|

















| |
Clichês que divertem
Não, "Bellini e a esfinge" não revoluciona o gênero policial. Mas tem pelo menos um mérito inquestionável: em sua falta de pretensão, consegue ser um filme agradável para os olhos (Malu Mader e Fábio Assunção são os protagonistas...) e delicioso para mentes despreocupadas. Ou seja, cumpre com a maior eficiência a função original do cinema: divertir. E ainda preenche um espaço vazio no cinema brasileiro: o do thriller que realmente nos faz querer descobrir o final da história.
"Bellini" é noir , tanto a nível de gênero como enquanto imagem. Passa-se em São Paulo, obviamente (que outra cidade brasileira poderia servir de cenário a um film noir ? Salvador certamente não). E conta uma história interessante.
Vamos a ela: a agência de detetives onde trabalha Remo Bellini (Fábio Assunção) é procurada por um médico tímido, rico e muito do sem-vergonha que quer encontrar uma prostituta que desapareceu na noite sem deixar rastros. Desde o início, o herói conta com a ajuda de duas mulheres belíssimas. Uma é a simpática prostituta Fátima (interpretada com a maior empatia por uma caliente Malu Mader); a outra é a colega de agência bem mais cerebral, claro. Ambas reafirmam o velho clichê do cinema noir da femme fatale.
Ao longo da projeção - que, aliás, não tem motivo aparente para durar duas horas - uma série de surpresas muda os rumos da história. A primeira delas é o assassinato brutal do cliente. A partir daí, a trama torna-se cada vez mais complexa sem nem se esquecer do manjado final surpreendente.
São Paulo é o grande pano de fundo. E vira personagem, com sua monstruosidade de megalópole inviável. A cidade é fotografada nos tons sombrios que convêm à estética noir
"Bellini e a esfinge" é cheio de clichês intencionais nos quais a mulher ocupa lugar de destaque. Tem a profissional do sexo bacana, a detetive eficiente, a empresária fechada e endurecida pelo trabalho. Do lado masculino, o detetive bonito e frágil também forma um "tipo". O legal é que esses clichês são tão bem utilizados que funcionam. Como aquelas expressões que a gente usa quase sem se dar conta ("É fogo!", por exemplo), resume muito bem uma idéia e não machuca. Pelo contrário: é diversão de primeira.
Jefferson Lessa - Jornal O Globo

|