NATAL

 

..............Embora considere a RESSUREIÇÃO como a maior festa do cristianismo, o NATAL é a mais doce comemoração cristã. A mais alegre pelo menos. A chegada da vida. Feliz e promissora.
O amor. O nascimento de Jesus! Deus feito homem! Aleluia!
Recebi de Adelaide e Alfredo, meus queridos avós maternos, estes sentimentos e os guardei no coração como se guarda um tesouro. Fui egoísta. Hoje quero me redimir transferindo-os aos Pereira através estas notas. Adelaide e Alfredo eram cristãos, devotos de N. Sra. Das Candeias e de Senhora Santana. Tementes a Deus. Celebravam o NATAL com os corações cheios de alegrias.
A festa começava cedo. Na manhã do dia 24 de dezembro, Raymundo (carreiro) trazia da Faz. Canabrava um carro de bois cheio de areia alva e fina, muitas folhas de pitangas e um carneiro cevado. A areia era toda espalhada nas áreas de circulação da casa, salas de visitas, de jantar e pelo grande corredor. As folhas de pitanga sobrepostas a areia perfumavam todo o ambiente! Na cozinha minha avó preparava a ceia do natal, basicamente um peru assado, muitos bolos: carimã, tapioca e chileno, sucos de caju, pitanga e limão. As 16 horas mais ou menos tio Oscar Pereira chegava com uma garrafa de cognac Cinco Estrelas embrulhado em papel pardo e juntamente com meu avô Alfredo seguiam para o quintal sacrificar o carneiro depois que a garrafa estava seca. Raymundo, fiel escudeiro, era o algoz do animal e responsável pelo esfolamento, cortes para a mesa e retirada dos miúdos que seriam por ele lavados no rio e em seguida transformados em meninico pelos irmãos Alfredo e Oscar em uma operação que consumia toda a noite e que seria servido as 5 horas do dia 25, regado a vinho Barbera! As 17 horas chegavam os netos: Dinéia, Agildo, Rômulo. Eu já estava em casa, estou falando do Natal de 1944, para solicitar a benção dos nossos avós.
A casa ficava alegre. Era a felicidade viva. Os velhos sorriam, abraçavam-nos. Cada um ganhava seu pedaço de bolo e seu copo com suco da fruta preferida. Acabada a festa meus primos retornaram à sua casa. Sozinho, com dinheiro no bolso recebido de tia Helenita, restava-me participar da festa de largo, assim se chamava a grande festa popular organizada pela igreja para angariar fundos para suas obras sociais. Na praça toda iluminada com lanternas chinesas e enfeitada com bandeirolas de papel de seda colorido, construíam-se várias barracas para vender quermeces, prendas, bebidas e jogos.
Depois de gastar algum dinheiro na prisão do amor quando agente podia receber inocentes beijos e abraços das meninas-soldado, tomava gasosa Fratelli na Barraca do Caria, praticava tiro ao alvo na barraca de Chico Gerico e aguardava a Missa do Galo precedida pelo toque de sino executado por Zé Vitalino, sacristão da igreja, ouvindo os dobrados tocados pela Filarmônica 26 de Junho, dirigida por Mestre Zinho e composta por Antonio Pinto (trompete), Raymundo de Pulchério (trombone de vara), Evandro de Pulchério (trombone convencional), Tonhinho de Joãozinho Carteiro (clarinete), Beco (sax), Arlindão (bombo), Luiz. Pessoa (pratos), Manoel (Tuba) e outros, todos amigos à quem eu dispensava admiração.
Meia noite! A voz de tia Helenita, fez-se ouvir maviosa em toda a igreja. "Noite Feliz! Noite Feliz! Cristo Nasceu! Pobrezinho, nasceu em Belém! Noite Feliz!" Esta felicidade eu quero compartilhar com minha mulher, meus filhos, genro, nora e netos, com meus irmãos, sobrinhos, com meus tios e todos os primos em todos os gráus. Com todos os Pereira, com todos os Batista onde eles estiverem.


Feliz Natal!

Luiz Carlos - dezembro 2005

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