Weird  Parte 2


FAN FICTION

ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com)

DISCLAIMER: Os personagens desta estria pertencem a seus 
criadores. 
(Embora eu creia que, no caso especfico de X-Files, os 
criadores  
que 
passaram a pertencer a seus personagens!)

CATEGORIA: Shipper (ma non troppo)

CLASSIFICAO: Censura livre (aqui no tem nada que no se 
veja igual 
ou 
pior na novela das 6)

SPOILER: Mais uma ps-Rquiem, com uma pincelada de Redux.

SINOPSE: Continuao de Weird. A vida segue rumos 
aparentemente 
divergentes 
para Scully e Weird/Mulder. Mas como a autora gosta de finais 
felizes 
e 
segundo a geometria duas paralelas necessariamente se 
encontram no 
infinito, esses rumos no so to divergentes assim...

ADVERTNCIA: Essa fic continua no recomendada para 
diabticos e 
pacientes 
em dieta de restrio de acares. Embora dessa vez eu tenha 
tentado 
ser 
mais rigorosa no uso do aucareiro.

AGRADECIMENTO: Diferentemente do Agamenon Mendes Pedreira, eu 
ainda 
no 
tenho dezessete leitores. Mas agradeo, ainda assim, a todas 
as minhas 
sete 
leitoras (a, gente, s faltam dez para eu alcanar a marca 
do 
Agamenon...) 
pelos feedbacks que me incentivaram a continuar essa estria.

AGRADECIMENTO ESPECIAL:  Graa, pelas idias que continua me 
dando e 
pela 
pacincia de ler e opinar sobre essa tralha.
 
NOTA: Feedbacks (positivos ou negativos) so sempre bem 
vindos.

MAIS NOTA: Ateno. Nessa segunda parte, a informao sobre 
locais, 
datas e 
horas que consta do incio de cada segmento  importante para 
a 
compreenso 
da estria. Depois no digam que eu no avisei...




Weird  Parte 2



Motel Super 8  Sacramento, Califrnia
12/08/2005 - 08:30 AM

Sentada no carro parado no estacionamento do motel, Dana 
Scully 
sorria, 
enquanto dava a sua filha Amy as ltimas instrues sobre 
como se 
comportar 
durante o dia. Weird as observava parado de p ao lado do 
carro a 
apenas um 
passo de distncia, o corpo ligeiramente inclinado em sua 
direo.

- Este homem a est incomodando, senhora?  perguntou o 
policial que 
se 
aproximava a p, indicando Weird com a cabea, a mo direita 
j 
estrategicamente colocada sobre o coldre.

O "em absoluto" da resposta morrera antes de sair da garganta 
juntamente 
com o sorriso, enquanto Scully, desviando o olhar da filha, 
via Mulder 
fugindo em disparada pelo estacionamento do motel e 
atravessando a 
larga 
avenida em frente, sem se preocupar com os veculos que por 
ali 
cruzavam em 
alta velocidade.

- Policial... NO!  ela conseguiu gritar para o homem que 
iniciava 
sua 
corrida em perseguio ao fugitivo, j com a arma em punho.  
Deixe-o 
ir.  
acrescentou, vendo Mulder desaparecer em um beco do outro 
lado da rua.

O policial estacou e voltou-se para ela, sua expresso 
aturdida e 
contrariada, a mo lentamente recolocando a arma no coldre 
enquanto 
caminhava em direo  mulher de cabelos de fogo.

- Eu pensei que...  disse o homem, confuso.

- No pense! FBI.  atalhou Scully, rispidamente, exibindo a 
insgnia. 
 O 
fugitivo era meu... amigo. Um tanto quanto perturbado e 
assustadio. 
Mas 
no oferecia perigo algum.  sibilou por entre os dentes, os 
olhos 
azuis 
faiscando de raiva. 

- Me de-desculpe, se-senhora...  gaguejava o policial 
subitamente 
sentindo-se minsculo diante daquela mulher. Apesar de ser 
muitos 
centmetros mais alto que ela, sentia-se como que olhando de 
baixo 
para 
cima para a ruiva baixinha que, em sua fria, agigantava-se 
diante 
dele 
como uma deusa pr-colombiana de pedra.

Examinando-o melhor agora que estava mais prximo, Scully 
pde 
perceber que 
o assustado policial era muito, muito jovem, provavelmente 
recm sado 
da 
academia e talvez em sua primeira ronda. Com os olhos 
castanhos 
arregalados, o pobre rapaz fitava Scully quase que com pavor, 
uma 
expresso 
estpida estampada em seu rosto. A cena toda era to 
disparatada, ver 
um 
representante oficial da lei em seu uniforme tremendo como um 
garoto 
de 
escola que foi flagrado espiando o banheiro das meninas, que 
Scully 
teve de 
conter a vontade de rir que tomou conta dela, a despeito da 
gravidade 
da 
situao.

- Tudo bem.  disse ela, suavizando o tom.  Pode ir agora.

Muito provavelmente aquilo era tudo o que o rapaz desejava 
ouvir 
naquele 
momento. Sem mais uma palavra, ele afastou-se rapidamente, 
quase que a 
correr, do cenrio daquele episdio pattico e desapareceu 
dobrando a 
primeira esquina.

Olhando novamente na direo em que Mulder desaparecera, a 
compreenso 
do 
que acabara de ocorrer e de suas conseqncias se abateu 
sobre Scully 
como 
um pesado fardo. Uma sombra dominou seu semblante enchendo-
lhe de 
tristeza 
os olhos azuis. Os ombros arquearam-se como se um grande peso 
se 
abatesse 
sobre eles. Aos poucos, seus olhos iam ficando rasos d'gua e 
ela 
sentiu-se 
o mais miservel dos seres humanos, exatamente da mesma forma 
como se 
sentira um dia num hospital de Washington, quando Skinner lhe 
confirmara 
sobre o desaparecimento do parceiro naquela floresta do 
Oregon. 

Mas, assim como ocorrera naquela ocasio, um pequenino algo 
lhe 
reacendeu a 
chama da esperana. A mozinha quente e macia de Amy envolveu 
trs 
dedos de 
sua mo direita. E suas palavras agiram como um blsamo sobre 
a ferida 
reaberta em seu corao.

- No chore, mame.  consolou meigamente a menina, 
estreitando os 
dedos da 
me com toda a fora de sua mozinha.  Ele vai voltar...



Sede do FBI - Washington, DC
07/10/2005  08:05 AM

A sala do poro do edifcio J. Edgar Hoover que abrigava os 
Arquivos X 
havia tantos anos ainda estava escura quando Scully abriu a 
porta. 
Doggett 
ainda no havia chegado.

