Medo do Mar

 "Engraçado isso",disse o doutor Plínio.

"O quê?", perguntei.

"A gente nunca imagina."

Ele tirou os óculos e mexeu em alguns papéis sobre a mesa.

"A gente nunca imagina que surfistas sofram desse problema."

Colocou os óculos de volta e olhou firme em meus olhos: "Surfistas", concluiu, "parecem sujeitos diferentes, imunes ao stress do dia-a-dia".

A primeira vez que aconteceu eu estava no mar, era um dia de ondas gigantes, graças a uma ressaca que foi a glória de todos os surfistas da cidade. Um lance fora do comum. De repente, aconteceu. Simplesmente aconteceu. O coração disparou e um arrepio de terror me percorreu o corpo da cabeça aos pés. Primeiro pensei que fosse uma congestão, sei lá, eu havia comido camarão no almoço, vai ver tinha alergia, quem sabe? Depois achei que era infarto, meu braço esquerdo doía e formigava - é o braço esquerdo que dói nos enfartos, não eh? -, minha boca secou, a nuca arrepiou que nem um ouriço. Saí do mar, meus amigos pensaram que eu tinha amarelado, mas estava tão pálido, tão desgraçadamente desesperado que eles vieram me dar uma força na areia. Não é nada, foi um susto, essas paradas rolam etc. e tal. Eu costumava ficar horas olhando para o mar. O mar era meu amigo desde garotinho. Meu pai me levava para pegar onda no Arpoador quando ainda tinha um píer por ali. Ele também amava o mar. A família toda. Minha irmã foi campeã brasileira de bodyboard. Quase faturou o sul-americano, mas teve um deslocamento da clavícula que ferrou com ela. O mar às vezes é traiçoeiro, eu sei, mas nunca tinha me traído. Pelo contrário. O mar me mostrou muitas coisas bonitas, coisas que eu nem podia ver, só imaginar: velhos navios naufragados, corais coloridos, a luz prateada das profundezas onde as sereias vivem... mas depois daquele dia eu só penso na escuridão infinita do fundo do mar, onde vivem os peixes cegos.

"Acho que estou virando uma espécie de peixe cego."

"Interessante essa definição", disse doutor Plínio, rindo. "Já ouvi várias definições para seu problema, mas essa é nova. É como eu digo, a gente nunca imagina que um surfista..."

Ainda tentei surfar mais uma vez, uma semana depois. Uma manhã gloriosa de inverno carioca. Fui até a Prainha. Até entrei na água mas foi um desconforto total, tudo parecia estranho, ameaçador. Minha vida virou uma novela mexicana, terror total, não saí mais de casa, fiquei com medo até de ir em festas juninas. Tem coisa mais relax que festa junina? Pois é. Amarelei, não fui.

"Qual é meu problema?", perguntei decidido.

"Doença do pânico."

"Pânico?"

"Fobia social e outras fobias. Doenças modernas. Estão na moda. Não se preocupe, pois a psicofarmacologia   já desenvolveu remédiosincríveis para isso. Há os tricíclicos sedativos e os não-sedativos. Há também os inibidores específicos de recaptação de serotonina, que apresentam menos efeitos colaterais..."

"Serotonina?"

O coração disparando a qualquer momento, sem nenhum motivo. As noites em claro, o peito apertado como se o teto estivesse desabando sobre meu corpo. Muito estranho. Nuvens negras e pesadasaté nos dia de céu azul e sol claro. Doenças modernas: um surfista com medo do mar.

 

 

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