* * *
PARTE TRS

Edifcio Federal Truman 
St. Louis, MO,
9:05 da manh 


Encarei o distribuidor automtico. B5 estava vazio. 

Como poderia estar vazio? Eu estive aqui h pouco mais de uma hora
e haviam pelo menos trs pacotes de Austin Animal Crackers na bandeja.
Eu comprei dois pacotes esta manh, mas eu j comi tudo. Droga.
O homem da mquina deveria estar vindo. Achava que ele enchia isso
na sexta feira. Ela podia entregar a bendita caixa enlouquecedora
direto no meu escritrio. Me economizaria de vir at aqui embaixo
a cada duas horas para compra-las. 

Eu estava viciada nas bolachas, e constantemente estava querendo mais.
Infelizmente, era uma marca que s era achada em maquinas automticas.
Tentei todos os supermercados locais, e ninguem tinha. E com 2 gramas
de gordura por pacote, elas eram bem melhor do que as Suzie Q's que
estavam na A7.

Respirei fundo e voltei pelo corredor, sentindo uma dor afiada
debaixo das costas. Nervo citico de novo. Esperava que no continuasse
pelo resto da minha gravidez. Eu ainda tinha vinte semanas.

"Sinto muito" eu falei, me desculpando com o beb. Esfreguei o local
dolorido nas minhas costas. "No tem mais bolachas, mas vamos tentar
depois, ok?"

"Oi dra Scully," Agente Catherine Schaffer disse, me encontrando no 
corredor. Ela tinha um escritrio perto do meu. "Como voc est hoje?"

Eu estava em St. Louis por quase duas semanas e todo mundo j sabia que
eu estava grvida. Tentei manter isso to discreto quanto possvel,
mas depois que um descobriu, o resto logo comeou a perguntar, sempre,
como eu estava, pelo menos uma vez por dia. Eu estava pensando em 
colocar uma resposta no meu distintivo do FBI, junto com a data do
parto.

"Mesmo de ontem" eu sorri de leve. Ela reduziu a velocidade para me
acompanhar. "Incomodada, Inchada e cansada."

"O meu primeiro foi assim" ela falou, e eu podia jurar que ela
estava doida para tocar minha barriga. Engraado como gravidez inspira
tal concordncia nas outras mulheres. "Confiem em mim, seu segundo 
ser muito mais fcil. Passei o inferno com Christie, e meu segundo,
Josh, foi moleza."

"Segundo?" eu perguntei, incrdula. Era um milagre que eu estava com
a primeira!

"Meu marido quer um terceiro, voc pode acreditar nisso?  fcil para
eles falar. O que o seu marido quer?"

"No sou casada" minha voz saiu baixa, e me virei para ficar
de frente pra ela.

"Oh, eu sinto muito," ela respondeu, parecendo incomodada com o engano.
"Eu s pensei... o anel em seu dedo..."

Eu olhei para baixo, para o anel de topzio e diamante, enfeitando 
minha mo esquerda. Era com certeza grande o suficiente para ser
confundido com o anel de compromisso e a aliana de casamento. 

"Est tudo bem.  um erro compreensvel."

"Bem, se voc precisar de qualquer coisa, s me avise, certo?"

"Obrigada," eu sumi no meu escritrio, antes que ela tivesse chance
de contar outra coisa horrvel. Essa  outra coisa que acontece quando
voc est grvida. Toda mulher se sente impelida a contar como foi
horrvel dar  luz.

Nem me preocupei em acender as luzes. Sentei na cadeira, elevando
meus ps ligeiramente. Fechei meus olhos para relaxar um pouco. Mulder
tinha me enviado algo ontem  noite, e estava relacionado ao seu mais
recente caso. Completo, com uma mensagem pessoal na bolsa do cadver.
"Querida Scully, no tem nada aqui te dizendo eu te amo. S eu. Mulder."

Eu realmente espero que esta criana no tenha o senso de humor dele. 

Esse ia ser meu projeto de metade do expediente. Deve ser interessante.
Evidencia para testar o meu novo equipamento. Mulder viria para c no
fim de semana, para estar comigo na minha ultra das quatro da tarde,
e eu poderia dar o relatrio para ele. Ele estava me mantendo to longe
dos arquivos x quanto podia, mas isso me daria uma desculpa para ficar
me ligando.