Como havia feito tantas vezes nos ltimos cinco anos, a 
agente ficou 
parada 
por alguns instantes diante da porta aberta, contemplando a 
escurido 
do 
interior da sala. Imaginava que, quando acendesse a luz, 
encontraria 
Mulder 
sentado em sua velha cadeira, os ps sobre a mesa, 
arremessando lpis 
como 
dardos para se fincarem no forro do teto. Depois, sem 
interromper essa 
sua 
interessante atividade, dirigiria  parceira um rpido olhar 
e 
murmuraria 
um "bom dia, Scully" por entre um meio sorriso de garoto. 

Triste iluso, pensou ela, sacudindo a cabea como que para 
afastar 
tais 
pensamentos. Ao menos agora o sabia vivo, ainda que no 
tivesse a 
menor 
idia de onde ele poderia estar. 

Acendeu a luz e observou a sala vazia. A mesa que outrora 
fora de 
Mulder, 
agora pertencia a Doggett e estava impecavelmente em ordem, 
cada 
lpis, 
caneta e folha de papel em seu prprio lugar como se tivesse 
acabado 
se ser 
arrumada. A prpria aparncia geral da sala refletia a 
disciplina 
quase que 
militar de seu atual parceiro. Nada de livros fora das 
estantes, 
revistas 
empilhadas sobre os rmrios baixos, lpis fincados no teto. 
Tudo 
limpo, 
organizado, impecvel, como se o encarregado pela limpeza 
houvesse 
acabado 
de passar pela sala. Nada que lembrasse Fox Mulder. A no ser 
pelo 
velho 
poster, na parede, com a imagem do OVNI. "I want to believe", 
o lema 
da 
busca de Mulder. Doggett havia tentado arranc-lo quando 
ocupara a 
sala, 
mas ela o impedira, os cantos do papel levemente rasgados, 
testemunhos 
daquela tentativa de profanao.

Scully caminhou pesadamente at sua mesa. Andava cansada, 
sonolenta. 
No 
que as crises noturnas de Amy a estivessem impedindo de 
dormir. Pelo 
contrrio. Desde de que haviam voltado da Califrnia, de seu 
encontro 
com 
Mulder, tanto os pesadelos quanto as febres repentinas da 
menina 
haviam 
desaparecido completamente, como que por encanto. Apenas 
sentia-se 
cansada. 
Estava precisando de frias, era isso.

Sentada, comeou lentamente a examinar os papis colocados na 
caixa de 
madeira marcada "Entrada" sobre sua mesa. Formulrios de 
prestao de 
contas de sua ltima viagem e memorandos sobre o uso racional 
das 
copiadoras e contra o desperdcio de papel (!?) atulhavam a 
caixa. No 
fundo, escondida, sob a pilha de baboseiras inteis e 
futilidades 
burocrticas, estava uma pasta identificada por M7682/2000  
o 
relatrio 
semanal sobre as investigaes sobre o desaparecimento de 
Mulder. 
Abriu-a 
com os dedos trmulos, uma sensao desagradvel de frio na 
barriga, 
como 
acontecia todas as semanas. Nada, apenas um grande e vazio 
nada. 
Nenhuma 
pista, nenhum sinal de Mulder ou do homeless Weird, nenhum 
John Doe 
surgido 
em hospitais ou necrotrios pelo pas que se aproximasse das 
caractersticas do parceiro. Nada. Deixou cair, desanimada, a 
pasta 
sobre a 
mesa.

No fundo, no esperava que fosse diferente. A 
reintensificao das 
buscas 
fora solicitada por Skinner. Ela sempre tivera a impresso de 
que ele, 
de 
alguma forma, sentia-se culpado pelo desaparecimento do 
agente, por 
no t-
lo impedido de sair andando sozinho por aquela floresta. Como 
se fosse 
possvel impedir Mulder de fazer exatamente o que ele queria! 
Alguma 
coisa 
no peito de Scully lhe dizia agora que as buscas seriam 
inteis. Algo 
(ousaria admitir que era sua intuio?) lhe sussurrava 
incessantemente 
que, 
no momento certo e somente ento, Mulder reapareceria em seu 
caminho, 
sem 
que houvesse necessidade de procur-lo. Era questo de 
esperar. Mas 
por 
quanto tempo?

Preguiosamente, Scully abriu a pasta onde guardava seu 
notebook e o 
instalou sobre a mesa, conectando-o  rede. Era cedo ainda, 
poderia 
checar 
e responder seus e-mails com tranqilidade e ainda dar uma 
espiadela 
nas 
manchetes da edio online do Times, antes que algum 
aparecesse no 
escritrio. Mais tarde terminaria de escrever o relatrio 
sobre o 
ltimo 
caso.

Comeou a examinar seus e-mails um a um. O primeiro de uma 
velha amiga 
dos 
tempos de residncia, Debbie Norrigan, agora casada com um 
famoso 
neuro-
cirurgio, participando o nascimento de seu quinto filho, 
Michael. 
Pobre 
Debbie, cinco filhos! Enviou duas ou trs de linhas pouco 
inspiradas 
de 
felicitaes como resposta e passou ao prximo. 

Era de seu irmo Bill, agora adido naval do consulado 
americano no Rio 
de 
Janeiro, convidando a ela e a Amy para passarem o Dia de Ao 
de 
Graas com 
sua famlia. Humm... Brasil, sol, calor, praia! Poderia pedir 
uma 
semana de 
frias e dar-se a esse luxo, imaginava. At que no era m 
idia. 

Fora isso, mais bobagens burocrticas, memorandos endereados 
a "todos 
os 
usurios" sobre o uso racional das listas de distribuio nos 
e-mails 
corporativos (!?) e o usual: spams pedindo doaes para 
crianas 
imaginrias com doenas incurveis, as indefectveis charges 
e piadas, 
um 
bl-bl-bl sem fim que ela ia removendo sem ler. No meio 
desse caos, 
o 
dedo j pronto para pressionar a tecla DEL congelou-se a meio 
caminho. 
Uma 
mensagem lhe chamou a ateno, tanto o assunto quanto o 
remetente 
estavam 
em branco. A despeito de todos os alertas que comeavam a 
dardejar em 
sua 
mente sobre o perigo dos vrus, sentiu-se compelida a abri-
la. Alguma 
coisa 
lhe dizia para faz-lo, uma vozinha em sua cabea, seu 
demnio 
interior. 
Sem maiores delongas, posicionou o cursor sobre a mensagem 
e... Click! 
Click!

"A volta da raposa pode assustar o galinheiro."

Apenas isso. Sem remetente ou assinatura. Releu a mensagem, 
intrigada, 
uma 
dzia de vezes, mas no atinou com um sentido para ela. A 
"raposa" do 
texto 
estaria se referindo a Fox Mulder? Mas, nesse caso, quem ou o 
qu 
seria "o 
galinheiro"? Seria apenas mais um trote como tantos outros 
que j 
recebera 
nos ltimos anos? O toque do telefone interrompeu seus 
pensamentos.

