Necronomicon

 

O Necronomicon (literalmente: "Livro de Nomes Mortos") foi escrito em Damasco, por volta de 730 d.C., sendo sua autoria atribu�da a Abdul Alhazred. Ao contr�rio do que se pensa vulgarmente, n�o se trata de um grimoire (ou grim�rio), livro m�gico de encantos, mas de um livro de hist�rias. Escrito em sete volumes.

No original, chegou � cerca de 900 p�ginas na edi��o latina, e seu conte�do dizia respeito � coisas antigas, supostas civiliza��es anteriores � ra�a humana, numa narrativa obscura e quase ileg�vel.

Abdul Alhazred nasceu em Sanaa, no I�men, tendo feito v�rias viagens em busca de conhecimento.

Dominando v�rios idiomas, vagou da.Alexandria ao Pundjab, na �ndia, e passou muitos anos no deserto despovoado ao sul da Ar�bia. Embora conhecido como �rabe louco, nada h� que comprove sua insanidade, muito embora sua prosa n�o fosse de modo algum coerente. Alhazred era um excelente tradutor, dedicando-se a explorar os segredos do passado, mas tamb�m era um poeta, o que lhe permitia certas extravag�ncias na hora de escrever, al�m do car�ter dispersivo. Talvez isso explique a alinearidade do Necronomicon.

Alhazred era familiarizado com os trabalhos do fil�sofo grego Proclos(410-485 d.C.), sendo considerado, como ele, um neo-plat�nico. Seu conhecimento, como o de seu mestre, inclui(matem�tica, filosofia, astronomia, al�m de ci�ncias metaf�sicas baseadas na cultura pr�-crist� de eg�pcios e caldeus. Durante seus estudos, costumava acender um incenso feito da mistura de diversas ervas, entre elas o �pio e o haxixe. As emana��es desse incenso, segundo diziam, ajudavam a "clarear" o passado.

� interessante notar que a palavra �rabe para loucura(majnum) tem um significado mais antigo de "djinn possu�do". Djilms eram os dem�nios ou g�nios �rabes, e Al Azif, outra denomina��o para o livro de Alhazred, queria dizer justamente "uivo dos dem�nios noturnos".

Como determinar o limite entre a loucura e a sabedoria?

Semelhan�as entre o Ragnarok, mito escandinavo do Apocalipse, e passagens do Al Azif sugerem um v�nculo entre ambos. Assim como os djinns �rabes e os anjos hebraicos, os deuses escandinavos seriam vers�es dos deuses antigos. Ambas as mitologias falam de mundos sendo criados e destru�dos, os gigantes de fogo de Muspelhein equivalem aos anjos e arcanjos b�blicos, ou aos g�nios �rabes, e o pr�prio Surtur, dem�nio de fogo do Ragnarok, poderia ser uma corruptela para Surturiel, ou Uriel, o anjo vingador que, como Surtur, empunha uma espada de fogo no Ju�zo Final. Da mesma forma, Surtur destr�i o mundo no Ragnrok, quando os deuses retornam para a batalha final.

Embora vistas por alguns com reservas, essas liga��es tornam-se mais fortes ap�s recentes pesquisas que apontam o caminho pelo qual o Necronomicon teria chegado � Escandin�via. A cidade de Harran, no norte da Mesopot�mia, foi conquistada pelos �rabes entre 633 d.c. e 643 d.c. apesar de convertidos ao isl�, os harranitas mantiveram suas pr�ticas pag�s, adorando a Lua e os sete planetas ent�o conhecidos. Tidoa como neo-plat�nicos, escolheram, por imposi��o, da religi�o dominante, a figura de Hermes Trimegisto para representa-los como profeta. Um grupo de harranitas mudou-se para Bagd�, onde mantiveram uma comunidade distinta denominada sabinos. Alhazred menciona os sabinos .Era uma comunidade instru�da, que dominava o grego e tinha grande conhecimento de literatura, filosofia, l�gica, astronomia, matem�tica, medicina, al�m de ci�ncias secretas relativas �s culturas �rabe e grega. Os sabinos mantiveram sua semi-independ�ncia at� o s�culo XI, quando provavelmente foram aniquilados pelas for�as ortodoxas isl�micas, pois n�o se ouve mais falar deles � partir do ano 1000. No entanto, por volta de 1041, o historiador Miguel Psellus conseguiu salvar uma grande quantidade de documentos pertencentes aos sabinos, recebendo-os em Biz�ncio, onde vivia. Quem levou esses documentos de Bagd� para Biz�ncio permanece um mist�rio, mas � certo que o fez tentando preservar uma parte da cultura dos sabinos da intoler�ncia religiosa da �poca.

