SEEDS
BY MOUNTAINPHYLE

* * * * * * * * * * * *
Captulo 20
* * * * * * * * * * * *

Residncia de Warner
9 de novembro de 2000
4:35 da tarde

Mulder 'sente' o azul pairar sobre o alerta-amarelo.

 azul por convico que certos oficiais da lei possuem uma
intuio para um perigo psiquico. Scully h muito tempo
guarda esta habilidade, preferendo levar tempo para
coletar evidencia e usar a mente at que uma concluso fique
bem clara, at ela poder agir.

Embora ele aprecie o seu bom senso, o que mais pode justificar
os palpites surpreendentes que ele possui h anos, e que foi alm
do bvio e racional? Sua habilidade para sentir e definir o que
os outros no sentem?

Hoje  noite, na casa de Natalie Warner, ele anda pela
cozinha. A evidencia acumulada - a inquietude noturna de
Benjie, a conexo sobrenatural dele para o assassino,
o ataque  Scully na casa de Darnell, o presente em
forma de casinha e a assustadora revelao desta manh -
tudo isso faz uma presena dinmica neste caso. E algo
est a ponto de fundir, desdobrar... e no saber quando ou
onde vai acontecer o deixa muito aborrecido.

Natalie, ao que parece, sente as vibraes tambm.

"Tudo  muito esquisito pra mim" ela jura para os dois
homens, carranqueando e fumando de uma cadeira, no canto
da cozinha. " muita coisa estranha acontecendo de uma
vez. Achei que era hora de falar."

"Vamos falar sobre o que voc disse no telefone" Darnell
explica, mostrando sua propria irritao. "Explique o que
voc quer dizer com isso. Voc est pedindo algum tipo
de imunidade?"

Natalie pisca.  "Ainda nao decidi. Voc tem algum problema
com isso, detetive?"

"Nao - *eu* tenho um problema com isso" Mulder rosna, virando
para responder. "Se voc quer falar conosco, tudo bem, pode
falar, caso contrrio, ento nos deixe aproveitar o tempo 
que ainda temos.

"No precisa ficar irritadinho comigo, agente Mulder. Ns dois
sabemos o que queremos."

A auto-confiana dela o esfola. Ele abafa uma gargalhada 
sarcastica antes de pegar outra cadeira e sentar de frente a
ela. "Escute" ele acusa. "Voc nos puxa, e nos solta, como se
isso fosse um jogo pra voc. No caf eu fiz algumas perguntas
especificas, se os parentes das vitimas anteriores de Cokely ainda
estavam morando na rea, e voc escolher fugir ao responder."

"Precisei recuar. Precisava pensar."

"Pois eu chamo isso de covardia."

Ele queria que Scully estivesse aqui para testemunhas como Natalie
cai feio. Se sua parceira no estivesse atolada na biblioteca, vendo
microfilmes inteis, ele lhe daria esta oportunidade para 
superar essa mulher.

"Algo deve ter servido como um catalisador na festa
de aniversrio da sua filha" ele persiste, voltando o claro
de Natalie. "Virtualmente, at pouco tempo Benjie Tillman era
apenas uma lenda em Aubrey. A existencia dele era material de
fofoca cruel e 'achismos', at que ele comeou a ir para o
jardim de infncia, e interagiu com pessoas diferentes de sua
familia. E logo ele foi convidado para a festa de aniversrio
de um colega."

"No foi cometido nenhum criem; enganos como esse acontecem
o tempo todo, cara. Eu deixei a criana entrar, no deixei?"

"Mas Benjie no  uma criana qualquer. A primeira festa dele, e por sua
propria admisso, ele 'te assustou at o inferno' com as observaes
dele. O que voc acha que o incitou a fazer aquele comentrio de
'pequena irm', sra. Warner?"

"Como diabos eu vou saber?"

Mulder empurra a cadeira pra trs, em desgosto, as pernas raspando
o linleo. A voz dele ganha volume. "Porque algum pegou isso naquela
noite. Se alimentou disso." ele olhou pra ela. "Algum foi usado naquele
dia"

"Era uma festa de crianas, pelo amor de Deus! Alice at mesmo conseguiu
senta-los enquanto eles comiam bolo e sorvete."

