Weird


FAN FICTION

ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com)

DISCLAIMER: Os personagens desta estria pertencem a seus 
criadores. 
(Embora eu creia que, no caso especfico de X-Files, os 
criadores  
que 
passaram a pertencer a seus personagens!)

CATEGORIA: Shipper (ma non troppo)

CLASSIFICAO: Censura livre (aqui no tem nada que no se 
veja igual 
ou 
pior na novela das 6)

SPOILER: Mais uma ps-Rquiem.

SINOPSE: Aps cinco anos de separao, Scully reencontra 
Mulder numa 
estranha situao. Como ela deve proceder para t-lo de 
volta?

ADVERTNCIA: Essa fic no  recomendada para diabticos e 
pacientes em 
dieta de restrio de acares. Sorry, eu detesto essas 
coisas 
melosas, mas 
no pude evit-las. Deve ser meu lado Janete Clair aflorando.

AGRADECIMENTO ESPECIAL:  Graa, pelas idias que me deu 
inicialmente 
e 
pela pacincia de ler e opinar sobre essa coisinha melosa.

NOTA: Feedbacks (positivos ou negativos) so essenciais para 
determinar a 
continuao dessa estria. Ou no...



Weird


Sacramento, CA
12/08/2005 - 11:20 AM

A confuso de estridentes sirenes e luzes piscando era 
enlouquecedora. 
Bombeiros moviam-se apressados, desenrolando as pesadas 
mangueiras e 
apontando seus fortes jatos para a casa em chamas. Outros, 
saindo da 
casa 
com as crianas resgatadas nos braos, dirigiam-se 
rapidamente aos 
paramdicos e ambulncias que tambm congestionavam o local. 
Policiais 
isolavam a rea das dezenas de curiosos que se apinhavam nas 
proximidades, 
querendo saber mais detalhes sobre o incndio. Pudera! 
Incndios so 
sempre 
situaes angustiantes. Imagine, ento, um incndio em um 
jardim de 
infncia! Felizmente, segundo as informaes dadas pela 
polcia  TV 
local, 
todas as crianas j haviam sido retiradas com vida da casa.

Subitamente, um homem magro, encurvado, sujo rompeu o 
isolamento sem 
que os 
policiais pudessem impedi-lo e penetrou no inferno em chamas 
em que se 
transformara a casa. A multido que assistia  cena ficou 
atnita! 

- Louco! - disseram alguns. 

- Suicida. - ecoaram outros.

Dentro da casa, o homem, alheio s chamas, procurava por 
algo. Ia 
andando 
de cmodo em cmodo com passos firmes. Nesse momento, no era 
mais o 
mendigo encurvado que entrara ali, mas um gigante, forte e 
destemido. 
Sentia como se uma mo invisvel o conduzisse por entre as 
labaredas 
altas 
com um propsito que ele desconhecia. Ainda. De repente, por 
entre o 
rugir 
do fogo e os estalidos caractersticos que precedem o colapso 
das 
construes em chamas, ouviu o dbil choro de uma criana. O 
rudo no 
era 
mais do que um murmrio, mas o homem seguiu decidido em sua 
direo. 
E, 
ento, a viu. Encolhida em um canto, trmula e assustada, 
estava uma 
menina 
de cerca de quatro anos. Ao perceber a proximidade do homem, 
ela 
ergueu a 
pequenina cabea coroada de cabelos ruivos e, depois de um 
breve exame 
com 
seus olhinhos cinzentos, se atirou em seus braos. Ele a 
aninhou 
contra seu 
peito com todo cuidado e iniciou seu caminho para fora, 
protegendo-a 
do 
fogo com seu corpo. Ao redor deles, as chamas consumiam os 
brinquedos 
transformando os ursinhos de pelcia em bolas ardentes e os 
rostos 
sorridentes dos palhacinhos em grotescas faces deformadas de 
monstros. 
Pedaos do teto comeavam a ruir, mas ele marchava com 
firmeza por 
entre o 
caos, conduzindo seu precioso tesouro para a segurana do 
exterior.


11:55 AM

- FBI. - disse Scully, apresentando com as mos trmulas a 
insgnia a 
um 
dos policiais responsveis pelo isolamento da rea do 
incndio. Sua 
face 
estava turva pelo medo. Esforava-se para manter a aparncia 
fria e 
profissional que sempre a caracterizara, mas era quase 
impossvel.

Andava com passos incertos por entre o tumulto de homens e 
mangueiras 
e 
macas, procurando por ela, examinando sobressaltada cada 
rostinho de 
criana que via pelo caminho. Apenas uma olhada na direo da 
casa em 
chamas foi suficiente para que quase desfalecesse de terror. 
Amy 
Scully, 
sua filha estava naquela casa onde, at aquela manh, 
funcionara um 
limpo e 
organizado jardim de infncia. Por que fora traz-la consigo 
naquela 
investigao? Por que no a havia deixado com a av como 
inicialmente 
planejara fazer? 


Washington DC
08/12/2004 - 11:28 AM

Scully fora chamada com urgncia ao jardim de infncia de 
Amy. A 
menina 
tinha febre alta e chorava sem parar. Scully levou a filha s 
pressas 
ao 
pediatra, mas ao examin-la, cerca de meia hora mais tarde, o 
mdico 
constatou que a febre havia passado sem deixar vestgios. 
Aparentemente, 
Amy voltara a ser a criana saudvel que sempre fora. 
Receitou-lhe um 
antitrmico, caso a febre voltasse, e um exame de sangue. No 
dia 
seguinte e 
por todos os subseqentes desde ento, o quadro voltou a se 
repetir, 
iniciando-se sempre em torno de 11:30 AM e indo embora sem 
necessidade 
de 
medicao alguma cerca de meia hora depois. Infindveis 
consultas 
mdicas e 
interminveis exames no conseguiram revelar nada de errado 
com a 
sade da 
menina. No entanto, a febre sempre aparecia e desaparecia  
mesma hora 
com 
a preciso de um relgio suo. De resto, Amy continuava 
sendo a 
garotinha 
esperta e alegre de sempre. 

O diagnstico final dos especialistas foi de um tipo de 
distrbio de 
origem 
psicossomtica e o tratamento prescrito, o acompanhamento 
psicolgico. 
Como 
aconteceria com qualquer me, o corao de Scully no se 
satisfez com 
aquele diagnstico vago e impreciso. Entretanto, sua mente 
racional e 
cientfica, aliada  sua formao mdica e s suas 
experincias 
profissionais passadas, foram forados a aceitar o parecer 
dos mdicos 
e 
proceder com o tratamento. Assim, desde ento Amy vinha 
freqentando o 
consultrio de uma terapeuta infantil sem, no entanto, 
apresentar 
nenhuma 
melhora.