Eu realmente gostaria muito se encontrasse mais pacotes de animals
crackers...

Talvez tivesse um perdido no fundo da minha gaveta, que eu no tenha visto.
Me apoiei para abrir a gaveta, e de repente senti um golpe fundo no
meu abdmen. Algo que me pegou de surpresa, e eu clamei na mesma
hora, apertando minha barriga.

Oh meu Deus... 

* * * 

4867 Carriagepark Rd
Fairfax, VA,
10:15 da manh 

"Precisa de reformas" Jeannie Dwyer disse, andando ao redor da entrada.
"Mas tem potencial, com certeza."

Muito potencial. Tem que ser uma das frases de propaganda que eles
ensinam no curso de corretores imobilirios. Assim como iluminao
confortvel. Decorao neutra. Eles tambm ensinam nsia perpetua.
Ela ligou esta manh, s 8 horas, para fazer arranjos e eu poder ver
tudo antes de trabalhar, pois Jeannie tinha uma sensao de que esta
pequena pedra preciosa no estaria por muito tempo no mercado.

"A escola primaria  Olde Creek e tem uma das mais altas avaliaes
do distrito."

"E sobre escolas catlicas?" eu perguntei,sabendo que Scully nunca
deixaria nosso filho pisar numa escola publica. Pelo menos nos 
temos cinco anos para conversar sobre isso. Primeiro, eu teria que
resolver a historia de casamento.

"St. Dominic  a parquia local. Escola excelente, mas matrcula limitada,"
ela respondeu, inspecionando a prancheta dela.

Acenei com a cabea, voltando minha ateno para a casa. Era uma
casa de tijolo bonita, com teto reto e chao de taco.
Talvez eu morei tempo demais num apartamento pequeno, pois os
espaos largos e abertos pareciam estranhos para mim. Mas ela
adoraria a casa. Tinha um jardim nos fundos, e na frente tambm. 
Perfeito para nosso Scullizinho brincar.

"Bem, o andar de baixo  bem planejado, e ainda tem uma rea para
as crianas brincarem. Quantos filhos voc disse que tem?"

Eu sorri. "S um. Marcado para chegar em dezembro."

"Ah," ela sorriu. "Ento voc vai adorar isso. Siga-me, sr. Mulder..."

*CHIRP * 

Meu celular tocou, fazendo Jeannie me encarar.

*CHIRP * 

"S um segundo" eu falei, abrindo o celular e apertando send. Entrei 
na sala da frente para privacidade, no caso de ser Skinner. "Mulder."

"Mulder, sou eu" veio a voz de Scully. Ofegante e rpida.

"Scully?" eu perguntei, sentindo angustia naquelas trs palavras.
"O que foi?"

"O beb," ela falou entre entradas afiadas de ar.

"Alguma coisa errada?" eu perguntei seriamente, vendo Jeannie 
erguer as orelhas ao ouvir a pergunta. A casa vazia ecoou as minhas
palavras, fazendo-as ficar muito altas.

"Ele... me chutou" ela riu, surpresa. "Agora mesmo. Pela primeira
vez."

Eu respirei um suspiro de alvio, apertando meu trax. Meu corao 
deve ter parado durante um segundo. "Whoa, Scully! Eu fiquei 
preocupado um segundo. Chutando?"

"Sim," ela respondeu, retomando o tom normal dela. "Eu s achei que
voc gostaria de saber, j que voc no est aqui."

Eu senti culpa ao ouvir isso, embora no fosse isso que ela queria
passar. Ela estava melhor onde estava, eu continuei me convencendo.

"Eu vou estar a depois" eu oferecei, querendo estar l agora mesmo.
Odiava pensar nela passando por isso sozinha. "Voc acha que ele
vai chutar depois?"

"Eu no sei," ela parecia saudosa. "Mas se eu no encontrar algumas
animal crackers logo, eu mesmo vou comear a dar uns chutes."

Animal Crackers?

"Sr. Mulder?" Jeannie perguntou, olhando para o relogio. 