Psellus, que al�m de historiador era um estudioso de filosofia e ocultismo, juntou o material recebido num volume denominado "Corpore Hermeticum". Mas haviam outros documentos, inclusive uma c�pia do Al Azif, que ele prontamente traduziu para o grego.

Por essa �poca, era costume os imperadores bizantinos empregarem guarda-costas vikings, chamados "varanger". A imagem que se tem dos vikings como b�rbaros semi-selvagens n�o corresponde � realidade, eram grandes navegadores que, j� no ano mil, tinham dado inicio a uma rota comercial que atravessaria milhares de quil�metros, passando pela Inglaterra, Groenl�ndia, Am�rica do Norte e a costa atl�ntica inteira da Europa, seguindo pela R�ssia at� Biz�ncio. Falavam grego fluentemente e sua infantaria estava entre as melhores do mundo.

Entre 1030 a 1040, servia em Biz�ncio como varanger um viking chamado Harald. Segundo o costume, sempre que o imperador morria, o varanger tinha permiss�o para saquear o pal�cio. Harald servia � imperatriz .Zoe, que cultivava o h�bito de estrangular os maridos na banheira. Gra�as a ela, Harald chegou a tomar Varie em tr�s saques, acumulando grande riqueza.

Harald servia em Biz�ncio ao lado de dois companheiros, Haldor Snorrason e Ulf Ospaksson. Haldor, filho de Snorri, o Padre, era reservado e taciturno. Ulf, seu oposto, era astuto e desembara�ado, tendo casado com a cunhada de Harald e tornado-se um grande 1�der noruegu�s. Gostava de discutir poesia grega e participava das intrigas palacianas. Entre suas companhias intelectuais preferidas estava Miguel Psellus, de quem Ulf acompanhou o trabalho de tradu��o do Al Azif, chegando a discutir o seu conte�do como historiador bizantino. Segundo consta, foi durante a confus�o de uma pilhagem que Ulf apoderou-se de v�rios manuscritos de Psellus, traduzidos para o grego. Ulf e Haldor retornaram � Noruega com Harald e, mais tarde, Haldor seguiu sozinho para a Isl�ndia, levando consigo a narrativa do Al Azif. Seu descendente, Snorri Sturluaaon(1179-1241), a figura mais famosa da literatura islandesa, preservou essa narrativa em sua "Edda Prosista", a fonte original para o conhecimento da mitologia escandinava. Sabe-se que Sturlusson possu�a muito material dispon�vel para suas pesquisas 1�tero-hist�ricas e entre esse materia1certamente estava o Al Azif, que se misturou ao mito tradicional do Ragnarok.

Felizmente, Psellus ainda p�de salvar uma vers�o do Al Azif original, caso contr�rio, o Necronomicon teria sido perdido para sempre.

Ao que se sabe, n�o existe mais nem um manuscrito em �rabe do Necronomicon, o x� da antiga P�rsia(atual Ir�) levou � cabo uma busca na �ndia, no Egito e na biblioteca da cidade santa de Mecca, mas nada encontrou. No entanto, uma tradu��o latina foi feita em 1487 por um padre dominicano chamado Olaus Wormius, alem�o de nascen�a, que era secret�rio do inquisidor-mor da Espanha, Miguel Tom�s de Torquemada, e � prov�vel que tenha obtido o manuscrito durante a persegui��o aos mouros. O Necronomicon deve ter exercido grande fasc�nio sobre Wormius, para lev�-1o a arriscar -se em traduz�-lo numa �poca e lugar t�o perigosos. E1e enviou uma c�pia do livro a Jo�o Trit�mius, abade de Spanhein, acompanhada de uma carta onde se lia uma vers�o blasfema de certas passagens do Livro de G�nese. Sua ousadia custou-lhe caro. Wormius foi acusado de heresia e queimado numa fogueira, juntamente com todas as c�pias de sua tradu��o. Mas, segundo especula��es, ao menos uma c�pia teria sido conservada, estando guardada na biblioteca do Vaticano.

Seja como for, tradu��es de Wormius devem ter escapado da Inquisi��o, pois quase cem anos depois, em 1586, o livro de Alhazred reapareceria na Europa.

