SEEDS 15
by Mountainphile
== == =
"Ns sempre nos lembraremos.  Ns sempre estaremos orgulhosos.  Ns sempre 
estaremos preparados, assim ns sempre podemos ser livres."

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Captulo 15
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Java Joe, Aubrey,
8 de novembro de 2000
8:45 da manh

"Voc se acha bem inteligente, no ?"

Mulder sorri em resposta, parando para beber um gole do caf, e evitar
uma acusao que ele percebe ser mais elogio do que uma discrdia
antagnica.

"Inteligente o bastante para evitar fazer algo estpido," ele responde,
mandando de volta para Natalie Warner, sentada do outro lado da mesa.

Quando ele fez a ligao estava manh, ele lhe deu a opo
de ou ir para a delegacia, ou encontra-lo neste caf local. E no
ficou surpreso quando ela escolheu vir aqui, apesar de sua paranis
em se encontrar ao ar livre e arriscando ser vista pela rede de fofocas
de Aubrey.

Quanto a Mulder - o aspecto pblico lhe daria proteo contra
qualquer armadilha que esta mulher poderia ter debaixo da manga.
Houve um tempo em que ele no se importaria em sangrar uma mulher
como Natalie Warner em busca de informao relativa a um caso. Porm,
picado pela aspereza dela e sua falta de cooperao bsica, ele 
falou com sua parceira sobre isso antes de dar o telefone para Esterlino.

O ar ao redor parecia morno e mido comparado ao ar frio de novembro
que ventava pelas ruas. Dentro do caf, o aroma estava cheio de
fragrancia de pes assados, quentes e macios - e ele se lembra
de que Scully estava assim h apenas poucas horas - sua prpria massa
quente, macia, que Mulder lambiscou, e comeu com um apetite vagaroso,
e uma urgencia primitiva.

Ele aprecia o ato sexual nas horas indulgentes antes do amanhecer. 
Ela est umida e viva, aberta a sugestes, e to malditamente sensual que
ele no conseguia pensar direito. Depois que os fogos de artificio
baixaram, ele gostava de deitar e falar sobre o caso em que trabalhavam,
discutindo teorias; sussurros confidencias onde ele fala pra ela sobre
o progresso que est tendo, enquanto as mos dele continuam vagando
sobre a topografia do corpo dela.

Para ele, isso acrescenta dimenso  intimidade entre eles. E mesmo que
Scully pense que isso  uma pobre desculpa para conversa de travesseiro
ps coito, ele considera que as atualizaes que ele lhe d so prticas
e eficientes. Eles no tem limites, e relaxam enquanto ele sente
satisfao e liberdade para falar sobre oficio e trabalho na cama
com sua amante e parceira.

E esta manh, ele fez um resumo da conversa que ele teve com B.J. sobre
o lanche de ontem  noite com Darnell, e sobre sua nova estratgia
para o dia. Com olhos sonolentos, a juba vermelha e despenteada sobre os
dois travesseiros, ela concorda com a deciso dele sobre encontrar
Natalie Warner.

"Dentes e garras," ela o lembrou num sussurro, a mo dela desaparecendo
debaixo do lenol para acariciar as coxas dele, e apertas suas bolas
numa advertncia brincalhona. "Cuide bem disso aqui."

Ele se lembra do conselho que Scully deu quando Natalie senta numa
mesa num canto distante. Toda nervosa, ela recusa se sentar perto
da janela, no local que ele pr-selecionou. Uma exploso de perfume
caro e nicotina abafa outros aromas antes de dissiparem num nvel onde
ele pode cheirar caf, tempero e baunilha mais uma vez.

"Bem,  pelo menos voc decidiu acordar e *cheirar* o maldito
caf da manh" ela replica, raspando o cinzeiro ao seu lado na
mesa. "Normalmente, eu no mordo. No muito forte."

"Fico contente em ouvir isso."

"Sua parceira ainda est irritada comigo?"

Ele olho pra ela, com expresso suave, mas voz sucinta. "Voc vai ter
que perguntar pra ela."

Natalie usa o mesmo casaco de camura, e a mesma e irritante piscadela
que Scully descreveu pra ele, depois da propria confrontao que ela
teve com esta mulher, e que ele olhou por cima da cerca. Quando ela solta
uma nuvem de fumaa entre eles, ele fica com vontade de tossir, mas
decide que este no  um movimento muito inteligente, considerando
seu proposito aqui.

