TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO IV. LUTA PELA HEGEMONIA =========================== 4. Neutralização do Aparelho Hegemônico e de Coerção do Grupo Dominante -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=--=-= As "trincheiras" e "defesas" das sociedades liberal- democratas dos países de capitalismo moderno e de democracia avançada (sociedades e estados do tipo "ocidental") são muito fortes. Correspondem às instituições e convicções ideológicas que historicamente têm sido a barreira que impediu a vitória da revolução quando tentada nestes países, segundo o modelo estratégico marxista-leninista de ataque frontal ao poder ("guerra de movimento"). É preciso identificar quais são os elementos da sociedade civil e do aparelho estatal que constituem o sistema de defesa e que serão objetivos da "guerra de posição" de modelo gramscista. [33] Além do complexo ideológico-cultural que já comentamos quando tratamos da superação do senso comum, o sistema é formado por um conjunto de elementos materiais, organizações e instituições privadas e estatais da sociedade civil e da sociedade política que constituem o aparelho hegemônico e o aparelho de coerção do grupo dominante burguês. Dentre estas inumeráveis organizações e instituições políticas, econômicas e sociais podem ser assinalados os órgãos de comunicação social (imprensa, rádio, televisão, etc.), a escola, a igreja (particularmente a católica romana), os partidos políticos, o parlamento, os órgãos de classe empresarial, as forças armadas, o aparelho policial e, em certa medida, a família. A TOMADA DO PODER E A TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO SERÃO IMPOSSÍVEIS SEM A PRÉVIA NEUTRALIZAÇÃO DESSE SISTEMA DEFENSIVO. (*) O empreendimento de neutralização é complexo e é conduzido pelo amplo trabalho psicológico (**), político e ideológico que realiza o esvaziamento do moral do elemento humano das organizações burguesas, de tal modo que elas perdem o seu valor funcional e ético perante a sociedade civil, produzindo, num processo contínuo e progressivo: - Enfraquecimento (desarticulação e perrda de sustentação política, legal e da opinião pública); - Esvaziamento (perda de prestígio sociial, perda de funções orgânicas, comprometimento ético -- "denuncismo", quebra da coesão interna -- "racha" e "descolamento" ou "isolamento"). - Constrangimento e inibição (patrulhammento (***), penetração ideológica e infiltração de intelectuais orgânicos e tradicionais arrivistas na escola, no judiciário, nos órgãos de comunicação social, na área editorial, etc.) - Perda de valores religiosos, morais, cívicos e da tradição histórica e cultural da nação. A "guerra de posição" no seio da sociedade civil é uma "batalha de usura", longa, paciente, cheia de alternativas que virá progressivamente reduzindo à impotência as "trincheiras" e "fortificações" da sociedade e do estado burgueses, criando as condições e abrindo o caminho para a tomada do poder. [A seguir: 5. Ampliação do Estado] NOTAS: (*) Como no original o parágrafo todo está negritado, julguei melhor colocá-lo em maiúsculas aqui. - Alexander (**) Exemplo disso é o recém adquirido "hábito" do PT de afirmar que todos que criticam o Lula ou o próprio PT estão fazendo "terrorismo". Esse deslocamento semântico e conseqüente esvaziamente (vide parágrafo a respeito logo abaixo da chamada a essa nota) do significado próprio dos termos "terror" e "terrorista" são tudo, menos gratuitos. Se a estratégia for bem sucedida, a população passará a de um modo geral se impressionar menos com notícias de terrorismo autêntico. Mudando a acepção das palavras, muda-se a apreensão da realidade. - Alexander (***) Quem, ainda no mesmo exemplo, gosta de ser chamado de ou encarado como "terrorista"? É aquele patrulhamento externo gerando a autocensura a que já se fez referência no tópico sobre a constituição do "centralismo democrático". Notem também que no limite é justamente isso que acaba produzindo os "intelectuais orgânicos por constrangimento". - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) Neutralização do Aparelho Hegemônico e de Coerção da Burguesia [33] Vol. III, pág. 73; Vol. III, pág. 97; Vol. II, pág. 78; Vol. I, pág. 112; Vol. II, pág. 79; Vol. II, Nota 18, pág. 296. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO IV. LUTA PELA HEGEMONIA =========================== 5. Ampliação do Estado -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-= Conceito de Gramsci que vê a integração da sociedade civil com a sociedade política, "*identidade- distinção*" de duas esferas diferentes e relativamente autônomas, mas inseparáveis. Uma nova fórmula de estado que supera o estado de concepção capitalista burguesa, e que, ao mesmo tempo, evita o estatismo "burocrático" de modelo soviético. [34] Este conceito segundo o qual o estado não se limita aos seus órgãos de governo, mas que também abrange diversos organismos sociais, corresponde a uma "ampliação do estado". Em termos modernos, ao "Estado Ampliado". A sociedade civil, por intermédio das organizações privadas de hegemonia, indica a "direção" política e cultural, e passa a executar certas funções públicas que antes pertenciam exclusivamente à esfera estatal. Certos aparelhos estatais de coerção, próprios do estado burguês, tornam-se algo privado passando a fazer parte da sociedade civil. Talvez fosse mais próprio dizer-se "*sociedade ampliada*". Esta integração cria uma estreita correlação de funções desenvolvidas em esferas autônomas e, de certa forma, em aparente contradição, mas na verdade, integradas: (*) ---[ 1 de 4 ]------- SOCIEDADE CIVIL < --- > SOCIEDADE POLÍTICA ---[ 2 de 4 ]------- SOCIEDADE CIVIL: Hegemonia SOCIEDADE POLÍTICA: Dominação ---[ 3 de 4 ]------- SOCIEDADE CIVIL: Consenso SOCIEDADE POLÍTICA: Coerção ---[ 4 de 4 ]------- SOCIEDADE CIVIL: Direção SOCIEDADE POLÍTICA: Comando -------------------- A concepção do "Estado Ampliado" só terá plena aplicação depois que as classes subalternas tiverem conquistado o poder e quando um novo tipo de estado e de sociedade tiverem sido implantados. Esta fase significa um estágio de evolução para o fim do estado e para o advento da *sociedade regulada*. Entretanto, mesmo antes da conquista do poder pelas classes subalternas, o estado burguês poderá sofrer um processo inicial de "ampliação", na medida em que estas classes forem conquistando a hegemonia no interior da sociedade civil e em que esta vai conquistando a sua função de direção político-cultural. Desta maneira, as classes subalternas podem obter a hegemonia em certas organizações privadas e, por meio da ativa ação política podem assumir, direta ou indiretamente, a execução de algumas funções de governo. Por exemplo, no sistema escolar, nas comunidades, no campo dos direitos humanos, no controle ambiental, na segurança pública, na saúde pública, etc. Assim estariam sendo antecipadas algumas etapas de ampliação do estado e criando [sic] condições para a tomada do poder (enfraquecimento do Estado burguês). Na relação da sociedade civil e sociedade política desenvolvem-se a formação sócio-política das massas e a responsabilidade, a capacidade de governar das classes subalternas. [A seguir: 6. À Guisa de Conclusão] NOTAS: (*) Como não é possível inserir uma tabela num e-mail desse tipo, reproduzi o texto dela da forma mais legível que pude encontrar. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) Ampliação do Estado [34] Vol. III, pág. 73; Vol. III, pp. 262 e 263; Vol. III, pág. 279; Vol. III, pág. 282. [Com este e-mail encerra-se o capítulo referente à manipulação e distorção da mentalidade da população. A seguir, o estudo sobre a ascensão ao poder. - Alexander] TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO IV. LUTA PELA HEGEMONIA =========================== 6. À Guisa de Conclusão -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=- A fase da luta pela hegemonia é a ação estratégica central da concepção gramscista (a "guerra de posição", propriamente dita), como já fizemos alusão. Um dos seus objetivos é criar as condições para a tomada do poder, anulando a burguesia como classe dirigente e enfraquecendo os organismos de coerção do Estado. A primeira ação da fase seguinte, a fase estatal, corresponde exatamente à tomada do poder, mas só se dando por finalizada a luta pela hegemonia, quando já se tiver realizada [sic], em nível adequado para o exercício do poder, a necessária reforma intelectual e moral da sociedade civil. O projeto revolucionário, todavia, pode fracassar na tentativa de tomada do poder e deixar inacabada a mudança cultural da sociedade. Os valores tradicionais, morais e cívicos, terão sido destruídos sem que ainda tenham sido substituídos por uma nova formulação ética. Uma sociedade amoral, desorganizada e com uma liderança desfibrada terá sido a herança da revolução inconclusa. Gramsci admite também a possibilidade de ocorrer um instante crítico e delicado no processo de transformação intelectual e moral da sociedade; um vácuo ético-social e individual, um período de relaxamento e de dissolução moral decorrente da