Word Series 03
"Saying The Words"
Por Karen Rasch  
(Parte 1/3)  
  
Nota da autora: Esta  a sequencia para "Three Little Words"
que foi relanada junto com esta historia. Voc deveria l-la
para entender o que vai acontecer aqui.  Eu sei que disse que
esta parte seria nc17, mas a parte 'vaporosa' nao aparece at a parte
II. Ento, vocs menores de idade podem ler a parte I tranquilamente.
Nao h nada aqui que v chocar alguem (exceto por algumas profanaes
moderadas). Todos os que ainda nao viram a terceira temporada podem ler
sem medo. Eu inclui apenas um spoiler para alguem que nao tenha lido a
historia, e qualquer arquivo X que aparea depois disso nao vai ser
surpresa.

Disclaimers na parte um de Three Little Words
Relacionamento  frente. Continue por sua propria conta e risco.

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Ele sabia que era ela no momento em que ouviu a batida na porta.

O conhecimento nao apareceu de um misterioso sexto sentido que eles
compartilhava, o que fazia com o que o outro soubesse o que a outra mente
pensava, sem serem necessrias dizer as palavras. No. Desta vez, sua sbita
'intuio' veio como resultado de simples bom senso.

Afinal de contas, era de se esperar que a mulher determinada que tinha
deixado um buraco na fita da secretaria eletronica dele, com as mensagens
dela, eventualmente se cansaria de seus jogos e o buscaria em sua propria
casa.

Mulder abriu a porta. A luz fluorescente do corredor o cegou por um momento.
A noite chegava cedo na primeira semana de dezembro, e seus olhos 
s tinham se acostumado ao brilho da televisao que passava o jogo de
basquete no sbado  tarde.

"Hi. Lembra de mim?" disse uma voz rouca e feminina, que tinha aparecido
com muita frequencia em suas mais recentes fantasias.

Mulder piscou uma vez, duas, ficando de p na entrada do apartamento,
tentanto clarear a viso, querendo saber se ele parecia uma coruja, tal
qual se sentia. Um brilhante par de olhos azuis o fitava de volta, 
coquetes, o cabelo cor de cobre moldando os olhos, num constrate
gneo.

"Voc no  aquela garotinha ruiva bonitinha que fica sempre me seguindo
pra todo lado?"

"Quase certo, Charlie Brown. =Eu= sou aquela garotinha ruiva e bonitinha
que tem te ligado quase todas as horas, durante  a ltima semana."

"Ahhh" ele murmurou, consciente. "=Aquela="

Dana Scully estreitou os olhos para seu prceiro, nao sabendo se
abraava ou dava um tiro nele.

Ele estava horrvel.

Bem, isso  bom, ela pensou, sem remorso. Pelo menos ela nao era a nica
que estava sofrendo. Parecia justo ele perder algumas noites de sono e
um pouco de sua paz de mente.

Afinal de contas, era culpa dele que eles estavam nessa situao.

Mesmo assim,ela reconheceu, com diverso extraviada, que ele nao deixava
de ser atraente. De p, na entrada da porta, usando cala jeans velha, ele
parecia mais jovem do que normalmente parecia quando usava seus ternos 
de trabalho. Ela sempre gostava de ve-lo em roupas casuais, provavelmente
porque a oportunidade de ve-lo fora do terno e gravata eram to raras
que sempre que ela o via assim era algo especial, e Scully apreciava
a chance de ve-lo vestido mais  vontade. 

Era uma parte dele que ele nao dividia com o resto dos seus colegas no
Bureau. Claro que contava muito o fato de que ele enchia muito bem uma
cala jeans. Mesmo com os olhos pesados, cabelo gritando por um pente, ou
o comeo de uma barba por fazer aparecendo no rosto, o homem diante dela
tinha o poder para virar cabeas. Especialmente a dela.

Sempre a dela.

"Ento... voc vai me deixar entrar?" ela perguntou, seca, depois de um
segundo ou dois, enquanto eles se encaravam. "Ou voc prefere vir aqui fora,
para me fazer companhia?"

Mulder fez uma careta de pesar, e deu um passo pra trs, para deixa-la
entrar. Scully olhou para ele uma ultima vez, ento esbarrou nele e entrou
no apartamento.