O Dr. John Dee, famoso mago ingl�s, e seu assistente Edward Kelley, estavam em Praga, na corte do imperador Rodolfo II, tra�ando projetos para a produ��o de ouro alqu�mico, e Kelley comprou uma c�pia da tradu��o latina de um alquimista e cabalista chamado Jac� Eliezer, tamb�m conhecido como ,"rabino negro", que tinha fugido da It�lia ap�s ser acusado de pr�ticas de necromancia. Naquela �poca, Praga havia se tornado um �m� para m�gicos, alquimistas e charlat�es de todo tipo, n�o havia lugar melhor para uma c�pia do Necronomicon reaparecer.

John Dee(1527-1608), erudito e mago elisabetano, pensava estar em contato com anjos e "outras criaturas espirituais", por media��o de Edward Kelley. Em 1555, j� fora acusado, na Inglaterra, de assassinar meninos ou de deix�-los cegos por meio de m�gica. � certo que Kelley tinha grande influ�ncia sobre as pr�ticas tenebrosas de Dee, os anjos com os quais dizia comunicar-se, e que talvez s� existissem em sua cabe�a, ensinaram a Dee um idioma at� ent�o desconhecido, o enoquiano, al�m de outras artes m�gicas. Se tais contatos, no entanto, foram feitos atrav�s do Necronomicon, � coisa que se desconhece. O fato � que a doutrina dos anjos de Dee abalou a moral da �poca, pois pregava entre outras coisas, o hedonismo desenfreado. Em1583, uma multid�o enfurecida saqueou a casa de Dee e incendiou sua biblioteca.

Ap�s tentar invocar um poderoso esp�rito que, segundo o vidente, lhes traria grande sabedoria, Dee e Kelley se separaram, talvez pelo fracasso da tentativa. Em 1586, Dee anuncia sua inten��o de traduzir o Necronomicon para o ingl�s, � partir da tradu��o de Wormius. Essa vers�o, no entanto nunca foi impressa, passando para a cole��o de Elias Ashmole(1617-1692), estudioso que transcreveu os di�rios espirituais de Dee, e finalmente para a biblioteca de Bodleian, em Oxford.

Por cerca de duzentos e cinquenta anos, os ensinamentos e escritos de Dee permaneceram esquecidos. Nesse meio tempo, partes do Necronomicon foram traduzidas para o hebreu, provavelmente em 1664, circulando em forma de manuscritos e acompanhados de um extenso coment�rio feito por Nathan de Gaza. Nathan, que na �poca contava apenas 21 anos, era um precoce e brilhante estudante da Torah e Talumud. Influenciado pelas doutrinas messi�nicas judaicas vigentes na �poca, ele proclamou como o messias esperado a Sabbatai Tzavi, um man�aco depressivo que oscilava entre estados de transcend�ncia quando se dizia que seu rosto parecia reluzir, e profunda frustra��o, com acessos de f�ria e crueldade. Tais estados de �nimo eram tidos como o meio pelo qual Sabbatai se comunicava com outros planos de exist�ncia, como um Cristo descendo aos infernos, ou Orfeu, numa tradi��o mais antiga.

A vers�o hebraica do Al Azif era intitulada Sepher ha'sha'are ha-Da'ath, ou o "Livro do Portal do Conhecimento". Tratava-se de um coment�rio em dois cap�tulos do livro de Alhazred. A palavra para conhecimento, Da'ath, foi traduzida para o grego na B�blia como gnosis, e na Cabala tem o significado peculiar de "n�o-exist�ncia", sendo representada �s vezes como um buraco ou port�o para o abismo da consci�ncia. Seu aspecto dual parece indicar uma liga��o entre o mundo material, com sua ilus�o de mat�ria f�sica e ego, e o mundo invis�vel, obscuro, do conhecimento, mas que seria a fonte da verdadeira sabedoria, para aqueles que pudessem suport�-la. Isso parece levar ao Astaroth alqui�mico e � m�xima da magia, que afirma que o que est� em cima(no c�u) � como o que est� em baixo(na terra). A liga��o entre os dois mundos exigiria conhecimento do Abismo, aboli��o do ego e nega��o da identidade. De dentro do Abismo, uma infinidade de port�es se abre. � o caos informe, contendo as sementes da identidade.