"Tanto faz" ela fala, cigarro subindo e descendo sobre os labios.
"Voc precisa muito de alguma informao, o suficiente para falar comigo,
e isso  obvio. E eu sou a unica pessoa que sabe de verdade o que est acontecendo
por aqui."

"Esta  uma reivindicao bem ampla."

"More num lugar toda sua vida, e voc tende a descobrir uma ou duas
coisas sobre as pessoas, *especialmente* se voc coloca sua mente
neste trabalho. Informao vem de dentro. Eu tenho minhas fontes."

"Perguntando, e buscando?"

Ela brilha um sorriso treinado. "Voc  inteligente, agente Mulder.
Sacanagem e factides em geral, e a cidade se orgulha disso. O que 
voc precisa saber?"

Ele coloca a xicara sobre a mesa, preparando-se para aceitar a oferta
de Natalie. Assusta-la no o ajudaria; levar tudo que ela fala como
evangelho seria absurdo. Ele escolhe comear numa pose socivel,
e entrelaa os dedos, olhando pra ela.

"Preciso que voc pense bem" ele comea. "A festa da sua filha aconteceu
ha uma semana, exatamente, no dia 1 de novembro, quando Benjie Tillman
apareceu l de repente. O que aconteceu na festa para fazer as linguas
voarem pela cidade?"

Piscando, Natalie pensa na pergunta, antes de decidir se  seguro
responder. 

"Aquela coisa de 'pequena irm' ou 'irmazinha' que ele disse foi a
cereja do bolo, principalmente considerando a historia da familia dele,
e quem ele  de verdade. Me assustou at o osso. Fale sobre 
esqueletos (segredos) dentro do armrio - eu nao preciso de um 
no meio da minha sala! Cruzes..."

"Ento, depois que Viola Rains foi atacada na manh seguinte, voc
insinou, convenientemente, que uma criana de cinco anos, com metade
da altura da vitima e um quarto de seu peso foi a responsvel por isso---
e pronto - todo mundo passou a comentar isso."

Ela exala com impaciencia, penas arrepiadas. "Eu somei dois mais dois,
causa e efeito. E da?"

" conversa fiada, isso  o que !" ele contraps, escarnecendo dela. "E
qualquer um com meio crebro saberia disso."

"Escute aqui, seu federalzinho " ela enfia o cigarro no cinzeiro.
"Nada  mais estranho do que todas as outras merdas que tem acontecido
por aqui durante anos... comeando com aquele assassino nos anos 40,
e terminando com aqueles crimes de seis anos atrs. Foi isso que
trouxe *voc* e aquela sua parceirazinha aqui, em primeiro lugar.
Uma policial, grvida e maluca, que comeou a matar as pessoas, e
aterrorizar a maldita cidade inteira. Agora ns temos o filho
dela, a *semente ruim*, para lidarmos."

A transparncia dela parece vingativa e desprezvel;
lutando para manter o desprezo, ele continuar. "Voc tem mais
do que mostra. Aposto uma boa grana como voc sabe alguma coisa
das duas mulheres que foram mortas aqui em 1994. Alguem da familia
das duas ainda mora por aqui?"

Natalie encolhe os ombros e toma um gole de caf.  "Eu poderia saber
de alguma coisa... considerando que eu tinha um conhecido que
falou com uma delas."

"E qual delas voc encontrou? Carlisle ou Johnson?"

Mulder no tem a inteno de impressionar, mas ele v que
fez isso. Ela acende outro cigarro, cruza as pernas e o fita
com aprovao antes de responder.

"Certo, dem uma medalha pra ele... voc fez a sua lio de casa
tambm. Voc tem arquivos sobre todo mundo por aqui naquela porcaria
de FBI.

"Isso eu nunca vou te contar." ele sorri.

"Johnson," ela procura, no perdendo outra batida.  "Verna
Johnson era jovem, e ficava na dela. Era la onde eu normalmente me
encontrava com ela. Os pais dela queriam justia e exigiram uma
investigao sobre o envolvimento do Tenente Tillman com a detetive
Morrow depois que tudo foi espalhado pelo ventilador. A cidade
ficou maluca depois de saber que um membro da fora policial era
um assassino psicopata. E ento ele ainda teve a *coragem*
de adotar a criana, e ainda se mudar para uma rua perto da minha!"

