Menino Bonito

 Tony Bellotto  -  Revista Veja Rio  -  5 de setembro de 2001

     É sempre assim. Essas madames entram no carro e acendem o cigarro sem a menor cerimônia. Parece de propósito. Só porque coloquei a plaquinha "É proibido fumar" bem visível, pendurada no retrovisor. Falar o quê? Vou reclamar com um mulherão desses? Pode fumar, dona. De vez em quando dou uma olhada nas coxas dela. Cada pernão lisinho, sem uma marquinha, nada. Deve ser lipoaspiração. Uma beleza. Mas não pensem que vida de motorista de táxi é essa moleza, não. Tem muito motorista se gabando disso e daquilo. Nego inventa que a mulher entrou no carro, deu mole e coisa e tal. Tudo mentira. Olha que eu já carreguei mulher de tudo quanto é tipo aqui no meu Golzinho - piranha, madame, operária, estudante, velha, moça, baranga, princesa - e fazer gol mesmo, que é bom, nunca. São mais de vinte anos na praça. Também, eu não falto com o respeito, jamais dei uma de engraçadinho. Minha patroa, aliás, é uma santa. Em compensação, já fui assaltado três vezes. A pessoa entra no carro e você nunca sabe o que se passa na cabeça dela. Se for encanar, não pára pra mais ninguém, fica louco. Melhor mudar logo de profissão. Antigamente eu achava que podia dizer se um sujeito era bom ou não só de olhar na cara dele. A vida vai ensinando a gente. Meu filho é muito bonito. Sempre foi. Esse foi o azar da vida dele. Começou com o negócio de modelo, depois disse que ia ser artista de novela, que esses caras todos ganham uma fortuna só pra ficar beijando aquelas atrizes bonitas. Eu falava: "Esse negócio não é para você. Tem de estudar. Se não quiser estudar, tem de trabalhar". E filho lá ouve conselho de pai? Se ouvisse não tinha mais crime no mundo. Desculpem, mas não tem como eu não pensar no meu filho hoje. Chego ao destino da madame, um restaurante ali na Dias Ferreira, no Leblon, ela desce e me diz pra ficar com o troco. Gente boa, a madame. Penso na minha patroa lá em casa. Deve estar aflita, contando os minutos. Faz cinco anos que ela conta cada minuto que passa. Mas hoje está feliz. Nervosa, mas feliz. Sei que o jantar vai ser especial. Um banquete. Uma velha me acena com a mão, mas eu não paro. Expediente encerrado. Ela me xinga, eu dou risada. Velha boca suja. Toco direto pro meu destino. Bife a cavalo e maionese de camarão; de sobremesa pudim de leite. Do jeito que ele gosta. Estaciono o carro, ligo o rádio, releio o jornal. O tempo passa. Não consigo me concentrar nas notícias. Eu também estou nervoso. Não disse pra ninguém, mas estou muito nervoso. De repente os guardas abrem o portão e ele sai. Largo o jornal, salto do carro e nossos olhares se cruzam. Ele está com uma sacola pendurada no ombro, andando daquele jeito largadão dele. Vem na minha direção. O menino é bonito demais. Cinco anos na prisão não tiraram um pingo da beleza dele.

 

 

 

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