estudos
logo a seguir à Iª. Guerra Mundial. A forma de encarar as histórias
de vida, muda então radicalmente. O relato de um percurso singular,
torna-se numa janela aberta para entender o Outro. O primeiro estudo
de referência foi o de W.I.Thomas e F. Znaniecki, intitulado “The
Polish Peasant in Europe and América (1918-1920). Mas as
contribuições mais significativas para esta nova perspectiva ficaram
a dever-se à Escola de Chicago que influenciada por Robert Park,
produziu um notável conjunto de estudos, onde é patente o
interaccionismo simbólico de George Herbert Mead (1863-1931).
Mead trouxe para as ciências sociais uma nova maneira de pensar o
comportamento social dos indivíduos. O individuo deixa de ser visto
como algo unitário, uma “pessoa” que existe como se fosse
completamente independente dos outros, mas sim como um ser complexo
com várias dimensões diferentes, construído a partir das suas
relações com aquilo que ele designa por “outros significantes”, cujo
comportamento têm importância social ou consequências para nós. As
acções humanas inserem-se assim, no interior de um processo
comunicativo. Para que se dê comunicação, cada indivíduo deve
conhecer a maneira de reagir do outro perante os seus actos. No
interior indivíduo divide-se entre um “Eu” ( a capacidade de
espontaneidade) e o “Me” (expressão interiorizada do Outro). O
pensamento e a introspecção tornam-se assim, num diálogo interno
entre o “Eu” e o “Me”. Desta forma, compreendendo as representações
do indivíduo compreendemos as representações do grupo social em que
o mesmo se movimenta. A tradicional separação entre o individuo e a
sociedade, seria assim superada pelo estudo das suas
representações. A partir da subjectividade, acedia-se à
objectividade. É muito significativo que a maioria dos trabalhos da Escola de Chicago se tenha orientado para a compreensão dos comportamentos desviantes em meios urbanos. As representações destes individuos espelham percursos fortemente marcados por estigmas sociais, facilmente apreensíveis.
Das Instituições Totais à Construção Social da
Realidade Entre meados dos
anos trinta e os anos cinquenta, os método biográfico é
secundarizada na pesquisa social, em favor dos métodos
quantitativos, mais económicos. A nova etapa dos estudos biográficos
surge associada à obra de Erwin Goffman- “The Presentation of Self
in Everyday Life” (1956). Este sociólogo parte à descoberta do
comportamento dos individuos em “instituições totais”, onde se
ocorrem experiências extremas, como nas prisões, hospitais,
conventos, campos militares, barcos de pesca à baleia, colégios com
internato. Compreendendo o comportamentos dos individuos nestas
“instituições”, tornar-se-ía mais fácil perceber as acções dos
homens em situações menos brutais, devido ao facto de nelas os
padrões de comportamento serem mais uniformes e contrastantes. A
teoria de Gofffman é contudo mais complexa. Ele parte do pressuposto
que o comportamento humano tem pouco de instintivo, ele é
essencialmente o resultado de um processo de socialização. A longo
da vida de um indivíduo as mudanças do seu comportamento reflectem
sobretudo os diversos grupos que integra, e as novas regras e
padrões que adopta. Seguindo o seu percurso e as suas reacções em
diferentes situações, descobrimos os diversos grupos sociais. A
dimensão individual do comportamento dilui-se na sua dimensão
social. Erwin Goffman acabou por influenciar outros sociólogos, como
Berger e Luckmann. Durante os anos
sessenta, o arranque da denominada ”observação participante” trouxe,
novas contribuições para o reforço das metodologias qualitativas,
entre elas, os métodos biográficos.
Ressurgimento dos métodos biográficos O ressurgimento
dos métodos biográficos, ocorreu por alturas do 9º Congresso Mundial
de Sociologia (1978). Mais de uma vintena de trabalhos são então
apresentados sobre histórias de vida, e onde estão patentes inúmeras
linhas de pensamento. Os meios sociais inquiridos são multiplos.
Encontram-se desde trabalhos com camponeses, trabalhadores sazonais,
operários, empregados, industriais, elites, mas também, jovens
delinquentes, e outros grupos similares. Nos anos oitenta
assiste-se à consagração dos métodos biográficos, sendo de destacar
à proliferação de estudos biográficos sobre os professores.
Questões Epistemológicas O método biográfico
coloca um vasto conjunto de problemas sobre a sua cientificidade que
não podemos ignorar.
