MINHA TERRA, MINHA VIDA
 




 

A   Vida

 

 

A vida é uma viagem

Nela estamos de passagem

Com passaporte tirado;

A Deus temos que obedecer

Porque ele nos faz viver

E por nós foi crucificado.

 

A vida é uma coisa maravilhosa

Para quem a sabe estimar

Nesta terra tão airosa

Ninguém tem o direito de ficar

É como uma pétala de rosa

Que quando seca caí

 

A vida é a coisa mais bela

Que há na face da terra

É como um barco à vela

Que navega enquanto dura

Nesta terra humilde e pura

Chega a morte e a vida se vai

 

A vida é uma flor a nascer

Que todos a querem colher

Quando ela está viçosa;

É o bater das ondas do Mar

É ver as aves a voar

Quando acaba, coisa horrorosa.

 

A vida é o sol a nascer

A vida é a criança a crescer

Tem alegria e sofrimento;

A vida é o tempo que passa

Que traz sorte ou desgraça

E sem saber porquê

Acaba num só momento.

 

Outubro, 1956  Fernanda Dias

 






 

 

MINHA VIDA É UM LIVRO ABERTO

 

Muitos anos já vivi

Não sei os que poderei viver

Desde o dia que nasci

O meu destino é morrer.

 

Muitos perigos enfrentei

Com risco da própria vida

De muitas doenças me curei

De outras estou perdida.

 

Tenho chorado lágrimas de dor

De desgosto e de aflição

Mas dou graças ao Senhor

Por viver em Portimão.

 

Porque a terra onde nasci

É tão pobre em medicina

Por pouco eu não morri

Quando era criancinha

 

Às vezes fico pensando

Se vale a pena viver

Tantos perigos enfrentando

E depois ter que morrer.

 

 

Março,  1971. Fernanda Dias

 

 

 

 

A VIDA AGORA É DIFERENTE

  

A vida agora é diferente

Há gente humilde e pura

Não é como antigamente

No tempo da escravatura.

 

Já não há pobres a pedir

Porque a fome desapareceu

Há um futuro a sorrir

Porque o passado morreu.

 

Já não há Rei nem Rainha

Nem Cura nem Abadessa

Com o toque da campainha

Para nos chatear a cabeça.

 

Já não há lindas Ceifeiras

Nem Pescadores de calções

Com suas grandes bebedeiras

Diziam grandes palavrões.

 

Já não temos caminhos nem veredas

Portugal já foi todo urbanizado

Só temos as grandes Avenidas

E blocos de cimento armado.

 

Já não há casinhas de pedra e cal

Iguais á que eu nasci

Só arranha Céus que afinal

Destruíram tudo o que eu conheci.

 

Fevereiro,  1965. Fernanda Dias

 

   
   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ERREI

 

 

Se eu obedecesse à razão

E resistisse à vontade

Viveria em liberdade

Sem ter nenhuma paixão.

 

Mas quando eu quis olhar

Se em algum erro eu caíra

Achei ser tudo mentira

Se a isto se chama errar.

 

Come4cei a gatinhar

Por um caminho trilhado

Estava o meu amor pasmado

Por me ver ali a chorar.

 

Os lugares por onde andei

Foram para mim uma vitória

Hoje eu guardo na memória

As tristezas que encontrei.

 

E agora pergunto eu ?

Para quê esta lembrança

Se era ainda uma criança

Só queria o amor teu.

 

Nunca tapes os ouvidos

Escuta sempre a minha dor

Se isto não foi por amor

Quero perder os sentidos.

 

Junho,  1959  Fernanda Dias

 

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