Ele faz ela voltar ao assunto. "Kristy Carlisle..."

"No tem familia por aqui. O funeral foi em outro lugar, talvez no
Texas. Ela era algum tipo de secretaria para uma companhia que faliu
h alguns anos. Tinha um lindo cabelo. Mas eu sempre achei que ela
tinha seus truques."

"Namorado?"

"Yeah, um em particular, mas ele saiu da cidade logo depois que
ela morreu. Exceto que, quando ela estava viva, havia uma multido
de tarados perdedores atrs dela, como gatos machos e que ela
estava no cio. Sim senhor..." ela ri e bebe o resto do caf.
"Incluindo aquele policialzinho que voc mandou pra mim outro dia.
*Deus*, voc pode acreditar nisso?"

Mulder no fica surpreso ao ouvir que Joe Darnell tem uma
reputao por continuar sendo solteiro. Ele decide arquivar aquela informao
para outra hora e lugar. "mais caf?"

"Se voc estivesse oferecendo Margaritas, eu poderia dizer sim" ela
pisca, sentindo-se mais senhora de si. "Por que voc iria querer saber
delas - as familias de Carlisle e de Johnson?"

Ele restringe.  "Estamos formulando uma teoria que nao tenho a liberdade
para falar neste momento."

"*Estamos*... como assim, voc e sua parceira?" ela chupa o cigarro,
esteitando os olhos como uma tigresa, calculando. "Voc pode jogar limpo
comigo, porque eu vou sempre te dar fatos concretos, uma hora ou outra.
Acho que vocs so um casal de verdade... parceiros em *todo* sentido da
palavra. Estou certa?"

"Isso  irrelevante e no  da sua conta."

A resposta dele fez ela sorri. "Voc  quem sabe. Certo, eu vou
jogar direitinho. Mas escute bem, bonito... voc no vai saber
o que aconteceu aqui h seis anos. No foi a primeira vez que
aquele monstro do Cokely fez o trabalho sujo dele - ele tinha
matado antes e deixou a marca dele, como a velha Thibodeaux poderia
mostrar pra voc."

"Acho que voc nao leu os jornais ainda, no ?"

Quando ela treme a cabea, Mulder vira o brao pra trs e pega
o jornal local de Aubreu, e coloca sobre a mesa. A manchete sobre o
assassinato de Viola Rains grita sobre a pgina em fontes enormes. Detalhes
menores falam sobre a briga de Linda Thibodeaux pela sobrevivencia.

A transformao em Natalie o pega desprevenido.  Ela
treme e fecha os olhos, chupando ar. "Merda... outra no..." ela
sussura. "Aw... merda..." ela exala tosses pequenas, e ento aponta
uma unha longa e vermelha para Mulder.

"O que foi?"

"Tudo bem,  aqui que eu termino - no banque o bobo comigo. Se eu
soubesse disso--" ela sacode uma mo brava para o jornal "eu pensaria
duas vezes antes de vir aqui. Tenho uma reputao a zelar."

"Nao duvido disso."

"*E* uma familia para proteger, droga."

"Escute, preciso saber mais. Te desafio a falar
mais sobre as vitimas de 42... se voc tiver uma pista sobre quem elas
foram." ele escarnece.

Em sua mente ele revisa os arquivos, pgina por pgina,
parando sobre nomes dos defuntos. O ano em que os agentes
Sam Chaney e Tim Ledbetter desapareceram enquanto perfilavam
o assassino. Trs jovens mulheres foram estupradas e assassinadas
pelo mesmo mal que ressuscitou aqui, em 2000. Ele e Scully revisaram
as cinquenta e oito fotos de cenas de crimes antigas - imagens
horriveis e lustrosas de jovens mulheres mutiladas, usando 
penteados da poca, roupas gotejando sangue, e a palavra
'irm' gravada em seus peitos...

"Antonia Bradshaw," ele diz suavemente, olhos fixos. "Assassinada no comeo
de novembro de 1942..."

Natalie treme; ela sopra e olha fixo pra ele, se recusando a pegar
a isca que ele oscila to intensivamente.

