Dobruski e Miranda

Uma faca � apenas uma faca, a ferramenta ancestral que torna poss�vel cortar, separar materiais, discriminar, abrir, repartir. Ferramenta das ferramentas, esta coisa simples pouco tem se modificado desde que uma pedra lascada provou ser de import�ncia fundamental na manuten��o da vida humana. Instrumento vital para este ser pouco dotado de for�a e habilidades naturais e que a partir da� p�de construir outras ferramentas e utens�lios.

Essa ferramenta cotidiana, presente de manh� � noite em nossas vidas, exerce um estranho fasc�nio, talvez testemunho de uma depend�ncia milenar, da confian�a depositada neste objeto que permite preparar alimentos e construir abrigos, abrir um pacote ou talhar uma escultura. � a esse instrumento que Maur�cio Dobruski dedica sua vida. Jovem senhor de seus segredos, Mauricio entrega-se � busca da maestria na arte de transformar um peda�o de metal bruto em uma escultura, uma j�ia, uma ferramenta, ou tudo isso junto.

Herdeiro de conhecimentos transmitidos de pai para filho por gera��es,� guardi�o de habilidades artesanais praticamente esquecidas no nosso tempo de produ��o em s�rie, onde o tempo dedicado � confec��o de um objeto, qualquer objeto, perdeu seu sentido assim como os objetos do nosso dia a dia perderam sua aura.

Ele expande suas habilidades, unindo conhecimento ancestral � informa��o garimpada na Internet na busca da �ltima tecnologia, da liga de metal mais adequada �s fun��es pretendidas, do material mais resistente � t�cnica mais avan�ada para o tratamento desta ferramenta t�o antiga e que muitas vezes, nas suas m�os, deixa de ser uma ferramenta, transformando-se em emblema de uma lembran�a primeva, do conforto e seguran�a pela posse de um instrumento capaz de dividir as mat�rias, imp�rvias a dentes e garras, dispondo-as a servi�o da humanidade.

Ent�o vemos acontecer um outro cruzamento de l�minas. O rel�mpago no metal polido � cortado na sua dura��o pelo escultor da luz e do tempo. O fot�grafo Nego Miranda secciona a luz na busca do instante perfeito, deste fio entre as eternidades, o instante que um homem decide fixar, separado para sempre do fluxo cont�nuo dos instantes sucessivos. A luz, devolvida pelo a�o e separada pela l�mina do obturador, � fixada, trabalhada e trazida ao nosso olhar pelo outro trabalho, o do fot�grafo que, por sua vez mestre de seus segredos, transforma trabalho e l�mina em l�minas de luz fixa, a�o quente, momentos que n�o escorrem, para que n�s possamos nos servir das suas sabedorias.

Geraldo Le�o, Curitiba, 17 de julho de 2000

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