"Scully, eu tenho que ir. Tenho que confirmar uma cena de crime," eu 
disse, sorrindo para Jeannie. "Voc recebeu meu presente, certo?"

"Se voc quer dizer a bolsa com o cadver, sim" ela respondeu, com
seu habitual sarcasmo. "A propsito, obrigada pelo maravilhoso
carto preso a bolsa."

"Ei, s o melhor para voc" eu sussurrei, rindo. Ela desligou o 
telefone silenciosamente.

Minha conta do celular ia ser astronmica, pior do que a do ultimo ms,
mas essa era nossa linha de vida. Igual h anos atrs, quando os arquivos
x foram fechados, e ela foi para Quntico. A voz de Scully era a
nica coisa que me manteve indo adiante.

 a nica coisa que me mantm indo adiante agora tambm.

* * *

Truman Edifcio Federal
St. Louis, MO,
11:00 da manh 


Craig O'Dear, o pequeno presente de Mulder para mim, morreu de dilaceraes 
no abdmen. Ele foi cortado num total de 24 vezes. O que combinava
com sua idade. Parecia ser uma das idiossincrasias deste assassino.
A outra era que todas as suas vitimas pareciam sofrer de desordens
genticas. Mulder achava que o mtodo de assassinato era s um maneira
para esconder isso.

Meu pessoal fez vrios testes no tecido e sangue, utilizando o novo
equipamento nesta unidade. Enquanto eles completavam o trabalho, eu
fiz uma avaliao preliminar pessoal.

"Um exame fsico normalmente revelar o padro tpico de fraqueza de msculo, 
mostrando evidncia de miotonia" eu falei para meu grupo de trs pessoas.
"Alm disso, no processo mais inicial da doena, fraqueza nos msculos
da mandbula, e do pescoo, e fronte d para o rosto dos homens uma
aparncia caracterstica."

Apontei para as plpebras para dar um exemplo.

"O teste definitivo para MYDY  levar uma amostra de sangue para identificar o 
gene anormal dentro dos cromossomos que so contidos dentro das clulas
brancas do sangue." eu continuei. 

Karen Myers levantou a mo ligeiramente para adquirir minha ateno. "Voc 
poderia falar sobre as origens da doena?"

Eu caminhei ao redor da mesa, me sentando num tamborete para tirar 
o peso dos meus ps. "Como todas as desordens hereditrias, o processo 
da doena origina em material gentico que est defeituoso. Um gene defeituoso 
produz MYDY e eu acredito que fica situado no cromossomo 19. Isto parece 
acontecer mais provavelmente se o gene defeituoso  passado 
pela me ao invs do pai."

Com minhas ltimas palavras, noto que todos os olhares baixaram do 
meu rosto para minha barriga. E isso me deixou agitada.

"Um indivduo com MYDY tem um gene anormal e um gene normal," somou Dr. Tom 
Albus, sentindo meu desconforto. "Ento, h uma chance de cinqenta por 
cento daquela pessoa transmitir a doena para sua descendncia, ou
para a descendncia seguinte."

"As outras duas vtimas sofreram mutaes genticas semelhantes," Myers 
se apoiou ligeiramente contra a mesa. "Parece que ele ou ela esto 
tentando libertar o mundo de tal traio."

"Isso  o que meu parceiro acha" eu me referi as notas de campo
de Mulder, que acompanhavam o corpo. Felizmente, ninguem sorriu
maliciosamente  palavra parceiro. Ao que parecia, ninguem sabia que
eu tinha quebrado uma das leis mais sagradas do FBI - No dormirs
com seu parceiro.

"Vamos em frente" Dr. Albus disse, gesticulando com a mo dele para todo 
mundo pisar atrs do cadver. "Se isso for certo pra voc, Dra. Scully ". 

"Sim," eu respondi, me levantando de novo. "Depois do almoo, podemos
revisar os testes de gentica para ver se minha teoria  est correta.
Vejo vocs aqui em uma hora."

Eles acenaram com a cabea, saindo do laboratrio. Dr. Albus cobriu
o corpo respeitosamente e comeou a enfia-lo na gaveta.

"Boa analise, dra. Scully" ele comentou, olhando de volta para mim.
"Ns poderamos usar algum como voc em tempo integral aqui."