- Scully.  atendeu ela.  Sim... Em uma hora? Mas por que a 
pressa 
repentina por esse relatrio preenchido?  perguntou, 
franzindo o 
cenho. - 
... Ahnn! Auditoria interna? ... Compreendo...  acrescentou 
com uma 
careta. - Ok, senhor. Ter o relatrio em sua mesa em meia 
hora.  
completou, desligando o telefone.

Olhou uma vez mais para a enigmtica mensagem em seu 
computador e a 
fechou 
em seguida. Mais tarde voltaria a ela. Por ora, precisava 
terminar o 
relatrio sobre o caso anterior e preencher o formulrio de 
prestao 
de 
contas de viagem que encontrara em sua caixa de entrada para 
entreg-
los a 
Skinner. E ps-se a trabalhar.



Bedford Hills, New Jersey
07/10/2005 - 02:40 PM

Weird aproveitava aquele raro dia quente de outono, sentado 
num banco 
da 
pracinha. Ao seu redor, crianas brincavam escoltadas por 
suas babs. 
Eram 
obviamente crianas ricas, podia-se concluir pela 
sofisticao da 
vizinhana onde a bem cuidada pracinha se situava. Belas 
casas enormes 
em 
estilo vitoriano, cercadas por bem cuidados jardins, 
enfileiravam-se 
pelas 
ruas simetricamente dispostas do bairro.

O olhar de Weird vagava sem rumo por sobre as crianas que 
brincavam, 
sem 
deter-se em nenhuma, sem realmente interessar-se por nada. 
Procurava 
pelo 
que sabia que no iria encontrar. Um par de olhinhos 
cinzentos 
emoldurados 
por uma rica cabeleira ruiva, tudo arrematado por um cndido 
sorriso 
que 
iluminava todo o rostinho angelical. Amy, sua pequena Amy. 

Com que direito ousava cham-la de sua? Talvez com o direito 
que 
conquista 
o prisioneiro de denominar sua a cela que o encarcera. Sentia 
sua 
falta, 
buscava seu olhar nos olhinhos das outras crianas, buscava 
seu 
sorriso em 
seus rostos. Mas ela no estava l.

Sabia onde encontr-la, ela havia lhe contado, com seu 
jeitinho 
infantil, 
que morava em Washington. Alm disso, ele lembrava-se 
exatamente da 
localizao do jardim de infncia onde a havia visto pela 
primeira 
vez, 
observando as formigas no parquinho. Mas faltava-lhe coragem 
para se 
reaproximar. Naqueles dois meses, tivera tempo de sobra para 
refletir 
sobre 
tudo o que havia acontecido. A despeito de ter vivido com 
elas os 
melhores 
momentos da vida de que conseguia se lembrar, continuava 
sendo um sem 
teto, 
sem nome, sem futuro. No era justo.

Weird no notou quando o automvel negro parou em frente a 
uma das 
casas 
que rodeavam a pracinha. De dentro dele, saltou um homem 
alto, bem 
vestido, 
de cabelos castanhos. Os olhos verdes amendoados olharam em 
torno e 
estreiaram-se quando viram o homeless sentado na praa. Tinha 
as mos 
caladas em finas luvas de couro negro, apesar da temperatura 
agradvel 
daquele dia, e uma delas se contraiu furiosamente diante da 
viso do 
outro 
homem. Os lbios comprimiram-se em uma fina linha que 
imprimia, 
juntamente 
com o olhar feroz, uma expresso assustadora quele belo 
rosto. 
Observou 
ainda por mais alguns segundos o homem que lhe causara to 
intensa 
reao e 
virou-se de sbito, dirigindo-se apressadamente  porta da 
casa que se 
abriu segundos antes dele atingir o prtico e fechou-se to 
logo ele 
desapareceu em suas entranhas.

L dentro, reunidos em uma sala ricamente mobiliada, estavam 
cinco 
homens, 
cujas idades variavam entre os cinquenta e os setenta anos. A 
sobriedade de 
seus trajes elegantes e a seriedade da expresso de seus 
semblantes 
indicavam que aquela era uma reunio de negcios. Suas 
fisionomias 
adquiriram ares de preocupao e ansiedade quando o homem 
mais jovem 
entrou.

- O pior de nossos pesadelos se tornou realidade, senhores. 
Fox Mulder 
est 
de volta.  disse Alex Krycek com irritao.



10/10/2005  03:28 AM

Deitado na cama confortvel, Weird tinha Dana Scully aninhada 
em seus 
braos, encolhida como um beb. Ele a percebia frgil sob seu 
abrao, 
sob 
os beijos suaves que lhe aplicava nos cabelos, no rosto 
plido. Um 
ligeiro 
tremor percorreu o diminuto corpo feminino. Ele respirou 
fundo, como 
se 
tomasse coragem para dizer o que tinha a dizer.

- Quero que voc v para casa.  falou em voz baixa.

- Eu vou ficar bem.  ela sussurrou em resposta.

- No. Eu estive pensando sobre tudo. Olhando para voc, 
hoje, 
segurando 
aquele beb... Percebi tudo o que foi tirado de voc. A 
chance de ser 
me... e sua sade... e aquela criana. Eu acho que... No 
sei... 
talvez 
eles estejam certos.  respondeu, a voz hesitante, cheia de 
dvidas.

- Quem?

- O FBI. Talvez o que eles dizem seja verdade, embora pelas 
razes 
erradas. 
So os custos pessoais que esto altos demais.

Com um suspiro, Scully comeou a chorar mansamente. Ele a 
podia sentir 
cada 
vez mais frgil, cada vez mais distante. 

- H tantas coisas que voc precisa fazer com sua vida.  
Weird 
sussurrou 
em seu ouvido, enquanto seus dedos acariciavam suavemente o 
rosto da 
mulher 
que chorava.  H tantas coisas mais alm disso...  Fez-se 
uma longa 
pausa. - Tem que haver um fim, Scully.

Ele beijou-lhe carinhosamente a bochecha e se aconchegou mais 
contra 
seu 
corpo, sentindo que seu prprio calor fluindo para o corpo 
pequeno em 
seus 
braos ia exercendo, pouco a pouco, um efeito calmante sobre 
a mulher. 
Mas 
ainda assim, embora ali aprisionada por seu abrao, ela a 
sentia 
escapar-
lhe lenta e inexoravelmente, como areia escorrendo por entre 
seus 
dedos.