"E se ns pegarmos sua declarao original para a policia" Darnell
fala. "Alice Marshall era a nica outra adulta aqui, alm de 
Gwen DiAngelo, certo?" ele olha para Natalie, para confirmar, e ento
olha para Mulder, dando de ombros. " um beco sem sada - eu quero dizer...
eu falei com ela no hospital logo depois que Viola Rains foi atacada.
Ela  uma av, uma das pessoas mais sinceras que voc poderia encontrar.
E, como Viola, ela est aqui h muito tempo."

* * * * * * * * * * * *

Residncia de Tillman
9 de novembro de 2000
4:37 da tarde

Ela desliza finalmente pelo gelo, mas Scully est pasma
por no temer afogar.

Virando o rosto para a luz, a gua parece morna como sol
de vero, como uma fonte quente sobre seu corpo. Ela flutua, uma
Ophelia cabeluda nas correntes prateadas da gua.

A luz brilha sobre ela... dourada, indescritivelmente brilhante.
O som de sino toca em suas orelhas - no,  a voz de um anjo. Uma
voz de criana, doce, chama por ela, acariciando seus sentidos. 
Puxando-a para a superficie.

("Mame? Mame, por favor...")

Ela alcana para o som claro, o corao cheio de lagrimas 
misturadas com as guas na qual ela flutua. Sobre ela esto
as bordas do gelo cristalino.

"Eu estou indo, querida!  Mame est aqui..."

("Rpido, mame! Rpido!)

A pequena mo aparece no alto. Os dedos de Scully agarram esta
mo, e ela sente um puxo, e sai para a superficie, para a segurana.
Em sua palma ela sente dedos trmulos, como se a criana quisesse
escapar.

("Me deixe ir agora.")

"Emily?" os dedos fortes dela acariciam os dedinhos num
ultimo esforo para memoriza-los. Se lembrar de todo contorno macio
e infantil...

("Por favor, Mame... voc tem que me deixar ir...")

A mo minscula desaparece. Ofegando, Scully colide contra a
superficie, gelo quebrando numa exploso de luz. Nada permanece
em viso, exceto uma dor aguda em sua cabea, e gotas molhadas
e mornas ao lado do seu pescoo.

Vindo a si, ela percebe que est num cmodo meio escuro, 
joelhos curvados, mos amarradas por fita, atrs das costas. Msculos
duros de tenso, e seu queixo e rosto queimam contra o tapete, contuses
novas polindo sobre as velhas. Provando o gosto de sangue, ela
sente que as menbranas de dentro da boca esto cortadas, devido
ao golpe que recebeu por trs.

Instinto de sobrevivncia aparecem, e ela faz um rpido inventrio.
As pernas e tornozelos esto amarrados, a fita sobre a cala comprida.
No existe nada sobre o rosto ou boca, graas a Deus, ento ela 
respira fundo, at onde os pulmes e amarras permitem.

Sua cabea sangra, incontrolada, e ela sente o corte, sabendo
que vai precisar de muitos mais pontos que o corte de Mulder. 
E ela percebe, com um senso doente de percepo, que ela est
presa, amarrada como um cordeiro, pronto para o sacrificio.

O cheiro farto de cera de vela quente faz seu estomago
embrulhar. Chamas brilham pelo cmodo. Isso traz lembranas
de Donnie Pfaster em seu apartamento. Ela, sendo o trofu que
escapou. Sentindo o suor frio debaixo da jaqueta, ela tenta
fazer o proprio corao se acalmar, e recuperar o controle.

Pfaster no venceu, mesmo depois de tudo que fez. Numa execuo
irrevogvel, limpa e fria, ela o despachou com a propria arma.
Terminado - finis. Pela primeira vez em menos de um ano ela
saboreia completa paz e justia por puxar aquele gatilho naquela
noite fatal. Asse no inferno, seu desgraado.

Agora ela est de frente para um monstro diferente, desconhecido.

Se Mulder soubesse onde ela estava... ele saiu da 
biblioteca para ver Natalie Warner, com Darnell. Muito ocupado
com sua agente, ele no sentiria a necessidade para checar o
progresso dela at que a fome o apanhasse. Ou at mesmo
depois. Acalmando, ela olha pela sala de estar de Tillman, a
nvel do cho.