"J tenho um trabalho de tempo integral" eu respondi, cruzando os
braos. "E logo, vou ter dois."

Ele riu um pouco, ento o sorriso dele enfraqueceu. "Este caso te
deixa incomodada. Por causa da sua... eu quero dizer... porque voc 
est..."

"Grvida?", eu coloquei uma mecha de cabelo atrs da orelha.

"No pretendo me intrometer," ele fechou a geladeira. "Mas no 
esse o medo de toda me?"

Abri minha palma, esparramando os dedos sobre meu beb. Havia algo
mais apavorante pra mim do que doena gentica, como uma doena
forada em algum, como meu cncer. Eles tentariam algo assim contra
meu beb?

"Claro" eu respondi suavemente. "Mas as chances disso acontecer
so poucas. O pai e eu temos boa sade."

Ele acenou a cabea, um sorriso fino nos lbios. "Mas doena genetica
no tem nada a ver com boa sade.  algo incontrolvel. Determinado no
segundo em que acontece a concepo."

Abri minha boca para falar algo, mas senti meu Pager tocar.

"Com licena" eu olhei para baixo e era o telefone da minha mdica.
Confirmando a consulta das quatro horas. "Tenho que ir".

"Claro, te vejo em uma hora" ele respondeu, acenando para mim enquanto
eu fechava a porta.

Respirei fundo e me apoiei contra a parede do corredor. Esta
criana  perfeitamente saudvel e normal, eu fiquei me falando. 
Ninguem mexeu com o beb ou comigo. No desde que o chip foi implantado.

O chip. 

Um pensamento horrvel cruzou a minha mente.

* * *

Garagem do J. Edgar Hoover
12:00 da tarde 


Skinner tinha ficado reclamando sobre perder uma reunio por minha
causa; haviam umas dez mensagens para mim no servio, incluindo uma
sobre o aluguel de Scully, cuja renovao era em janeiro. O meu eles
no querem renovar, pois o incidente com o colcho de gua e o corpo
de Phillip Padgett no poro deixou meu locador mais do que pronto para
me expulsar de l.

Decidi dar uma oferta na casa da cidade. Se tivesse sorte, poderia
assumir em quatro semanas, j que os antigos donos j tinham ido embora.
Gostaria de comprar uma casa enorme para ela, como em ARcadia, mas eu
nem mesmo tinha certeza de como ela ia reagir sobre esta aqui. Precisava
de muito trabalho. Com sorte, ficaria pronto para quando ela chegasse
de St. Louis em dezembro. Ela podia vir morar diretamente aqui. 
Eu deixaria o quarto do beb para ela decorar da maneira que quisesse.

Olhei para o relgio. Estava quase na hora de ir. Eu estava saindo 
ao meio dia, e meu vo estava marcado para as 1h15, ento eu 
tinha tempo para chegar no aeroporto, e fui para o estacionamento.

Mal podia esperar para ver Scully. Falar com ela pelo telefone era
muito pouco. Eu queria toca-la. Falar cara a cara com ela. No
percebi o quanto sentia falta disso at no te-la mais ao meu lado.
Depois de sete anos juntos, eu no sabia mais ficar sem ela.
Esta seria a ultima vez em que ela ficaria longe de mim por tanto
tempo. Andei pela garagem, e minha bolsa estava pronta para entrar na
mala.

"Fox?"

Algum me chamou? Olhei ao redor, os carros parados, e no vi nada.
Continuei andando, me lembrando daquela visita de Krycek h quase um
ms. Ele no seria estpido para aparecer aqui. Pensando bem, ele seria.

"Fox?" a voz chamou de novo. Desta vez, era clara e distinta, e me
gelou.

Eu conhecia aquela voz. Conhecia muito bem. 

"Ouvi disse que est na hora dos parabns" Diana Folwey falou,
virando um canto para ficar na minha frente.

"Krycek te contou?" eu olhei diretamente para o olhar frio dela.
Ela estava sumida por meses, desde a noite em que o Sindicato tinha
sido destrudo. O sumio dela foi muito suspeito. Ela nem mesmo voltou
para o funeral de Spender, e ele foi o parceiro dela durante meses.
Mas, pensando bem, Diana nunca foi muito boa em ser leal.

