EDUCAÇÃO:
AVENTURA OU AÇÃO PLANEJADA?

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           O rapaz deixou a redação do jornal e ainda teve tempo de ouvir o comentário da recepcionista dirigindo-se ao repórter:

-               Que charme, hein! Quando pensar em convidá-lo para outra entrevista, pode deixar que eu faço.

Felizmente já havia ganhado a rua quando o repórter comentou:

-                     É maluco! Pretende atravessar o Atlântico num barquinho a remo. Com certeza não voltará para outras entrevistas.

         Algum tempo depois o Brasil inteiro conheceria Amyr Klink, o homem que desafiou a imensidão e os perigos do oceano num frágil barquinho. E numa entrevista, quando lhe perguntaram qual seria sua próxima aventura, respondeu com segurança, sem esconder alguma irritação:

            -Não faço aventuras! Minha viagem foi o resultado de muito estudo, cálculo, observação, trabalho e, principalmente, a certeza de realizá-la. Só me dispus a viajar em meu barco depois de avaliar todas as dificuldades, prever as necessidades e, a partir daí, criar as condições que permitissem  concluir a viagem com êxito. Se não tivesse agido assim, com certeza agora não estaria aqui, dando esta entrevista; a esta altura teria virado comida de baleia.

               E o navegador ou “viajador”, como ele próprio se intitula, pois diz que ainda tem muito a aprender para se tornar navegador, passou a descrever todas as fases de seu sonho. Tudo começou quando, ainda menino, ficava horas na praia de Parati, conversando com os pescadores, fascinados com as histórias do mar. Foi aí que decidiu: faria uma viagem, sozinho, para sentir de perto a tranqüilidade e enfrentar a fúria do mar. E começou a “construir” sua viagem: lendo, perguntando, “fuçando”, segundo ele próprio. Sabia que não podia confiar na sorte, não podia ser apenas “otimista” e deixar as coisas acontecerem. Fez de sua viagem um objetivo e em nenhum momento perdeu a esperança de alcançá-lo, pois sabia-o possível. Passou anos e anos, desafiando a descrença, preparando-se para a viagem.

                E depois desse período de reflexão e aprendizagem, já podia pensar em planejar: calcular as dimensões do barco, pesquisar os materiais mais leves e adequados, decidir todos os recursos de que o barco deveria dispor.

                Agora, sim, podia partir para a ação: era buscar patrocínio, construir o barco e atirar-se ao mar. Foram cem dias e cem noites sozinho, em uma canoa de 6 metros de comprimento.

                Na volta, outro sonho: construir um barco com estrutura para chegar à Antártica e lá invernar por onze meses, na companhia de pingüins, focas, leões marinhos e muito, muitos gelo. Recomeçaram-se as pesquisas, os cálculos, os testes de materiais, enfim, o planejamento cuidadoso com a assessoria de uma equipe de profissionais, para conseguir a autonomia de dois anos de viagem sozinho.

                No oceano, a cada 45 minutos, uma vistoria para avaliar as condições do barco e do mar e tomar decisões: ajustar as velas, mudar a direção do leme, acelerar ou diminuir a velocidade. Quando planejou a viagem sabia que seu sono não podia durar mais do que esse tempo, pois fazia parte do plano voltar, e para isso teria que avaliar e replanejar sistematicamente.

                 E depois do sucesso de suas viagens, podemos imaginar  que esse “viajador” já conhece tudo sobre o assunto e deve mais ensinar do que aprender. Puro engano! Ao se preparar para uma viagem pela costa brasileira, para mapear nossos portos, entusiasma-se com a possibilidade de “fuçar” em velhos estaleiros, conversar muito e aprender coisas novas.

                 Mas você, professor, deve estar se perguntando: afinal, o que tenho a ver com navegadores, viagens, mar e barcos?

                 É possível que não tenha afinidade com esses assuntos, mas tenho certeza que o seu trabalho está muito próximo do trabalho desenvolvido por Amyr Klink porque educação, da mesma forma que a viagem, não é e não pode ser uma aventura.

                  Só realizamos um trabalho pedagógico sério e que nos dê satisfação como profissionais, se soubermos com clareza o que queremos, isto é, qual o objetivo da educação que pretendemos oferecer. Mas antes de partimos para um plano de ação, precisamos analisar se realmente acreditamos no que propomos e se queremos construir esse trabalho. Em outras palavras: temos esperança e estamos dispostos a usar os obstáculos e os fracassos como trampolim, ou somos apenas otimistas, numa atitude alienada e alienante, esperando que as coisas aconteçam? Trata-se aqui de uma opção de vida, e é esta postura que estaremos passando para nossos alunos, independente de estarmos ensinando Língua Portuguesa, Matemática, História ou outro qualquer conteúdo.

                 Sem dúvida, o educador é por excelência o profissional da esperança, já que trabalha com o futuro, com o vir-a-ser . E como “esperança” não faz parte do currículo de nenhuma faculdade ou curso de formação  de professores, porque é impossível ensiná-la de forma acadêmica, temos que a esperança faz parte da moral do professor.

                 E o educador tem esperança quando planeja sua ação, isto é quando não se deixa entorpecer pela rotina do dia-a-dia, esquecendo-se do futuro e do verdadeiro objetivo do seu trabalho.

                 É natural que os jovens não tenham visão clara do futuro e não saibam que direção tomar, mas o educador que acredita no seu próprio trabalho e no futuro da juventude, saberá planejar uma educação adequada e orientar seus alunos, oferecendo-lhes o próprio testemunho e transmitindo-lhes os conhecimentos que lhes permitirão posicionar-se diante da vida. E esse educador, que pauta seu trabalho pela esperança, não pode em hipótese alguma compartilhar de nenhuma visão de educação reprodutivista e acomodada, que leve as novas gerações à adaptação a um mundo acabado e estático. Essa atitude seria de descrença e de falta de esperança.

                Ainda mais: o educador não pode desvincular sua ação do coletivo escolar e do contexto social, o que o obriga a conviver com os empecilhos que advêm dessa postura. Teria Amyr Klink sobrevivido se não contasse com uma equipe  diversificada para garantir uma alimentação balanceada, um leme invulnerável à ação do gelo, a perfeita instalação do motor ou o cuidado nos detalhes de um simples parafuso? Imaginem as dificuldades de convivência com um número tão grande de pessoas, com opiniões diversas a às vezes conflitantes.

                Felizmente nossas ações, no desenrolar do processo educativo, não nos obrigam a reduzir o tempo de sono a 45 minutos. Mas também não podemos cochilar e permitir que nosso barco afunde só porque não percebemos a necessidade de alguns acertos, ou mesmo de redirecionar a viagem. Ao educador não é permitida a acomodação ou certeza de que domina todos os conhecimentos, de que está tudo pronto e acabado. Pelo contrário, é necessárias a humildade do aprendiz e a disposição para mudar, voltar atrás, recomeçar sempre. Afinal, o que queremos é o cidadão; não podemos admitir náufragos de uma educação mal planejada.

 

Inhandjara da Silva Yamamura

 

BIBLIOGRAFIA:

ALVES, Rubem. “Escola da Felicidade”. São Paulo: FDE, 1992  FURTER, Pierre. “Educação e Vida”. São Paulo: Vozes, 1970. KLYNK, Amyr. “Parati, entre dois polos”. São Paulo: Companhia de Letras, 1992.                                                 

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