Washington DC
26/07/2005 - 2:36 AM

Scully foi acordada pelo som do choro convulsivo da filha no 
quarto ao 
lado. Correndo at l, a encontrou sentada na cama. 
Acreditando 
tratar-se 
de sonambulismo, tentou despert-la gentilmente, mas Amy 
tinha a pele 
fria 
e os olhos arregalados e no reagia a estmulos externos. Era 
como se 
estivesse em transe, presa em algum pesadelo assustador. 
Abraou a 
menina 
com ternura, tentando acalm-la com palavras suaves, e assim 
ficou at 
que 
ambas adormeceram. 


Sacramento, CA
12/08/2005 - 12:59 AM

Scully parecia hipnotizada pelas chamas que ainda consumiam a 
casa, 
estava 
imersa nas recordaes dos acontecimentos que a fizeram 
trazer a filha 
consigo naquela investigao. Desde aquela primeira noite, 
havia duas 
semanas, quando Amy a acordara com seu pranto, o evento vinha 
se 
repetindo 
noite aps noite. Somente envolvida pelo abrao da me  que 
a menina 
se 
acalmava. E acabavam ambas por adormecer assim, abraadas. 

Sentia a filha carente como nunca. Desde seu nascimento, 
Scully 
esforava-
se por suprir todas as necessidades afetivas que a menina 
pudesse ter 
pela 
ausncia do pai em sua criao. Scully tentava ser, ao mesmo 
tempo, 
me e 
pai de Amy, alternando seu prprio modo de ser e pensar com o 
modo 
como 
imaginava que Mulder se comportaria em cada situao. 
Racional e 
passional, 
fria e apaixonada, ctica e fervorosa, ela procurava mostrar 
 filha 
todas 
as diferentes nuances do mundo.

Quando Skinner a designara para aquele caso na Califrnia, 
foi por um 
triz 
que no pedira para que ele mandasse outro agente em seu 
lugar. Porm 
algo, 
no fundo de sua alma, a fez desistir de pedir o afastamento. 
Algo que 
no 
saberia definir, uma daquelas intuies inexplicveis que 
aprendera 
com o 
parceiro desaparecido a no desprezar. Como no lhe pareceu 
correto 
deixar 
a filha na casa de sua me naquele estado to carente em que 
se 
encontrava, 
resolveu lev-la consigo. Por indicao de uma amiga que j 
morara na 
cidade, conseguiu deixar Amy durante os dias em que estivesse 
ali no 
jardim 
de infncia que agora ardia como os fossos do inferno. Um 
telefonema 
da 
polcia recebido em seu celular avisando-a do incndio a fez 
correr 
para o 
local.

O esbarro de um bombeiro a despertou do transe em que se 
encontrava. 
Recomeou a vagar a esmo por entre as ambulncias e 
paramdicos sem 
encontrar a filha. Decidiu abordar um policial que, 
aparentemente, 
estava 
coordenando as operaes de resgate.

- Procuro por Amy Scully. - disse ela, mostrando a insgnia 
ao 
policial.

- Ali. - respondeu ele, depois de examinar uma planilha em 
uma 
prancheta. E 
apontou na direo de uma das ambulncias.

Com o corao como que apertado por tenazes de gelo, ela 
dirigiu-se 
com 
passos trpegos na direo indicada. Uma criana com a cabea 
enfaixada 
jazia dentro da ambulncia. Usava uma mscara de oxignio que 
cobria 
quase 
todo o seu rosto. Scully engoliu em seco, estreitando os 
olhos na 
tentativa 
de enxergar atravs da penumbra do interior da ambulncia. 
Uma mecha 
de 
cabelos muito louros que escapava por entre as ataduras da 
cabea 
libertou 
seu peito do completo desespero que a consumia apenas para 
fazer 
retornar a 
angstia que a trouxera at ali.

- Quem a senhora procura? - indagou solcito o paramdico que 
cuidava 
da 
criana de cabea enfaixada.

- Minha filha, Amy Scully. - respondeu com um fio de voz.

- Ah! Ela est bem. Est ali fora, no gramado. - procurou 
acalm-la o 
gentil paramdico, sorrindo.

Para um corao de me, no basta ouvir,  preciso ver com os 
prprios 
olhos. Ela dirigiu-se, ento, com passos incertos at o 
gramado 
indicado. 
Nele, havia um homem de cabelos curtos castanhos sentado de 
costas 
para 
ela, com as pernas cruzadas em posio de ltus. Podia-se 
notar que 
tinha 
as costas largas, apesar de seus ombros estarem encurvados 
como se 
estivesse muito, muito cansado. Scully estremeceu. Por um 
instante, 
julgou 
tratar-se do parceiro desaparecido. Mas qual! Era apenas um 
mendigo, 
com as 
roupas sujas e esfarrapadas, mais um homeless entre outros 
to comuns 
naqueles tempos.

Mais dois passos, e ela divisou os finos cabelos ruivos de 
Amy, 
sentada 
sobre uma das pernas do homem. Podia ouvi-la rindo, aos 
arrancos, como 
costumava fazer quando estava se divertindo muito. Um arrepio 
de 
felicidade 
percorreu seu corpo. O corao, outra vez liberto das tenazes 
do medo, 
permitiu que ela soltasse um suspiro de puro alvio. Despindo 
a capa 
de 
profissional super competente que normalmente portava para 
deixar a 
descoberto a figura da me amorosa que era, Scully deixou que 
as 
lgrimas 
rolassem livremente por sua face.

- Amy? - chamou, j ao lado da filha.

Homem e menina voltaram-se para ela a um s tempo. Amy tinha 
um brilho 
radiante nos olhos, sorria feliz como havia tempos no fazia. 
A 
menina, 
normalmente tmida como a me, sentava-se no colo daquele 
estranho com 
uma 
das mozinhas colocada sobre seu peito como se fossem velhos 
conhecidos. 
Por entre as lgrimas, ela percebeu que o homem tambm 
sorria.

- Minha filhinha... - murmurou Scully, pegando a filha no 
colo e a 
estreitando em seus braos enquanto cobria seu belo rostinho 
de 
beijos.

As lgrimas que toldavam a viso de Scully comeavam agora a 
se 
dissipar. 
Colocando Amy no cho, ela comeou a examin-la 
minuciosamente  
procura de 
algum ferimento que tivesse passado desapercebido aos 
paramdicos.