-
Será este método adequado à análise da realidade social?
-
Como podemos aceder ao social a partir daquilo que é único e
irrepetível, a subjectividade de cada individuo? A forma de ultrapassar
esta e outras questões tem assentado num conjunto de pressuposto
filosóficos sobre a sociedade que nem sempre são explicitados. Pelas
leituras que efectuamos, duas concepções de sociedade estão quase
sempre pressupostas, as quais determinam, em última análise, a forma
como são encaradas as histórias de vida.
a)
Concepção de uma sociedades atomizada. As acções e os
processos sociais são entendidas como agregações complexas de acções
individuais. A tarefa do investigador é neste caso, a de
reconstituir a sociedade a partir das diversas perspectivas dos seus
membros. “Narrando a sua história de vida, ou segmentos dessa
história, (o entrevistado) dá a sua versão dos acontecimentos,
fornecendo assim a sua diferença específica” (Eduardo Freitas). As
histórias de vida permitem, desde modo, captar as várias
perspectivas dos intervenientes num dado acontecimento, descobrindo
novos detalhes ignorados por outros intervenientes. Este material,
embora seja recomendado pelos historiadores para a compreensão de
certos aspectos básicos do comportamento humano ou das
instituições, segundo Bogdan, não é todavia utilizado pelos mesmo
material histórico. A razão prende-se com o problema da sua
validação, as quais só são possíveis através de um
cruzamento-confronto dos vários discursos sobre o mesmo objecto.
b)
Concepção de uma sociedades especular. As acções e processos
individuais são entendidas como “reflexos” ou “homologias” de um
dado grupo social ou de uma dada sociedade. A vida dos indivíduos é
assim portadora de um sentido que os ultrapassa. Interpretar uma
história de vida é descobrir, nesta perspectiva, um grupo social ou
mesmo uma sociedade. Ferrarotti surge como o principal teórico desta
corrente, sustentando que a biografia é em si mesma uma
“micro-relação social, através da qual se pode ler uma sociedade”
(Gonçalves).Não toda a sociedade, mas uma parte da mesma, isto
porque, cada individuo não totaliza directamente uma sociedade
global, mas sim, a mediação do seu contexto social, dado pelos
grupos restritos de pertença, os grupos primários, tais como, a
família, os grupos de trabalho, a vizinhança, a classe social
(Durão). É evidente que
estas duas concepções de sociedade, pressupõem diversos
entendimentos das histórias de vida, como ficou demonstrado.
Histórias de
Vida na Formação de Professores As histórias de vida sempre tiveram um papel formador ao longo dos tempos. As populares histórias dos santos na Idade Média, ou as história de figuras públicas nos nossos dias desempenham uma poderosa função como modelos de comportamento. Numa sociedade onde as ideologias e os valores estão em crise, a vida vivida, concreta, tende a ser assumida como a única coisa em que se pode confiar.
Emergência
dos Estudos Biográficos na Educação
Desde meados dos anos oitenta, tem
crescido a popularidade dos estudos sobre a vida dos professores.
Várias razões tem sido apontadas para explicar a emergência deste
fenómeno.
Para alguns autores, como Maria Helena
Cavaco, a explicação está na crise que atravessam os grandes
sistemas teóricos, o que terá provocado a necessidade de
repensar tudo de novo. Os grandes quadros conceptuais, centrados nos
sistemas de ensino foram, por este motivo, substituídos por
abordagens centradas em protagonistas singulares, como os
professores. É a partir deles que se procura compreender o próprio
sistema mais global. Neste sentido passou-se a estudar, por exemplo,
quais são os seus percursos profissionais e o modo como vivem a sua
profissão, e em termos mais genéricos, a forma como compatibilizam a
tríade - Homem-Cidadão-Profissional. Outros,
como Andy Hargreaves, atribuem este fenómeno às consequências
sociais da pós-modernidade. Esta ao imprimir uma orientação
social para o individualismo, acentuou as tendências narcísicas e de
auto-referencialidade. Interpretes destas tendências sociais
profundas, muitos investigadores dos fenómenos educativos face a um
mundo caótico procuraram descobrir o sentido da educação nas
biografias e narrativas pessoais dos professores. Mais
conjunturais, outros, como Rui Gomes, associam o aparecimento deste
fenómeno, nos anos oitenta, ao generalizado mal estar revelado pelos
professores. Foi a necessidade de compreender as razões destes
sentimentos que terá desencadeado estes estudos. Carlos Fontes |