Apenas um momento depois, ele estava de p, cercado por 
rvores altas 
na 
mais absoluta escurido. Uma luz branca que brilhava 
extremamente 
forte a 
curta distncia o atraa. Ele encaminhou-se em passos lentos 
para ela. 
Rostos familiares o aguardavam no interior do crculo de luz. 
Os nomes 
surgiam em sua mente sem que ele realmente soubessem quem 
eram. 
Teresa, 
Ray, Billy. Mais um instante, e Weird se viu deitado, atado a 
uma mesa 
de 
ao, em algum lugar que se assemelhava a uma sala de 
cirurgia. 
Instrumentos 
os mais variados estavam conectados a seu corpo. Estava nu e 
sentia 
frio, 
muito frio. E outra vez a luz branca se acendeu, o cegando. E 
a dor 
comeou, forte, incessante. Cada vez mais forte, mais 
forte... Aaahh!

Acordou banhado em suor, os olhos muito abertos tentando 
perceber, 
atravs 
da escurido, aonde estava. Aos poucos, foi acostumando-se s 
trevas e 
pde 
determinar que estava deitado em um abrigo construdo com o 
papelo de 
velhas caixas, num beco, em algum lugar, o mesmo lugar onde 
se 
adormecera 
havia algumas horas. Ufa! 

Tivera aquele sonho recorrente outra vez. A angstia, o medo, 
a dor 
to 
reais no pesadelo que podia sentir seu corao ainda 
disparado. Passou 
instintivamente as mos pelas pequenas cicatrizes circulares 
que ainda 
formigavam em seu rosto. 

H tempos tivera aquele sonho pela primeira vez. Comeara 
apenas com a 
claridade ofuscante da luz branca, a dor insuportvel. Aos 
poucos, 
porm, o 
pesadelo fora ganhando mais detalhes, a mesa de ao, a sala 
com seus 
equipamentos. Mais tarde, a floresta e o crculo de luz 
passaram a 
fazer 
parte dele tambm, acompanhados por aquelas pessoas todas. 
Aparentemente, 
ele as conhecia, at mesmo sabia seus nomes! Elas pareciam 
to 
reais... 
Seriam sua famlia, seus amigos que aos poucos iam 
ressurgindo em sua 
memria? Por mais que se esforasse, no conseguia se 
recordar.

Dessa vez, no entanto, houvera algo de novo no sonho. Sim. 
Algo bom... 

Era Dana Scully aninhada em seus braos, to pequena, to 
delicada. 
Podia 
ainda sentir-lhe o perfume dos cabelos, o calor de seu corpo 
mido. 
Ela 
parecia to assustada, to debilitada no sonho. To diferente 
de 
quando a 
conhecera na Califrnia. Weird lembrava-se de como o corpo 
dela era 
sacudido por calafrios no sonho. Como se estivesse doente ou 
com medo. 

Pensou em suas prprias palavras ditas a ela, "quero que voc 
v para 
casa"... Por que a afastava de si at mesmo em seus sonhos e, 
ainda 
assim, 
a estreitava nos braos como que para evitar que se fosse? 
Tantas 
contradies...

Uma repentina rajada de vento frio fez Weird estremecer. Ele 
ajeitou o 
velho sobretudo em volta do corpo e encolheu-se em uma bola 
para 
tentar se 
aquecer. Fechou os olhos e a imagem de Dana Scully, impressa 
a fogo e 
paixo em suas plpebras, se fez visvel. Precisava tentar 
dormir 
novamente. Para sonhar com ela.



Rua 46  New York City, New York
11/10/2005  01:45 PM

Os anos haviam sido generosos com Alex Krycek. A no ser por 
umas 
raras 
linhas de expresso um pouco mais marcadas, pouco mudara sua 
aparncia 
desde a ltima vez em que vira Mulder, no escritrio do poro 
do FBI, 
havia 
cinco anos. O rosto continuava belo, mas com um qu de 
crueldade que 
ele 
algumas vezes deixava transparecer naqueles frios olhos 
verdes.

Mas se a aparncia no mudara de maneira muito evidente, o 
mesmo no 
se 
poderia dizer, no entanto, de seu status quo e de seu papel 
dentro do 
Sindicato. Deixara de ser um matador de aluguel, um simples 
joguete, 
um 
mero instrumento nas mos daqueles homens. Desde a morte de 
C.G.B. 
Spender, 
Krycek havia usado de doses alternadas de cordialidade e 
intimidao, 
simpatia e brutalidade para conquistar para si a posio 
ocupada pelo 
falecido. E conseguira. Exercia agora com mo de ferro o 
papel que 
outrora 
fora do Canceroso e usava de seu poder e influncia junto 
quele grupo 
para 
manter seus numerosos inimigos sob controle. Afinal, 
escrpulo no era 
palavra que constasse do vocabulrio de Alex Krycek.

- Precisamos acabar com ele. Fox Mulder no pode continuar 
vivendo.  
falou 
incisivo aos membros do Sindicato reunidos em torno da mesa 
da sala de 
reunies.

Os aparentemente venerveis senhores do Sindicato 
entreolharam-se em 
desconforto.

- Mas, Alex, nossos informantes no FBI j garantiram que ele 
est 
desmemoriado. No sabe quem , no se lembra de nada. Vive 
como um sem 
teto, nas ruas das grandes cidades. Que ameaa pode algum 
assim 
representar para nossas operaes?  arriscou o homem de 
culos.

- Sim.  acrescentou hesitante o homem do cachimbo.  Que 
perigo um 
mendigo 
pode nos oferecer? Principalmente, se como nos foi informado, 
o 
prprio FBI 
no consegue ou no quer localiz-lo?

- Senhores, digo que Mulder SEMPRE representa uma ameaa. Ele 
j foi 
subestimado no passado e todos ns sabemos qual foi o 
resultado.  
redarguiu Krycek com veemncia.  Ser que preciso lembr-los 
de todo 
o 
esforo que nos custou para retornarmos ao ponto em que 
estvamos 
depois de 
sua ltima interveno em nossos negcios? Ser que preciso 
lembr-los 
do 
quo custoso foi atingir o ponto em que estamos agora?  
olhava ao 
redor, 
encarando cada um dos homens na sala enquanto dizia aquelas 
palavras. 
- 
Ser que preciso enumerar as diversas vidas que foram 
perdidas nesse 
processo para convenc-los? 

Um silncio opressivo dominou a sala quando Krycek calou-se. 
Com a mo 
enluvada, ele segurou o copo d'gua pousado sobre a mesa a 
sua frente. 
Ergueu-o lentamente, o levando aos lbios, seu olhar 
hipnotizado pelos 
movimentos precisos do membro artificial que sustentava o 
copo. 
"Tunguska...", pensou com rancor. "Maldito Mulder!"

- Mulder DEVE ser eliminado.  sibilou, esmigalhando o copo 
com os 
dedos.



Sede do FBI - Washington, DC
11/10/2005 - 04:55 PM

Aquele fora apenas outro dia de tdio burocrtico para 
Scully. J 
perdera 
as contas de quantos formulrios e relatrios j havia 
preenchido 
desde o 
incio da auditoria interna havia dois dias. Isso sem falar 
na 
reunio-
sermo de Skinner com todos os agentes sob seu comando para 
"lembr-
los 
mais uma vez sobre a importncia de preencher e entregar toda 
a 
papelada o 
quanto antes aps o encerramento de um caso, e bl-bl-
bl"... Enfim, 
apenas perda de tempo.