- Ela est bem! Pode acreditar. - disse o homem, calmamente.

A voz daquele homem, aquela voz que por cinco longos anos ela 
desejou 
to 
ardentemente escutar, fez seu corao descompassar-se. 
Mulder! No 
podia 
ser ele... Sua imensa saudade mais uma vez lhe pregava 
peas... Ela 
respirou fundo uma, duas vezes, at conseguir reunir coragem 
para 
levantar 
a cabea e encarar a verdade. Fosse qual fosse.

Era ele! Por debaixo daquela camada de sujeira e das roupas 
rasgadas. 
Seu 
rosto, de to magro, estava desfigurado. Os ombros encurvados 
para a 
frente 
sugerindo um extremo cansao. Mas os mesmos olhos cinzentos 
onde 
tantas 
vezes ela desejara se perder e que agora escondiam-se por 
trs de 
olheiras 
profundas no deixavam dvidas.

- Mulder... - ela murmurou, sorrindo.

- Como? - perguntou ele, sem entender.

- Mulder?  voc? - ela repetiu mais alto.

- Acho que me confunde com outra pessoa, senhora. Me 
desculpe! - 
respondeu 
ele com um sorrisinho amarelo.

Scully ficou desconcertada. Seria possvel estar fazendo 
tamanha 
confuso? 
Tinha certeza de que no. Seu corao o dizia. Talvez devido 
ao choque 
ele 
no se lembrasse... Amnsia traumtica, dizia a mdica que se 
abrigava 
na 
parte posterior de sua cabea.

- Sou eu quem deve se desculpar, senhor...? Como  mesmo seu 
nome?

- Pode escolher, senhora. Tenho tantos nomes que j nem sei 
ao certo 
qual  
o meu nome... - disse ele, tomando agora o embarao para si. 
- Os 
outros 
homeless andam me chamando de Weird... Por causa das estrias 
que 
conto, 
sabe? - Tinha agora um sorriso irnico nos lbios. - Pode me 
chamar 
assim, 
se quiser. Ou de qualquer outro modo que deseje.

- Weird... - ela repetiu sorrindo. "Weird" fazia sentido, em 
se 
tratando de 
Mulder. Descrevia-o perfeitamente. - Gostaria de lhe 
agradecer pelo 
que fez 
por Amy...

- No foi nada, senhora...?

- Scully, Dana Scully. - respondeu ela estendendo-lhe a mo 
que ele 
tomou 
em um aperto forte e decidido. O aperto de mo de Mulder. 
Sentiu um n 
se 
formando em sua garganta.

- Amy  uma garotinha muito especial... - disse ele com um 
sorriso 
cndido, 
afagando gentilmente os cabelos da menina, subitamente 
mergulhando em 
pensamentos...


Washington DC
08/12/2004 - 10:15 AM

As crianas brincavam no parquinho no ptio do jardim de 
infncia. 
Algumas 
corriam como loucas, umas atrs das outras, num pique onde 
todos eram 
ao 
mesmo tempo perseguido e perseguidor. Outras voavam nos 
balanos e 
gangorras. Ao longe, podia-se ouvir suas risadas e gritinhos 
felizes. 
Felizes e despreocupadas como todas as crianas deveriam ser.

De p, na esquina do outro lado da rua, um homem observava a 
cena. 
Weird, 
era como o chamavam os outros mendigos com quem dividia o 
abrigo dos 
pedaos de manilha em um canteiro de obras nas redondezas. 
Seu 
verdadeiro 
nome j nem sabia mais. Ou, talvez, nunca soubera, desde que 
podia se 
lembrar. Na verdade, suas lembranas eram confusas, no 
conseguia 
posicion-las no tempo com preciso. 

Tinha a impresso de que sua vida comeara naquele dia em que 
acordara 
em 
um quarto de hospital em Denver, Colorado. John Doe, dizia a 
ficha 
presa ao 
p da cama. ". Esse devo ser eu.", havia pensado na ocasio, 
aceitando 
aquele nome como seu uma vez que no se lembrava de outro. 
Mais tarde, 
quando a enfermeira saiu para o corredor dizendo que 
precisava chamar 
os 
policiais para identific-lo, fugiu. No era uma sensao 
agradvel a 
de 
no saber quem era, mas envolver-se com os tiras tampouco lhe 
parecia 
uma 
boa idia. Desde ento, havia vagado sem rumo de uma cidade 
para 
outra, 
vivendo nas ruas. Escondendo-se da polcia e de si mesmo.

Observar as crianas brincando proporcionava-lhe uma 
agradvel 
sensao de 
bem-estar. Sua alegria o fazia esquecer do frio e da fome e 
da 
melancolia 
de ser quem era. Uma garotinha, em especial, atraa sua 
ateno. 
Ajoelhada 
sobre um canteiro, com os cabelos ruivos a esconder-lhe o 
rosto, 
estudava 
atentamente a atividade de um formigueiro, alheia  algazarra 
que 
reinava 
ao seu redor. Parecia to compenetrada nessa ocupao que no 
atendeu 
ao 
chamado da professora avisando sobre o fim do recreio.

- Amy! - chamou a mulher.

Somente ento a menina ergueu os olhos do cho e, por um 
instante, 
encarou 
Weird que ainda a observava. Os olhos cinzentos da menina, 
curiosos e 
inquisitivos, ao invs de se desviarem dos do homem, 
sustentaram seu 
olhar 
por um longo minuto, como que penetrando nos recnditos de 
sua alma, 
inspecionando e avaliando seu contedo. Por fim, ela abriu-
lhe um 
largo 
sorriso, levantou-se do canteiro e desapareceu correndo no 
interior do 
jardim de infncia. Ainda com o frescor daquele sorriso a 
iluminar-lhe 
a 
alma, Weird afastou-se a passos lentos em direo ao seu 
abrigo.

Nos dias que se seguiram, ele voltou por diversas vezes 
quela 
esquina. Mas 
a luz do sorriso de Amy no estava mais l. Entristecido, 
Weird 
decidiu que 
j era tempo de ir-se embora daquela cidade.


Sacramento, CA
12/08/2005 - 02:08 AM

- ...muito especial. - falou Weird, com que saindo do transe.

"Sim, ela  to especial quanto o pai. Voc!", Scully pensava 
confusa.

- Comportou-se como uma mocinha durante todo esse tempo. Tem 
bons 
motivos 
para orgulhar-se dela, senhora Scully. - continuava ele.