No muito longe ela v Benjie de perfil, o lbio fazendo
beicinho. Ele est ajoelhado sobre o corpo do pai. Inconsciente,
a metade do rosto de Tillman est coberta com sangue ou sombra.
Ela se lembra do que ele disse na ltima semana - "Me sinto como
se estivesse preso em casa, com minhas mos amarradas nas costas"
ele tinha brincado, nunca adivinhando a ressonancia profetica dessas
palavras.

Dos trs deles, s Benjie est desamarrado, a casinha que ele
tinha construido pra ela descansando inexplicavelmente ao lado
dele no tapete. O brinquedo, ela sabe, estava bem fundo no casaco dela.
Numa mesa bem perto ela v o celular e a arma, confirmando que suas
coisas foram pegas pelo assaltante deles. O assassino deve ter presumido
que o brinquedo pertencia  criana.

"Ben-jie... voc pode me ouvir?"

Testando guas desconhecidas, ela o chama de novo. Com medo
e hipnotizado, ele parece afinado com uma fora invisivel, que parece
controlar seus movimentos. Esperando pelo... o que?"

"Voc est bem, querido? Benjie..."

Lentamente, ele olha para Scully, e pisca, confuso, desamparado e
cheio de medo. Como os dela, seus olhos parecem selvagem, as pupilas
dilatadas cheias de sombra e incerteza, refletindo a luz
da vela. Antes que ele pudesse responder, outro movimento a distrai.
Ela ouve o som de passos perto da cozinha.

Escravizada, Scully v Alice Marshall, a coordenadora
de voluntrios do Hospital Memorial nas sombras. A onda inicial
de esperana para salvamento se quebra quando ela percebe
vrias sacolas plasticas grandes nas mos da mulher. Plstico
preto, cortados para ajustarem sobre a cabea de uma pessoa.
Com a mesma voz suave e lisonjeira que ela usou na UTI do
hospital, a velha mulher coloca uma bolsa sobre a cabea
dela, sorri, e fala.

"Bem, bem... agora que todo mundo est presente, acho que est
na hora de retomar nossas atividades. Ressuscitar a festinha que
foi to rudemente interrompida na semana passada. O que voc
acha, garotinho?"

Ela vai para eles num andar obsceno de av, se regozijando
sobre a criana silenciosa que foge como um
caranguejo para mais perto do pai.

"E duas novas faces nos unem. O bom tenente, que eu esperava
de qualquer maneira, e..." ela suspira, contente, "Nosso convidado
de honra: O FBI." Iando a cabea, Scully sente a mulher olhando
pra ela. "Foi uma surpresa mais do que agradvel te ver aqui, querida.
Dois pssaros com uma s pedra..."

Alice cacareja e vai para a mesa, erguendo a pedra que foi
usada para incapacitar a agente e o policial. "S isso."

* * * * * * * * * * * *

A neve aumenta, e Natalie permanece testando os limites da 
pacincia de Mulder. Quando o celular dele toca, ele se
desculpa e vai para a sala, deixando-a nas mos capazes
de Darnell, e sua persistencia. Olhando para o numero,
ele atende o que parece ser uma chamada do hospital-priso.
Dr. Reinholdt oferece desculpas antes de dar o telefone para
sua paciente.

"Agente Mulder, voc tem que fazer alguma coisa! Meu filho
est em perigo! Aquele monstro pegou Benjie, eu sei disso!"

"Ei, calma, B.J." ele fala, olhando para a janela e vendo a neve.
"Como voc pode ter tanta certeza? O que voc pode me contar?"

Barulhos de choro dissolvem a conversa, e o radar de Mulder
vira para alerta-vermelho e seu pulso corre depois do que ele
ouviu. "Voc no me disse h quanto tempo isso comeou." ele 
demanda ao mdico.

"Nos ultimos quinze minutos," Reinholdt explica,
e B.J. estava gritando sobre o perigo que seu filho
estava correndo e que o agente Mulder deveria ser avisado de
que o mal que pulou em Cokely estava l, de novo, sedento
para matar.

Terminando a ligao, ele volta pra cozinha, acenando para 
Darnell segui-lo.

"Nao to rapido" Natalie olha Mulder com uma piscadela
calculada, como um gato siams. "No acabei ainda."

"Me pergunte se eu me importo."