perda momentânea dos valores e tradições anteriores. [35] O risco, porém, é necessário e se justifica porque uma "nova concepção se está formando". (*) O empreendimento revolucionário, apesar de tudo, é "ético" porque é adequado aos fins pretendidos. (**) Este livro pretende ser didático. Por isto, pareceu-nos oportuno resumir esquematicamente a concepção gramscista da *Luta pela Hegemonia*, proporcionando uma visão sintética da fase que justamente expressa a "guerra de posição" na transição para o socialismo. -------------------- LUTA PELA HEGEMONIA (+) (***) * ORGANIZAÇÃO DAS CLASSES SUBALTERNAS 1) Organizações privadas voluntárias 2) Organizações Privadas de Blocos Homogêneos (Aparelhos Privados de Hegemonia) * REFORMA INTELECTUAL E MORAL DA SOCIEDADE 1) Superação do Senso Comum 2) Conscientização Político-Ideológica 3) Formação do Consenso * NEUTRALIZAÇÃO DO APARELHO HEGEMÔNICO DA BURGUESIA - E do aparelho de coerção do Grupo Dominante ("trincheiras e defesas") 1) Esvaziamento 2) Enfraquecimento 3) Constrangimento e inibição 4) Perda dos valores orgânicos * AMPLIAÇÃO DO ESTADO (Estado Ampliado) - Identidade-Distinção da Sociedade Civvil e Sociedade Política. -------------------- É também oportuno chamar a atenção para um aspecto importante da estratégia gramscista: a guerra de posição tem por objetivo a conquista da sociedade civil, incluindo a neutralização das "trincheiras" da burguesia. Isso não significa que a guerra de movimento tenha sido definitivamente descartada. Justamente, a partir deste êxito, a conquista do poder assume as características de assalto ao Estado, se antes não tiver sido possível simplesmente se apossar do poder. (****) [A seguir: V. FASE ESTATAL] NOTAS: (+) Sinóptico de S.A. de A.C. (*) Isto é, o comunismo. - Alexander (**) Como já visto, a "ética e moral" a que Gramsci faz referência equivale ao conceito marxista "os fins justificam os meios". - Alexander (***) Estou adaptando o quadro mostrado à página 61 para reprodução neste e-mail. (****) Por meio de eleiçõs regulares, como as atuais. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) Conclusão [35] Vol. IV, pág. 54. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== A *Fase Estatal* é aquela em que as classes subalternas, conquistando o poder por intermédio de vigorosa ação política do Partido e do uso da força, fundam um novo Estado que promoverá as profundas transformações econômicas, sociais, políticas e individuais que instaurarão o socialismo no país até então capitalista burguês. Esta fase tem muita identidade com a fase da Revolução Socialista de concepção leninista. Entretanto, Gramsci tem alguns conceitos próprios, particularmente quanto à estrutura do novo Estado, à integração da sociedade civil com a sociedade política e à condução das transformações para implantação da sociedade socialista. O empreendimento inicial da fase estatal é a conquista do poder sem o que, a transição para o socialismo deixa de ser revolucionária e se faz meramente "reformista", cuja realização se faria num longo processo de êxito duvidoso. O final da fase é a criação do estado e da sociedade socialista marxista, aquela que tem realizadas em si todas as condições para que se dê a passagem do "mundo da necessidade para o mundo da liberdade", a sociedade comunista. O agente diretor dos empreedimentos desta fase de radicais transformações continua a ser o Partido, cujo papel de desencadeador, condutor, orientador e culminador do processo é tão importante e indispensável que Gramsci o identifica como o "*Moderno Príncipe*", noção tirada da obra de Maquiavel "O Príncipe". Esta associação traz o Príncipe, protagonista de transformações, para o mundo atual e poderia também identificar o "Moderno Maquiavel" na figura do autor de os Cadernos do Cárcere. (*) As ações capitais que o Partido conduz ou orienta nesta fase podem ser assim relacionadas: 1) Direção da crise orgânica (política, econômica e social) que desestabiliza o estado burguês. 2) Ruptura e conquista do poder; 3) Fundação do novo estado e implementação da nova ordem; 4) Realização das transformações socialistas. Na fase estatal, todas as superestruturas (estado e sociedade civil) devem desenvolver-se e a estrutura (economia e sistema de produção) deve ser transformada para que se realize efetivamente o socialismo. [O diagrama à pág. 64 está disponível no link abaixo: Inseri abaixo parte do texto contido nele. - Alexander] ---[ Texto do Diagrama ]------- 1) Crise Orgânica - Ruptura 2) Tomada do Poder - Levante Armado - Guerra Civil Revolucionária - Guerrilha Foquista - Via Pacífica ("etapismo") - Via Parlamentar - Rebelião Popular 3) O Braço Armado - Força Principal - Força Subterrânea - Organizações de Sustentação 4) Fundação do Novo Estado - O Estado-Classe / Estado Ético - Imposição da nova ordem 5) Transformações - Mudanças Econômicas - Mudanças Sociais - Mudanças Políticas ------------------------------- [A seguir: 1. O Moderno Príncipe] NOTAS: (*) Essa interpretação do autor é mais do que correta. Maquiavel e Gramsci foram ambos indivíduos que desenvolveram suas teorias políticas dentro duma postura de cisão esquisofrênica. Maquiavel, por exemplo, fazia uma distinção radical entre suas tarefas governamentais e seu hobby filosofante, dizendo que ao chegar em casa após o trabalho tomava um banho, vestia uma roupa confortável, entrava em seu estúdio e, agora sim, distante de tudo e imerso em meio a seus livros contendo o conhecimento ancestral, punha-se a refletir, sem que essas reflexões interferissem no mais mínimo que fosse em suas tarefas ordinárias, bem ao contrário de tudo que a prática filosófica anterior recomendava. Ademais, ele não atentava para o fato óbvio de que se alguém, algum dia, colocasse em prática uma linha que fosse da obra "O Príncipe", ele mesmo seria mais do que certamente uma das primeiras vítimas de seu príncipe ideal. Já Gramsci considerava que todo o pensamento individual é no fundo expressão do pensamento de classe, e não atinava para o fato de que tudo que estava escrevendo não havia sido em momento algum pensado nem pelos proletários, nem tampouco por seus correligionários comunistas, com os quais quase não mantinha contato, sendo portanto obra dele, projetada por ele, realizada por ele, enquanto Antônio Gramsci, não enquanto *mais um* intelectual coletivo. Conseqüentemente, o fato de estar escrevendo o que escrevia era uma negação empírica de todo o coletivismo radical em que acreditava. É essa cisão profunda que acometeu ambos, e que ainda acomete a quase totalidade da intelligentzia acadêmica, um dos principais motivos por trás do fracasso de todos os socialismos. *Todos* os autores socialistas constróem mundos imaginários, e somente dentro desses mundos, que nunca equivalem à realidade, seus sistemas são plena ou mesmo parcialmente realizáveis. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 1. O Moderno Príncipe -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=- Repetindo, o *Partido* é o agente diretor das transformações que levarão à fundação do socialismo marxista no país. Acrescentam-se ao seu papel histórico novas funções político-culturais que levaram Gramsci a identificá-lo nesta fase como o Moderno Príncipe. [36] As novas funções que apresentam [sic] são exercidas em quatro momentos que marcam o desenvolvimento da fase estatal: (*) 1) Nas crises econômicas, políticas e sociais pelas quais a sociedade liberal-democrática passa eventualmente em sua história e na *crise orgânica* que abre caminho para a tomada do poder; 2) No processo de tomada de poder; 3) Na fundação do novo estado; 4) Nas transformações econômicas, políticas e sociais. No primeiro momento, na crise orgânica, o partido deve estar preparado para dirigir os acontecimentos, orientando-os para que produzam resultados progressistas, convenientes e construtivos para o processo de transição para o socialismo e para que não ocorram efeitos reacionários que obstruam este processo. (**) No segundo momento, na tomada do poder, a iniciativa deve ser do partido, que conduzirá o empreendimento de modo a se tornar hegemônico ou único (com exclusão dos outros partidos, inclusive aliados) após a vitória, destruindo todas as outras organizações ou as incorporando num só sistema cujo elemento diretor seja o Partido revolucionário. (m) (***) No terceiro momento, na fundação do novo estado, o partido imporá a sua concepção e fornecerá os dirigentes que para isto preparou no interior da própria organização. O Partido, que é potencialmente uma estrutura estatal, está "historicamente fundamentado para criar um novo estado". No quarto momento, nas transformações da estrutura e das superestruturas, o Partido será o anunciador e o organizador de uma reforma material, intelectual e moral da sociedade civil e será o criador de uma vontade coletiva nacional-popular que dará origem a uma nova forma de civilização, moderna e superior. Esta transformação está diretamente dependente da reforma econômica e do sistema de produção que será conduzida pelo Estado. (...continua...) NOTAS: (m) As alianças políticas e de