"Scully... O modo como ele pronuncia meu nome me 
enlouquece...  como 
uma 
carcia. Oh, Deus!" Precisava fazer algo. Precisava recuperar 
a 
compostura 
e o sangue frio. "Calma. Pense como Scully, a agente do FBI, 
no como 
Dana, 
a mulher apaixonada." Respirou fundo. Ele continuava a falar, 
agora 
com 
Amy, mas ela j no os ouvia. "Em primeiro lugar,  
necessria sua 
identificao positiva como Mulder. Como?"

- E como  o nome dela? - perguntou Weird, segurando com 
carinho a 
boneca 
que Amy lhe estendia.

- Samantha! - a menina respondeu sorrindo.

Por um instante, Scully pensou ter visto uma sombra de 
melancolia 
pairar 
sobre o olhar de Weird, enquanto ele deixava a boneca escapar 
de suas 
mos. 
Scully a apanhou no ar, tomando cuidado para no tocar os 
braos por 
onde 
ela havia segurado a boneca.

- Desculpe-me... - ele murmurou com a voz amargurada. - No 
pretendia...

- Ah, no tem problema. - atalhou Amy, sorrindo. - s vezes 
tambm 
deixo 
cair as coisas. Minha me diz que sou estabanada.

- Senhor Weird, pode tomar conta de Amy para mim por um 
instante? 
Preciso 
cuidar de alguns detalhes burocrticos com os policiais, 
assinar 
alguma 
papelada dizendo que recebi minha filha em perfeita sade e 
todo esse 
bl 
bl bl. Sabe como ?

- Claro! - respondeu ele, j recuperado. - Pode ir sossegada 
que 
estaremos 
bem aqui quando voltar.

Carregando a boneca de Amy como um precioso tesouro, ela 
encaminhou-se 
a um 
dos carros de polcia prximos. Apresentou mais uma vez a 
insgnia e 
requisitou o envio das digitais obtidas dos braos da boneca 
para 
identificao pelos computadores do FBI.

- J estamos enviando. Em dez minutos, no mximo, teremos o 
resultado. 
- 
falou o policial.

- Estarei ali, com minha filha. - disse Scully, voltando para 
junto de 
Amy.

O homem e a menina continuavam rindo, conversando e brincando 
como se 
conhecessem um ao outro por toda a vida. "E de certa forma, 
isso  
verdade", pensava Scully distrada, observando sem ousar 
interferir.

- Agente Scully! - chamou o policial, estendendo-lhe uma 
folha de 
papel com 
o timbre do FBI, onde estava escrito:

"Agente Especial Fox W. Mulder. 
 Nascido em 13/10/1961 - Chilmark, Massachusetts
 Desaparecido em 21/05/2000."

Era ele. Era ele! E novamente ela tremia. Mas desta vez, no 
era a 
desagradvel sensao de medo de quando procurava por Amy 
entre as 
ambulncias. Era um tremor de prazer, as pernas meio frouxas, 
uma 
vontade 
doida de abraar aquele homem sujo de p a sua frente e lev-
lo para 
casa. 
"E ser NOSSA casa, dessa vez."

Mas como faz-lo? Por no se lembrar quem era, ele no 
aceitaria de 
bom 
grado que ela o ajudasse. Scully o conhecia muito bem. 
Amnsia implica 
em 
perda de memria, no de personalidade. Alm disso, no fazia 
muito 
sentido 
a agente especial Dana Scully do FBI, profissional sria e 
conceituada, 
arrastar  fora um mendigo qualquer da rua para sua casa. 
Mesmo que 
ele 
tivesse salvo sua filha. Mesmo que ele fosse Fox Mulder...

Procurou se controlar. Precisava ganhar tempo para elaborar 
alguma 
estratgia. E, principalmente, precisava no deix-lo se 
afastar e 
desaparecer outra vez.

- Tudo resolvido! - exclamou, dobrando o papel e o fazendo 
desaparecer 
em 
um dos bolsos rapidamente. E, olhando para Weird, afetando 
naturalidade, 
acrescentou: - Senhor Weird, Amy e eu ficaramos muito 
felizes se o 
senhor 
nos acompanhasse em um lanche. Afinal, - disse examinando 
rapidamente 
o 
relgio - a hora do almoo j passou h muito tempo e ns 
estamos com 
uma 
fome de leo, no , Amy? - completou, piscando um dos olhos 
para a 
menina.

- Acho que no devo... No gosto de incomodar... - replicou 
ele, sem 
graa, 
enquanto dava dois vacilantes passos para trs.

Scully gelou. Ele estava fugindo. No podia deixar aquilo 
acontecer. 
Tinha 
que fazer alguma coisa. Mas foi Amy quem salvou a situao.

- Ah... Por favor, venha com a gente... - falou com meiguice, 
segurando-lhe 
a mo. - Mame vai nos dar sorvete depois, no , mame?

- Claro! Muito sorvete! - respondeu, respirando mais aliviada 
ao 
perceber 
que a mozinha da filha impedira-lhe a fuga.

- Por favor... - acrescentou a menina, olhando suplicante 
para ele.

- Ok... - ele respondeu conformado, j sendo rebocado pela 
mozinha 
diligente de Amy em direo ao carro de Scully.


Ancil Hoffman Park - Sacramento, Califrnia
04:50 PM

Sentado na mesa de piquenique do parque, Weird observava 
distrado 
Scully e 
Amy tagarelando  sua frente. Sentia-se to feliz quanto 
jamais se 
sentira 
durante toda a vida de que podia se recordar. Era como se 
elas fossem 
sua 
prpria famlia. Famlia... 
Talvez ele tivesse tido uma algum dia. 

Uma casa branca com um pequeno gramado na frente e uma perua 
na 
garagem. 
Apenas mais uma igual a tantas casas iguais no emaranhado de 
ruas 
idnticas 
em algum subrbio de uma cidade qualquer. Dentro dela, 
esperando que 
ele 
chegasse do trabalho, uma esposa adorvel, dois ou trs 
filhos em 
idade 
pr-escolar e um co labrador abanando o rabo deitado ao p 
da 
televiso. 
Haveria uma famlia assim esperando por ele, um membro da 
famlia que 
nunca 
voltaria?

Ou quem sabe ele fosse apenas mais um solteiro bem 
apessoado, vivendo 
em 
um pequeno e mal arrumado apartamento no centro de uma cidade 
qualquer, 
desfrutando apenas da companhia silenciosa dos peixinhos de 
seu 
aqurio e 
de um armrio atulhado de fitas de vdeo porn e exemplares 
antigos de 
Playboy e Hustler?