Nao era justo - ele pensou enquanto se virava para fechar a porta.
Por que a viso dela o afetava como uma chuva de vero afetava a terra
quente? Apesar da veemencia com que ele evitou este momento por semanas,
ele usou cada gota de fora que tinha para nao olhar pra ela como um idiota,
um sorriso bobo no rosto. Nossa, ela estava otima. Olhos alertas, bochechas
rosadas, o cabelo perfeito sobre a cabea dela.

Bom demais para a sanidade dele.

Mas a coisa mais enlouquecedora era que ela nem precisava fazer nenhum
esforo especial para torcer o estomago dele em ns. Ela nao estava 
toda arrumada, com maquiagem, perfumada, como se tivesse uma nuvem ao 
seu redor. Ele se virou para olhar pra ela, faminto, como sempre, para
estuda-la de novo.

Scully no notou a atitude dele. Ao invs, ela olhou ao redor do 
apartamento escuro, como se tentando medir, atravs do ambiente, o estado
de mente dele.  Enquanto fazia isso, ela abriu a jaqueta. Ele viu que debaixo
do casaco enorme, ela estava vestida casualmente tambm: cala jeans, um
cardig preto, macio, com botoes de perolas pretas e um par de botas baixas,
pretas. Nada provocante. E nem intencionalmente sedutor.

E mesmo assim, tudo que ela tinha que fazer era ficar com ele no mesmo
lugar, e Mulder tinha que lutar para se lembrar do proprio nome.

Nao foi to ruins antes de Chicago. Antes de Riggs, e da confisso que
Mulder desejou para ele e sua parceira poderem esquecer. At dizer as palavras,
ele podia fingir que nao era real. Seus sentimentos para com ela. De alguma
maneira perversa, a sua mente estava achando que, se apenas ele soubbesse,
ele nao precisava lidar com esta idia. Ele podia esconde-la, como um segredo,
como um velho socando um ba dentro do stao. Contente com a amizade de
Scully, e nada mais.

Mas agora estas emoes estavam soltas, ao ar livre. E ele nao podia
mais esconde-las. E por alguma razo, a ansiedade fsica que ele tinha sentido
para sua parceira durava mais; sua necessidade para segura-la, para enterrar
o rosto no cabelo dela, beijar seus ombros, ouvir a voz dela se quebrando ao
dizer  o nome dele. Nas semanas aps o retorno deles para D.C, ele se
encontrou acordado para ela, como se os sonhos febris que infestavam suas
noites pudessem virar realidade assim que a luz do dia aparecia.

Mas Fox Mulder sabia que isso era impossvel. E que seus braos permaneciam vazios.
E teriam que ficar assim. Ele no podia arriscar nada.

"Ento, quem est ganhando?"

De repente ele percebeu que estava fitando o chao, cego, olhando
para seus ps dentro das meias.

"Eu... eu no sei. Os Bulls estavam avanando quando eu me levantei para
atender a porta." ele olhou pra ela a tempo de pega-la estremcendo
quando ela rodou os ombros para tirar o casaco. Ele foi para onde ela estava,
e a ajudou a tirar a roupa.

"Onde est sua tipia?" ele perguntou, mal humorado, sobre o ombro esquerdo
dela.

"A tipia foi aposentada h uma semana, Mulder" ela falou, breve, girando o
brao dolorido com cuidado, para aliviar a leve puno de dor que permaneceu.
"O que voc deveria saber, caso tivesse a gentileza de passar l em casa,
ou retornar minhas ligaes."

Agora foi a vez de Mulder vacilar quando ele andou para longe dela,
pendurando o casaco no velho cabide perto da porta. Ele no tinha nenhuma
defesa. Ela estava certa. Positivamente correta. Ele era um imbecil.
Ele nao a viu desde que a deixou no apartamento dela, depois do vo 
desajeitado de Chicago. 

Claro que ele ligou todos os dias, durante a semana em que Skinner a ordenou
que ficasse de licena. Mas foram telefonemas curtos, s para conferir e se
certificar de que ela estava respirando, e se recuperando de seus ferimentos.

Mas quando ele soube, com certeza, de que ela sairia desta provao sem 
qualquer dano permanente, ele decidiu que at mesmo este contato escasso era
como tentar o destino. Pelo menos por enquanto. Talvez fosse hora de tirar
aquelas frias vencidas e no pagas, ele tentou se convencer. Fingir um
desejo sbito para fazer algo fora do trabalho, e que nao tinha nada a ver
com a mulher com quem ele dividia um escritrio. Ele ficou em casa durante
uma semana.

