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Mulheres nuas Tony Bellotto - Revista Veja Rio - 24 de outubro de 2001 Sou detetive. Não um detetive literário como Remo Bellini, o Xangô de Baker Street, Sherlock Holmes, o advogado Mandrake, ou o delegado Espinosa. Não sou nem mesmo um Ed Mort. E olha que de todos esses o que mais se aproxima de um detetive de verdade é mesmo o Ed Mort. Sou um detetive de carne e osso, e, portanto, nunca solucionei homicídios nem crimes complexos e intrigantes. Se nem a polícia consegue resolver, Por que eu iria conseguir? O que rola mesmo são os casos corriqueiros de adultério ( que não podem ser chamados de crime, tal a assiduidade com que acontecem ) e os de suspeita de adultério. Mas não pensem que as suspeitas superam as confirmações. Somos todos adúlteros, e eu não me refiro ao ato sexual, embora seja esse o objetivo de todos os meus clientes: provas de envolvimento sexual de seus cônjuges com outros parceiros. A grande verdade é que todos sabemos como o adultério pode ser sutil, não é mesmo? As trocas de olhares numa festa ou num restaurante, um telefonema aparentemente equivocado no meio da tarde, um galanteio silencioso ou um elogio ao pé do ouvido. Eu sei. Vocês sabem. Todos conhecemos nossos pequenos segredos. Mas não é sobre isso que quero falar. Eu quero falar sobre mulheres. Estou seguindo uma coroa inteiraça, malhadona, cujo marido anda desconfiado de sua conduta. Bobagem. Paranóia pura. A mulher é uma santa. Almoça com amigas, visita a mãe doente quase todo dia, anda pra lá e pra cá, mas não dá a menor pinta de estar traindo o marido. Mas os homens são assim, o que se pode fazer? Melhor para mim, que posso me dar o direito de observar as mulheres. Adoro analisá-las quando não sabem que estão sendo observadas. Fazendo compras, pressionando tomates, checando a validade de potes de iogurte ou namorando vitrines de lojas de roupas. Adoro observar suas expressões quando atravessam a rua e olham para os carros que se aproximam. Amo vê-las nas igrejas, de tarde, rezando em silêncio. E, por mais religiosa que seja uma mulher, nunca se soube que ela se suicidasse ou que matasse alguém por causa de suas convicções espirituais, como fazem cretinos islâmicos ou irlandeses. Adoro observá-las na praia, seminuas, deitadas na areia de olhos fechados. E, quanto mais despidas estão, menos se parecem com aquelas coitadas que vivem encobertas, proibidas de existir, a levar bordoadas de barbudos ignorantes. Amo as mulheres nuas, e isso faz de mim um homem livre.
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