Quem poderia saber? O certo era que, naquele momento, ele 
gostaria de 
ter 
uma famlia. Aquela famlia!

O que sentia por Amy era impossvel de exprimir em palavras. 
Era como 
se 
ela fosse uma parte dele mesmo. Sim, uma parte de si prprio. 
Isso 
talvez 
pudesse explicar o que o compelira a entrar naquela casa em 
chamas e 
seguir 
procurando por algo, em meio quele inferno ardente, que ele 
no fazia 
a 
menor idia do que fosse. Apenas sabia que devia continuar 
procurando 
e 
seguira as estranhas vibraes que o haviam conduzido at 
Amy. E, ao 
encontr-la, no tivera a menor dvida de que era exatamente 
o que 
procurava. Desde a primeira vez em que a vira, naquele 
parquinho em 
Washington, havia um milho de anos atrs, ela o havia 
cativado com 
aqueles 
olhinhos curiosos. Sentia que seria, para sempre, prisioneiro 
daquele 
olhar.

J aquela mulher ruiva lhe causara um emaranhado de sensaes 
confusas. Era 
como se fossem muitas mulheres reunidas em um nico corpo.  
primeira 
vista, a temera por seu comportamento inquisitivo, quase que 
policial. 
A 
maneira com que ela o olhava, examinando-o, avaliando-o, era 
to 
incmoda... Quando Amy lhe contara, orgulhosa, que a me era 
agente do 
FBI, 
ele pde compreend-la melhor. Depois, no carro, vindo para o 
parque, 
novamente sentiu-se engolfado por outro turbilho de emoes 
desconexas. 
Estar ali, no banco do carona do carro que rodava por uma 
estradinha, 
observ-la pelo canto do olho, dirigindo to atenta  
estrada, os 
dedos 
tamborilando o volante no ritmo da msica que flua do 
rdio... Foi 
como um 
dej-vu. Como se j houvesse passado por aquela situao 
antes, no 
apenas 
uma, mas um sem nmero de vezes. Agora, ali, no parque, era 
ainda 
outra 
mulher que se sentava diante dele. Despreocupada, relaxada, 
sorrindo e 
brincando com a filha. To diferente, to bonita...

"Sim... Eu poderia amar essa mulher...", devaneava. Uma 
sbita rajada 
de 
vento despenteou os cabelos ruivos de Scully. O cheiro 
daqueles 
cabelos 
impregnou as narinas de Weird, um cheiro to seu conhecido e 
havia 
tanto 
tempo esquecido... Num flash, pareceu-lhe recordar de como 
seria 
enterrar o 
nariz naquela cabeleira, da textura de seda sob seus lbios 
em um 
beijo. E 
ele foi invadido pela sensao de que tambm a conhecia por 
toda a 
vida.

- Poderia me ajudar aqui, sr. Weird? - pedia-lhe Scully, 
interrompendo 
seus 
devaneios.

Ela havia se levantado e tentava alar Amy at um galho alto 
de uma 
rvore 
prxima. Ele aproximou-se e a ajudou a levantar a menina. Ao 
faz-lo, 
seus 
dedos inadvertidamente roaram os de Scully e um arrepio 
brotou da 
base de 
sua espinha, percorrendo todo o caminho at sua nuca. Seus 
olhos se 
encontraram e ele pode ler naquele olhar que o toque 
provocara nela 
reao 
semelhante. Sustentando Amy no ar, enquanto a menina tentava 
apanhar 
uma 
ma presa ao galho, os corpos de ambos ficava perigosamente 
prximos, 
o 
espao entre os dois preenchido ainda pela eletricidade do 
contato 
anterior. Parecendo tentar se equilibrar melhor, Scully deu 
um pequeno 
passo adiante, diminuindo ainda mais a j pequena distncia 
entre os 
dois, 
ao mesmo tempo em que, ajeitando as mos sobre o corpo de 
Amy, enlaou 
seus 
dedos aos de Weird. Ela parecia provoc-lo!

- Peguei! - o gritinho estridente da menina quebrou o clima 
que havia 
se 
criado. Amy sorria, indiferente ao turbilho de emoes 
estampado nos 
rostos dos adultos. - Para voc! - completou ela, estendendo 
a ma 
recm 
apanhada para Weird.

Desconcertado pelo gesto, bruscamente alterando seu foco do 
desejo 
para a 
ternura, ele tinha os olhos midos. Ajoelhando-se, envolveu a 
menina 
em um 
abrao que encheu seu corao com a melodia de um coro de 
anjos. 
Beijou-a 
suavemente na testa e guardou a fruta com cuidado no bolso.

- Hora de ir! O parque j est fechando. - disse Scully, 
comeando a 
juntar 
os restos do piquenique. - Vamos? - indagou ao acabar.

No carro, no caminho de volta para a cidade, o sol se punha, 
colorindo 
o 
cu com reflexos alaranjados e rosados. Essa luz avermelhada 
filtrada 
pelo 
prabrisa do carro, conferia tons rosados  pele de Scully, 
tornando-a 
ainda mais bela. Ela o impressionara profundamente. Um 
simples toque 
em sua 
pele fora o suficiente para arremess-lo a um mar de desejos 
e paixes 
furiosas que nunca havia conhecido. A sensao de dej-vu 
tornara-se 
ainda 
mais intensa depois daquele contato.

- , Amy. Precisamos pensar no que vamos fazer com voc para 
que a 
mame 
possa trabalhar amanh... - dizia Scully, tentando parecer 
despreocupada. 
Em sua cabea, as idias jorravam aos borbotes, tentando 
encontrar um 
modo 
de no permitir que Mulder se afastasse. - Tive uma idia, 
mas preciso 
de 
sua ajuda, sr. Weird. - continuou, esforando-se para manter 
o tom 
natural.

- Em que poderia ajud-la, senhora? - perguntou ele, 
estranhando.

- Sabe, o jardim de infncia se incendiou e s consegui uma 
vaga 
temporria 
nele para Amy porque uma amiga me indicou. Acho que ser 
praticamente 
impossvel arranjar vaga em outro lugar qualquer para ela 
amanh. No 
tenho 
com quem deix-la, no conheo ningum na cidade e preciso de 
apenas 
mais 
um dia para encerrar meu trabalho aqui em Sacramento. - Olhou 
de 
relance 
para o banco do carona onde ele acompanhava tudo com ateno, 
tentando 
entender aonde ela queria chegar com toda aquela longa 
explicao. - O 
senhor poderia fazer isso por mim? Por ns? Tomaria conta de 
Amy 
enquanto 
trabalho amanh? - Com isso, tentava ganhar mais um dia at 
poder 
achar uma 
soluo para seu problema.