"Pare a mesmo!" ela est de p, e bloqueia a porta. "Voc no
pode ir para os Marshall sem ser anunciado. Vai assustar todo
mundo e vai prejudicar toda aquela familia."

Os homens trocam olharem, esperando explicao.

"Eu sei algo de Alice," Natalie continua, febril, "Sobre o passado
dela. Entendeu? Vocs dois? Ela odeia a maldita fofoca, por uma
boa razo, e se alguem descobrir sobre minha conexo nesta aqui...
que eu abri minha enorme boca sobre isso... bem, minha reputao
vai pro espao.  como uma regra no escrita - respeitar
a privacidade dela sobre isso."

"Algo como 'honra entre ladres?" Darnell zomba.

Mulder fica arrepiado. "Ento, ela  de onde? Van Cleef,
Eberhardt, ou Bradshaw?"

"Droga - voc vai me fazer dizer, no ? Tudo bem, ento escute..."
ela respira fundo, e os homens ficam esperando, ansiosos.

"Tudo bem..." ela esfrega as mos suadas na cala jeans cara. 
"Alice se casou com Owen Marshall, e eles ficaram aqui em
Aubrey, onde ela cresceu. Depois que ele morreu, ela deu a casa
para seu filho, contanto que ela pudesse manter um apartamento
para ela, e separado de toda a familia. Diabos, eu tambm faria
isso, com todos aqueles netos ao meu redor---"

"O nome, droga!"

Ele olha enquanto Natalie Warner salva o ultimo pedao de 
controle. Cruzando os braos, ela olha pra ele, com uma
piscadela amarga, rancorosa.

"Eberhardt, Agente Mulder.  Alice Eberhardt. A irm mais jovem
dela, Kathy, foi morta na cidade por aquele bastardo do
Cokely em 1942."

* * * * * * * * * * * *

"V embora!"

O sussurro choroso e amedrontado de Benjie alcana as orelhas de Scully,
mas a audio de Alice Marshall no  to aguda. Sentindo perturbao,
ela carranqueia e vira o pescoo, enrugado como um urubu, a altura
dela bem grande comparado  viso deles, do cho.

"Preocupado com a pequena agente? Oh, eu no vou mata-la ainda"
ela bajula para a criana apavorada, alimentando seu horror. Ela vai
para Scully, deitada e amarrada no tapete, e arrasta o plastico
pretocomo as plumagens do diabo. "Talvez eu devesse machuca-la s
um pouco, para mostrar que eu falo serio. E isso" ela puxa
a navalha do bolso, para a admirao coletiva de todos. " s
um gostinho para voc saber que no deve se intrometer em coisas
que no so da sua conta."

Num movimento para proteger a criana antes que ela pudesse
entender o significado destas palavras, Scully convoca para chamar
a ateno da mulher. "Por favor, sra. Marshall... solte o menino."

"No ouse me mandar!" com uma fora surpreendente, a mulher chuta
Scully, a bota contra as costelas, tirando sua respirao. O ruido
resultando e a dor dizem que aquela costela, talvez duas, devem
ter se quebrado. Rolando debilmente no tapete, ela amortece um
gemido para nao alimentar o medo da criana.

"Voc me faz lembrar *dela*... to pequena e to-oh-bonita...
a favorita. Eles a tratavam como uma pequena rainha. E eu---"

Pontaps mais afiados, rancorosos, desta vez contra o abdomen e 
quadril contundido de Scully. Ela interioriza os golpes, absorvendo 
tudo, at a erupo final da dor, e um grito rasga sua garganta.

"No faz isso com ela!" Benjie protesta, ganindo com raiva. Alice gira
pra ele, os olhos ardendo.

"Voc sabe do que estou falando, no , garoto? As palavras
crueis que te machucaram, que te fizeram se sentir nada melhor do
que a sujeira do curral que ficava presa no sapato do seu pai...
como uma barta no poro." ela pra, olhos brilhando, cabea
elevada para o lado, enquanto ela fita um passado que ninguem mais
dentro da sala v. 

"Era l que eles me colocavam s vezes, quando eu era da sua idade...
no poro, com os animais daninhos. *Ela* nunca tentava para-los, oh, no.
Anos aps ano... agradando todo mundo s minhas custas. Mas eu 
fiz o impossvel para ela pagar tudo tintim por tintim."