O prop�sito de Nathan de Gaza parece ter sido ligar o Necronomicon � tradi��o judaica da Cabala, que fala de mundos antigos primordiais e do resgate da ess�ncia sublime de cada ser humano, separada desses mundos ou submergida no caos. Ao lado disso, criou seu movimento messi�nico, apoiado em Sabbatai Tzevi, o qual criou cis�es e conflitos na comunidade judaica, conflitos que persistiram por pelo menos um s�culo. H� quem afirme que uma c�pia do Sha'are ha-Da'ath ainda existe, em uma biblioteca privada, mas sobre isso n�o h� qualquer evid�ncia concreta.

O ressurgimento do Necronomicon � constantemente atribu�do ao escritor Howard Phillip Lovecraft, que fez do livro a base de sua obra liter�ria. Mas n�o se explica como Lovecraft teve acesso ao livro de Alhazred.

O caminho mais l�gico para esse ressurgimento parece indicar o mago brit�nico Aleister Crowley(1875-1947). Crowley tinha fama de charlat�o, proxeneta, toxic�mano, prom�scuo insaci�vel e bissexual, al�m de traidor da p�tria e satanista. Tendo se iniciado na Ordem do Amanhecer Dourado em 1898, Crowley aprendeu pr�ticas ocultas no Ceil�o, na �ndia e na China. Mais tarde, ele criaria sua pr�pria ordem, um sistema m�gico e uma nova religi�o, da qual ele seria o pr�prio messias. Ao que tudo indica, essa religi�o denominada "Lei de Thelema" se baseava nos conhecimentos do "Livro da Lei", poema em prosa dividido em tr�s cap�tulos aparentemente il�gico, que segundo ele, lhe havia sido ditado em 1904 por ua esp�rito chamado Aiwass.

Sabe-se que Crowley pesquisou os documentos do Dr. John Dee em Bodleian. Ele pr�prio se dizia uma reencarna��o de Edward Kelley, o que explica em parte, seu interesse. Apesar de n�o mencionar a fonte de seus trabalhos, � evidente que muitas passagens do Livro da Lei foram plagiadas da tradu��o de Dee do Necronomicon. Crowley j� era conhecido por plagiar seu mestre, Allan Bennett(1872-1923), que o iniciou no Amanhecer Dourado, mas h� quem sustente que tais semelhan�as foram assimiladas inconscientemente seja como for, em 1918 Crowley viria a conhecer uma modista chamada S�nia Greene. Aos 35 anos, judia, divorciada, com uma filha e envolvida numa obscura ordem m�stica, S�nia parecia ter a qualidade mais importante para Crowley naquele momento: dinheiro. Eles passaram a se ver durante alguns meses, de maneira irregular.

Em1921, S�nia Greene conheceu H.P. Lovecraft. No mesmo ano, Lovecraft publicou o seu primeiro romance "A Cidade Sem Nome", onde menciona Abdul Alhazred. Em1922, no conto "O C�o de Ca�a", ele faz a primeira men��o ao Necronomicon. Em1924, ele e S�nia Greene se casam.

N�s s� podemos especular sobre o que Crowley contou para S�nia Greene, e n�o sabemos o que ela contou a Lovecraft, mas � f�cil imaginar uma situa��o onde ambos est�o conversando sobre uma nova hist�ria que ele pretende escrever e S�nia comenta algumas id�ias baseadas no que Crowley havia lhe contado, sem nem mesmo mencionar a fonte. Seria o bastante para fazer reluzir a imagina��o de Lovecraft. Basta comparar um trecho de "O Chamado de C`Thullu"(1926) com partes do Livro da Lei, para notar a semelhan�a.

"Aquele culto nunca morreria... C`Thullu se ergueria de sua tumba e retomaria seu tempo sobre a Terra, e seria f�cil reconhecer esse tempo, pois os homens seriam livres e selvagens, como os "antigos", e al�m do bem e do mal, sem lei ou moralidade, com todos gritando e matando e rejubilando-se em alegria. Ent�o os "antigos" lhes ensinariam novos modos de gritar e matar e rejubilar-se, e toda a Terra arderia num holocausto de �xtase e liberdade"(O Chamado de C`Thullu).

"Faz o que tu queres, h� de ser tudo da lei... Todo homem e toda mulher � uma estrela... Todo homem tem direito de viver como quiser, segundo a sua pr�pria lei... Todo homem tem o direito de matar quem se opuser aos seus direitos... A lei do forte, essa � a nossa lei e alegria do mundo ... Os escravos servir�o"(Lei Thelemita).

N�o h� nem uma evid�ncia que Lovecraft tenha visto o Necronomicon, ou at� mesmo soube que o livro existiu. Embora o Necronomicon que ele desenvolveu em sua obra esteja bem pr�ximo do original, seus detalhes s�o pura inven��o. N�o h� nem um Yog-Sothoth ou Azathoth ou Nyarlathotep no original, por exemplo . Mas h� um Aiwass...
 