classes admitidas por Gramsci nas fases anteriores à tomada do poder, particularmente com os partidos de massa e populares ("pluralismo das esquerdas" como se diz modernamente), parece que estão fora de sua cogitação na fase estatal que sucede àquele evento decisivo. (*) Esses quatro momentos serão cada um objeto de uma seção do capítulo. - Alexander (**) Dois exemplos: as orquestrações para derrubar a candidatura à presidência de Roseana Sarney e, mais recentemente, para diminuir a importância e estabelecer um cordão de isolamento em torno da bancada do PRONA no Congresso. - Alexander (***) Nem preciso dizer que é exatamente isso que o PT vai começar a fazer tão logo assuma o poder, o que não quer dizer, claro, que o faça com pressa. A tomada do poder será um processo gradual, mas constante, contínuo e cada vez mais aprofundado. Notem também que pelo menos uma prévia disso já tivemos: a orquestração que levou à derrubada da candidatura de Roseana (vide nota anterior), ao invés de tornar o PFL um partido de oposição provocou justamente o efeito contrário, transformando-o bem como aos "clãs" Magalhães e Sarney, em aliados do PT, isto é, "incorporando-os num só sistema cujo elemento diretor é o Partido revolucionários". O que poderia demonstrar de modo mais patente o despreparado de nossos oligarcas, conservadores e direitistas para enfrentar o rolo compressor da máquina gramscista? Que não reste dúvidas quanto ao sucesso absoluto da "luta pela hegemonia". - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) FASE ESTATAL O Moderno Príncipe [36] Vol. III, pp. 222 e 223; Vol. III, pág. 14; Vol. III, pág. 16; Vol. III, pp. 60 e 61; Vol. III, pág. 59; Vol. III, pp. 18 e 19; Vol. III, pág. 254; Vol. III, pp. 307 e 308. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 1. O Moderno Príncipe -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=- (...continuação...) O Partido não se integra ao Estado nem exerce o governo: "Não reina nem governa, mas é o órgão político que tem o poder de fato" (Op. Cit.); exerce a função hegemônica sobre a sociedade civil e, ao mesmo tempo, mantém vinculação com a sociedade política, sobre a qual exerce função de direção intelectual e moral. Pode-se imaginar que Gramsci pretendeu distribuir as funções reformadoras entre o Partido e o Estado, porém sem perda da unidade de desempenho e de objetivos: - O Partido, o agente diretor (orientaddor); - O Estado, o agente transformador. O Partido deverá exercer também função de polícia, isto é, de defesa de uma ordem política estabelecida (legal) contra grupos reacionários depostos do poder ou para conter elementos progressistas radicais que exorbitam em suas concepções e ações. (*) Aliás, função de polícia que é exercida por qualquer partido político de um grupo dominante. O Partido é progressista quando funciona conforme o centralismo democrático. Torna-se reacionário, quando tende para o centralismo burocrático (alusão ao modelo soviético). Uma parte do Partido deverá estar voltada para o "jacobinismo", isto é, para uma linha partidária de oposição radical ao liberalismo (mas partidário da "democracia") e de exaltado ardor revolucionário. [37] (**) 2. A Crise Orgânica -=-=-=-=-=-=-=-=-=- A *Crise Orgânica* é o momento histórico em que o grupo dominante, representado pela sociedade política, perdeu a hegemonia, o consenso e a integração com a sociedade civil, (***) tornando o estado burguês vulnerável à conquista e à destruição pelas classes subalternas guiadas pelo Partido revolucionário. [38] (****) Nem todo rompimento entre governados e governantes é uma *crise orgânica*, digamos, uma *crise institucional*. Há também crises que se colocam em níveis menores: - Crises político-sociais - Crises de hegemonia ou de autoridade.. Estas crises de menor profundidade podem evoluir para uma crise institucional, principalmente quando conduzidas por uma "vontade consciente" que as oriente num processo progressista, na ocasião promissora para a conquista do poder ou em oposição a um movimento reacionário. [A seguir: a) Crises Político-Sociais] NOTAS: (*) Donde o fato de as principais "matadoras" de comunistas terem sido não as ditaduras direitistas, e sim as próprias ditaduras comunistas. Fidel Castro, por exemplo, eliminou ao longo dos anos praticamente todos os seus antigos companheiros de revolução, e Stálin dizimou quase todos os líderes e participantes destacados da revolução de 1917. Quando o Brasil se tornar uma ditadura comunista é pouco provável que parte significativa dos atuais socialistas e comunistas não encontre destino idêntico. - Alexander (**) O PSTU, o PCO e as alas radicais do PT, apesar de tecerem críticas ásperas à democracia, participam do jogo democrático e encaixam-se feito uma luva nesse perfil. - Alexander (***) Alguma semelhança com a situação atual do Brasil? - Alexander (****) Dois exemplos de "classes subalternas guiadas pelo Partido": MST e CUT. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [37] Vol. III, pp. 16 e 17; Vol. III, pág. 210. A Crise Orgânica [38] Vol. III, pp. 37 e 38. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 2. A Crise Orgânica -=-=-=-=-=-=-=-=-=- a) Crises Político-Sociais -------------------------- Estas crises são produzidas por fenômenos políticos e sociais (e também econômicos) e são "não-predeterminadas, não-organizadas, não-dirigidas de modo evidente" (Op. Cit.), nos quais os governados expressam seu descontentamento e reivindicações por meio de "pressões psicológicas" ("pressões de base"). [39] As classes populares exigem dos dirigentes providências ou modificações econômicas, sociais e políticas. Ocorre uma "fratura" momentânea na unidade social em razão das falhas da sociedade política e das exacerbações no interior da sociedade civil, gerando uma "crise conjuntural" ou ocasional. Ou seja, sem desdobramentos ou conseqüências históricas importantes. A divergência popular com a política econômica do governo, exigindo modificações, significa perda de confiança. A repetição destes momentos de antagonismo indica o surgimento da crise político-social e o enfraquecimento do estado. Neste ponto, torna-se oportuno comentar os denominados "movimentos espontâneos", isto é, aqueles que, naturalmente, irrompem no seio da massa ou de um segmento da sociedade civil, como fenômeno reivindicatório expressivo ou como perturbação na ordem ou insurgência. Desde logo pode-se dizer que não existe um movimento espontâneo "puro". Haverá sempre um elemento dirigente por trás ou no meio dele. (*) Geralmente estes acontecimentos envolvem grupos e classes sociais que ainda não passaram da condição econômico-corporativa e que ainda não alcançaram a condição de *classe nacional*. Estes movimentos espontâneos podem, porém, ser transformados, por meio da "educação", numa "mentalidade moderna". (**) Negligenciar ou desprezar estes movimentos é um erro que pode ter graves conseqüências. É preciso dar-lhes uma "direção consciente" e elevá-los a um plano superior, conferindo-lhes um sentido político objetivo. Isto é tarefa do Partido. (***) A unidade da "espontaneidade" e da "direção consciente", isto é, a disciplina, fará a diferença entre a ação política real das classes subalternas e a simples aventura de grupos que manipulam as massas para realizar seus próprios objetivos. (****) Os movimentos espontâneos de estratos populares mais amplos tornam possível o advento do poder das classes subalternas mais avançadas em razão do enfraquecimento objetivo do estado burguês. Em outras palavras, podem abrir caminho e proporcionar os meios para a tomada do poder. [A seguir: b) Crises de Hegemonia ou de Autoridade] NOTAS: (*) Sempre que "do nada" irrompem manifestações mundiais contra ou a favor de algo vemos um exemplo disso. Uma característica central do método gramscista é justamente essa horizontalidade, a descentralização das estruturas decisórias da fase pré-estatal, o qual também é um modo extremamente eficiente de se conseguir orquestrações que soem verossímeis a quem não saiba o que está ocorrendo. - Alexander (**) Alguém aí "vislumbrou" Paulo Freire? Mas não só ele, claro. A educação também se dá pela imprensa e pelos demais meios de comunicação (aparelhos privados de hegemonia), conforme já explicado. - Alexander (***) Por exemplo, pegar uma reivindicação legítima, como o desejo de possuir terras para poder plantar, e transformá-lo num movimento guerrilheiro. É o Partido (PT) dando uma "direção consciente" (MST) a um processo reivindicatório que de outro modo ainda seria "econômico-corporativo", isso é, agricultores pobres querendo *possuir* terras, tê-las tão somente como sua propriedade privada. - Alexander (****) Aqui um exemplo da cisão esquisofrênica já mencionada. Gramsci faz força para não perceber que no fim das contas é, sim, manipulação das massas com vistas a interesses particulares. Interesses de quem? Da classe dos intelectuais revolucionários que, eles sim, tomarão o poder. Em momento algum este será de fato transferido para as "classes subalternas", pois a condição para tanto, qual seja, ver completada a transformação de todos em "intelectuais orgânicos", é claramente irrealizável, um objetivo idealizado a mascarar e tão somente justificar de modo "ético e moral" (finalista, teleológico) os verdadeiros interesses dos revolucionários, e os meios que usem para alcançá-los. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [39] Vol. III, pp. 245 e 246; Vol. III, pág. 186; Vol. III, pp. 194 e 197; Vol. III, pág. 198. [Gostaria de lembrar que o livro "A Revolução Gramscista no Ocidente: A Concepção Revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere", de Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, Rio de Janeiro: Estandarte Editora E.C. Ltda., 2002, 128p., pode ser adquirido com a editora a R$19,00, o que sugiro seja feito por quantos estejam considerando o texto útil. Fone: (21) 2232-0375. Fax: (21) 2224-1028. E-mail: ombro@ombro.com.br - Alexander] TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 2. A Crise Orgânica -=-=-=-=-=-=-=-=-=- b) Crises de Hegemonia ou de Autoridade ---------------------------------------- As crises de hegemonia ou de autoridade acontecem em certas ocasiões da vida política do país quando uma classe ou grupo social discorda e rompe com seu partido e com os seus homens, aqueles que o representam e o dirigem na sociedade civil e na sociedade política. Deixam de ser reconhecidos como sua expressão, rompendo os laços de hegemonia do partido dirigente e do governo, criando uma situação de hostil oposição. [40] A crise pode decorrer tanto do fracasso de um projeto político da classe dominante, como do fato de que elementos subalternos passaram da passividade a um inesperado ativismo político, apresentando exigências de certa forma revolucionárias. A divergência dos grupos sociais com os seus partidos e, por extensão, com o governo, dão oportunidades às soluções inadequadas e perigosas para o movimento revolucionário. A situação imediata se torna delicada e perigosa pois pode favorecer o surgimento de forças providenciais, representadas por lideranças carismáticas salvadoras e reacionárias, trazendo o risco de soluções de força que ameaçam com retrocesso a transição revolucionária em curso. A única solução capaz de resolver a crise, afastando o perigo letal representado pelo surgimento de forças "providenciais" que podem chegar ao poder nestas ocasiões, é o recurso normal de unificação dos partidos sob a liderança de um deles, aquele que melhor represente as reivindicações das classes insatisfeitas; formação de alianças ou de frentes progressistas. [A seguir: c) Crise Institucional ou Crise Orgânica] REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [40] Vol. III, pág. 60. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 2. A Crise Orgânica -=-=-=-=-=-=-=-=-=- c) Crise Institucional ou Crise Orgânica ----------------------------------------- Quando a classe dominante perde o consenso da sociedade civil ou de uma fração considerável dela, significa que deixou de ser dirigente e só permanece dominante graças apenas ao poder de coerção que ainda dispõe, exercendo-o por intermédio da sociedade política. Houve o rompimento das massas com a ideologia tradicional. [41] Neste ponto da vida nacional, como se refere Gramsci, "o velho morreu e o novo não pode nascer". É a *crise orgânica*, que pode antecipar as condições para a tomada do poder, mas que deve ser conduzida e usada para que se realize esta meta. Sendo que a crise é o "resultado do concurso contraditório de forças, é preciso tentar ser a força determinante". O Partido se constitui como organização política exatamente para ser capaz de dirigir a crise. Torna-se necessária uma iniciativa política adequada para liberar o "impulso econômico dos entraves da política tradicional" e modificar a direção política de certas forças que devem ser absorvidas a fim de realizar um "bloco histórico econômico-político novo, homogêneo, sem contradições internas" (Op. Cit). (n) As forças "semelhantes" (progressistas) só se unirão a um organismo novo, o partido único, por meio de uma "série" de compromissos ou pela força das armas, unindo-se num plano de aliança ou subordinando uma à outra pela coerção. O emprego da força é apenas uma hipótese, pois a única possibilidade aceitável de aliança com elementos afins é o compromisso. A força só deve ser recurso empregado contra os que se opõem ao projeto revolucionário. Não contra aqueles elementos que se querem assimilar e cuja cooperação é preciso obter. (...continua...) NOTAS: (n) O termo "bloco" tem em Gramsci o sentido de unidade de elementos distintos, opostos ou contraditórios cujo concurso, em um dado momento, cria as condições para se obter um resultado concreto. Por exemplo, "bloco cultural-social" é aquele que integra intelectuais e a massa na fase de luta pela hegemonia; "bloco econômico-político", a reunião de forças afins antagônicas em um todo homogêneo e sem contradições internas. "Bloco Histórico" concreto refere-se à unidade ou nexo definitivo entre a estrutura e a superestrutura (de elementos do mundo econômico de produção e da sociedade civil) que se produz para o advento da sociedade regulada. REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [41] Vol. III, pág. 184; Vol. III, pp. 295 e 296; Vol. III, pág. 70; Vol. III, pág. 79; Vol. III, pág. 96; Vol. I, pág. 199; Vol. III, pág. 44; Vol. III, pág. 61. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 2. A Crise Orgânica -=-=-=-=-=-=-=-=-=- c) Crise Institucional ou Crise Orgânica ----------------------------------------- (...continuação...) As crises econômicas por si mesmas não provocam imediatamente a crise orgânica institucional mas permitem a difusão de certas idéias e pensamentos que se podem encaminhar para um subseqüente agravamento da crise. (*) Nos regimes parlamentaristas, a crise pode resultar do seu mau funcionamento, por razão orgânica ou artificial, particularmente pelas dificuldades crescentes de se formarem os gabinetes, da instabilidade dos próprios gabinetes e da freqüência cada vez maior das substituições de governo. (**) A crise no parlamento é o reflexo da crise dos partidos políticos, pela multiplicação deles e pela dificuldade e instabilidade de gestão orgânica. Os escritos de Gramsci não se estendem às decorrências práticas da crise parlamentar mas permitem deduzi-las: A crise de governo no parlamentarismo pode oferecer, no seu momento agudo e associado à instabilidade econômica e social, oportunidade do partido das classes subalternas se apresentar como única solução institucional, mesmo que seja minoria, mas por sua organização, coesão e hegemonia. Assim pode chegar ao governo e exigir poderes excepcionais para resolver a crise. Este pode ser o primeiro passo concreto para o golpe de estado incruento e para a tomada do poder. Foi assim na Itália em 1922 com o fascismo, na Alemanha em 1933 com os nazistas e na Checoslováquia em 1946, com os comunistas. A crise parlamentar é um caminho interessante de se chegar ao poder, mantendo todas as aparências de fidelidade ao jogo político democrático. (***) A crise orgânica pode ser um momento, inesperado ou previsível, conseqüente de um processo político em deterioração. Entretanto, como Gramsci não acreditava no "mecanicismo", certamente deve ter considerado o "protagonismo" do Partido para promover este momento, por meio da subversão, embora tal ação não esteja explicitada em seus cadernos. Em qualquer caso, porém, uma vez irrompida a crise, aproveitá-la (para isto se deve estar preparado) para provocar a "ruptura" e tomar o poder. [A seguir: 3. A Tomada do Poder] NOTAS: (*) Adivinhem? Negociar com o FMI "em nossos termos"; "investir em salário e produção e não em pagamento de banqueiros"; interromper o pagamento da dívida externa; "vamos cumprir os contratos a nosso modo"; defender nossa "soberania" abandonando as negociações sobre a ALCA; e assim por diante. Depois, colocar na especulação internacional, no "imperialismo" norte-americano, nos banqueiros e nos capitalistas a culpa pelos problemas que necessariamente advirão da implementação de uma ou mais dessas idéias. Por fim, pedir mais poderes legais para resolver a crise e... o restante o texto descreve. - Alexander (**) A Argentina, cujo cenário é parecidíssimo com o descrito (salvo os detalhes) logo vem à mente. Exatamente como determinado por Fidel Castro na, se não me engano, primeira reunião do Foro de São Paulo: "Vamos recuperar na América Latina tudo que perdemos no Leste Europeu." - Alexander (***) Importante notar que no presidencialismo o esquema será algo diverso. Embora não tendo sido apresentado, pode ser facilmente intuído a partir das descrições referentes ao parlamentarismo. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= b) Modelos Históricos de Tomada do Poder ----------------------------------------- Gramsci traz longos comentários sobre a Revolução Francesa, sobre a Unificação ("Risorgimento") da Itália, de outros eventos revolucionários e sobre o pensamento de Maquiavel em *O Principe* e em *A Arte da Guerra*. (*) Embora esteja extraindo ensinamentos práticos destas fontes, sempre procura dar a impressão de estar falando genericamente. Não entra em detalhes nem indica categoricamente a forma política ou militar para a conquista do Estado. Entretanto, o seu espírito pragmático se revela nos comentários e não deixa de considerar as alternativas objetivas para a chegada ao poder, não se iludindo com o determinismo histórico. Parece-nos que este momento crucial da estratégia gramscista é, em quase tudo, semelhante ao mesmo momento da concepção leninista. A diferença está na fase que o antecede. O assalto ao poder leninista é precedido pela "fase democrático-burguesa" que culmina na criação das condições subjetivas e objetivas para o desencadeamento da tomada do poder. A concepção gramscista, diferentemente, é precedida pela obtenção da hegemonia e do consenso na sociedade civil e pela neutralização das "trincheiras" da burguesia. No momento da crise orgânica, a sociedade já está "subvertida" e suas defesas já estão "minadas". (**) Pode-se antecipar que a ruptura (superação inopinada da legalidade) e a tomada do poder assumem formas diferentes em cada país e em cada circunstância histórica. Aliás, a estratégia marxista-leninista aplicada aos países de tipo "Oriental" após 1917, tomou a feição particular da situação de cada um deles; nenhum movimento revolucionário foi igual ao outro, ainda que a concepção estratégica leninista fosse sempre a mesma. A experiência revolucionária internacional do marxismo-leninismo exemplifica os modelos de ruptura e e tomada do poder e traz ensinamentos que podem ser cogitados como atos de força eficazes pelos condutores da revolução de concepção gramscista. Os exemplos que a seguir serão citados ocorreram todos após o falecimento de Gramsci em 1935 e, portanto, não foram do seu conhecimento, exceto a Revolução de 1917. Aparentemente, ele teria em mente que a tomada do poder poderia ser realizada pela "via parlamentar" nos países europeus parlamentaristas, como fizeram os fascistas em 1922 na Itália e, mais tarde, os comunistas na Checoslováquia em 1946. (...continua...) NOTAS: (*) O autor certamente se refere à obra clássica de estratégia militar chinesa, "A Arte da Guerra", de Sun Tzu. Recomendo a todos que a leiam, mas (e isso é importante) levando-a a sério, ou seja, não como nessas releituras modernosas que tentam encaixá-la no mundo das disputinhas comerciais. Afinal, como o Olavo de Carvalho disse numa de suas aulas, nas relações comerciais os únicos riscos sérios que o estrategista tem são a falência e/ou, nos casos mais sérios, a prisão, sendo que mesmo esta se dá com todas as regalias dos modernos princípios jurídicos e carcerários, ao passo que numa guerra verdadeira o *mínimo* que se pode esperar em caso de falha é a morte. Quem não mantiver isso em mente de modo absolutamente claro durante a leitura certamente não vai conseguir absorver o que Sun Tzu quis passar. Completada a leitura, ou mesmo durante ela, sugiro que comparem o aprendido com as atitudes atuais do governo chinês para com as nações estrangeiras, sobretudo para com os EUA. Como os generais chineses são leitores dedicados da Arte da Guerra e exímios praticantes desta, importantes revelações sobre os novos rumos da estratégia comunista internacional advirão desse exercício. - Alexander (**) Sugiro que entendam o termo "minadas" num sentido forte, embora obviamente ainda figurado. Um campo minado é aquele de trânsito imensamente difícil, pois quem nele penetra pode facilmente ser explodido, mesmo que vá muito lentamente desarmando as minas uma a uma. Se depois de encerrada a guerra já é difícil, durante a mesma o é muito mais. Essa analogia se tornará mais clara quando chegarmos à parte que trata das diversas "trincheiras da burguesia" e dos métodos ("temas explorados" e "idéias-força") para miná-las. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= b) Modelos Históricos de Tomada do Poder ----------------------------------------- (...continuação...) Vejamos alguns modelos revolucionários leninistas ocorridos após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): 1) Levante Armado +++++++++++++++++ Consiste na ação armada inopinada executada por uma força sob controle do Partido, regular ou irregular, contra o governo, para derrubá-lo e tomar o poder. O levante armado foi o modelo de assalto ao poder da Revolução Bolchevista de outubro de 1917 na Rússia, tornando-se o modelo clássico leninista. O "braço armado" (força militar do partido) é constituído por uma força popular reunindo grupos e unidades de soldados, marinheiros e operários revolucionários. A ação de assalto ao poder é predominantemente urbana, culminando com a deposição do governo e a imposição da nova ordem revolucionária. É interessante recordar que exatamente este modelo revolucionário foi empregado no Brasil na tentativa de tomada do poder conduzida pelo Partido Comunista Brasileiro em novembro de 1935, usando forças revoltadas do Exército regular. O levante armado pode ser imediatamente decisivo ou pode ter prosseguimento numa guerra civil posterior à derrubada do governo em razão de uma contra-revolução burguesa, como exatamente ocorreu na Rússia depois de 1917. 2) Guerra Civil Revolucionária ++++++++++++++++++++++++++++++ Consiste na guerra interna em que dois ou mais partidos ou grupos nacionais se colocam militarmente em confronto na disputa do domínio ou do poder no país. A guerra civil inclui ações militares expressivas com duração prolongada e envolve a definição de áreas do território sob controle de cada um dos contendores. O braço armado do Partido é representado por um "exército popular" de certo vulto. As ações são inicialmente irregulares (guerrilha rural), passando progressivamente para operações regulares. (*) A guerra civil revolucionária foi o modelo da Revolução Chinesa maoísta (1927 a 1949). 3) Guerrilha Foquista +++++++++++++++++++++ Forma de guerra civil revolucionária em que as ações são predominantemente irregulares e conduzidas inicialmente a partir de um "foco guerrilheiro" (revolução sem partido). A guerrilha foquista foi o modelo da Revolução Cubana castrista (1958-1959). O braço armado foi constituído por uma força guerrilheira cujo núcleo foi preparado no exterior e introduzido secretamente no país. As ações de guerrilha rural são conduzidas com apoio de ações do terrorismo urbano. (...continua...) NOTAS: (*) Pensem na Colômbia atual. Aliás, para muitos (Olavo de Carvalho incluso) o golpe militar no Brasil teve como um de seus objetivos impedir a eclosão duma guerra civil entre comunistas, governo e milícias paramilitares. Não fosse o golpe a hoje provavelmente estaríamos vivendo situação semelhante à colombiana, isso se já não tivéssemos nos tornado uma ditadura do proletariado. O outro objetivo, claro, foi evitar também o etapismo, vide o próximo e-mail. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= b) Modelos Históricos de Tomada do Poder ----------------------------------------- (...continuação...) 4) A Via Parlamentar ++++++++++++++++++++ Modelo de conquista do poder nos regimes parlamentaristas e que foi empregado na Revolução Tcheca (1945 a 1946). As ações são predominantemente políticas, conduzidas sob a forma de "pressões de base" (agitação e propaganda, greves, sabotagem, demonstrações, intimidações, etc) e "pressões de cúpula" (bloqueio e obstrução parlamentares, oposição radical, exigência de mudanças, terrorismo, etc) para levar o regime à inviabilidade e ao impasse institucional. Fazendo crer que a única solução possível é o Partido revolucionário, coeso e disciplinado, é exigido o governo com poderes excepcionais para resolver a crise. Conquistado o governo, tomadas as posições de força, afastados os opositores principais e com o respaldo do "braço armado" do Partido, é consumado o golpe-de-estado e a tomada do poder. O braço armado é constituído de milícias populares (ex-combatentes e reservistas), guardas das fábricas (trabalhadores armados) e organizações policiais que estiverem sob controle do Partido. Numa apreciação de várias passagens dos Cadernos, parece que Gramsci vislumbrou neste modelo tático de chegada ao poder, o caminho viável e muito apropriado para os países de regime parlamentarista. É interessante repetir que, antes da Revolução Tcheca, tática semelhante foi usada pelos fascistas (1922) que obtêm a nomeação de Mussolini como chefe de gabinete. Em 1925 já estava investido de poderes ditatoriais. Tática idêntica foi adotada pelos nazistas na Alemanha (1933) obtendo a nomeação de Hitler para Chefe de Governo. Em 1934, se fez chefe do estado com plenos poderes. 