Quando Alice cacareja e se arrasta para mais perto do garoto,
Scully estala a cabea para cima do cho. "Fique longe dele!" ela
adverte, ofegando com esforo. "Ele no fez nada contra voc!"

Risada histrica enche a sala quieta.

"Nada? NADA?" A mulher velha pra e cobre o rosto. Scully ouve
o som amortecido e o lamento. As mos speras descem. No existem
lgrimas, apenas loucura e raiva.

"ELE ME RECONHECEU! Voc chama isso de NADA? Sua estupida cadela!
Voc no tem idia do poder que ele tem! Ele me viu naquela
festa - ele sabe o que eu fiz!"

"*Quem* sabe?"

Os olhos de Alice brilham loucamente e ela aponta um dedo
acusador e tremulo para a criana. "COKELY SABE!
Cokely sabe o meu seredo, e ele voltou para mim, atravs
dele!"

* * * * * * * * * * * *

"Alice Marshall no est em casa" Darnell informa, guardando o celular
e virando o colarinho pra cima, enquanto eles vo para o carro.
Mulder senta no banco do carona, esperando o detetive limpar
a neve do para-brisa com uma mo antes de sentar atrs do volante
e ligar o aquecedor. "O filho dela disse que ela saiu cedo para
visitar os amigos. E eles esto preocupados com ela por causa
da neve."

"Voc acredita nisso?"

"Steve Marshall nao tem motivos para mentir. E faz sentido, j
que mandaram ela de volta pra casa do hospital hoje."

Mulder estala a ateno. "O que?"

"A segurana encontrou ela biosbilhotando, de novo, pela UTI, e
ficaram por aqui..." ele passa um dedo pela testa, " e mandaram
ela pra casa. No posso culpa-los, j que Linda Thibodeaux est
mostrando sinais de melhora. Ela no est consciente ainda, mas-"

"Scully sabe disso?"

Esta revelao faz Mulder se lembrar de uma recente manh, quando ele
puxou sua parceira, macia e saciada, contra seus braos, e escutou
com afeto o sussurro de tolices ps-coito sobre coisas que marcam a
passagem do tempo. A meditao sobre a isquemia dela, e as variaveis
sobre o caso de Linda o fizeram bocejar, mas os murmrios de Scully
sobre a mulher Marshall na UTI pareciam bem peculiares, e fez iar
uma bandeira vermelha nebulosa, na ocasio, dentro do crebro de
Mulder.

Outro pedao do quebra-cabea que entrava, atrasado como a
nevasca, buscando conexo...

Darnell d de ombros de novo, jogando o carro na rua. "Eu disse
ao tenente mais cedo. No fico surpreso se ele j ligou pra ela sobre
isso."

"Chame ele."

Esmurrando o nmero da delegacia, ele fala brevemente, e desliga.
"O controle disse que ele saiu com Benjie h pouco tempo. Pegou uma
carona pra casa com a agente Scully."

As palavras enviam um frio aos ossos de Mulder, to agudo quanto o
vento amargo que chicoteia neve em redemoinhos loucos ao redor do carro.
Seu radar interno lhe diz que nem tudo pode estar bem com sua
parceira.

Ele perfura o nmero do celular de Scully, espera, e tenta de novo.
Seu estmago aperta num n duro, e seus cabelos da nuca se
arrepiam quando ela no atende.

* * * * * * * * * * * *

Alice cessa as afetaes dela, uma mo spera contra o corao,
a outra apontando para Benjie, que est agachado. De sua
viso, Scully nota um movimento fraco de Tillman. H quanto tempo
ele est consciente?

"Coitada da Detetive Morrow", continua a velha, mo tremula, estendida.
"Ninguem percebeu que ela estava atormentada, at ser tarde demais.
E ento aquela coisa apareceu, a semente dela! O bisneto dele! Adotado
por este tenente e sua esposa. Eu quis saber se o mal pudesse ser
passado, e se estava em seu jovem sangue...mas ele era jovem demais,
muito fraco para infringir tais propositos... ento, o fardo veio
pra mim, pelos olhos deste inutil filhote de cachorro!"