Por mais que a idia de passar um dia inteiro na companhia de 
Amy lhe 
soasse maravilhosamente agradvel, Weird no conseguia 
entender uma 
coisa. 
Como podia Scully, que j havia demonstrado ser uma me to 
amorosa e 
dedicada, possivelmente confiar em deixar sua filhinha a 
cargo de um 
completo desconhecido como ele? E, para colocar as coisas sob 
uma 
tica 
fria e calculista, considerando-se que ele era apenas uma 
morador de 
rua, 
sem nome ou identidade, o que a levaria a inferir que ele no 
iria 
seqestrar a menina, maltrat-la ou, at mesmo, ele sabia bem 
que 
existiam 
pessoas capazes daquilo (se  que se pode consider-las 
pessoas), at 
mesmo 
mat-la? Algo no soava correto naquilo tudo, no soava 
mesmo.

- Veja, senhora... eu... eu no posso... - ele gaguejava, 
extremamente 
confuso. - No... no posso... no devo... - a imagem de 
policiais e 
algemas e celas de priso j desfilando aterradoramente 
diante de seus 
olhos.

Pelo canto do olho, Scully pde perceber sua expresso 
assustada, todo 
ele 
encolhendo-se contra a porta do automvel como se fosse pular 
pela 
janela a 
qualquer momento.

- Ah, por favor, Weird... - suplicou Amy suavemente, 
esticando-se toda 
para 
colocar as mozinhas em seus ombros.

O calor do toque daquelas mozinhas unido  suavidade e  
splica na 
voz 
foram o suficiente para faz-lo colocar de lado todos os 
medos e 
desconfianas e esfumaarem-se as imagens assustadoras que 
invadiam 
sua 
mente.

- Seria o maior prazer do mundo, sra. Scully. - respondeu ele 
comum 
sorriso 
tmido nos lbios.

- timo! - Scully exclamou aliviada. - Faamos o seguinte. 
Passaremos 
em 
sua casa para que pegue suas coisas e depois iremos para o 
motel onde 
estamos hospedadas. Gostaria de hosped-lo l por esta noite 
para a 
eventualidade de eu ser chamada numa emergncia no meio da 
noite e Amy 
ter 
que ficar sozinha. Concorda?

- No precisa se preocupar em passar em minha casa, senhora. 
No tenho 
casa. Tudo o que tenho, carrego comigo em meus bolsos. - 
disse ele, 
enfiando as mo nos bolsos e de l tirando um canivete suo 
enferrujado, - 
Minha arma de defesa e minha caixa de ferramentas. - um 
chaveiro com 
uma 
rplica em plstico da Enterprise, - Meu veculo para viajar. 
- um 
punhado 
de sementes de girassol, - um lanchinho para a hora da fome - 
e, 
finalmente, a ma que Amy lhe dera no parque. - Meu tesouro 
mais 
precioso.

Scully sorriu, os olhos rasos d'gua. "Sementes de girassol e 
a 
Enterprise!!" Definitivamente, aquele era Mulder.



Super 8 Motel - Sacramento, Califrnia
08:38 PM

Quem os visse ali, sentados, na mesa da lanchonete, diria 
tratar-se de 
uma 
famlia em frias, jantando feliz. Muitas estrias sendo 
contadas, 
infalivelmente encerradas por boas risadas.

De banho tomado e barba feita, usando jeans, camiseta e 
moleton que 
Scully 
havia comprado para ele em uma loja de departamentos prxima, 
Weird 
havia 
se transformado novamente em Mulder. Pelo menos, na 
aparncia. Apesar 
do 
rosto magro e marcado pelo sofrimento e pelos cabelos um 
pouco mais 
longos 
do que costumava usar, era Mulder sentado ali, com seu jeito 
irnico 
de 
falar, suas estrias malucas e aquele modo todo seu de erguer 
sarcasticamente a sobrancelha quando fazia uma pergunta 
obviamente 
idiota. 

V-lo sentado  sua frente, ao alcance da mo, to contente 
conversando com 
a filha, deixava Scully confusa. Ela lutava bravamente contra 
a 
vontade de 
abra-lo e cham-lo por seu verdadeiro nome e revelar-lhe 
toda a 
verdade 
sobre seu passado. Mas, como mdica, sabia que no devia 
faz-lo e 
que, 
mesmo que o fizesse, isso provavelmente em nada o ajudaria a 
recuperar 
a 
memria. Amnsia retrgrada ps-traumtica, esse era o nome 
de seu 
mal. 
Havia algumas drogas que poderiam ajud-lo a se lembrar, mas 
seu 
efeito era 
temporrio. Como para todos os problemas psquicos, no havia 
frmula 
mgica de cura para o caso de Mulder. O melhor remdio era o 
tempo.

A conversa que tivera com Skinner, mais cedo pelo telefone, 
tampouco a 
ajudara a decidir o que fazer. O diretor falara em 
internao, ainda 
que 
forada, de Mulder em alguma instituio psiquitrica. Quando 
Scully 
tentara lhe explicar sobre a ineficcia dos tratamentos 
convencionais, 
ele 
chegara at mesmo a citar um ou dois nomes de hospitais 
conhecidos 
pelo 
pioneirismo de suas pesquisas. Ela, a princpio, rejeitara a 
idia. 
No 
queria submeter Mulder, j to maltratado pelas 
circunstncias que o 
haviam 
levado at aquele ponto, a novos sofrimentos, mesmo que a 
inteno 
fosse 
boa. No seria justo com ele. Mas acabou sendo convencida por 
Skinner 
de 
que aquela seria a melhor atitude a ser tomada. Decidiram 
que, quando 
ela 
retornasse ao motel no fim do dia seguinte, traria consigo 
uma equipe 
mdica para auxili-la, caso necessrio, na remoo e 
internao de 
Mulder. 
Secretamente, porm, ela ainda tinha esperanas de que 
houvesse outra 
soluo.

- O jantar estava timo, mas j  hora de dormir, Amy!

- Ah, mame! Ainda  cedo e eu tenho tanto para conversar com 
Weird... 
- 
protestou, inconformada, a menina.

- No, querida. Amanh voc ter o dia todo para conversar 
com o sr. 
Weird. 
- Scully atalhou com autoridade.

- Sua me tem razo, meu bem. Amanh o dia ser todo nosso! - 
ele 
prometeu, 
piscando um olho maroto para a menina.

