Uivo

Revista TPM / dezembro de 2001

    A campainha tocou, olhei pelo olho mágico e vi o rosto de Lia. Hesitei. Valeria a pena continuar com aquilo? Não seria melhor ficar quieto, fingir que não estava em casa e deixar que fosse embora? Não tinha sido essa a minha atitude nos últimos três meses? Ouvir e deixar passar os apelos da porta, campainha e telefone? Ficar na cama olhando sem prestar atenção os noticiários da TV como se as notícias se referissem a um mundo que não existia mais? Mas a beleza de Lia, ainda que deformada pela lente do olho mágico, me convenceu de que abrir a porta era a única coisa a ser feita.

    Ela me cumprimentou com um beijo. Tentou disfarçar, mas percebi que se impressionava com minha péssima aparência. Passei a mão pelo rosto, para me certificar, e senti a barba de semanas.

"Obrigado por ter vindo", eu disse.

"Eu tinha que vir, né? Quanto tempo."

"Mais de três meses."

"Desde o enterro?"

"Desde o enterro."

"Você não foi na missa de sétimo dia."

"Nem na de um mês. Você sabe que não acredito nisso."

"Não é uma questão de acreditar."

"É uma questão de quê?"

"De ajudar quem acredita."

Ela sentou no sofá, abriu a bolsa e pegou um cigarro.

"Posso?"

"Claro."

    Acendeu o cigarro e reparei nas coxas lisas despontando da saia preta. O luto lhe caía bem. Eu gostava de olhar aquelas coxas por debaixo d'água, na piscina. Gostava também de olhar a Adriana quando ela nadava borboleta e ver como deslocava água com movimentos firmes das pernas.

    "Do jeito que estou não tenho condições de ajudar ninguém", eu disse e sentei ao lado dela.

    "Dá para notar. O que você fez nesses meses todos? Por que não atendeu o telefone?"

    "Pirei, Lia. Simplesmente não me conformo."

    "Todos nós. Mas nem por isso deixei de viver. Cada dia é um dia. É preciso enfrentar."

    É preciso enfrentar é uma frase que combina muito com a Lia. Aspirei um pouco da fumaça do cigarro que ela fumava. O volume dos seus peitos sob a blusa me deixou de pau duro. Ela reparou, ainda que não olhasse para o meu pau, mas porque todo o meu corpo parecia anunciar aquela ereção.

    "Por que você me ligou, o que voê quer me falar?"

    Lia e Adriana se pareciam fisicamente, mas tinham personalidades diferentes. Adrana era triste, menos sorridente, mais profunda, passiva, menos incisiva e mais discreta, o que é incomum numa irmã caçula. Adriana jamais faria aquela pergunta. Não da maneira como Lia estava fazendo.

    E então Lia riu, desfazendo a seriedade do rosto, e compreendi que já sabia os motivos que me haviam levado a pedir que fizesse aquela visita. Mas, se não me explicasse, palavra por palavra, ela continuaria a se fazer de desentendida até que eu desestisse. Até que minha timidez, covardia e incapacidade saíssem vitoriosas do confronto. Lia era assim. Talvez por isso eu tenha me casado com Adriana. Adriana não era assim. Mas havia essa terrível semelhança f'ísica e o mesmo e perturbador timbre rouco da voz das duas.

    "Você lembra aquela vez que eu vi você nua?"

    "A gente riu pra caramba."

    "Você e a Adriana. Fiquei muito sem graça pra dar risada."

    "Eu estava mostrando pra ela o vestido do meu casamento. Ela achou lindo, disse 'veste, veste!', eu tirei a roupa, você entrou no quarto."

    "Fiquei passado."

    "Foi divertido. Naquela época qualquer coisa que divertisse a Adriana era bem-vinda."

    "Você estava linda."

    "Nua?"

    "É."  

    "Obrigada."

    "Fiquei uns dias assombrado pela imagem da tua nudez."

    "Você é meio tarado."

    "Não. Não sou tarado, não. sou normal. Era, pelo menos."