5) Via Pacífica para o Socialismo ou "Etapismo" +++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Modelo de conquista do poder nascido com o conceito de "Coexistência Pacífica" (*) adotado por Krushev e aprovado pelo XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956). As ações são predominantemente políticas (principalmente alianças políticas) para a conquista eleitoral do governo ("revolução nacional-popular" ou "democrático-popular"). Uma vez conquistado o governo, a etapa seguinte, após a criação de condições objetivas, (**) é o golpe-de-estado ("revolução socialista") e a conquista do poder. O braço armado, constituído por milícias populares e grupos operários e camponeses, é o instrumento de respaldo do golpe-de-estado. Pode incluir segmentos aliciados das forças armadas. É interessante recordar que este modelo de tomada do poder foi tentado por Salvador Allende no Chile (1970-1973), que chegou a se eleger presidente da república apoiado por uma frente de esquerda (Unidade Popular). Fracassou quando não conseguiu reunir as condições para o golpe-de-estado. Este modelo foi também tentado no Brasil (1961-1964) em que a conquista do governo seria procedida por meio de seu domínio político (aliança com o presidente em exercício) e físico (infiltração, controle e pressões de base e de cúpula), e não propriamente pela via eleitoral. (***) (...continua...) NOTAS: (*) "Lula Paz e Amor"? - Alexander (**) Até 2006 o "Dr. Lula" terá direito de escolher CINCO ministros para o Supremo Tribunal Federal, condição mais do que objetiva por sinal. - Alexander (***) Em meio a um longo editorial à página 23 da edição n.° 213 da arqui-socialista revista Carta Capital, de 30 de outubro de 2002 (comemorativa da vitória de Lula), seu diretor de redação, Mino Carta, deixou escapar o seguinte (os destaques são meus): "(...) [Lula] superou de longe as previsões do [General] Golbery [do Couto e Silva]. Que o general descanse em paz, sem ter de assistir, de alguma forma, AO RETORNO DO BRASIL AOS ANSEIOS POPULARES PRÉ-1964, anseios sobretudo **POTENCIAIS** [atenção para esse termo - Alexander], e logo ceifados no nascedouro. Retorno, sim, mas os anseios hoje não são esboçados tenuamente, mais escritos no destino do que de fato nutridos. Hoje TUDO ESTÁ CLARO. Daí a importância extraordinária desta eleição: o Brasil sabe o que quer. E o que não quer. "(...) A vitória do PT, primeiro partido brasileiro DIGNO DESTE NOME [!], vai ecoar INEVITAVELMENTE em TODOS OS CANTOS DO SUBCONTINETE [!!]. (****) Lula tem a chance de transformar uma vocação de **POTÊNCIA** [eis o termo novamente - Alexander], própria de um país do porte do Brasil, em papel EFETIVAMENTE DESEMPENHADO." (****) Como disse Fidel Castro: "Vamos recuperar na América Latina tudo que perdemos no Leste Europeu." Senhores, sejam bem vindos ao inferno. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= b) Modelos Históricos de Tomada do Poder ----------------------------------------- (...continuação...) 6) Rebelião Popular +++++++++++++++++++ Modelo tático etapista que consiste na derrubada e conquista do governo pela força, como etapa anterior ("revolução popular-democrática") à tomada do poder pelo golpe-de-estado ("revolução socialista"). O braço armado é constituído por grupos armados urbanos (força principal) e por grupos guerrilheiros rurais (*) que atuam em apoio e em reforço à luta urbana. As forças revolucionárias se destinam a derrubar o governo executivo (levante armado) no contexto de uma frente revolucionária. Também serão o respaldo para o golpe-de-estado que realizará a conquista do poder. Este modelo revolucionário foi tentado pela Revolução Sandinista na Nicarágua (1979). Fracassou porque não conseguiu criar as condições para promover o golpe-de-estado. * * * Numa rápida apreciação destes casos históricos, pode-se verificar que a ruptura e a tomada do poder podem ser conduzidas pelo emprego de três atos de força diferentes: - Golpe-de-Estado (conquista do poder) - Levante Armado (assalto ao poder) - Guerra Civil Revolucionária (tomada ddo poder) Deve-se lembrar que estes diferentes atos de força podem ter as mais variadas concepções, todas condicionadas pela situação e pelo momento histórico de cada país. (**) No golpe-de-estado, o braço armado do partido é principalmente o elemento de força que respalda a ação política ousada e definitiva. No levante armado e na guerra civil revolucionária, a organização armada é instrumento político que realiza o ato decisivo de tomada do poder. (***) Há ainda duas circunstâncias históricas particulares em que o emprego da violência armada revolucionária não tem propriamente finalidade de tomada do estado burguês, mas a de instituição do poder nacional-popular: (****) - A *Guerra de Libertação Revolucionáriia* como, por exemplo, a luta de Tito contra o invazor nazista na Iugoslávia (1941-1945); - A *Guerra de Independência Revolucionnária*, como a que ocorreu em Angola e em outros países africanos após a Segunda Guerra Mundial. [A seguir: c) Braço Armado do Partido] NOTAS: (*) Esse é um papel que o MST pode tomar dependendo dos rumos da revolução brasileira. Porém, é mais provável que sua função futura seja apenas apoiar o golpe lidando com os prováveis descontentes do meio rural, sem a necessidade de se explicitar como movimento guerrilheiro. Na área urbana: Comando Vermelho e similares que, tendo armamento militar, não estão se preparando pra enfrentar polícia coisíssima nenhuma, e sim o exército caso o levante armado se faça necessário. Na área rural: MST, cujas invasões falam por si mesmas. Ambos notoriamente treinados e/ou apoiados pela esquerda. - Alexander e Fabio (**) Se para alguém a distinção não ficou clara, deixem-me detalhar: - "Conquistar o poder" (método do golpee-de-estado) é obter o máximo de poder possível dentro de uma estrutura governamental/estatal já existente. Assim, quando chega a hora de fazer a transição para o socialismo é o próprio governo quem a faz. Ou seja, a revolução ocorre de dentro para fora, e se houver alguma luta armada esta será entre o governo já constituído (e conquistado) e grupos agindo contra ele; - "Assaltar o poder" (método do levantee armado) é o processo inverso, quando há grupos revolucionários socialistas fora do governo e este se-lhes opõe. Os revolucionários tentam, por meio da violência, enfraquecer o governo, derrotá-lo, eliminá-lo e então realizar a transição; - Por fim, "tomar o poder" (método da gguerra civil revolucionária) ocorre quando temos de um lado um governo que domina apenas parte do território que oficialmente lhe pertence, e do outro uma força revolucionária que "tomou" a outra parte e às vezes até se constitui numa espécie de governo paralelo responsável por ela (qualquer semelhança com o Rio de Janeiro atual *não é* mera coincidência). Como o objetivo dos dois grupos é obter o domínio de todo o território, ambos necessariamente entram em conflito armado, com o mais fraco tendendo a preverir táticas guerrilheiras. Quando os revolucionários "tomarem" todo o território, vencendo a guerra, eles realizarão a transição. - Alexander (***) Em outras palavras, no golpe-de-estado o braço armado tem como função apenas apoiar a "ruptura" que o governo está fazendo, tomando atitudes repressoras contra quem se opuser e contando para isso com a eventual boa vontade de forças oficiais que preferem não se envolver. Dependendo do nível de poder que o governante golpista tenha conseguido obter antes de iniciar a ruptura, pode até ocorrer de o braço armado não precisar agir, dado que o exército e as forças policiais estariam ambas plenamente de acordo (não seriam meramente "neutras") com tudo que está acontecendo e cuidariam elas mesmas de reprimir as forças reacionárias. Já nos demais casos não, aí é o braço armado quem está na linha de frente da revolução e é ele quem acaba promovendo a ruptura. A diferença entre os diversos métodos (e modelos históricos) restringe-se pois, ao menos neste aspecto, à quantidade de sangue derramado. Menos (talvez *muito* menos) no golpe-de-estado, e *muito* mais na guerra civil. - Alexander (****) Isto é, não há um poder instituído que se deva derrubar, no máximo um invasor externo. Derrotado este, serão os revolucionários os primeiros (e únicos, claro, ou a situação se transforma em guerra civil e cabe na outra classificação) a instituir o novo governo e o novo Estado, o qual já surgirá como ditadura do proletariado. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= c) Braço Armado do Partido -------------------------- Não descartando a "guerra de movimento" no momento decisivo, Gramsci admite (embora não explicitamente) a necessidade da preparação do instrumento armado para a ocasião do seu indispensável emprego. Deverá ser feita com antecedência e, evidentemente em absoluto sigilo. Comentando a resistência de Gandhi na luta pela independência da Índia, Gramsci chama de "guerra subterrânea" a preparação clandestina de armas e elementos combativos de assalto. [44] A preparação dos elementos armados pode ser ostensiva quando a hegemonia das classes subalternas for concreta ou quando o Estado estiver muito enfraquecido e com seu poder debilitado. (*) Poderão ser formados "grupos de assalto" ou "grupos de segurança" armados do Partido, dos sindicatos e das fábricas. Assim foram organizadas forças de choque como os "camisas pardas" nazistas da Alemanha e os "camisas negras" fascistas na Itália. (**) Movimentos reivindicatórios radicais urbanos e rurais poderão ser progressivamente armados, aumentando a ousadia das ações ilegais (invasão de terras e edifícios, interdição de instalações e de vias de transporte, etc.), com a indiferença e a conivência da sociedade civil e a omissão da sociedade política. (***) Apesar de fazer várias referências aos atos de força em certos eventos políticos, Gramsci não descreve abertamente o seu entendimento sobre o braço armado que permitirá a tomada do poder. Refere-se ao "arditismo" e à guerrilha mas dá-lhes importância de forças complementares. (o) Na época em que os Cadernos do Cárcere foram escritos, as experiências revolucionárias vitoriosas recentes eram apenas as da Comuna de Paris (1871) e as da Revolução Bolchevista de 1917. A primeira se caracterizou pela rebelião popular conduzida por grupos armados aos quais se associou a Guarda Nacional, força regular. Na segunda experiência, a força revolucionária se formou de grupos de soldados, marinheiros e operários armados, organizados pelos sovietes e conduzidos por seus líderes. Aparentemente era um elemento improvisado mas, na verdade, já estava anteriormente reunido, contando com a experiência militar dos seus componentes. Nos dois exemplos históricos, além dos integrantes voluntários, havia uma direção militar aproveitada ou preparada pelo Partido. Podemos supor que esta era a experiência que deve ter sido recolhida por Gramsci. Porém há que se considerar que a organização do braço armado do Partido se dará em condições próprias e diferentes de [sic] cada país. (...continua...) NOTAS: (o) Arditi foram unidades de caçadores alpinos, na maioria voluntários, que se notabilizaram na Primeira Guerra Mundial. (*) A situação atual do Rio de Janeiro é semelhante demais a esse cenário para ser uma mera coincidência. A articulação da revolução anda em estágio avançadíssimo e poucos o percebem. - Alexander (**) Quando da vitória do candidato do PMDB nas últimas eleições para governados do Rio Grande do Sul, desbancando oito anos de poderio petista, houve vários casos de vandalismo e agressão perpetrados por militantes petistas contra eleitores e colaboradores do vencedor, casos estes ostensivamente ignorados pelas forças policiais que, pasme, aconselhavam os agredidos a não prestar queixa pois provavelmente "não daria em nada". Oras, um tal fato *pode* não ter nada de mais, sendo antes efeito duma frustração mal-extravazada conjugada a um policiamento sobrecarregado, mas acho difícil. Tenho para mim que é o início de algo muito pior. Fiquemos atentos. - Alexander (***) Eis a descrição do Brasil em geral e, pelo menos até o momento, do Rio Grande do Sul em particular. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [44] Vol. III, pág. 124; Vol. III, pp. 122 a 124; Vol. III, pág. 125; Vol. III, Nota 87, pág. 379; Vol. III, Nota 9, pág. 385; Vol. III, pág. 76; Vol. III, pág. 78. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 3. A Tomada do Poder -=-=-=-=-=-=-=-=-=-= c) Braço Armado do Partido -------------------------- (...continuação...) Com base na experiência internacional leninista, a organização armada pode ser a seguinte: - Força principal; - Força subterrânea; - Organizações de sustentação. 1) A Força principal é a que se destina a executar o ato de força para a tomada do poder (levante armado ou guerra civil revolucionária) ou respaldar o golpe-de-estado. Pode ser uma força popular (grupos ou unidades de voluntários), uma força de guerrilha ou unidades militares rebeldes do exército regular. Após a tomada do poder, a força revolucionária principal é o núcleo de formação do "Exército Popular" ou "Exército Vermelho" que será o instrumento de imposição da nova ordem. 2) A força subterrânea é constituída de grupos de assalto (podem ser do tipo "arditi") e de grupos terroristas. Ela atua em apoio à força principal ou em ações independentes para desestabilizar a força e o estado burgueses. (*) 3) A organização de sustentação é constituída de aparelhos clandestinos de apoio ou de elementos armados, que proporcionam suporte logístico e de inteligência às demais forças e segurança de pessoas e de órgãos revolucionários na clandestinidade. Para Gramsci, o exército popular do novo Estado, é necessário para manter a ordem interna, garantir a implantação da nova ordem e até defendê-lo de uma eventual intervenção externa. Deve ter sua composição com base também na massa camponesa, (**) e deve ser completamente diferente de uma força mercenária. O autor dos Cadernos do Cárcere faz uma advertência importante: a possibilidade da luta política ou da luta armada chegar a um "equilíbrio catastrófico", a um impasse que pode representar um desastre para o movimento revolucionário. Situação em que uma terceira força intervém, dando origem ao "cesarismo", regime forte que se instala como salvador da nação. (***) 4. Fundação do Novo Estado -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-= O Novo Estado, que será fundado pelo Partido após a tomada do poder, nascerá das cinzas do antigo estado burguês num processo rápido de "destruição- reconstrução", como qualifica Gramsci. Esta etapa revolucionária envolve dois empreendimentos imediatos: - Organização do Estado-Classe ou Estaddo Ético; - Imposição da nova ordem revolucionáriia. Consolidada esta etapa, o Estado-Classe passará a desempenhar o seu papel histórico de conduzir a transformação das superestruturas e da estrutura para a realização do socialismo, estágio que antecede o advento do comunismo. [A seguir: a) Estado-Classe e o Estado Ético] NOTAS: (*) Só para variar, o Rio de Janeiro mais uma vez vem à mente. - Alexander (**) MST, de novo. - Alexander (***) E que nada impede também seja socialista. Há boatos sobre a existência de uma movimentação nesse sentido dentro do exército brasileiro, com elementos preparando-se para eventualmente realizar um golpe com o fim de *aprofundar* a transição para o socialismo iniciada com um governo Lula (o golpe não seria logo no começo, pois). E porque isso? Basicamente porque os militares querem eles mesmos ser os detentores de todo esse poder, várias vezes maior, diga-se de passagem, do que o obtido em qualquer uma das ditaduras que tivemos no decorrer do século XX, e que por isso mesmo não admitem esteja nas mãos de civis. Corporativismo, enfim. Seja como for, algo assim significaria uma mudança de método de transição para o socialismo, que passaria duma ótica gramscista para outra mais próxima do stalinismo, o que certamente nos faria ter saudades de Gramsci. A pergunta que resta, pois, é essa: uma tal movimentação existe mesmo, ou é realmente apenas um boato? Não faço a menor idéia, mas é bom lembrar que nesse campo *tudo* é possível. - Alexander TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 4. Fundação do Novo Estado -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-= a) Estado-Classe e o Estado Ético --------------------------------- O novo estado assume as características de Estado-Classe, identificando-se com os indivíduos das classes populares e, por isto, é de tipo diferente, elemento de cultura ativa e movimento para criar uma nova civilização. [45] As primeiras providências para a sua organização estão no restabelecimento (destruição-reconstrução) dos órgãos governamentais, desde logo buscando construir as bases de uma complexa e bem articulada unidade da sociedade política com a sociedade civil, em que os indivíduos se autogovernem como complemento orgânico do Estado. Corresponde à concretização de um processo de ampliação do estado iniciado na fase de luta pela hegemonia. As estruturas orgânicas já criadas ou iniciadas nas fases anteriores da transição para o socialismo deverão ser preservadas e completadas. Entretanto, enquanto a sociedade civil não tenha alcançado um estágio de desenvolvimento cultural e moral próprio e independente, há necessidade de um período de poder totalitário ("estatolatria") como forma de consolidação da hegemonia da sociedade civil e da iniciação da vida estatal autônoma ("estado ampliado"). Este estágio se assemelha à ditadura "popular-democrática" ou à "ditadura do proletariado" como entendida pelo leninismo soviético. Gramsci, porém, preocupava-se com a tendência de perenização desse estado totalitário, como ocorreu na União Soviética. Não imaginava propriamente a sua progressiva evolução para uma forma de estado "democrático" à moda do liberalismo ocidental mas a sua crescente substituição pela sociedade civil, à medida que esta fosse absorvendo certas funções de governo; evolução que vai até o desaparecimento do estado no momento culminante do advento da "sociedade regulada", o comunismo. Busca assim resolver a questão da hegemonia (consenso e direção político-cultural da sociedade civil) e da ditadura (autoridade e coerção da sociedade política), tentando um equilíbrio entre a desejada autonomia da sociedade e a imposição do Estado para realizar o processo de formação política, econômica e social que resultará no socialismo. No desempenho desta função civilizadora, a imagem que se destada é a do *Estado Ético* que promove o crescimento da sociedade civil sem anular os espaços de suas iniciativas espontâneas a livres, sem perder de vista a construção do socialismo e da