E nao pensou em mais nada a no ser ela.

Mesmo assim, ele nao ligou pra ela. Nao passou na casa dela. Ao invs, ele
passou a semana toda sem ver ou falar com Dana Scully. Com exceo do 
desaparecimento dela, este foi o tempo mais longo que ele ficou sem falar com
ela. Devia ser assim que o viciado em heroina se sentia quando era negado de
receber mais uma dose do que tanto precisava.

No era falta de querer falar com ela. Depois de apenas alguns dias, seus dedos
coavam para poder pegar o telefone e ouvir sua voz. Mas ele nao podia fazer
mais isso.  Nao podia fazer a ligao de cortesia, do tipo, como-voc-est-ah-
isso--bom-se-cuida-tchau. Ele queria =falar= com ela. Falar de verdade. Ouvi-la
rindo. Escutar a maneira como a mente inteligente dela poderia pegar cada
idia dele e contraria-lo sem ele se sentir ofendido. Mulder queria ouvir
aquela voz sutilmente sensual, o acalmando, e excitando ao mesmo tempo.

Mas para fazer isso, para ter uma conversa de verdade com sua parceira e melhor
amiga, eles teriam que falar sobre =aquilo=. Eles teriam que discutir sobre
o que tinham descoberto em Chicago.

E este era um assunto que ele simplesmente nao podia enfrentar.

"Eu sinto muito, Mulder" ele a ouviu dizer suavemente em algum lugar atrs
dele. "Isso foi rude.  s que... eu quero dizer, o que voc estava esperando?
Que se voc me ignorasse tempo o suficiente, eu iria desaparecer?"

Ele lambeu os lbios e fechou os olhos por um momento, querendo saber
por que a mera meno de tal ocorrncia ainda tinha o poder de apavora-lo.
Esperando at poder confiar na propria voz, ele se virou para olhar pra ela.

"Nao, nao. Eu nunca desejei isso."

Scully ouviu as palavras dele, a voz rouca, a mesma que ele usou quando ela
estava no hospital; aquela da primeira vez em que ela colocou os olhos nele
depois de um tempo muito longo, e ele lhe deu uma fita de futebol americano
que ela ainda nao tinha visto.

Lembranas de como ela lutou para voltar  consciencia levaram lgrimas
para os olhos dela. Ignorando-as o melhor que pde, ela sorriu, hesitante,
e acenou com a cabea, xingando as sombras do apartamento dele, querendo 
poder ver os olhos de seu parceiro. Ela sabia que mesmo sem querer, ela o feriu
com o comentrio inocente, e lamentou o toque rude, sincera. Mas ela achava
que uma desculpa s iria piorar as coisas.

"Fico feliz por isso" ela finalmente sussurrou, esperando que estas palavras
fossem o bastante.

E pareciam ser. Ela pensou que viu os olhos dele ficarem mais suaves.

Engraado.  Mesmo depois de tanto tempo juntos, todas as conversas, todos
os segredos compartilhados, eles nunca falaram sobre nada significante
sobre o que aconteceu durante os meses em que ela ficou desaparecida.
Scully sempre pensou que Mulder evitava o tpico devido aos medos dela,
para a sensaao de desamparo e furia que sempre surgia quando ela se
lembrava do tempo que lhe foi roubado. 

Mas olhando para o rosto dele, vendo a dor cauterizada nas linhas dos olhos,
a boca apertada, os ombros tensos, ela quis saber, se talvez, s talvez, 
a razo do seu parceiro nao falar no assunto era porque era ele que nao
podia aguentar.

Ela queria ir at el. Tirar a culpa e o pesar de suas caracteristicas. Mas
ela nao tinha certeza se tinha a permissao dele. Ela nao conhecia este
lado de Mulder, e nao podia saber como ele poderia reagir. Ela temis
que se ela se arriscasse, e o abraasse, ele poderia rejeita-la, achando
que o conforto dela era piedade. Ela suspirou. Scully sabia que esta
tarde seria dificil. Ela s nao percebeu o quanto.

Nenhum deles se moveu. Mulder ficou observando-a, o olhar cauteloso, a postura
alerta. Ele parecia estar esperando por ela agir, e Scully viu nos olhos
dele que, com um pouco de persuaso, ele concordaria em segui-la.