"Kathy Eberhardt.  Laura Van Cleef," ele entona com
solenidade, invocando os dois nomes restantes das vtimas 
registradas de Harry Cokely.

Mulder percebe que deveria ter econimizado respirao quando
Natalie Warner enfia o cigarro no cinzeiro e fica de p, e sai.
Nada vem fcil ou depressa, ele pensa, especialmente quando seu informante
tem um talento para o dramatico, e um olhar que poderia matar.

* * * * * * * * * * *

Hospital Memorial
8 de novembro de 2000
11:03 da manh

Parando na janela enorme em sua viagem do necroterio para a
UTI, Scully nota que os peregrinos roubaram as abboras no
Jardim de Infancia de Aubrey.

Pela primeira vez ela percebe a proximidade intima do hospital para
a escola, o anexo do jardim de infancia, em particular. Chapeus
pretos enfeitados com fivelas flutuam nas janelas das salas de
aula. Crianas vestidas como peregrinos brincam com os poucos
indios em seus meios. 

Dia de Ao de Graas permanece uma tentativa para caoar do espirito
dela, fazendo-a ficar angustiada. Durante dois anos, ela veste uma
mascara na mesa de sua me, e ento, em casa, sozinha, ela chora.
E mais uma vez Mulder retm a honra de saber a verdade, e ajuda-la na
dor.

 culpa dela - e ela sabe - querer segurar o mundo a distancia de um
brao. Mas as razoes dela s interessam a ela mesma.

Ela ousa no tentar adivinhar qual pequeno peregrino seria
Emily, se Emily estivesse viva, como estas crianas. Ento,
ela se pega de surpresa ao querer saber sobre a coragem de Benjie
Tillman. Ficando em casa, ele no pode fazer esta atividade, 
outro buraco vazio preparando o menino para o ostracismo e 
rejeio.

A vida no  justa para a vtima, no importa quo estranhas
sejam as circunstancias.

Durante a autpsia do cadver de Viola ela foi forada
a manter distancia desta tarefa. Ela nao ficou incomodada
como sangue e a carne fatida, mas pela ferocidade aplicada
na pessoa com quem ela falou apenas alguns dias atrs. Os
musculos sugeriram extrema resposta fisiologica e emocional.
De experiencia pessoal, ela podia imaginar o terror que esta
mulher suportou antes que seu atacante a atingisse; a ferida na
cabea nao era volumosa como a de Gwen, mas sendo feita para
incapacitar, e nao matar. Ento, quando a navalha desceu, a agonia
descritivel---

"Agente Scully?"

Ela vira e observa uma enfermeira simpatica que saiu da UTI.
"Sim, o que foi?"

"Achei que voc gostaria de saber que nao houve nenhuma mudana
na condio da sra. Thibodeaux."

"Obrigada".

A enfermeira some no corredor. Desde a vista de Scully na emergencia,
com Mulder, na outra noite, e depois de extensas horas passadas na sala de autopsia
junto com o legista, a equipe mdica do hospital parece dar boas vindas
 sua habilidade e presena calmante. E isso a deixa agradecida.

Ela d outra olhada longa pela janela, vendo o ptio da escola,
antes de virar para onde Linda Thibodeaux luta para viver. Outros
passos ecoam pelo corredor e ela nota a velha Alice Marshall
se aproximando em seu uniforme rosa, de voluntaria. Ela segura
um vaso de flores, picando Scully com alarme  inocente, mas flagrante 
falha da politica do hospital.

Quando Alice se aproxima da porta pesada, Scully 
sente-se compelida a falar, preocupada com os paciente e as
condies esterilizadas dentro da UTI, e isso  comprovado pela
posio semi-nazista dela, neste corredor. "Eu sinto muito, sra. 
Marshall, mas no so permitidas flores dentro da UTI."

A mulher hesita, ento d um sorriso embaraado. Ela  mais
alta que Scully, o pescoo dela com pele sobrando, ombro redondo
enquanto ela abraa o vaso de vidro, cheio de cravos vermelhos.

" uma gratificao" ela sussura, cabelo branco envolvendo o 
rosto. "Estava pensando que as enfermeiras poderiam aproveitar
as flores. O trabalho delas  bem estressante aqui. No vai doer 
se pedir, no ?"