Scully havia conseguido para ele um quarto ao lado do seu e 
de Amy, de 
modo 
que a porta de comunicao entre os quartos pudesse ser 
aberta para 
que ele 
ficasse com a menina, caso ela precisasse se ausentar durante 
a noite.

De p, na porta do quarto, Weird observava Scully colocando 
Amy na 
cama. O 
modo como ela ajeitava as cobertas cuidadosamente sobre a 
menina e 
depois 
beijava-lhe carinhosamente a testa. 

- Mame, posso pedir um beijo de boa noite ao Weird tambm? - 
perguntou 
Amy, olhando para o vulto parado na porta.

Scully se voltou para ele e sorriu, piscando um dos olhos. 
Ele se 
aproximou 
da cama e beijou ternamente a testa da garotinha.

- Boa noite, Amy. - sussurrou. - Durma com os anjos.

- Eu amo voc, mame. E voc tambm, Weird. - ela murmurou j 
adormecendo.

Sileciosamente, os dois adultos deixaram o quarto para o 
corredor 
avarandado do motel. Instalaram-se em um banco comprido de 
ferro que, 
colocado ao lado da porta junto a uma mesinha tambm de 
ferro, dava ao 
corredor um ar de casa do interior. Contemplaram silenciosos 
a noite 
fria e 
estrelada de outono, imersos cada qual em um sem fim de 
pensamentos. 
Mulder 
quebrou o silncio.

-  uma garotinha incrvel...

Scully hesitou, pensando no que dizer. Havia tantas coisas a 
serem 
ditas...

- Sim. - foi tudo o quanto conseguiu articular.

- Ela me disse que voc trabalha para o FBI. - ele continuou. 

Scully exultou. "Eis minha deixa."

-  verdade. - comeou a falar, mais animada. - Em uma 
diviso que 
trata de 
casos estranhos, que o fluxo normal de investigaes no 
consegue 
elucidar. 
So os chamados Arquivos X.

- Como assim, estranhos? - ele interrompeu com curiosidade.

- Basicamente, tratamos de casos que as abordagens lgica e 
cientfica 
convencionais no conseguem explicar. Paranormalidade, 
fenmenos 
extra-
terrestres, esse tipo de coisas. - ela continuou, a cada 
segundo mais 
entusiasmada pelo interesse que ele demonstrava.

- Muito interessante. J deve ter visto coisas 
extraordinrias, ento.

- Ah, sim. J presenciei alguns fenmenos inexplicveis  luz 
da 
razo. Por 
exemplo, uma vez...

E comeou a contar, empolgada, fatos de casos que haviam 
investigado 
juntos, na esperana de que ele se recordasse de qualquer 
coisa. Por 
vezes, 
imaginava vislumbrar em seu olhar um fugaz lampejo de 
recordao que 
desaparecia to rapidamente quanto havia surgido. Ento, ela 
forava-
se a 
tentar relatar os casos sob a tica como imaginava que Mulder 
os 
veria. Ele 
ouvia interessado, fazendo uma pergunta aqui outra ali, como 
Mulder 
faria. 
Mas, para sua frustrao, depois de duas horas de relatos, 
ainda era 
Weird 
sentado ali ao seu lado. Por fim, pareceu esgotar-se seu 
repertrio de 
arquivos X. Esforava-se diligentemente, mas no conseguia 
lembrar de 
mais 
nada para contar. E calou-se. 

Pairava entre os dois um silncio profundo que fez com que 
cada um 
mergulhasse outra vez em pensamentos. No silncio, a presena 
um do 
outro, 
sentados lado a lado no banco estreito, tornou-se mais 
intensa, mais 
definida.

Uma repentina lufada da fria brisa da noite fez Scully 
estremecer. 
Mulder 
percebeu e cobriu os ombros dela com o casaco que tinha 
jogado sobre 
seus 
prprios ombros. O calor dele a envolveu por inteiro, com uma 
carcia. 
Ela 
estremeceu novamente, desta vez de desejo. Um desejo surdo, 
forte, 
latente 
aps tantos anos de separao, foi se apoderando lentamente 
de todo o 
seu 
ser. E ela reagiu a ele. Ela moveu o brao e cobriu com sua 
mo a mo 
dele 
que descansava sobre o assento do banco. Foi a vez dele 
estremecer com 
o 
toque, e estremeceu mais ainda quando ela enlaou seus dedos 
com os 
dela, 
apertando-os com fora, como se quisesse uni-los para sempre.

Com todo cuidado, Scully deslocou-se no banco, aproximando-se 
mais de 
Mulder. Ele no fugiu e ela, ento, aproximou-se ainda mais, 
tocando 
coxa 
com coxa. Ele tremia, sua respirao pesada, uma veia pulsava 
visivelmente 
em sua tmpora. Ela tambm tinha a boca seca e o corao 
disparado. 
Era 
como se cada molcula do ar que ele exalava com dificuldade 
provocasse 
uma 
descarga eltrica no corpo dela que se propagava por sua mo 
e se 
transmitia de volta para ele.

Num impulso, Scully ergueu-se, sem afrouxar a presso com que 
segurava-lhe 
a mo, e o conduziu gentilmente para o quarto ao lado daquele 
em que 
Amy 
dormia. Ele a seguia dcil, atnito com a atitude daquela 
quase 
estranha, 
desconcertado por sua ousadia, mas, ao mesmo tempo, encantado 
com as 
possibilidades que se descortinavam diante dele. Mas, 
impulsivamente, 
preferiu deixar de lado as divagaes e as dvidas e os 
temores que 
assaltavam seu peito e entregar-se s sensaes que o momento 
lhe 
propiciava. Tinha a impresso de estar vivendo um momento 
pelo qual 
esperara por toda a vida. Cuidadosamente, fechou a porta 
atrs de si e 
se 
voltou para a mulher ruiva para encontrar-lhe o olhar turvo 
de desejo, 
do 
modo como ele mesmo se sentia.

Sem tirar os olhos dele, Scully tomou-lhe a mo, cujos dedos 
ainda 
detinha 
entre os seus, e colocou-a sobre seu peito, seu corao 
descompassado. 
Ele 
tomou-lhe a outra mo e fez o mesmo. Foi um momento de mgica 
comunho, 
seus coraes marcando em descompasso a sinfonia da paixo. 
Em total 
sincronia, ela elevou-se nas pontas dos ps, ao mesmo tempo 
em que ele 
se 
inclinava, e seus lbios se encontraram no meio do percurso.


