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Observador
Veja
Rio - 14 de novembro de 2001
Acendo
o charuto e contemplo: a árvore de Natal está em estado adiantado de montagem.
Homens trabalham pendurados na estrutura metálica e eu penso em pássaros
construindo um ninho.. Vejo dois homens nadando. Divertem-se como duas crianças,
mas são homens adultos de braços musculosos. Observo com mais atenção e
percebo que não estão nadando, mas pescando. Lançam tarrafas, depois
mergulham, como se ajudassem a rede a encontrar os peixes sob a água. De vez em
quando é possível ver alguns peixes sobre a água. Será que para os peixes um
mergulho no ar equivale ao que é para nós um mergulho na água? Será que
mergulham no ar para se refrescar ou para experimentar algum tipo de sensação
diferente? Divirto-me em olhar a superfície da lagoa tentando adivinhar de onde
sairão os próximos peixes voadores. Geralmente aparecem em um ponto diferente
daquele em que esperava que aparecessem. Mas não ligo. Dou mais uma baforada no
charuto e observo o vôo rasante de uma garça. Imagino-a carregando uma
trouxinha com um bebê, à procura do endereço onde entregá-lo. Minha imaginação
se aproveita dos efeitos da meia garrafa de vinho tinto ingerida no almoço. Não
pensem que sou alguma espécie de magnata fumando charuto depois de uma bela
refeição regada a vinho tinto contemplando a lagoa como um paxá que não
precisa trabalhar para sobreviver. Fumo bons baianos que se encontram a preços
baixos, ao contrário dos cubanos, que, ironia, viraram símbolo de opulência e
exibicionismo de capitalistas milionários. O vinho que bebo é um gaúcho
honesto que compro em caixas de um pequeno produtor do Rio Grande do Sul. Facó
isso há anos. Desde antes de o vinho virar moda na classe média. Quanto ao
trabalho, não se iludam, sou um simples zelador de prédio aqui em Ipanema. Mas
me dou ao luxo de contemplar a vida como um flanador. A garça voa até o galho
de uma amendoeira e agora meu olhar se dirige a uma bela moça que passa andando
rápido. Está concentrada na música que ouve nos headphones e nem percebe que
a observo. As pernas durinhas caminham decididas: tec, tec, tec, tec. Aonde vai
com tanta pressa? A juventude é assim, anda, anda, sua, sua e não sai do
lugar. Já que é pra ficar no mesmo ponto prefiro ficar sentado. Olho de novo
para a amendoeira e a garça já voou dali. Sempre as opções: se você não
quiser perder o rastro da garça, não olhe para a mocinha. Mas se preferir o
tec, tec das pernas durinhas, como eu prefiro, conte com a possibilidade de a
garça voar sem o testemunho de seus olhos. Há amendoeiras, flamboyants,
jambeiros e coqueiros. Há eucaliptos também. Há até um eucalipto com o verso
"Yo me rio, me sonrio, de los viejos poetas", de Pablo Neruda,
inscrito a canivete no tronco. Duvidam? Localizem tal eucalipto se forem
capazes. Eu sei onde ele está. Conheço cada ponto da lagoa. Quando estou com
preguiça de caminhar, apelo para minha velha Monark. Jamais me preocupei com a
cotação do barril de petróleo. Atualmente gosto de passear de noite. Graças
ao racionamento, posso me locomover por uma cidade quase às escuras e me lembro
de minha juventude. O mundo das sombras me acalma e favorece um sono tranqüilo.
As velas dos barquinhos se estufam de vento e são elas que me atraem o olhar
agora. Gosto de ver as pessoas remando, deslizando em esquis ou velejando. O ser
humano sabe ser muito poético quando quer. Escuto o canto de uma roda de
capoeira. Há poesia sempre. Mesmo quando garis colocam máscaras no rosto para
resistir aos peixes mortos e retirá-los da lagoa. Ou quando um homem defeca atrás
de um jambeiro porque provavelmente aquele é o banheiro que melhor lhe convém.
Por favor, não me confundam com um otimista. Sou simplesmente um observador. E,
enquanto houver vinho, tabaco e crepúsculos, estarei por aqui.
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