Ela apunhala no ar, em direo  criana, mo tremendo, acusatoria.
Buscando desviar a atenao de Alice para longe do menino, Scully
se arrasta para o sof. Cada movimento faz ela respirar com mais
dor, enquanto ela tenta se sentar. Apertando os dentes, ela inclina pra
trs, e acena para a mulher, o corao de me tentando trabalhar
juntos com o treinamento do FBI.

"Conta pra mim, e no pra ele!" ela isca, xingando de dor. "Me
impressione, e no desperdice seu tempo contando segredos para uma
criana que no tem idia ou se interessa pelo que voc est
falando!"

Alice se vira, e tarde demais, Scully percebe que existe uma
linha muito fina entre razo e loucura. A cabea dela  empurrada
pra trs, a garganta esticada e exposta. Com cuidado, a mulher
remove a navalha do bolso e oferece isso diante dos olhos
arregalados de Scully.

"Eu vou te dizer, pequena irm, principalmente agora que eu
tenho *voc* de volta. Voc no me deixou terminar o trabalho antes, sua
garotinha m!" outro puxo, mais forte, e os tendes do pescoo
de Scully se apertam, dificultando a respirao. "Esperei por tanto
tempo, ontem  noite, mas voc escapou! Voc  como Viola, 
como Gwen... mais uma que tentou se afastar de mim. Outra que mostrou
piedade por aquela pequena semente ruim ali" ela sorri, louca, no rosto
de Scully. "Ningum escapa dele, pequena irm. Nem mesmo eu..."

As palavras gelam o corao de Scully, flashs de Harry Cokely,
e Donnie Phaster se entronsando numa montagem apavorante. Sua posio
desamparada e desajeitada intensifica a dor que queima no lado do
corpo, e ela ofega.

Alice zomba. "Voc no est curiosa sobre meu pequeno pecado?
Por que ele voltou a me escolher para fazer o trabalho sujo dele
depois de tantos anos?" ela puxa o cabelo de Scully pra baixo, 
pontuando a pergunta, forando um 'sim' choramingado, cheio de
lgrimas.

"*Eu* era a Eberhardt que Cokely escolheu para matar, h tanto
tempo atrs. Mas foi a bonita Kathy que morreu nas mos dele, mas
no era pra ser assim. Oh, no..." ela lisonjeia. Os olhos dela ardem
na luz da vela, e ela sorri, dentes flamejando como a lmina que
ela segura. "Veja bem, ele pretendia que eu fosse a vitima dele!
Eu sabia que ele tinha me seguido, pois o vigiei... enquanto ele
me espiava pela casa escura, chamando meu nome---" ela cacareja,
respirando fedorenta no rosto de Scully. "Mas eu o levei para
outro chamariz. E dei minha irm para ele!"

O horror desta declarao aturde Scully, que olha para a louca
mulher. As teorias de Mulder sobre a transferncia emptica, de posse
endiabrada, e o comportamento dissociativo de um assassino que
volta para suas vitimas assombra Scully, enquanto ela fita neste
semblante de loucura. O trem pulando de seus trilhos, e achando uma
maneira para continuar sua viagem do mal...

E ela percebe que o assassino que eles buscam habita o velho
corpo desta av, uma mulher que abriga um segredo de mal indizvel
durante longos cinquenta e oito anos.

"Voc est alegando que voc, deliberadamente, fez o
assassino matar sua irm" ela ofega, rezando para que Tillman
pudesse ouvir isso, e depois confirmar esta confisso verbal.
"Voce contou com Cokely para ele escolher sua prpria irm...
para voc escapar, e ento ele mata-la."

"Muito bom mesmo,minha querida! Dois pssaros com uma pedrada, 
no ?"

"Mas voc no escapou do julgmento" Scully ofega, "Porque o
poder energizado de Cokely te alcanou-"

"E voc tambm no vai escapar, pequena irm!"

A extremidade brilhante da navalha desce, tirando dois botes
da blusa de Scully, e ento morde abaixo, na pele tenra do
trax exposto dela. Ela clama em agonia. Um corte dentro, e a
lmina fica, contida no lugar, esperando o que parece ser
uma eternidade. Dor afiada e ardente, umidade - sangue
agrupa entre os seios dela. Cada respirao de Scully faz o 
metal afiado invadir mais ainda dentro da carne---

"Eu sou um agente federal", ela consegue ofegar.