Certo, ela pensou, desistindo. Ficar parada aqui nao vai levar a nada. Respirando
fundo, ela foi para a pequena mesa perto do sof, e ligou o abajur, que se transformou
no centro de luz da sala. Banindo as sombras, mas nao totalmente. Sem dizer uma
palavra, ela foi para a televiso, e desligou o aparelho, parando o jogo no
meio da narrao do patrocinador. Ento, olhando pra Mulder, ela se
sentou no sof de couro preto. O olhar dela dizia: pronto, ns vamos falar.
No lio se levar a noite toda. No vou embora enquanto no terminarmos isso.

Os lbios dele se torceram ligeiramente, e foi a coisa mais proxima de
um sorriso que ela viu ele mostrar desde que ela entrou. Mulder
reconheceu aquele olhar, e sabia que era inutil tentar lutar. Tremendo
a cabea, ele cedeu, e foi para o outro lado do sof, olhando pra ela.

"Sinta-se em casa, Scully. Eu no estava vendo o jogo mesmo."

"Mulder, se eu esperasse por um convite seu, Michael Jordan j estaria
no meio do =segundo= retorno dele."

Ele abaixou a cabea, como se reconhecendo a validez de sua declarao,
os olhos mostrando leve diverso. Essa diverso foi para ela, que sorriu
de volta, os lbios doces, os olhos quentes. Incapaz de segura-las por mais
tempo, Scully falou as palavras que estavam ameaando sair desde que ela o 
viu de p na porta.

"Eu senti a sua falta."

Pode ter sido um truque da luz na sala, mas ela podia jurar que ele corou.

"Eu senti a sua falta tambm" ele admitiu, suave, a voz parecendo meio perdida.

"O escritrio no foi o mesmo sem voc. Todo mundo notou isso." ela continuou,
mantendo a voz deliberadamente leve, nao querendo que ele percebesse o quanto
as palavras dele a agradaram. "Na verdade, eu devia te contar que voc ,
atualmente, o assunto quente do Bureau todinho."

"Algumas coisas nunca mudam" ele murmurou, seco, as sobrancelhas pra cima,
uma perna debaixo dele.

"Oh, no para as coisas de sempre" ela o assegurou, um brilho de diverso nos
olhos dela. "So sobre as frias, Mulder. O motivo foi uma semana longe do trabalho, que
no foi incitada por necessidade mdica. A atendente do departamento pessoal que
processou o seu pedido ainda no se recuperou. Disseram que foi preciso
arrumar sais de cheiro na hora."

"Eu tinha frias vencidas" ele falou, na defensiva.

"Tenho certeza que sim" ela concordou, suave, contente por seu parceiro
falar com ela, principalmente depois daquela noite fatal em Chicago.
"Mas, tirar ferias, por vontade propria, sem ameaas de Skinner... ou
minha... bem, voc devia saber que as pessoas iriam querer saber o motivo."

Ele deu de ombros, o olhar longe do dela mais uma vez.

"E pode me chamar de paranica- mas... eu tive a impresso de que voc
est me evitando."

"Scully--"  

"Qual o problema, Mulder?" ela caoou, suave, cortando a objeo dele,
se apoiando na direo dele, para tentar quebrar a grossa parede
que ele tinha construido. "Voc est com medo de mim?"

No comeo, Scully achou que ele poderia se recusar a responder,
devido a hesitao dele. Mas, ele somente olhou pra ela com uma mistura
de afeto e pesar, roendo o lbio inferior antes de falar. "Scully, voc
me apavora."

A confisso baixa a aturdiu.  A pergunta dela foi de brincadeira,
pois ela s queria manter vivo o clima leve entre eles por mais algum
tempo. Mas a revelao de que o homem que ela confiava, e que por alguma
razo temia a reao dela a deixou temporariamente muda. Da parte dele,
Mulder olhou pra longe, nao querendo ver o semblante dela, lamentando
as palavras que falou, e a vulnerabilidade que elas revelaram.

Mas de jeito nenhum Dana Scully iria deixar isso passar. "Por que eu 
te assusto, Mulder?" ela perguntou, colocando a mao no antebrao dele.

Ele suspirou, tremendo a cabea, um sorriso fraco nos lbios. 
"Porque voc sabe a verdade."

"Mas no  isso que voc est sempre buscando?" ela desafiou suavemente.
"O que ns dois temos procurando j h algum tempo?"

Ele esfregou a mo sobre o rosto, e virou para longe dela, lutando para
poder falar as palavras que ela pudesse entender. "De alguma maneira  mais
dificil quando as luzes esto em cima de voc,Scully. Sabia?"