"No sei do que voc est falando" ela respondeu, muito calma pro
meu gosto. Mas eu podia ver que ela estava mentindo. Eu 
conhecia os sinais de longe. "Estive fora durante algum tempo,
Fox. Acabei de voltar, e fiquei surpresa com as noticias, sabendo a
condio de sade dela e tudo mais. Ela no deveria estar grvida."

"No foi uma condio de sade. Foi uma violao" eu comecei a 
andar para o carro.

"Ento, como aconteceu?" ela no desistiu, tocando meu brao para
me parar. "In vitro? Doao de vulo?"

"Importa?"

"Voc j se casou com ela?" ela perguntou com um senso de urgncia na
voz, como se estivesse esperando que a resposta fosse no. "Tenho
certeza que voc sabe as conseqncias de se casar com sua parceira."

"No. Eu s sei das conseqncias de me casar com voc". Foi h
tanto tempo, como se isso no tivesse acontecido. Mas infelizmente, 
aconteceu.

"Ou ela no sabe sobre ns?" Diana indagou, e entao sorriu quando
eu no respondi. " isso. Ela no tem a mnima idia disso, no ?"

"Scully sabe tudo sobre voc" eu menti, esperando parecer convincente.

"Foi isso o que voc sempre quis, no foi?" ela dobrou os
braos e se apoiou contra o meu carro. "A coisa que eu nunca te dei.
Uma famlia. Para substituir a que voc perdeu quando Samantha foi
levada."

"Acho que foi por isso que nos separamos, Diana. Voc tinha seu prprio
programa de trabalho, e no era eu" eu respondi, abrindo a porta.
Coloquei meu laptop dentro e sentei atrs do volante. "O que eu
queria nunca importou pra voc."

Diana avanou e colocou os braos na porta, para me impedir de fecha-la.
"Isso no deveria ter acontecido, Fox."

" por isso que voc est aqui?" eu forcei a porta, e fechei-a. 
Ela deu um passo pra trs, e me olhou, desaprovando meu ato. "Eles
te mandaram para me fazer perguntas? Achando que voc iria conseguir
uma resposta melhor do que Krycek?"

"Estou aqui porque acho que voc est cometendo um terrvel 
engano" ela respirou fundo. 

Liguei o carro, pronto para dar o fora deste inferno, e me afastar
do meu passado. "Bem, no seria a primeira vez."

Diana ficou de p, olhando para minha vaga desocupada. 

Se olhares pudessem matar...

* * *

Hospital Judeu Barnes
4:45 da tarde 

Meu mdico era perto do centro da cidade, ento eu cheguei cedo 
para minha consulta. Esperei por Mulder na primeira meia hora. Tentei ligar
vrias vezes para o celular dele, sem resposta. O vo dele chegou no
horrio, chegando aqui s 3h15, e ele deveria ter chegado at agora...
assumindo que ele estava no vo, claro.

Convenci a mdica a deixar a outra paciente ir primeiro, para
arrumar um pouco mais de tempo. Fiquei olhando o relgio, ficando cada
vez mais frustrada com cada pessoa que entrava pela porta, e que no
era Mulder. Tive que beber muita gua mais cedo, ento eu estava com
a bexiga cheia, e ficar sentada estava sendo horrvel.

"No podemos esperar mais" a enfermeira tocou no meu brao, chamando
minha ateno. "A mdica s fica aqui at s 5h30 da tarde e
j so quinze pra cinco."

Eu suspirei. No fiquei surpresa com Mulder faltando a isso. Tentei
mais uma vez no celular. Nada.

"Tudo bem" eu falei, a seguindo pelo corredor. Quadros enfeitavam as
paredes, com mulheres em todas as fases de gravidez, e eu olhei
para uma que estava com cinco meses. Eu deveria estar sentindo movimento
fetal, sofrendo descarga vaginal, constipao e azia. Isso s ficava
cada vez melhor.

"Voc est aqui para uma ultra-sonografia" ela confirmou, enquanto 
me pesava. Ganhei apenas doze libras, o que no era to ruim. Estava
quase no meu peso pr-cancer. "Voc est tomando suas vitaminas
pr-natais?"

