“Roqueiro barrigudo é deprimente”


O titã lança terceiro livro policial, diz ser vaidoso e ciumento, acha hipocrisia dizer que droga não é bom e revela que, em casa, é Malu Mader quem tem autoridade

Marianne Piemonte

Piti Reali

Ele é o guitarrista e o galã dos Titãs, o marido da atriz Malu Mader, o pai de Nina, 19 anos, João, 5 e Antônio, 3, e também autor de três livros policiais. O mais recente, BR 163, lançado neste mês, traz dois romances com mulheres como protagonistas. “Consegui subverter a tradição das novelas policiais que são machistas”, orgulha-se.

Natural de Assis, interior de São Paulo, ele é o primogênito, filho de um professor de história e de uma arquivologista que sempre incentivaram a leitura em casa. “Comia sucrilhos de manhã lendo o rótulo”, lembra.

Com 40 anos, 19 de palco, Antônio Carlos Liberalli Bellotto, é reservado e ainda fica ruborizado quando entrevistado. Entre uma pergunta e outra, ele respira fundo e fica com o rosto suado. O semblante apreensivo só se desfaz quando o assunto é Malu Mader. Aí ele abre espaço para um largo sorriso: “Ela é linda e sou completamente apaixonado por ela”.

Na infância você brincava de detetive, fuçava nas gavetas do escritório de seu pai?
Não, sempre tive um sentido forte de preservação da intimidade alheia. Nunca gostei de ver e abrir coisas dos outros, essa coisa de voyeur. O que me fascina no detetive é uma coisa literária, assim como o caubói é de filme. Não tenho esse espírito investigativo. 

O detetive de seus dois outros livros tem relações conflituosas com o pai e com as mulheres. Quais foram seus conflitos? 
Desde pequeno as mulheres são aquilo que você não entende e ao mesmo tempo se sente atraído. A minha geração foi criada para acreditar que o homem é o provedor e a mulher está desmentindo isso. Marta Suplicy é um exemplo, uma mulher que é o que o homem foi criado para ser. O detetive Bellini, como os homens da minha geração, quer ser o senhor da situação, mas não é. A tomada de consciência disso gera conflito. Não lembro de conflitos com meu pai. Ele nunca fez nenhum tipo de pressão. Talvez por isso eu seja músico e escritor.

Era namorador?
Nem tanto. Na adolescência era tímido, nunca fui atirado, por isso tinha namoros estáveis. Casei cedo, aos 20. Meu primeiro casamento se desfez no começo do sucesso dos Titãs, aí tive uma fase de ficar entusiasmado com o assédio das fãs, aquela liberdade sexual e geral que o rock proporciona. Pelo menos a ilusão da liberdade foi bem divertida. Mas logo voltei a querer relacionamentos duradouros. Só fui galinha em algumas fases. 

A primeira vez foi no interior?
Poderia ter sido. Na minha época os meninos se iniciavam com prostitutas. Mas comigo não foi assim. Por timidez não me sentia apto a ir para a zona. Minha primeira transa foi com a primeira namorada, aos 16 anos em São Paulo. Foi a primeira vez dos dois, amor e o sexo juntos do jeito que deve ser. Não tenho nada contra quem começa em bordéis. Até tentei uma vez, mas não consegui desempenho satisfatório.

Broxou?
É, broxei. Tinha 14 anos. Imagina um menino sentado ao lado de uma prostituta? Não tive a menor excitação. Parecia uma prova, que eu tinha de desempenhar algo e falhei.

Curtia discoteca de interior?
Não, eu era outsider, da turma do rock. Achava babaca quem ia em discoteca, tentava ser diferente do padrão. Até hoje o rock tem essa história de conscientização, questiona coisas comuns. Na minha adolescência era uma maneira de avisar ao mundo que eu era de outra seita. Hoje sou mais igual. Não acho babaquice discoteca. Quando você vira pai tem que fazer coisas como ir a reunião de pais na escola. Hoje vou todo interessado.

As drogas foram muito presentes no início dos Titãs. Ficou algum estigma? Algum pai de um colega de seu filho já falou: “Olha, esse aí é doidão”?
Já devem ter me chamado por aí de doidão. Se chamaram, não ligo porque sou muito verdadeiro. As drogas sempre estiveram, e estão cada vez mais, presentes na vida das pessoas. Todo mundo que conheço já usou ou usa algum tipo de droga. Me chamava atenção o fato de as bandas que gostava quando adolescente, como os Stones, Beatles e Led Zeppelin, estarem envolvidas com drogas. Então, achava que deveria usar. É hipocrisia dizer que não é bom, porque se não fosse não seriam tão consumidas. Na música, às vezes para compor, tocar, ajuda pra caramba. Agora, tem o outro lado, pois são nocivas e o pior, quando se compra droga você dá dinheiro para bandido. Isso me irrita, porque vejo a violência crescer. É ilusão pensar que ao usar droga você é anti-careta. Está dando dinheiro para os maiores caretas: os chefões do tráfico. 

Deveriam ser legalizadas?
Sim, porque o dinheiro não iria para os bandidos. Haveria controle. Se o álcool e tabaco são, porque não a maconha e até a cocaína? As drogas existem e as pessoas deviam ter liberdade de experimentar. Mas acho nojenta a questão da bandidagem. 

É vaidoso? 
Achava que não, e é difícil admitir isso, mas sou. Tenho preocupação com a minha imagem. Acho deprimente roqueiro barrigudo. Nasci em 1960, meu ídolo é o Mick Jagger que tem o mesmo corpo há 30 anos. Mas sou contra a vaidade exagerada no homem. Homem é homem! Não é porque a mulher está se destacando que o homem tem que por silicone ou botox. Acho bonito envelhecer, é patético gente esticada. Para manter a saúde, nado duas vezes por semana, ando e corro umas quatro e faço uma ginástica inteligente com uma professora no Rio.

Acharia ruim se Malu surgisse de silicone e lipoaspirada?
A Malu pode fazer o que quiser que eu a amo de qualquer jeito, mas ela não precisa. Se começarem a levar a sério essa onda ridícula de não envelhecer vai virar paranóia. Uma hora você vai morrer, não se pode querer ter 25 anos para sempre. 

Tem medo de morrer?
Essa idéia me atormenta, mas não sou infeliz. A morte é uma boa companheira, é um alerta de que a vida é finita e passageira. Pensar que vai morrer é uma boa. Você vai agir com responsabilidade.

É verdade que você grava tudo que escreve em três disquetes?
Tenho essa paranóia porque você fica dois anos trabalhando num livro. E se der um creque no computador, ou pegar fogo na casa? Essa idéia me atormenta mais do que a morte. Como tenho casa em São Paulo e no Rio, deixo uma cópia no computador, um disquete no Rio e outro em São Paulo. Para escrever, preciso concentração total, sem música, nem telefone tocando. Mas não sou organizado, largo toalha no chão e visto a roupa suja de novo. A Malu é a organização em pessoa.

Ainda dá bronca quando você vê programas de culinária?
Ela está curtindo mais, resolvemos essa questão conjugal. Ela dorme mais cedo, com barulho e com luz, não se importa que eu veja televisão. Fico zapiando, adoro o programa do Olivier e do Jeff Smith. Curto o Bottino que vende panela, mas não anoto receita. Minha cozinha predileta é a italiana, não gosto de doce nem chocolate.

 

 

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