Olhou rapidamente para o relgio de pulso e suspirou. 
Felizmente, j 
era 
quase na hora de ir embora. Enquanto arrumava as coisas sobre 
a mesa, 
planejava todas as inmeras tarefas que ainda tinha a 
executar naquele 
dia: 
buscar Amy na escola, uma breve passada no supermercado no 
caminho de 
volta 
para casa para providenciar os ingredientes do jantar, 
prepar-lo, 
lavar e 
passar roupas, etc. "Rotina de dona de casa, me de famlia", 
pensou 
ela, 
suspirando saudosa pelos velhos tempos quando podia se dar ao 
luxo de 
ter 
pregia e simplesmente jantar um sanduche da lanchonete ou 
passar em 
casa 
para tocar de roupa e sair para correr e desanuviar a 
cabea... 

Mas havia a compensao. No havia mais noites solitrias 
quando tudo 
o que 
desejava era ter algum ao se lado para conversar, para 
abraar... Sem 
Mulder, se Amy no houvesse acontecido em sua vida, 
provavelmente 
teria se 
consumido em loucura. Mas a filha era um pequenino Mulder em 
muitos 
sentidos. Nos olhos cinzentos to profundos que se poderia 
mergulhar 
em sua 
vastido, nas tiradas irnicas com que se saia apesar da 
pouca idade, 
no 
jeitinho maroto de arquear a sobrancelha.

Um "biip!" agudo a arrancou dos devaneios. "Voc tem 
correspondncia" 
dizia 
a janelinha na tela de seu notebook. Outra vez, uma mensagem 
sem 
remetente 
ou assunto. Estranho. No hesitou em abri-la.

"A raposa voltou. O galinheiro sente-se ameaado e prepara 
uma 
reao."

Com a confuso e o estresse gerados pela presena dos 
auditores no 
Bureau, 
ela havia acabado por esquecer-se da mensagem anterior. 
Agora, com o 
recebimento de mais outra no mesmo estilo, concluiu que 
precisava 
tomar 
alguma providncia, tentar descobrir quem estava lhe enviando 
aquelas 
mensagens e por qu. Sem maiores delongas, encerrou seus 
preparativos 
e 
partiu.



QG dos Pistoleiros Solitrios  Washington, DC
11/10/2005 - 08:15 PM

- Mais um cachorro quente bem passado saindo para minha 
princesinha!  
exclamou Frohike, desmanchando-se em sorrisos ao entregar o 
sanduche 
a 
Amy.

- Muito obrigada, tio Frohike!  respondeu a menina j com a 
boca 
cheia de 
po.

- Amy, quantas vezes preciso lhe dizer que no se deve falar 
com a 
boca 
cheia?  ralhou Scully sob o olhar encantado de Frohike.

- Sinto muito, mame.  desculpou-se a garotinha com um 
muxoxo.

- No ligue, meu bem.  consolou Frohike alisando a cabecinha 
ruiva.  
s 
vezes eu tambm me esqueo e acabo falando com a boca 
cheia...

Scully sorriu, enternecida com o carinho que o homem 
demonstrava pela 
menina. Desde o desaparecimento do parceiro, os Pistoleiros 
Solitrios 
a 
haviam aceitado como uma igual e se tornado seus melhores 
amigos, 
incansavelmente burlando leis, invadindo computadores do 
governo e 
vasculhando seus arquivos secretos  procura de Mulder. 
Somente haviam 
diminuido o ritmo frentico de sua investigao a pedido da 
agente 
aps uma 
vez em que quase haviam sido presos pela invaso dos 
computadores do 
Pentgono. Na ocasio, ela fora obrigada a recorrer a Skinner 
e este a 
seus 
contatos entre os todo-poderosos deuses da guerra que 
imperavam 
naquela 
casa para evitar a priso dos Pistoleiros por atentado contra 
a 
segurana 
nacional. Um sufoco!

Aqueles homens haviam se revelado os guardies de seu bem-
estar 
durante a 
gravidez, como se fossem os responsveis por sua sade na 
ausncia de 
Mulder. Quando Amy nascera, a primeira visita que recebeu 
fora a dos 
Pistoleiros. Byers com um buqu de flores, Langly 
surpreendenetemente 
vestido com algo que no uma camiseta de banda de rock, os 
cabelos 
cuidadosamente penteados, e Frohike parecendo um pinguim 
apertado em 
um 
terno preto. O encantamento desse ltimo pela menina 
iniciara-se no 
primeiro momento em que lhe pusera os olhos e, desde ento, o 
"tio" 
Frohike 
nunca deixara de ench-la de presentes em seu aniversrio e 
no Natal.

- Bingo!  a exclamao de Byers chamou-lhe a ateno de 
volta ao que 
viera 
tratar ali.

- Encontraram alguma coisa?  indagou ansiosa, aproximando-se 
dos dois 
homens inclinados sobre seu computador.

- No!  respondeu Langly com ar desolado.

- Sim e no, agente Scully.  corrigiu Byers.

s vezes era assim, eles a deixavam completamente atarantada 
com suas 
respostas contraditrias.

- Como assim?  ela insistiu.  Sim ou no?

- No, no conseguimos identificar quem  o remetente das 
mensagens.  
respondeu Langly com um suspiro.

- E sim, - acrescentou Byers, - conseguimos rastrear as 
mensagens at 
o 
local de onde foram originalmente enviadas.

- E...  apressou a agente, diante do silncio dos dois 
homens.

- Bem...  continuou Byers, - antes de chegarem at o 
servidor de 
correio 
eletrnico do QG do FBI, as mensagens passaram por 
computadores em 
Santiago, Atenas, Iekaterinburgo, Berna, Udine, Riad, Recife, 
Adis 
Abeba, 
Varsvia, Oslo e Copenhague. Mas foram originalmente enviadas 
de um 
cyber 
caf aqui mesmo em Washington. Aqui est o endereo.

- Grande!  exclamou Scully com um sorriso, examinando o 
endereo 
anotado 
que lhe passaram.  Posso contar com vocs para me ajudarem 
nessa 
investigao?

- Claro!  responderam os trs Pistoleiros em unssono.

- timo! Que tal amanh s nove na porta do cyber caf?

- Nove da noite?  indagou Frohike, irnico, recebendo como 
resposta 
um 
careta de Scully.

- Trs da tarde foi o horrio aproximado de envio das duas 
mensagens. 
Sendo 
assim, estaremos s duas horas l e no se fala mais nisso, 
ok, agente 
Scully?  emendou Langly, taxativo.



Apartamento de Scully  Washington, DC
11/10/2005 - 10:05 PM

- Mame... Eu estava pensando numa coisa...