"Sim," eu respondi, enquanto amos para o quarto de exames. "E meus
suplementos de clcio."

"Bom," ela anotou isso na minha ficha. "Tem um vestido ali, e voc
pode se trocar, e tem um lenol para colocar sobre suas
pernas. Ela vai querer fazer o exame plvico primeiro e conferir seus
sinais vitais."

Lutei um pouco com os laos de trs, mas logo eu estava com o
vestido e com um lenol branco sobre mim. Encarei os
estribos no fim da mesa, imaginando como ia ser na hora do parto. Eu vou
poder controlar isso? Mutantes comedores de fgado e leo extraterrestre
no me assustavam. Dar a luz, sim.

"Oi Dana" dra. Andrea Stephens falou, entrando no quarto. Ela era a
obstetra especialista que minha mdica de DC recomendou. Eu a conheci
na primeira semana, para uma consulta, e gostei dela. E quando ela
foi checada pelos rapazes, ela estava limpa. "No est faltando 
algum aqui?"
 
"Ele deveria estar aqui" eu gemi enquanto deitava na mesa.

Eu tinha dito a ela que o pai ia estar presente. Dra. Stephens
examinou meu arquivo, acenando com a cabea e no dizendo mais
nada sobre a ausncia de Mulder.

"Voc no est sangrando de novo, est?"
ela perguntou, fazendo anotaes.

"No" eu suspirei, aliviada. J havia passado um ms, e nada
de sangramentos.

"Isso  bom. Ganho de peso est regular. Bom. Tem algum problema que
voc queira falar?"

"Meu nervo citico," eu movi minha mo para as minhas costas.

"Sim. A presso do seu tero aumentando causa isso. Vamos
esperar que o beb mude de posio, assim vai aliviar a dor"
ela falou, conferindo minhas batidas cardacas e a presso sanguinea.
"E falando nisso.... algum movimento fetal?"

"De fato, hoje" eu sorri um pouco, orgulhosa do beb. "Senti 
mover esta manh. E at agora, s tenho sentido presso. Como
gases."

"Isso  maravilhoso," ela colocou a mo no meu brao. "Excitante,
no ? Depois de tanto tempo sentindo ele crescer, senti-lo se
mover..."

Eu acenei com a cabea. Era excitante. Eu s queria que o pai
estivesse l tambm.

Ela procedeu em fazer um exame plvico, e eu tentei relaxar. 
Ouvi ela colocando as luvas, algo que eu mesma j tinha
feito mil vezes.

"Voc est gostando de St. Louis?" ela perguntou enquanto me
sondava com cuidado.

" diferente," eu encarava o teto. Era incomodo o que ela estava
fazendo, mas necessrio. "Sinto falta de DC. Mas o trabalho  bom
e eu fao meu horrio."

" importante ter flexibilidade neste momento" ela bateu de
leve no meu joelho para sinalizar a concluso do exame. Ela
me deu minha roupa intima. "Voc pode vestir isso de volta
para a ultra, se quiser.  do outro lado do corredor. Julie
est esperando por voc."

"Obrigada," me sentei e vesti de volta. No me sentia to 
exposta agora. Qualquer timidez que eu tivesse sobre exames plvicos
com certeza iriam ser superados quando o beb chegasse.

E agora, minha bexiga estava enviando dores afiadas por mim.
Eu ia explodir logo. Ela me ajudou a sair da mesa de exames me
dando a roupa e bolsa.

"Diria que voc est tima. Voc tem alguma pergunta, Dana?"

"Sim. Eu quero dizer, eu tenho uma", comecei, me sentindo desajeitada
sobre mencionar isso. Mas eu estava esperando o fim de semana.
"E sobre sexo? Ns no fazemos desde o ms passado."

"Seu exame plvico foi bom," a mdica falou. "Acho que  seguro
retomar relacionamento normal. Nenhuma penetrao profunda. Sua
cerviz ainda pode estar sensvel." 

"Eu deveria estar fazendo alguma coisa?" eu queria ter certeza
de que no estava esquecendo nada.