    "A Adriana me disse que vocês estavam transando bastante naqueles dias. Que achava engraçado você estar com mais tesão depois que soube que ela estava doente."

    "Não era só eu. Ela também. Acho que a gente estava se despedindo. Ou então erámos dois mórbidos excitados com a presença da morte."

    "Ela não achava que ia morrer."

    "Nem eu. Mas no fundo todos nós sabíamos. Você também."

    "Apressei meu casamento só para a Adriana poder assistir. Ela se divertiu na festa."

    "Acho que foi a última vez que se divertiu de verdade". concordei.

    Lia colocou o cigarro aceso na borda do cinzeiro e olhou para as paredes como se desse pela falta dos quadros que já haviam estado ali e agora não estavam mais. Depois acariciou os próprios braços, num gesto de timidez ou insegurança, que não condizia com sua personalidade.

    "É verdade que vocês transaram no hospital?"

    "Como você sabe?"

    "Adriana me contou. Na última vez que a gente conversou ela me disse que vocês tinham transado ali, naquela noite. Eu não acreditei, achei que a Adriana estava querendo me impressionar ou provar para nós duas que ainda etava viva."

    "Foi difícil com aquelas sondas todas penduradas, ela sentindo muita dor e a gente preocupado que a enfermeira entrasse no quarto de repente. Mas trepamos, sim."

    "Ela gozou?"

    "A Adriana sempre gozava."

    "Foi a última trepada dela."

    "Minha também."

    "Você não trepou com ninguém desde que ela morreu?"

    "Claro que não."

    Lia apagou o cigarro num gesto lento, como se prestasse atenção em outra coisa.

    "Por que não?

    "Sei lá, Lia."

    "Não tem vontade?

    Ela me olhou firme, eu não disse nada. Abriu o zíper da minha calça, cuspiu na própria mão. pegou meu pau - duro - e começou um movimento bem devagarpara cima e para baixo.

    "Fala alguma coisa", ela disse sem alterar o movimento.

    "Falar o quê?"

    "Qualquer coisa."

    "Nos primeiros dias depois que a Adriana morreu eu não pensava em nada. Ficava olhando a TV horas e horas até desmair de sono ou cansaço. Depois de um mês, mais ou menos, comecei a pensar na Adriana o tempo todo. Pensava no rosto dela quando demaiou a primeira vez ao lado da piscina na casa dos teus pais. Pensava no jeito que ficava a boca dela quando gozava ou ficava brava. Era engraçado, ela fazia um biquinho igual com a boca quando estava zangada ou excitada.. Pensava na bunda durinha quando se oferecia para mim, de bruços na cama. Pensava nos bicos arrepiados dos peitinhos dela quando tirava a parte de cima do biquíni no convés do barco. Mas todas essas lembranças pareciam tão insatisfatórias perto do que era a presença real da Adriana..."

    Lia tirou a calcinha e a largou no chão. Enfiou a mão sob a saia e começou a se acariciar no mesmo ritmo com que me masturbava.

    "Continua", ela disse.

    "Você continua", eu disse.

    "Se você parar de falar, eu parode bater."

    "Então eu comecei a pensar em você. Das tuas pernas debaixo d'água, dos teus peitos e dos pêlos da tua boceta naquela vez que te vi pelada. Lembrei da tua voz rouca, igual à da Adriana..."

    "Qual voz? Essa aqui?", ela sussurrou com a boca quase grudada na minha orelha.

    Os movimentos das mãos de Lia estavam agora muito rápidos e sincopados. Quando percebeu que eu ia gozar, ela apressou o trabalho da outra mão e gozou junto comigo. Meu gozo foi longo, acompanhado de um suspiro rouco. Ficamos alguns minutos em silêncio largados no sofá. Então ela se levantou, vestiu a calcinha e foi embora sem dizer nada. Deixei que saísse e não fiz nenhum movimento. Depois fui até o quarto, liguei a TV, deitei. Fiquei olhando notícias sem prestar atenção. Vi dois carros correndo num deserto e pessoas gritando na frente de um palácio.

 

 

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