Mesmo com a atitude gentil de Alice Marshall, Scully ainda est
presa a uma regra vital e cardeal.

"Sou mdica, e posso atestar que flores - ou presentes de qualquer tipo-
no sao permitidos dentro da UTI. Sinto muito."

"Bem, com certeza isso  uma pena. Talvez alguem na obstetricia possa
querer o buque. Uma me chorando pela criana que perdeu..."

As palavras, brutalmente pertinentes, cegam Scully de repente, mas ela
 perita em se recuperar depressa. Ela aproveita esta oportunidade para
mascarar sua derrota e estender suas proprias condolencias.

"Deve ser duro para voc a morte recente de uma de suas voluntarias.
Gwen DiAngelo" ela incita, quando a mulher parece desconcertada. "Eu
falei com ela h alguns dias, aqui mesmo, no hospital. Ela parecia
ser uma pessoa gentil, atenciosa."

"Sim, ela era... e todos elas parecem ser assim, no ?"

"O que voc quer dizer com isso?"

De novo Scully sente um desassossego, uma sensao intranquila.
Tentando culpar sua propria fragilidade emocional e  sua natureza suspeita,
ela deseja saber sobre a motivao de Alice Marshall esta manh. Duplicidade?
Ou um simples deslize de esquecimento, por causa da idade?

Alice olha pra ela debaixo de palpebras enrugadas. "Existem pessoas aqui
que se oferecem para o trabalho, com razoes diferentes, mocinha.
Outras so desamparadas,esperando receber ateno. Dar e receber... ir
e vir." ela d um suspiro. "Alguns vivem pra sempre, enquanto outros...
no."

"Voc ouviu falar de Viola Rains? Ela, infelizmente, no vai."

Scully espera golpear uma corda compassiva e de desculpas,
depois d eimpedir a entrada desta mulher na UTI. Sabendo que
Viola era uma presena conhecida na cidade, ela acha que a motorista
de onibus poderia ter tido contato com as crianas de Marshall
ou netos, durante anos.

"Eu ouvi sobre isso. No vou dizer que estou triste."

Confusao e surpresa deviam ter aparecido no rosto de Scully, porque
Alice treme a cabea. Cabelo branco tremendo, a boca apertada.
Ela enrijece e se move para ir embora. "Algumas pessoas a chamam
de pobrezinha, mas eu nao. Para uma pessoa que ocupava um cargo de
autoridade sobre jovens crianas, ela ultrapassava os proprios 
limites com frequencia."

"Pode at ser, mas--"

"Nada de 'mas', sobre isso." Alice firme um olho azul em Scully. "Ela,
deliberadamente, e maliciosamente, amedrontava minha neta Kari, e a fazia
chorar dentro daquele onibus."

"Do que eu sei, um grupo de crianas estava sujeitando Benjie Tillman ao
ridiculo, e durante este mesmo incidente. Claro que voc no poderia tolerar isso
tambm."

A mulher anci pisca para Scully, como se tentando focaliza-la.
Ento, abraando seu vaso de flores, e sem se importar em ligar, ela
volta de onde ela veio.

* * * * * * * * * * * *

Delegacia de polcia de Aubrey
8 de novembro de 2000
11:20 da manh

Pouca coisa aconteceu at o meio dia. Uma dona de casa foi pega roubando
no shopping, um caminhoneiro com multa por velocidade criando um pequeno
distrbio.... telefonemas e ordens de comida. Mulder acha que toda
cidade tem seu movimento tpico at que ele v atividade demais quando o
tenente Brian Tillman entra no escritorio para conversar com seus detetives.

Alto e intenso, ele comanda respeito e quer ao,
algo que Mulder se lembra bem. Tillman duro. Joe Darnel pode ser o brao
direito dele - mas no  substituto para a autoridade fixa. Agora  muito
crucial sua presena, com uma investigao de assassinado no solucionado,
e o numero de corpos comeando a crescer.

Ele acha que, se Tillman est aqui, Benjie deve estar encurralado dentro
do escritorio, longe da vista.

"Quer caf, agente Mulder?"

Ele sorri de volta para a policial que o serviu no dia anterior, e ergue a
mao, recusando. "Obrigado, mas acho que tomei caf demais. Mas quero falar
com o tenete quando ele tiver um tempinho."