Ela acenou com a cabea lentamente. Ele tinha razo. At aquele ponto,   
tudo tinha cado sobre ele. Foi ele quem teve as emoes  mostra, de quem
os segredos foram roubados. Ela,por outro lado, se encontravam na invejvel posio
de Esfinge. Os mistrios dela intatos. Sua vontade sendo a dela ainda. Ela nao
queria que fosse assim. Se dependesse dela, eles no teriam falado sobre isso
naquele chao do armazm, cheio de sangue.  

Mas Mulder - seu brilhante, e terrivelmente retirado parceiro - nao permitiu
isso. E  sem lhe dar escolha, lhe entregou o poder para quebrar o mundo dele.

Ela achava que algumas mulheres poderiam adorar a idia de ter tal poder
sobre um homem. A imagem de uma mulher de pernas longas e bonitas pulou 
em sua mente. Mas Scully no podia fazer isso. D crdito  culpa instilada pelas
freiras bem intencionadas que passaram por sua vida escolar, ou talvez os
valores antiquados com que ela foi criada por Ahab e sua amada Maggie. Mas, 
mesmo que tenha sido isso, seu proprio sendo de honestidade j era o suficiente.
Mulder j tinha sofrido muito sozinho. O campo de jogo tinha que ser nivelado. 

"E o que voc acha de dividir os refletores, Mulder?"

Ele ergueu a cabea de repente, olhando pra ela, com confuso. "O que voc
quer dizer?"

Ela sorriu, indo com cuidado, sua propria reticencia nao facilitando em nada 
as coisas que ela queria fazer. "Voc no est curioso, Mulder? S um
tantinho curioso... eu quero dizer, em nenhum momento voc me perguntou sobre
o que eu sinto."

Ele apertou os lbios. Meio sorrindo, meio fazendo careta. "Scully...
voc nao tem que fazer isso."

Mulder nao queria que ela achasse que era obrigada a dizer alguma
coisa s para faze-lo se sentir melhor. Eles nunca estariam tendo esta
conversar se nao fosse a intervenao de um maluco com uma faca. 
Deveriam haver cem razes para que os sentimentos de um para o outro fossem
deixados de lado. 

Se ela o amava de verdade, para onde eles iriam? Como eles poderiam 
continuar na mesma situao? Mulder nao via como eles poderiam ser ao
mesmo tempo, amantes e parceiros. E mesmo que isso fosse atraente, ele nao
achava que poderia enfrentar a vidade sem ela. Se ela nao o amasse... bem, ele
esperava que depois desse evento, onde os pedaos quebrado de seu corao
estariam no chao, ele poderia ser atingido por algo num lugar vital que o
tirasse de sua propria miseria.

"Eu sei que nao tenho que fazer isso" ela disse suavemente, olhando para ele
com os olhos brilhando, os que parecia pegar qualquer deslize, e ento
perdoa-lo. "Mas, e se eu quiser? E se eu quisesse dizer as palavras?"

Ele nao ousava piscar, com medo de que, se fechasse os olhos,
mesmo por um momento, ele perderia o momento que ambos desejavam e sonhavam,
aparentemente desde que ele a conheceu.

"Voc no quer me ouvir dizer 'Eu te amo', Mulder?"

A pergunta foi feita de maneira to doce, to simples, que os olhos
dele se encheram de lgrimas. "Tanto quanto eu quero respirar." ele admitiu,
nao sabendo o que tinha que dizer, mas falando de qualquer maneira.

Ela acenou com a cabea, abriu a boca para dizer mais outra coisa, mas ele
colocou as pontas dos dedos sobre os lbios dela, mas nao tocando.

"Mas eu nao acho que seria sbio."

Scully pegou a mao dele e segurou com fora entre as delas, os olhos
mostrando a ferocidade da voz. "Voc pode me impedir de dizer isso, 
mas voc nao pode me fazer parar de te amar, Mulder."

Ele apertou as maos dela, a voz dolorosa, suspirando com tristeza. "Oh, 
Scully... esta  a ultima coisa que quero fazer."

Ela soltou a mo dele, frustrada, se prendendo para nao sacudi-lo, e entao,
sentou-se em cima das proprias pernas, agitada, enquanto se ajoelhava no
sof. "Ento, por que voc est lutando contra isso? Por que voc est
lutando contra mim?"