- Huumm?  perguntou Scully distrada, enquanto abotoava o 
pijama cor-
de-
rosa estampado com ursinhos de Amy.

-  que... Bom...  hesitava a menina.  Eu queria perguntar 
uma coisa 
para 
voc...

- Sim, meu bem.  respondeu Scully, ainda concentrada nos 
minsculos 
botes 
cor-de-rosa que insitiam em escapulir por entre seus dedos.

- Quando o senhor Weird voltar, ele pode ser meu pai?  
soltou Amy de 
sopeto, aps mais um instante de hesitao.

O inesperado da pergunta deixou Scully sem ao, muda. 
Aparvalhada 
seria a 
descrio correta para seu estado. Precisou recorrer a todos 
os seus 
anos 
de experincia como agente do FBI para reagir com rapidez 
quela 
situao. 

- Como assim, querida?  disse numa tentativa mal sucedida de 
manter 
sua 
voz firme, esforando-se para no demonstrar sua confuso.

- Eu estive pensando... Todas as crianas da escola tem um 
pai e elas 
sempre contam, no dia do "mostre e conte", sobre as coisas 
que fizeram 
com 
seus pais ou em que eles trabalham e as coisas legais que 
dizem e esse 
tipo 
de coisa. A, eu pensei que deve ser legal ter um pai. E 
ento, eu 
perguntei  tia Sally o que era exatamente um pai.

- E o que ela disse? - Scully fitava o rosto da filha com 
ternura. 
Imaginava os curiosos olhos cinzentos da menina ao fazer a 
pergunta  
professora.

- A tia me explicou que um pai  um homem que a gente gosta 
muito de 
uma 
maneira muito especial e que gosta da gente da mesma maneira. 
Ela 
tambm 
falou que, geralmente,  algum de quem a mame gosta muito e 
que 
gosta 
muito dela tambm. A, eu pensei: eu gosto muito, muito mesmo 
do 
senhor 
Weird e ele me disse que gosta muito de mim.  Scully 
acompanhava 
atenta a 
lgica inocente da filha.  Alm disso, eu percebi que voc 
gostou 
muito 
dele, mame, e achei que ele gostou de voc tambm. A, eu 
resolvi que 
queria que ele fosse meu pai. Pode ser, mame?

A mulher ruiva sorriu em resposta, os olhos midos diante da 
explicao da 
menina. Embora de um ponto de vista simplista aquilo tudo 
fizesse 
bastante 
sentido e fosse exatamente o que ela prpria desejava por sua 
vez, as 
coisas no eram assim to simples...

- Bem, meu anjo, por mim, tudo bem. Mas entenda que o senhor 
Weird 
precisa 
querer tambm...

- Ah, mame!  interrompeu a garotinha.  Eu tenho certeza 
que ele vai 
querer. Vai sim!  completou com convico.

- Ento vamos combinar o seguinte, - atalhou Scully ante a 
certeza da 
menina, - quando ele reaparecer, ns vamos conversar com ele 
sobre 
isso e 
ver o que acha, est bem?  Amy concordou com a cabea, mal 
contendo 
um 
bocejo.  Mas, por agora, j passou da hora de uma certa 
garotinha 
dormir, 
no acha?

A menina pulou contente na cama macia. Depois de ajeitar as 
cobertas e 
beijar-lhe a testa, a me apagou a luz, desejando-lhe boa 
noite e 
deixando 
o quarto.

Enquanto se preparava tambm para dormir, Scully no pde 
deixar de 
sorrir 
ao lembrar das palavras da filha. A perspiccia e a 
sensibilidade da 
menina 
sempre a surpreendiam. Mas, como qualquer criana, suas 
idias eram 
freqentemente mirabolantes. Como se fosse assim to simples 
fazer de 
Weird 
seu pai somente porque gostava dele... Ah, se fosse... Que 
bom seria!

Olhava-se no espelho do banheiro e escovava os cabelos, 
lembrando do 
reflexo de uma outra Dana Scully que vira num espelho de 
motel na 
Califrnia havia uns poucos meses atrs. Uma mulher feliz 
porque sabia 
que 
amava um homem e era correspondida. Lembrou-se de como haviam 
se amado 
apaixonadamente, do quanto fora bom. Lembrou-se de como 
sentira-se 
realizada, rejuvenescida ento. Sorriu para si mesma.

Mas nem sempre fora assim naqueles ltimos cinco anos. Nem 
sempre era 
aquela imagem de mulher viosa e confiante que se apresentava 
a ela no 
espelho. Houveram tantas ocasies em que nem ao menos pudera 
reconhecer-se 
no reflexo pela manh... Uma delas, em especial, voltava-lhe 
 mente, 
de 
tempos em tempos, como uma amarga memria...



Willamina, Oregon
28/03/2003  03:25 AM

Scully abriu os olhos ligeiramente, fixando o teto. A cabea 
lhe doa, 
latejava como se fosse um bigorna golpeada ritmicamente por 
um 
martelo. 
"Droga de whisky barato!" O vento quente e seco do 
aquecimento 
ressecava-
lhe as narinas e produzia arrepios na pele de seu corpo nu. 
Lentamente, 
ainda com os olhos semicerrados, foi tentando recordar os 
acontecimentos 
que a conduziram at ali. 

Primeiro, foram as informaes sobre avistamentos de luzes 
fortes, 
movendo-
se rapidamente e depois desaparecendo da mesma forma sobre a 
floresta 
prxima a Willamina, Oregon. Alguns dias mais tarde, recebeu 
um 
telefonema 
do xerife da cidade, informando sobre um homem desmemoriado e 
com 
marcas de 
queimaduras pelo corpo que fora encontrado  beira da estrada 
que 
atravessava a floresta. "Mulder!", pensou ela, a chama da 
esperana 
uma vez 
mais reacesa. Afinal, Willamina ficava a cerca setenta 
quilmetros de 
Bellefleur, onde a abduo ocorrera. Menos de quatro horas 
depois, 
estavam 
a caminho, ela e Doggett.

No princpio, quando Doggett fora designado para trabalhar 
com ela, 
no 
gostara dele. Sua presena no escritrio no poro do FBI 
parecia-lhe 
uma 
heresia, uma violao  memria de Mulder. Aos poucos, porm, 
fora se 
acostumando ao jeito seco e ctico do novo parceiro. Com a 
evoluo de 
sua 
gravidez, ele havia se demonstrado um bom companheiro de 
trabalho, 
poupando-a de esforos e encobrindo suas eventuais falhas. 
Acostumou-
se com 
ele. Mas isso era tudo o que tinham, uma boa relao de 
trabalho. No 
gostava da idia de t-lo ao seu lado nos momentos em que se 
sentia 
mais 
frgil, como a cada nova malfadada investigao sobre o 
paradeiro de 
Mulder.