Claro que Tillman poderia falar sobre algum detalhe das vitimas de1942. 
Se no, Mulder vai ter que voltar para o passo um, armado e preparado para
lisonjear mais fofocas de Natalie Warner.

Ele e Scully continuam resolvendo as rugas de ontem  tarde, depois
que Darnell vacilou. Ele tinha ontem. Ele tinha sequestrado ela
de volta para o motel, e brigou com ela sobre seu julgamento questionavel.
Depois de reagir como um imbecil ciumento, ele se sente indigno do abrao
firme dela, ou de suas confianas sussurradas. Nada mais foi dito sobre
isso depois do retorno deles para a delegacia, mas ela se aproximou
dele vrias vezes, durante a pesquisa, a proximidade dela sendo uma
caricia para o ego contundido dele.

Ento veio o segundo assassinato...

Ele estava mais convencido do que nunca que a chave era a vitima anterior.
A imagem do trem pulando dos trilhos o assombra; ele pensa sobre o que
define o estranho, o que cerca o improvvel.

Scully nao parecia ter ficado impressionada com a teoria de sincronicidade,
mas ele quer dobrar isso  sua vontade, como Hercules formando um arco
da barra de ferro em suas maos. Ele quer se cansar nesta hipotese sobre
a transferencia psicolociga e sncrona do assassino original
e semente, harry Cokely, para os parentes ou irmaos de uma de suas
vitimas.

Atendendo a este desejo suicida, ele se acha desafiando as restries
que delineam lao sanguineo e herana genetica. O mal original, tem que
ter evitado a ordem natural das coisas, de alguma maneira, e ressuscitado
para continuar incontrolavel. Voraz, seu unico proposito  matar e consumir.

Se no for um irmo de uma vtima, ento pode ser uma irm?  E se for
uma irm, ento de quem  irm... e por que--ou como?

Seu celular toca, chamando sua ateno. "Mulder, sou eu. Onde voc
est?"

"Estou na delegacia, esperando uma audiencia com o Rei" ele
fala. "Voc j acabou no hospital? Precisa de uma carona?"

Uma pausa pesada lhe diz que Scully no est achando graa da
referencia descarada dele para Tillman. "O legista vai me dar uma
carona. Mas eu queria que voc soubesse que o veterinario ligou para
o necroterio h alguns minutos. Ele encontrou o que pode ser considerado
evidencia na boca do cachorro, durante a cirurgia. Pedaos rasgados
que parecem plastico preto, preso atrs dos molares."

"Parece que Chefe deu uma mordida e tanto. Meu tipo de cachorro, Scully."

Ela exala no telefone. "Fui adiante e conferi os registros de entrada na
emergencia para mordidas de cachorro nas ultimas doze horas. Infelizmente
no houve nenhuma, mas eles vo ficar de olho... e a evidencia foi enviada
para o laboratorio, para testes. Como foi sua entrevista?"

Ele sorri. "Eu sa inteiro, se estou entendendo a sua pergunta."

"Nao estava interessada neste aspecto, confie em mim" ela fala, a voz
torta.

"Ento ns podemos discutir mais tarde. Tenho vrias outras coisas
que eu quero falar com voc, ok?"

Scully est amena, a parceira quase perfeita. Ele sente orgulho e gratido dentro
de si por ela. Inesperadamente, a insinuao maliciosa feita por Natalie Warner
volta  sua mente.

("Acho que vocs dois so um casal de verdade. Parceiros em *todo*
sentindo da palavra. Estou certa?")

 melhor voc acreditar nisso, ele afirma, embolsando o telefone
quando nota que a porta do escritorio de Tillman est meio aberta.
Enquanto o tenente est ocupado com um grupo de detetives, Mulder
aproveita a oportunidade para esperar na porta por seu retorno.
Ento, ouvindo um barulho, ele olha pra dentro da sala.

Benjie Tillman est sentado no cho, pernas cruzadas, blocos de
muitas cores ao redor dele. Uns prontos, outros ainda sendo construidos,
e outras coisas projetadas para  manterem ele ocupado enquanto seu pai trabalha
- livros de pintar, giz de cera, pequenas latas de geleia, um monte de
carrinhos. O abajur sobre a mesa est entortado para iluminar o cho onde
est a criana, num crculo de luz amarela.