Ele empoleirou na extremidade do sof, apoiando pra frente, os cotovelos
nas coxas, a cabea nas maos. "Porque se eu permitir que isso acontea, vou ter
que deixar ir embora tudo que veio antes disso."

"Do que  que voc est falando?"

Ele virou a cabea para olhar pra ela, e Scully ficou atordoada ao ver a 
angustia nos olhos dele. "Ns... trabalhando como parceiros. Os
Arquivos X. Nao seria permitido continuarmos trabalhando juntos, se 
descobrirem que estamos juntos. Seria a desculpa que eles queriam para
nos fecharem."

"Ento ninguem vai descobrir" ela falou, calma, olhos resolutos. "Ninguem
vai saber."

"Scully--"  

"Mulder, me responda uma coisa" ela falou, rastejando pra ele, precisando
ficar mais perto, como se a proximidade fisica fosse o suficiente para localiza-lo.
"O que voc falou em Chicago - aquela confisso nao era para voc, era?...
o que quero dizer  que... nao foi algo que te passou na cabea naquele
momento."

"No," ele admitiu, um pouco confuso sobre para onde estava indo esta
conversa. "Eu sabia h muito tempo sobre o que sentia por voc."

Ela sorriu, o sorriso que derretia coraes, um que ele esperava,
assim como uma criana espera o Natal. "Foi o que pensei. Foi o mesmo pra
mim. Eu sabia que o que sentia por voc cresceu mais do que amizade...
bem, h muito tempo."

Ele sorriu para ela, timido, surpreso pela admisso dela, e contente
alm dos limites. "E...?"

"E--voc no v, Mulder?" ela disse, o entusiasmo contagiante.
"Ns somos melhores atores do que damos crdito. Ns os enganamos, enganamos
a ns mesmos, e se estamos sendo honestos aqui, ns ns enganamos por 
meses. Quem disse que nao podemos esconder isso indefinidamente?"

O que ela ela estava propondo era to tentador, to fcil para concordar.
E Mulder queria isso mais do que qualquer coisa em sua vida. Na verdade, 
naquele momento, ele queria isso mais do que ver Samantha de novo, e ele
sentiu uma sensao de maravilha e culpa. Mas Mulder passou a melhor parte
de sua vidade tendo essas sensaes, e o que ele mais queria era sempre 
arrancado dele.  

"Scully, voc, mais do que ninguem, sabe comos nossos inimigos so perigosos"
ele falou, estudando as maos. "Nada fica secreto para eles durante muito tempo.
Voc sabe que vai ser apenas questo de tempo antes deles descobrirem. E 
ento, vai ser a coisa mais natural do mundo eles usarem a nossa relao
contra ns."

"No," ela disse, rapida, ao no tom da voz. "Eles nao vo vencer esta."

Ele olhou pra ela, os olhos cheios de perguntas. Ela fitou de volta, o rosto
plido, mas composto. 

"Eles levaram muito de mim, de ns dois." ela falou baixo, mas a intensidade
estava l, os olhos srios, nunca deixando os dele. "Eles roubaram minhas
iluses, meses da minha vida, Mis--... minha irm. Mesmo sem saber sobre nossos
sentimentos, eles tentaram te levar mais de uma vez de mim. Chegou ao
ponto que eles nem precisar fazer nada, e ainda ns estamos querendo saber 
se tomamos as decises certas, ou as escolhas certas. Bem, nao vou deixar
que meu medo pelo que eles podem ou nao fazer me afastem do que eu sou.
E tenho certeza que nao isso nao vai sacrificar... o que poderiamos ter...
na convico extraviada de que isso vai nos manter seguros. No existem
garantias, Mulder. Voc, mais do que ninguem, deveria saber disso.
No podemos deixa-los ganhar. Eu me recuso a permitir isso."

A garganta dele fechou dolorosamente enquanto ele a escutava, e sentiu
a sensaao familiar de admirao e orgulho por ela enquanto olhava para
sua coragem absoluta. Isto era absurdo. Ele devia ser o parceiro snior
na relao deles, o que tinha mais tempo em campo, mais anos no Bureau.
E mesmo assim, em momentos como este, ele sabia qual deles possuia
a verdadeira fora, a certeza absoluta do poder combinado deles. Que
ironia. Pessoas sempre se referiam a ela como a ctica.

Mas nao quando era em relao a eles dois.

A intrepidez dela s fez com que as proprias duvidas dele parecessem
mais covardes. Mas ele tinha mais uma confisso a fazer.