"S continue fazendo o que est fazendo. Tenha certeza de no
exagerar no trabalho. Pegue leve. Quando voc terminar a ultra,
podemos falar sobre mais alguns detalhes e marcar sua prxima
consulta." ela anotou mais algumas coisas na minha ficha.

Do lado de fora, portas foram batidas e ouviam-se alguns gritos.
Fiquei assustada e olhei para dra. Stephens.

"Deve estar acontecendo algo no corredor" ela comentou. 

De repente, a porta voou aberta e ns duas saltamos. Sem aviso,
Mulder estava ali, com a enfermeira presa no brao dele.

"Este homem estou aqui, sinto muito" ela disse, tentando puxar
Mulder para o corredor.

Ele olhou para mim. Mulder parecia morto, como se tivesse vindo
correndo de DC at aqui. Ou pelo menos do estacionamento. Ele
sorriu para mim, e eu sorri de volta.

"Tudo bem" eu falei, olhando para a enfermeira. "Ele  o pai."

"Antes tarde do que nunca. Eu sou Andrea Stephens" ela estendeu 
a mo. "Voc deve ser Fox Mulder."

"Sim." ele apertou a mao dela. "Est tudo bem?"

"At aqui tudo bem. amos dar uma olhada agora mesmo" ela respondeu,
nos levando pelo corredor. "Esta  Julie, nossa tcnica, e ela
vai cuidar de vocs."

Mulder me ajudou a me ajeitar sobre a cama, ajeitando meu 
travesseiro, para eu ficar confortvel. Julie sorriu para
ns.

A mdica colocou minhas coisas numa cadeira. "Eu te vejo daqui
a pouco."

"Esse no  a sua primeira ultra, certo?" Julie conferiu minha
ficha. "Ento, voc sabe a rotina."

"Sim," eu respondi, tentando pensar em qualquer coisa menos na
minha bexiga.

Julie ergueu meu vestido e abaixou o cs da calcinha. Eu queria
tanto urinar, que qualquer presso no meu abdmen era pura
agonia.

Ela cobriu meu estmago de gel. Vacilei com a frieza e olhei
para o teto. Mulder pegou minha mo esquerda entre as dele.
Logo, Julie comeou. Ela virou o monitor para que pudssemos
ver. Mas mesmo que o corpo do beb entrasse em foco, ouvimos seu
corao. Alto e forte.
 
Mulder no tirava os olhos da imagem, encarando com ateno. 
Julie moveu o sensor, tentando ter uma viso melhor.

"Aqui  a cabea. Aqui  a curva da espinha," ela disse, apontando 
na tela. Mulder apertou minha mo mais forte, e eu senti lagrimas
vindo em meus olhos. Ver e ser o beb num dia estava me subjugando.
Meu beb. Parecia perfeitamente normal para mim. 

"Voc pode saber o que ?" Mulder perguntou, o tom de voz cheio
de maravilha.

"Infelizmente, est virado agora. Vocs querem saber?" ela
perguntou, sorrindo para ns.

"No," eu respondi. 

"Sim," Mulder respondeu. 

Ela sorriu mais ainda. "Parece que no vamos decidir dessa
vez. Vocs podem decidir depois. Mas eu diria que ele ou ela
est se desenvolvendo muito bem. Vocs querem uma foto da ultra?"

"Sim, ns dois queremos" eu acenei com a cabea, olhando para
Mulder.

Ela mexeu o sensor, nos dando outra viso de nosso filho.

"Olhe para aquele brao," Mulder disse, localizando a forma 
minscula na tela. "Tem que ter um lanador nato ali."

Eu tremi minha cabea. "Voc e seu beisebol, Mulder... e se for 
uma menina?"

"Ento nossa filha vai ser a primeira mulher a jogar nos profissionais"
ele disse. Julie entortou a boca ligeiramente. Eu quis saber quantos
pais tinham feito aquele comentrio. Ela pegou as fotos e deu para
Mulder, e ento retirou o sensor.

"Obrigada" eu respondi enquanto ela fechava a porta, deixando Mulder
e eu sozinhos, pela primeira vez em duas semanas. 

Mas primeiro, eu tinha que urinar.

* * * 

"Scully," eu comecei. 