sociedade regulada. Isto se fará de modo a que o indivíduo e a sociedade amadureçam na responsabilidade e na socialização do poder, fazendo desaparecer progressivamente os mecanismos de coerção do Estado que, finalmente, se transformará em "estado sem estado" no advento da sociedade regulada (o comunismo). (p) O Estado Ético é educativo e de impulso histórico, sendo capaz de orientar a economia e as potencialidades sociais na direção do interesse geral e de superação do capitalismo. Antes porém, o empreendimento inicial do Estado-Classe será o de imposição da nova ordem revolucionária e aí será efetivamente ditatorial. [A seguir: b) Imposição da Nova Ordem] NOTAS: (p) O Estado é ético quando está voltado para a realização dos fins buscados pela sociedade (o comunismo) e quando proporciona condições para que os indivíduos possam aceitar espontaneamente e livremente as iniciativas que propõe. (*) (*) Desse ponto de vista Cuba deve ser encarado como o supra-sumo da ética na esfera estatal. E não é justamente o que acontece, vide por exemplo o slogan da atual mostra paulista sobre aquele lindo país: "Cuba, a Esperança na Esquina do Mundo" (ou algo assim)? Como bem disse o Dr. Lula, Cuba é o modelo para o Brasil. Assim, quando o estado brasileiro tiver garantido as condições necessárias para que *todos* os brasileiros sempre aceitem entusiasmados o que seus governantes (do PT, claro) acharem que devem fazer (entusiasmo "religioso", como diz o próprio Gramsci), ah!, aí sim estarão bem, sem dúvida... - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) Fundação do Novo Estado [45] Vol. III, pág. 279; Vol. III, pág. 280; Vol. III, pág. 279; Vol. III, pp. 204 e 205; Vol. III, pág. 274; Vol. III, pág. 276; Vol. III, pág. 22; Vol. I, pág. 89; Vol. III, pág. 290; Vol. III, pp. 284 e 285; Vol. III, pág. 271. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 4. Fundação do Novo Estado -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-= b) Imposição da Nova Ordem -------------------------- A quetão imediata que se apresenta ao Partido-Classe (o Moderno Príncipe) e ao Estado ainda em fundação é a implantação da nova ordem. [46] É uma etapa crítica que se desenvolve em meio ao caos institucional e à perspectiva ou à realidade concreta e "catastrófica" de um retrocesso e de intervenção "cesarista", isto é, de uma força autoritária e salvadora que pode interromper o curso da revolução. O novo regime que se implanta não poderá deixar de ter o caráter militar-ditatorial. E uma das suas primeiras providências deverá ser a criação do "exército popular" ou "exército vermelho", instrumento político armado que será usado para apoiar a implantação do novo Estado e para assegurar a ordem pública. A organização militar pode ter por base o braço armado do partido e contar com o aproveitamento inicial de militares profissionais "progressistas" das desativadas forças armadas burguesas. Como já foi mencionado, o elemento camponês tem no novo exército participação indispensável, ao passo que o concurso de mercenários e "voluntários" estrangeiros nem sempre é conveniente. A segunda questão de imposição da nova ordem será o desmantelamento do aparelho hegemônico e estatal burguês (suas "trincheiras" e "fortificações"). Mas este processo de destruição deve ser seguido (melhor será simultâneo) da reconstrução e criação de novos órgãos de governo e a retomada da atividade econômica (processo de "destruição-reconstrução"). (*) A terceira questão será a superação das resistências internas do próprio movimento, dos velhos dirigentes intelectuais "teimosos", cuja atuação pode prolongar a crise. Esta questão se estende ainda à repressão ao radicalismo de certos segmentos revolucionários. (**) Finalmente, a questão que pode se apresentar sob a forma de ameaça ou de efetividade de uma contra-revolução burguesa ou de uma intervenção estrangeira. Ambos [os] eventos ocorreram na Rússia após a tomada do poder em outubro de 1917. [A seguir: 5. Transformações para o Socialismo] NOTAS: (*) Coisas como o recém sugerido "Ministério das Prefeituras" podem ser o começo da resolução da segunda questão. Note-se também que a retomada do crescimento econômico faz parte da estratégia, o que ajuda a enfraquecer e desestimular potenciais resistências que, momentaneamente iludidas pelos bons rumos da economia, se deixam cair vítimas de subversões paralelas. Lênin aplicou bastante esse estratagema nos primeiros anos da revolução russa. Óbvio porém que a natureza da ilusão varia de acordo com o estágio em que se encontra a revolução: "neoliberal" numa situação, estatizadora numa outrao, "capitalista estatal" numa terceira, terceirizadora numa quarta, "em parceria com a iniciativa privada internacional" (a la China atual) numa quinta, e assim por diante. - Alexander (*) É fácil perceber que já estamos tendo "vislumbres" da solução dessa terceira questão. O modo como os radicais do PT estão sendo isolados é bastante ilustrativo. - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [46] Vol. III, pág. 30; Vol II, pág. 260; Vol III, pág. 73; Vol. III, pág. 74; Vol. III, pag. 89; Vol. IV, pág. 105; Vol III, pág. 69; Vol. IV, pág. 229. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 5. Transformações para o Socialismo -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=- Após a tomada do poder, a fundação do novo Estado e de superação das principais questões de imposição da nova ordem revolucionária, o Estado-Classe se dedicará prioritariamente à condução das radicais e necessárias transformações para a implantação do socialismo e para o desenvolvimento das condições de passagem deste para a "sociedade regulada" [47]: - No aparelho econômico de produção; - Na sociedade e nos indivíduos; - No sistema político. As transformações se produzirão em toda a extensão e profundidade da estrutura e das superestruturas, no sentido da socialização da economia, da sociedade e da política. Estas mudanças, como superação da antiga ordem capitalista liberal, têm também significado de destruição e da reconstrução: - Destruição do sistema capitalista; - Eliminação da classe burguesa; - Superação do sistema liberal-democráttico. O processo de transformação destrói o velho e edifica o novo, operando essencialmente sobre as forças econômicas, modificando e desenvolvendo o sistema de produção. Paralelamente, se orientarão as transformações das superestruturas políticas e sociais. As mudanças realizadas nos primeiros tempos revolucionários não são absolutas mas de caráter tendencial, completando-se no progressivo desenvolvimento da construção do socialismo. O Estado, no longo e contínuo processo de mudança e de desenvolvimento, é fundamentalmente o agente desencadeador, educador e transformador, atuando na função de Estado Ético. [A seguir: a) As transformações da Estrutura Econômica] REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) Transformações para o Socialismo [47] Vol. III, pág. 286; Vol. III, pág. 28. TRANSIÇÃO PARA O SOCIALISMO V. FASE ESTATAL =========================== 5. Transformações para o Socialismo -=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=- a) As Transformações da Estrutura Econômica -------------------------------------------- A intervenção do Estado (identificado com o grupo subordinado) na economia é uma condição preliminar de qualquer atividade econômica coletiva. [48] Na economia, o aspecto central é a relação entre o trabalho e as forças de produção, ponto de referência para a sua transformação e para o estabelecimento do socialismo marxista. O desenvolvimento das forças econômicas em novas bases e a instauração progressiva de uma nova estrutura sanarão as contradições existentes na sociedade capitalista. A transformação da estrutura econômica consiste justamente na superação do sistema de produção baseado na propriedade privada e na divisão de trabalho que resulta na divisão de classes. A atividade econômica de massa, antes de mais nada, se baseia na propriedade coletiva dos meios de produção (estatização, coletivização ou gestão coletiva destes meios). Este empreendimento se tornará realidade por meio de uma vontade coletiva organizada (*), destruindo e substituindo o antigo sistema. "Quando o 'subalterno' se torna dirigente responsável pela atividade econômica de massa, (...), opera-se então uma revisão de todo o modo de pensar (...) se o subalterno era ontem uma coisa, hoje não o é mais, tornou-se uma pessoa histórica, um protagonista, (...), agente necessariamente ativo e empreendedor". "Não pode haver igualdade política (e social) completa e perfeita sem igualdade econômica" (Op. Cit.) [A seguir: b) As Transformações da Sociedade Civil e do Indivíduo] NOTAS: (*) Vide a definição gramsciana de "vontade coletiva" na parte 57 da série (a ser enviada). - Alexander REFERÊNCIAS: (In "Antônio Gramsci, Cadernos do Cárcere", tradução e edição de Carlos Nelson Coutinho com outros, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.) [48] Vol. III, pág. 53; Vol. I, pág. 328; Vol. I, pág. 237; Vol. III, pág. 261; Vol. III, pág. 285; Vol. I, pág. 106; Vol. III, pág. 224.