13/08/2005 - 07:15 AM

O reflexo da jovem mulher ruiva no espelho era de algum 
feliz. Bem 
diferente daquele outro, no dia anterior, quando uma mulher 
envelhecida e 
desiludida mal olhava para sua prpria imagem enquanto 
escovava os 
cabelos. 
Rejuvenescida, era como Scully se sentia aquela manh. 
Rejuvenescida e 
feliz como no estava havia tempos.

Haviam se amado, ela e Mulder, com urgncia, como se fosse a 
primeira 
vez. 
E, de certa forma, era, ao menos para ele. Depois adormeceram 
nos 
braos um 
do outro. J passava de uma da manh quando ela acordou. 
Deixou-se 
ficar 
ali, quieta, sem abrir os olhos, apenas desfrutando do 
aconchego 
daquele 
brao que a envolvia e do calor do peito msculo onde sua 
cabea 
repousava. 

"Amy est sozinha!", chamou, finalmente, a voz da razo em 
sua cabea. 
Com 
cuidado para no acord-lo, moveu-lhe o brao para o lado e 
levantou-
se. 
Ele gemeu e acomodou-se, sem acordar. Ela juntou suas roupas 
do cho e 
as 
vestiu silenciosamente, de costas para ele. Ao olhar de 
relance no 
espelho, 
porm, deu com um belo par de olhos cinzentos fitos nela. 
Scully 
virou-se 
devagar. Ele a olhava fixamente, a examinava. E, ento, um 
sorriso 
maroto 
brincou em seus lbios.

Ela corou. "Leviana, ele deve estar pensando. Afinal, para 
ele, no 
foi com 
Mulder que dormi, mas com Weird. Uma total estranha indo para 
a cama 
com um 
desconhecido no primeiro encontro. E por iniciativa minha! 
Leviana, no 
mnimo." Uma onda de vergonha a varria agora, toda sua 
educao 
catlica 
repressora, os anos em colgios de freiras voltando-lhe  
mente de um 
s 
golpe. "Vadia, leviana.", repetia para si mesma.

- Por favor, no me compreenda mal. Eu... eu... - tartamudeou 
confusa, 
o 
rosto queimando de vergonha.

- Sshh... - fez ele, colocando-lhe um dedo sobre os lbios e 
a 
surpreendendo com o gesto. Ela estava to atordoada que no 
percebera 
que 
ele havia se levantado e estava agora parado ao seu lado, com 
um 
lenol 
envolvendo a cintura. - No precisa dizer nada, no precisa 
se 
explicar. 
No h ningum para julgar ou ser julgado aqui. No deixe a 
velha 
moralidade catlica cobrir de pecado e vergonha algo to 
absolutamente 
belo 
e puro como o que houve esta noite. 

Era Mulder falando. Mulder com seus psicologismos, lendo sua 
mente e 
dissecando suas emoes. Delicadamente, ele ajeitou uma mecha 
de 
cabelos 
vermelhos que insistia em cair-lhe sobre os olhos e sorriu um 
sorriso 
luminoso que dissipou todas as angstias que consumiam o 
corao de 
Scully.

- V! J  tarde e Amy est sozinha. - ele completou, dando-
lhe um 
delicado 
beijo na testa.

- Mame... - a vozinha sonolenta de Amy no quarto a arrancou 
diretamente 
das lembranas de volta para o tempo presente.

Antes de deixar o banheiro, ela ainda sorriu para sua prpria 
imagem 
no 
espelho ao lembrar das ltimas palavras que ouvira murmuradas 
na noite 
anterior quando deixava o quarto. "Ei, eu te amo."



08:30 AM

Sentada no carro parado no estacionamento do motel, Scully 
dava a Amy 
as 
ltimas instrues sobre como se comportar. 

Weird as observava parado de p ao lado do carro a apenas um 
passo de 
distncia. Ainda no era capaz de compreender e analisar tudo 
o que 
havia 
acontecido nas ltimas vinte e quatro horas. O que o havia 
impelido ao  
interior daquela casa em chamas, diretamente para o local 
onde estava 
Amy? 
Por que Dana Scully decidira lhe confiar ao cuidado da menina 
druante 
aquele dia, to contrariamente ao que havia de mais lgico e 
razovel? 
Sim, 
porque aquela mulher, pelo pouco que pudera observar e pelo 
muito que 
ele 
acreditava compreender da natureza humana, definitivamente, 
fazia o 
gnero 
"atitudes lgicas e razoveis". Mais, o que havia levado a 
mulher que 
ela 
parecia ser, to sria e recatada, a seduzir e entregar-se 
por inteiro 
a um 
desconhecido como ele? Seria ela uma ninfomanaca em pele de 
puritana? 
No, 
algo no interior de Weird lhe dizia que no, que havia algo 
oculto em 
toda 
aquela situao que ele ainda no conseguira distinguir. Ele 
reagira  
seduo da noite anterior como qualquer macho adulto da 
espcie humana 
faria, por instinto, teso. Mas por todo o tempo em que 
haviam estado 
juntos, feito amor, aquela sensao de dej-vu que vinha 
sentindo 
desde a 
primeira vez em que vira Scully no local do incndio se 
tornara ainda 
mais 
e mais intensa. Era como se fossem velhos conhecidos, antigos 
amantes 
consumindo-se em um ato por muito tempo reprimido, embora 
desejado e 
esperado por toda a eternidade. E, ainda, por que em sueus 
pensamentos 
a 
chamava de Scully e no Sra. Scully ou Dana, como a recm 
criada 
intimidade 
entre os dois poderia permitir? Perguntas demais e nenhuma 
resposta. 
Tudo o 
que sabia era que gostaria de poder permanecer com elas para 
sempre. 
Ia 
perdido em devaneios, imaginando as coisas que gortaria que 
fizessem 
juntos, os lugares que lhes mostraria, as brincadeiras e 
gargalhadas 
que 
compartilhariam...

- Este homem a est incomodando, senhora? - perguntou o 
policial que 
se 
aproximava, indicando Weird com a cabea, a mo direita j 
estrategicamente 
colocada sobre o coldre.

De sbito, Weird foi arrancado de seus devaneios pela dura 
realidade 
de sua 
condio. Um mendigo, sem lar e sem destino, sem passado nem 
futuro. 
Um 
ningum. Menos que nada. O que poderia lhes oferecer? E 
desatou a 
correr, 
to rpido quanto podia e ainda um pouco mais. Corria s 
cegas, as 
lgrimas 
toldavam-lhe a viso. Mas era melhor assim. Melhor no ver 
por onde 
ia, 
para no saber como voltar.



T O   B E   C O N T I N U E D . . .