"Ento voc est em boa companhia" a mulher zomba. "Vrios
outros como voc j provaram esta dor." com um resmungo sbito,
ela vira a lmina para fazer outro corte, forando um segundo
grito estridente e explosivo da garganta de Scully.

"NO! PRA COM ISSO!"

O grito de Benjie vem forte, parando a mo da mulher velha.
Por um filtro ondulado de lgrimas e dor inefvel, Scully percebe
que o menino est de p, agarrando a casinha de legos. A casa 
de Emily. Os olhos dele brilham na face jovem e brava, muito vermelha
com afronta, o corpo pequeno tremendo numa fora que o 
alimenta, mas que nao pode controla-lo.

"Pra com isso!!! No machuca ela!!!!"

Tillman ergue a cabea do tapete, murmurando para a criana,
o tom baixo e urgente. Como se em obedincia para a instruo,
o menino acena com a cabea e d alguns passos hesitantes para frente.

"Sente-se, seu diabinho" Alice rosna, "Ou sua vez vai chegar antes
do planejado, eu te prometo!"

Benjie Tillman ficou firme.  Empurrando Scully para o cho, e apertando
a navalha, Alice vira para a criana trmula. Com toda fora que
possua, ele lana a casinha contra o peito e garganta de Alice.
A casa explode como uma bola de neve, os pedacinhos de plstico
chocando contra a velha mulher, balanando ela pra trs, e cobrindo
o cho ao redor.

Num miasma de dor e medo, Scully v o efeito do lance de Benjie.
Qualquer coisa para impedir que esta assassina cumpra seu programa de
trabalho pode ajuda-la. Por favor, Mulder, venha logo, ela reza,
desesperada. O tempo passa em pulsos mensurveis de vida, bombeando 
por suas veias, os segundos tocando tic-tax como umas imagens 
em preto e branco de um filme cult de horror, enquanto ela v a
mulher.

"Voc acha que pode me parar, pequena semente?"
Alice suspira. Ela ainda briga para se equilibrar, apertando o
peito e garganta, onde a ponta afiada da casa a atingiu. Raiva
crescendo s loucuras, ela chuta os pedaos de plstico, que
faz ela tropear, e ela xinga algo sobre tempo desperdiado.
Minutos se passam, o plastico das sacolas se torcendo nas pernas
dela, impedindo seu progresso de volta  sua vtima.

Scully chora mais uma vez quando v a navalha brilhante, j
sua com se sangue. Ela no v clemncia no rosto de Alice, s uma
mscara de fria e triunfo selvagem, luntico. A navalha flutua sobre
ela, esperando descer e terminar sua vida com um corte fatal.
Depois de toda sua experiencia, ostentar o perigo com certa
impunidade, depois de iludir a morte por tantos anos, ela
vai morrer assim... s.

Um sbito estrondo, e a voz de Mulder quebra o silncio.

"PARE ONDE EST! COLOQUE A ARMA NO CHO, OU EU VOU ATIRAR!"

O que acontece depois  observado por Scully como fotos
instantneas, por sentidos cheios de dor, terror, e sobrecarga
de adrenalina.

Alice Marshall volta com um desafio furioso, o punho no cabelo de
Scully, puxando. A navalha reflete um flash luminoso diante dos
olhos dela. Benjie Tillman grita, um tiro ecoa, e ento dois - e a
mo que agarrava o cabelo de Scully convulsiona. A cabea dela 
puxada pra tras, e ento  solta, enquanto Scully deita, sem
flego, no tapete.

E Mulder... ela sente ao invs de v-lo. O brao dele ao redor de
seus ombros e pescoo, puxando-a pra ele, para sua inspeo. Uma
das mos segura a cabea sangrenta dela, dedos esfregando o rosto.
A fora e cheiro precioso dele, assim como sua presena, faz ela
dar uma choradeira de alvio, enquanto ele abaixa a boca para a orelha dela,
sussurrando seu nome com urgncia febril.

Oh, meu Deus, graas a Deus... ele veio salva-la, e salvou a tempo...

Movendo os lbios em resposta silenciosa, ela apia contra seu
toque, antes de deslizar pelo gelo, de volta para o calor 
santificado da gua novamente.

* * * * * * * * * * * *
Fim do Captulo 20