E fora justamente isso que mais aquela jornada se revelara 
ser. Mais 
outra 
desiluso. O homem encontrado na estrada era apenas um bbado 
que 
havia 
sofrido ferimentos e queimaduras aps adormecer sobre uma 
fogueira na 
floresta. As luzes misteriosas que os habitantes do local 
supunham ser 
OVNIs no passavam de avies militares em treinamento de 
camuflagem 
noturna. Resumindo: nada de Mulder, apenas outro balde de 
gua fria 
nas 
esperanas j to combalidas de Scully.

De volta ao hotel, ela no se lembrava exatamente porque se 
iniciara 
seu 
pranto. Tudo o que sabia era que, de repente, no conseguia 
parar de 
chorar. Sentia-se cansada aps trinta horas sem dormir, 
desamparada, 
sem 
esperanas nem foras para continuar.

- Para acalmar.  disse Doggett, estendendo-lhe um copo cujo 
contedo 
ela 
bebeu de um s gole. O whisky desceu queimando sua garganta. 
Mas a 
sensao 
foi boa. F-la sentir-se viva por um instante. E ela 
estendeu-lhe o 
copo, 
pedindo outra dose. E outra e mais outra. 

No sabia ao certo quantas doses havia bebido quando 
percebeu-se nos 
braos 
do parceiro. Sentia-se meio tonta, a cabea leve, girando, 
flutuando. 
Ele a 
enlaava com um dos braos, protetoramente, enquanto o outro 
deslizava 
por 
suas costas abaixo. Beijava-lhe, tambm, o pescoo e a nuca. 
O que 
fazia 
no era certo, mas a sensao era to boa... E ela no 
resistiu, 
deixando-
se levar pelos instintos.

A intensidade das ltimas lembranas fez com que ela abrisse 
os olhos 
de 
sopeto, temendo olhar para os lados. Sentou-se vagarosamente 
na cama, 
sem 
desgrudar os olhos do teto. Respirou fundo para adquirir 
coragem de 
olhar e 
ento o viu. Doggett dormia nu, ao seu lado na cama.



Apartamento de Scully  Washington, DC
11/10/2005  10:25 PM

Tentando apagar as incmodas lembranas, Scully sacudiu a 
cabea. 
Ainda 
sentia-se como se sentira na ocasio, um misto de culpa e 
arrependimento 
lhe oprimia o corao. Sentia-se suja. Lembrou-se de que, na 
ocasio, 
havia 
entrado debaixo do chuveiro e l permanecido por no sabia 
quanto 
tempo. 
Como se as agulhadas da ducha fria pudessem no apenas lavar 
seu 
corpo, mas 
tambm limpar sua alma da culpa.

Lembrou-se de como ficara aliviada quando, ao sair do 
banheiro, 
constatara 
que Doggett no estava mais l. Por todo o restante da 
madrugada at o 
raiar do dia, Scully havia rolando na cama, insone, remoendo 
o 
sentimento 
de culpa. Lembrou-se de seu prprio reflexo no espelho na 
manh 
seguinte, a 
face plida, os lbios descorados, os olhos sombreados de 
prpura pela 
noite no dormida. Um triste fantasma de si mesma. 

Lembrou-se da forma como tratara Doggett depois, fria, quase 
agressiva, 
durante os dois dias subseqentes, at que ele tocara no 
assunto e lhe 
pedira desculpas, alegando estar ele, tambm, j um pouco 
afetado pelo 
lcool. Ela aceitara-lhe as desculpas, acrescentando que o 
melhor era 
esquecerem o acontecido. Ele concordou e, com isso, deram o 
assunto 
por 
encerrado. Mas ela jamais conseguira livrar-se do 
arrependimento.

Envolta naquelas desagradveis sensaes do passado, deixou a 
escova 
escapar-lhe das mos e cair no cho com estardalhao. "Espero 
que no 
tenha 
acordado Amy..." pensou, enquanto se abaixava para pegar o 
objeto. Ao 
levantar-se, porm, subitamente seus ouvidos comearam a 
zunir, as 
paredes 
comearam a girar  sua volta. Ainda tentou agarrar-se  pia, 
para 
tentar 
alcanar a parede e escorar-se, mas foi em vo. Os braos no 
lhe 
obedeciam, as mos no tinham fora, as pernas foram ficando 
moles. 
At que 
tudo ficou escuro e ela caiu no cho desacordada.



12/10/2005 - 05:27 AM

O quarto estava escuro quando ele entrou. Ela jazia na cama, 
adormecida ou 
inconsciente, ele no podia dizer ao certo. A luz fraca dos 
painis 
dos 
equipamentos acentuava a palidez do rosto da mulher. Ela 
estava 
doente, 
muito doente, ele concluiu  vista do sem nmero de tubos e 
cateteres 
e 
eletrodos que uniam o corpo feminino s mquinas em volta da 
cama. 

E havia aquele cheiro... O cheiro caracterstico de hospitais 
que se 
mesclava sutilmente a outro odor... o cheiro repugnante da 
morte, 
grudando-
se em suas narinas... Oh, Deus... Ela estava morrendo...

Vencendo a dor e o medo, ele caminhou lentamente at a 
lateral da 
cama. Viu 
o sofrimento estampado no semblante de Dana Scully, a pele da 
cor de 
cera, 
os lbios descorados, as feies encovadas emolduradas pelo 
vermelho 
dos 
cabelos descuidadamente espalhados sobre o travesseiro. A mo 
hesitante 
tocou-lhe os cabelos, ajeitando gentilmente uma mecha rebelde 
que lhe 
tombava sobre a testa, como se pudesse, com aquele gesto, 
reparar tudo 
o 
que havia de errado com ela. 

Tomou-lhe a mo entre as suas. Estava fria. Ela estava 
morrendo... 
"Oh, 
Deus! Por que ela? Por qu? No a leve, por favor, eu 
imploro." A 
sensao 
opressiva da perda iminente apertava-lhe o peito como uma 
tenaz. No 
pde 
impedir que os joelhos se vergassem, que as lgrimas 
corressem de seus 
olhos. Caiu ajoelhado ao lado da cama. "Eu suplico,  Deus, 
no a 
leve. No 
a tire de mim..." A presso em seu peito aumentava, o ar 
comeava a 
lhe 
faltar. "No a leve, por favor, no, no..."

Weird abriu os olhos assustado, sufocando. Lutou para 
controlar sua 
respirao ofegante. Agora sabia que havia sido outro 
pesadelo. Mas 
fora 
to assustadoramente real... Ainda trazia nos olhos as 
lgrimas que 
vertera 
no sonho. Ainda trazia no peito a angstia de perd-la. 
Fechou os ohos 
com 
fora, tentando resgatar a imagem de uma outra Dana Scully, 
aquela 
linda e 
confiante que conhecera e que trazia gravada nos recnditos 
de sua 
mente. 
Mas no conseguiu visualiz-la. 