Mas ela elevou a mo, indicando que queria que eu ficasse quieto,
e foi para o pequeno banheiro no canto. Depois de um minuto ou
dois, eu ouvi ela suspirar, e ento a descarga. Ela saiu
segundos depois, a expresso aflita do rosto dela no mais l.
E agora ela estava aborrecida, provavelmente, com meu atraso.

"Scully, eu s queria dizer que sinto muito pelo meu atraso."

"Pelo menos voc chegou aqui," ela ergueu o vestido dela, e tirou
o resto do gel com uma toalha pequena.

"Era importante pra mim," eu fui para as roupas dela sobre a cadeira.
Ela tinha ficado maior nas duas ultimas semanas. Eu estava to 
concentrado no monitor, vendo o beb, que no a tinha visto direito
ainda.

"O que voc est olhando?" Scully perguntou, me olhando tambm.

"Voc," fui at o lado dela, e coloquei as roupas na cama. "Senti muito
a sua falta, Scully."

Ela suspirou. E aquela pequena ruga na testa dela comeou a sumir.
"Eu espero que este beb no tenha seu senso de tempo."

Scully virou de costas, e tirou o cabelo ruivo do pescoo, expondo
os laos do vestido.

"Mulder, voc podia...?" ela implorou, olhos diretos nos meus.

Eu abri os laos, e deixei o vestido deslizar do corpo dela, expondo
as costas dela para mim. O corpo dela tinha mudado de forma e ela
estava mais cheinha, como antes que o cncer a fizesse perder todo
aquele peso. Coloquei um dedo nas costas dela, bem sobre o elstico
da calcinha. E a vi tremendo ao contato. Sentia muito a falta dela.

Ela ficou de costas enquanto colocava o suti, seguido por uma camisa
rosa plido com cala comprida da mesma cor. Elegante, mas projetada
para estar confortvel. Ela parecia absolutamente brilhante. Vendo ela
se vestir era quase to sedutor quanto v-la se despindo.

"Como voc est se sentindo?" eu evitei meus olhos quando ela 
subiu o ziper da cala. 

"Bem" ela colocou os sapatos. "No tenho mais enjos, e estou tentando
fazer um pouco de exerccios, caminhada, a cada manh."

"Nada incomum aconteceu por aqui?" eu disse isso com muito cuidado.

Ela sabia sobre o que eu estava falando. "No. Voc no recebeu 
nenhuma visita de Krycek, recebeu?" ela pegou a bolsa e as fotos
da ultra.

"No," minha resposta foi verdadeira. No tive nenhuma visita de Krycek.
Agora, Diana era outra historia. No estava a ponto de falar sobre 
isso com ela. No agora, quando as coisas estavam indo to bem. Ns
falaramos sobre isso mais tarde.

Ela me encarou, tentando determinar se eu estava mentindo pra ela.
Olhei diretamente em seus olhos, e ela respirou fundo, aceitando aquela
resposta por enquanto.

"Vamos" ela abriu a porta. "A mdica est nos esperando."

Andamos pelo corredor. Era um local agradvel, e eu estava contente
por eles estarem cuidando de Scully e do beb. Peguei a mo dela,
querendo restabelecer contato de novo. Peguei o brilho do anel dela 
e sorri. Pelo menos ela estava usando o anel. Era um bom sinal. Comecei
a juntar as pontas dos nossos dedos quando, de repente, ela se afastou
de mim. Na verdade, me empurrou. Parando.

"Espera!" ela disse de repente. 

Scully andou para trs, para uma mquina de doces no canto, e olhou
pelas selees de doces avidamente.

"Mulder, me d algumas moedas. Agora" ela ordenou, estendendo a mo
e no tirando os olhos dos doces.

Procurei em meus bolsos e deixei tudo que encontrei nas mos dela.
Ela contou as moedas rapidamente.

"Suficiente para trs pacotes" ela falou, vida, colocando as moedas
na mquina.

Ela bateu o boto e depressa agarrou os trs pacotes azuis que caram
no fundo. Austin Animals Crackers. Bolachas. Ela abriu um deles e
colocou os outros dois na bolsa, e ficou mastigando, feliz, enquanto
amos para o consultrio da dra. Stephens.

* * * 