Ele olha sem aviso, e reconhece Mulder, e fica visivelmente aliviado.

"Oi, Benjie" Mulder fala suavemente. Ele sorri e entra no escritorio
devagar. A cabea do menino est muito baixa, ento o agente agacha,
joelhos abertos diante do menino. E Mulder percebe que esta  a primeira
vez em dias que ele chega to perto da criana.

"Oi" vem a resposta tmida, ansiosa.

As bochechas da criana ainda esto vermelhas, mas a pele est 
muito melhor, e as rachaduras e feridas que ele e Scully viram 
na ultima semana. As recomendaes dela devem ter sido seguidas com
rigor, depois que Tillman ligou para o quarto dela. Maos pequenas
conseguem encaixar as peas, mostrando a estrutura visvel de uma
casa.

"Est muito bem feita" Mulder fala, surpreso. "Voc fez isso sozinho?"

Benjie acena com a cabea, lhe dando a minscula casa
construida com peas brancas de Lego, e telhado de laje encaixados.
Sem janelas, ou ponto de entrada, a no ser a minscula
porta verdade que lembra Mulder a pea de um jogo clssico de
Banco Imobilirio. Achando que o menino est dando a casa para ele
ver, Mulder tenta devolve-la, mas o menino recusa. A criana treme
a cabea, apertando os lbios.

"O que  isso?  pra mim?"

"No" Benjie corrige. " pra ela."

"Voc quer dizer... pra agente Scully?"

Quando a criana acena com a cabea, Mulder gira o minusculo predio em sua mo
para olhar melhor. "Belo trabalho, Benjie. Foi seu pai que disse para fazer
este presentinho para a agente Scully?"

Ele treme a cabea, olhos furtivos focalizando a porta do escritorio.
Ele diz num sussurro rouco. "No  um presente.  uma casa."

"Eu posso ver que ."

Benjie se aproxima dele. " para ela se esconder."

Mulder coopera, abrindo a porta minuscula e espiando l dentro, com um
olho. "Sabe, Benjie, a agente Scully  pequenininha, mas ela vai ter problemas
para entrar aqui dentro, voc no acha?"

A expresso entristecida da criana faz Mulder ficar com vergonha. Ele tenta salvar
a propria dignidade arrepiando a cabea do menino com a mo. E se lembra, 
tarde demais, que garotos odeiam quando fazem este gesto com ele.

"Isso no  engraado" Benjie insiste, encarando Mulder, e depois
a porta. " de verdade."

"Sabe de uma coisa? Voc tem razo. Desculpe por ter brincado sobre isso.
Ele vira a minscula estrutura entre as mos como um cuboi, sentindo-se tolo
de novo. "Pode deixar que vou dar pra ela."

"D isso pra ela o mais rpido possvel. Por favor..."

"Por que?"

Algo no tom do menino pra Mulder de repente. Ele sente frio. O que de repente
ele pensou ser um presente era agora algo alm de tolice infantil, e brinquedo.
Ele fita nos olhos do menino, e v que eles brilham com emoo
enquanto a criana tenta formular uma resposta.

E num estalo de revelao, Mulder compreende que ele
segura mais do que um simples brinquedo em sua mao.

Ele segura um talism protetor.

"Benjie," ele sussurra, "Voc disse para a agente Scully que 'isso' machuca
as pessoas que so gentis com voc, no foi?"

O menino arregala os olhos, de medo; ele engole e acena com a cabea.

"*Ela* tem sido especialmente gentil com voc?"

Cheirando, a criana esfrega o olho com uma manga e d outro aceno
de consentimento.

"Me escute bem, amiguinho. Eu tenho que saber de uma coisa..." ele
coloca a mo grande no brao magro do menino. "Eu tenho que saber 
se voc acredita, de verdade, que a agente Scully precisa desta
casinha agora mesmo -- para ficar segura?"

A pergunta, formulada com tal intensidade, faz o menino comear a chorar.
Mulder bate nos ombros finos com uma mo. Ajoelhado no tapete ao lado do 
garoto, ele espera, suplicante.

Ser infinitamente melhor para eles dois se a criana conseguir
se controlar antes que Brian Tillman entre pela porta de seu escritorio.

* * * * * * * * * * * *
Fim do Captulo 15


