"É interessante como, no Brasil, os reis conquistam sua majestade não por laços sangüíneos, formas instituídas de governo ou tradições seculares, e sim pela grandeza de seu talento e capacidade de emocionar a alma de seu povo. Foi assim com Roberto Carlos. E continua sendo. 

O menino simples de uma cidade do interior ama a música. Ele vai para a cidade grande e luta para se destacar entre tantos outros garotos, que como ele, são impelidos por uma força interior, misteriosa, a cantar e a compor. E por obra de sua música é ele escolhido para ocupar o trono. O trono, aqui, não é uma poltrona de veludo vermelho ornada com ouro. É só um símbolo que expressa a devoção e o amor que as pessoas sentem por Roberto e sua música. O carinho e admiração de seus fãs são os verdadeiros cetros e corroa desse rei. Um rei que andou ausente e triste por dois anos, calado.

E o silêncio do rei se propagou pelos corações dos súditos, que também ficaram tristes e silenciosos. Mas talvez por obra do silêncio e da tristeza de seus súditos, Roberto tenha percebido que ele precisava voltar a cantar e a compor. Por mais triste que fosse o momento que atravessava em sua vida pessoal, o rei constatou que da música dele dependia a alegria de muitas outras pessoas. E que, se essas pessoas pudessem sorrir e se alegrar novamente, talvez ele próprio encontrasse também razão para sorrir nesse mundo tão complexo, às vezes incompreensível, outras injusto.

E assim, mais uma vez Roberto reafirma sua condição de soberano graças à força de sua obra musical. Por que, por mais que se diga que Roberto é um ídolo, um ícone, uma como eu mesmo já afirmei parte indissociável da alma brasileira e da genética de nossa nacionalidade, o seu grande feito continua sendo a beleza simples de sua música e de sua maneira de cantar.

Foi assim que ele conquistou milhões de brasileiros, sua confiança e admiração, a coroa e o cetro, e o direito de lançar um disco diferente a cada ano. E aqui talvez resida a chave de seu imensurável sucesso: a capacidade de realizar um disco diferente e satisfazer seu público como se tivesse feito um disco igual.

É preciso que a gente reflita sobre isso. Porque Roberto já é, para nós brasileiros, uma engrenagem tão bela e misteriosa ao mesmo tempo que cotidiana quanto os amanheceres, os crepúsculos e os sinos das igrejas que anunciam as seis horas da tarde. Ficar dois anos sem um disco de Roberto foi algo tão surpreendente e decepcionante quanto esperar a noite inteira pelo amanhecer e constatar que o sol não nasceu. Agora as nuvens se dissiparam e o sol voltou a brilhar. Mas talvez todas essas imagens, comparando Roberto a um rei, sua voz a luz do sol e seu silêncio a uma infindável noite escura, não passem de puro blá-blá-blá. O que importa é que esse grande músico, cantor e compositor brasileiro, voltou a gravar um disco. E de novo ficaremos felizes por poder compartilhar do vigor e beleza de sua música. Porque ela como toda verdadeira obra de arte contém em si a transcedência da vida e da morte.

O Rei está de volta, longa vida ao Rei!"

(18/12/2000 - Folha Online) 

 

 

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