Alguma coisa, uma espcie de intuio o forava a manter-se 
alerta e o 
obrigou a abrir os olhos outra vez. Mal teve tempo de rolar 
para o 
lado 
quando o desconhecido vestido de negro saltou sobre ele. O 
homem, 
surpreendido pelo movimento brusco de Weird, caiu estatelado 
no cho. 
Weird 
levantou-se com um salto e tentou correr, mas foi retido pela 
mo de 
um 
segundo homem s suas costas que apertava seu brao. O 
reflexo f-lo 
virar-
se de repelo e atingir com o punho fechado o rosto do 
agressor que 
lhe 
soltou o brao.

Liberto, Weird seguiu em disparada na direo da linha 
frrea, 
tropeando 
nos trilhos pelo caminho, escorregando na brita molhada pela 
chuva 
fina que 
comeava a cair, numa desenfreada corrida de obstculos. De 
relance 
por 
cima do ombro, percebeu que os dois desconhecidos o seguiam 
de perto. 
Ouviu 
o som de disparos atrs de si. Apertou o passo, seguindo 
ainda os 
trilhos, 
a regularidade do posicionamento dos dormentes j no 
representando um 
percalo to grande uma vez que conseguira ajustar suas 
passadas a 
eles. 
Mas os homens no desistiam de sua perseguio.

Num ltimo esforo, Weird conseguiu alcanar com um pulo um 
vago 
plataforma do trem que iniciava sua viagem diante dele. Mal 
teve tempo 
de 
respirar e o primeiro homem j saltava, tambm, sobre o vago 
e sobre 
ele. 
Na luta encarniada que se iniciou ento, no tiveram tempo 
de ver o 
momento quando o segundo perseguidor, na tentativa de pular, 
tambm, 
sobre 
o vago, resvalara na plataforma molhada e cara, sendo 
tragado pela 
escurido e pelas rodas vorazes do trem.

Weird e seu agressor rolavam atracados sobre a plataforma 
aberta do 
vago 
enquanto o trem ganhava velocidade. Ajudado por um solavanco 
um pouco 
mais 
brusco do caminho, Weird conseguiu se livrar das mos do 
homem que se 
estreitavam como garras em torno de seu pescoo e atingir com 
um salto 
o 
vago subseqente. Galgava com dificuldade os degraus 
molhados pela 
chuva 
da escada metlica, tentando chegar ao teto do vago, quando 
percebeu 
que 
seu atacante havia conseguido segur-lo por um dos ps. 
Chutou 
repetidamente o vazio na tentativa de desvencilhar-se do 
agressor, mas 
acabou sendo vencido pela fora superior do inimigo e 
deixando o apoio 
onde 
se agarrava escapar de suas mos. Caiu.

No poderia precisar se fora a mo de Deus ou da sorte. O 
fato  que 
sua 
queda foi interrompida por algo que se prendeu em seu 
sobretudo. E 
Weird 
ficou pendurado por essa mo invisvel no vo entre os dois 
vages, os 
ps 
quase tocando os trilhos a poucos centmetros abaixo. 
Desesperadamente, 
procurava um apoio qualquer onde se agarrar, enquanto, apesar 
do 
barulho 
ensurdecedor do trem, ouvia (ou sentia, talvez) o rudo do 
tecido de 
sua 
roupa se rasgando milmetro a milmetro. 

O homem desconhecido de p no vago diante dele tinha os 
lbios 
retorcidos 
em um sorriso raivoso. O cano de ao prateado da pistola em 
sua mo 
reluzia 
sob os primeiros plidos reflexos da aurora. O dedo semi-
flexionado 
contraa-se no gatilho quando um novo solavanco, seguido de 
uma 
reduo 
brusca na velocidade do trem, arremessou o agressor para 
frente, de 
encontro ao corpo de Weird. A arma sumiu no vo entre os 
vages, onde 
o 
homem, agarrado firmemente ao sobretudo de Weird, lutava para 
no 
desaparecer tambm. O peso extra acelerava o rasgar do 
tecido. 

Com um dos braos, Weird conseguiu finalmente agarrar-se 
outra vez  
escada 
e, balanando o corpo, virar-se o suficiente para apoiar os 
ps num de 
seus 
degraus. As mos do homem escorregavam pelo tecido molhado de 
seu 
sobretudo. Com esforo, Weird conseguiu galgar mais um degrau 
da 
escada, 
apoiando-se melhor.

- Segure minha mo.  disse, estendendo o brao livre ao 
homem que 
escorregava cada vez mais.

Numa tentativa desesperada, o homem arrojou-se em direo  
mo que 
lhe era 
oferecida. Mas apenas conseguiu agarrar-se  manga do casaco. 
Um grito 
ecoou na madrugada quando o tecido se rompeu e o homem foi 
engolido 
pelos 
trilhos.

Minutos mais tarde, encolhido no interior do vago fechado 
onde 
conseguira 
se alojar, Weird refletia sobre os acontecimentos. A 
princpio, 
imaginara 
que os homens que o atacaram apenas desejavam se apossar de 
seu 
abrigo, seu 
casaco ou seus sapatos, uma atitude relativamente comum entre 
a 
populao 
de rua movida pela necessidade de sobrevivncia. Mas no fora 
isso o 
que 
ocorrera. Aqueles homens estavam armados, tentaram mat-lo. 
No fazia 
sentido algum. Por que diabos algum iria querer mat-lo?

L fora, a chuva havia parado e o cu tingia-se dos tons 
alaranjados 
da 
aurora. Os primeiros raios tmidos de sol no tardariam a 
aparecer. O 
trem 
seguia veloz em direo a seu destino, algum lugar, Weird no 
sabia 
onde. 
Mas qualquer lugar devia ser melhor do que aquele onde 
desconhecidos 
queriam elimin-lo.



T O   B E   C O N T I N U E D . . .



NOTA: J sei! Vocs devem estar dizendo "essa mulher t de 
onda com a 
nossa 
cara! To be continued, outra vez?" , pessoal... Sinto muito. 
A 
inteno 
no  deixar ningum furioso, s fornecer mais material para 
vocs 
passarem 
o tempo. Se algum ficar com vontade de acabar com meus dias 
por causa 
disso, just shoot me. Ih! Mas, isso  outro seriado!

MAIS NOTA: Conforme eu avisei no incio, espero que vocs 
tenham 
prestado 
ateno nas datas e horas.  que fazer narrao em flashback 
sem 
recursos 
visuais, como no cinema ou na TV, pode ser meio complicado. A 
cena 
entre 
nossa herona e seu novo parceiro Doggett foi escrita a 
pedido da 
Graa. 
Portanto, se vocs quiserem xingar algum sobre esse 
particular, eis a 
destinatria ( gracap@bol.com.br ).