"Scully... tem mais uma coisa" ele falou, dando um sorriso zombeteiros
com os labios, os olhos danando de um lado para o outro, entre o olhar
paciente dele, e as proprias maos dele, trmulas. "Eu, um... tive
muito tempo para pensar esta semana. Mais do que deveria ter. E, uh...
eu descobri algo sobre mim. Algo... algo que voc deve ter notado h muito
tempo atrs. Eu nao reajo muito bem a uma perda."

Ento ele olhou pra ela, que estavam com os olhos sombreados, mas
nao sem humor, dirigido, como sempre, para ele. Vendo a sugestao
dela, Scully achou que queria rir. Nao de Mulder. Nao dos medos deles,
ou de sua dor, ou pelas perdas que ele tinha sogrido. Mas pela maneira
amvel com que o homem ao lado dela tinha pego sua fobia mais profunda, 
e a fez parecer como a mais secundria das inconveniencias.

Abandono.    

Um medo comum para um homem incomum. Mesmo assim, ela entendeu.
Sabia que nao eram apenas com seus inimigos que eles tinham que se
preocupar. A separao poderia vir de um motorista bbado, uma doena
inesperada, ou simplesmene duas pessoas que continuam a vida, separadamente.
E mesmo que quisesse, ela nao podia prometer nada. Mas ela juraria
para ele, ou pra qualquer um que se preocupasse me escutar, que ela 
planejava lutar por esta relao, por eles, com cada pingo de fora
que possuia, confiante no fato de que Mulder nao faria menos do que ela.

Essa era uma das coisas que ela mais admirava nele.
O compromisso dele para com os que ele amava. Ela ficava pasma
ao se lembrar de que essas mesmas pessoas tinham virado as costas
para ele, ou simplesmente sumiram, e mesmo assim, ele ainda estava disposto
a arriscar alguma amizade. E ocasionalmente, em algo mais.
Quando ele fazia isso, sua lealdade era absoluta.

E sua necessidade era quase apavorante em sua intensidade. Scully sabia que
Mulder nao desistiria de algo - ou alguem - sem antes lutar ferozmente.
Afinal de contas, ele passou mais de 20 anos procurando uma irm desaparecida.
E embora a me e irm dela nunca lhe contaram sobre tudo que tinha
acontecido depois que ela apareceu de repente no hospital em Georgetown,
ela sentia que ele, mais do que a propria familia dela, tinha se recusado
a deixa-la morrer.

Ela soube que ele s tinha brigado sobre o testamento, o documento que
ele tinha assinado. Ela tambm podia se lembrar, mas muito vagamente, 
de como ele estava sentado ao lado dela na noite antes dela acordar. As
palavras dele, e seu toque, eram coisas que ela s podia se lembrar de 
ter acontecido num sonho.  Mas a presena dele, o lao quase tangvel,
a agarrava, e a impediu de ir adiante. Ele nao desistiu dela, mesmo quando
todo mundo disse que era a coisa mais sbia e s para se fazer.

Ela o amava por isso. E por muitas outras coisas. 

"Ento voc est convencido de que se ficarmos juntos, isso s vai te
machucar no final?" ela perguntou, suave, escovando o polegar ligeiramente
ao longo do brao dele, o rosto se aproximando do dele. 

"Posso admitir que a idia cruzou a minha mente" ele falou, seco, virando
o rosto para ela, os narizes to proximos de repente, que estavam em perigo
de se tocarem. Ele achou que gostava de te-la proxima, e percebeu que estava
com um desejo quase opressivo de dar-lhe um beijo de esquim.

"Bem, ento eu acho que vou ter que provar que voc est errado" ela sussurrou,
os olhos ficando escuros, como se aquecidos por dentro. "Mas para fazer isso,
eu tenho que te pedir uma coisa. Um favor."

"E qual ?" a garganta dele estava seca como o deserto de Monjave.
E quem diabos tinha ligado o termostato ao mximo?

"Eu posso te beijar, Mulder?" ela perguntou, suave,
os lbios fazendo um biquinho convidativo. "Voc se importa? H muito tempo
que eu quero fazer isso."

Ele engoliu em seco, pensando que se o sangue dele rugisse com mais 
fora dentro de sua cabea, ele nao poderia mais ouvi-la.

"Claro Scully. Ninguem pode dizer que eu te negaria um favor."
  
(Continua na parte II)  