 

O QUE � O NECRONOMICON?

O Necronomicon de Alhazred trata de especula��es antediluvianas, sendo sua fonte prov�vel o G�nese b�blico e o Livro de Enoch, al�m de mitologia antiga. Segundo Alhazred, muitas esp�cies al�m do g�nero humano tinham habitado a Terra, vindas de outras esferas e do al�m. Alhazred compartilhou da vis�o de neoplatoniatas que acreditavam serem as estrelas semelhantes ao nosso Sol, cada qual com seus pr�prios planetas e formas de vida, mas elaborou essa vis�o introduzindo elementos metaf�sicos e uma hierarquia c�smica de evolu��o espiritual. Aos seres das estrelas, ele denominou "antigos". Eram sobre-humanos e podiam ser invocados, desencadeando poderes terr�veis sobre a Terra.

Alhazred n�o inventou a hist�ria do Necronomicon. Ele elaborou antigas tradi��es, inclusive o Apocalipse de S�o Jo�o, apenas invertendo o final(a Besta triunfa, e seu n�mero � 666). A id�ia de que os "antigos" acasalaram com os humanos, buscando passar seus conhecimentos para o nosso plano de exist�ncia e gerando uma ra�a de aberra��es, casa com a tradi��o judaica dos nephilins(os gigantes de G�nese 6.2-6.5). A palavra �rabe para "antigo" deriva do verbo hebreu para "cair"(os anjos ca�dos). Mas o G�nese � s� um fragmento de uma tradi��o maior, que se completa, em parte, no Livro de Enoch. De acordo com esta fonte, um grupo de anjos guardi�es enviados para observar a Terra viu as filhas dos homens e as desejou. Duzentos desses guardi�es formaram um pacto, saltando dos ares e tomando as mulheres humanas como suas esposas, gerando uma ra�a de gigantes que logo se p�s a pecar contra a natureza, ca�ando aves, r�pteis e peixes e todas as bestas da Terra, comendo a carne e bebendo o sangue uns dos outros. Os anjos ca�dos lhes ensinaram como fazer j�ias, armas de guerra, cosm�ticos, encantos, astrologia e outros segredos. O dil�vio seria a consequ�ncia das rela��es entre os anjos e os humanos.

"E n�o vi nem um c�u por cima, nem a terra firme por baixo, mas um lugar ca�tico e horr�vel. E vi sete estrelas ca�rem dos c�us, como grandes montanhas de fogo. Ent�o eu disse:"Que pecado cometeram, e em que conta foram lan�ados?" Ent�o disse Uriel, um dos anjos santos que estavam comigo, e o principal dentre eles:"Estes s�o os n�meros de estrelas do c�u que transgrediram a ordem do Senhor, e ficar�o acorrentados aqui por dez mil anos, at� que seus pecados sejam consumados".(Livro de Enoch).

Na tradi��o �rabe, os jinns ou djinns seriam uma ra�a de seres sobre-humanos que existiram antes da cria��o do homem. Foram criados do fogo. Algumas tradi��es os fazem sub-humanos, mas invariavelmente lhes s�o atribu�dos poderes m�gicos ilimitados. Os djinns sobrevivem at� os nossos dias como os g�nios das mil e uma noites, e no Cor�o eles surgem como duendes e fadas, sem as qualidades sinistras dos primeiros tempos. Ao tempo de Alhazred, os djinns seriam auxiliares na busca de conhecimento proibido, poder e riquezas.

No mito escandinavo, hoje bastante associado � hist�ria do Necronomicon, os deuses da Terra(aesires) e o g�nero humano(vanas) existiam contra um fundo de poderes mais velhos e hostis, representados por gigantes de gelo e fogo que moravam ao norte e ao sul do Grande Girnnunga(o Abismo) e tamb�m por Loki(fogo) e sua descend�ncia monstruosa. No Ragnarok, o crep�sculo dos deuses, esses seres se ergueriam mais uma vez num combate mortal. Por �ltimo, Siurtur e ou gigantes de fogo de Muspelheim completariam a destrui��o do mundo.

Essa � essencialmente a profecia de Alhazred sobre o retorno dos "antigos". � tamb�m a profecia de Aleister Crowley sobre o �e�n de H�rus. Os gigantes de fogo de Muspelheim n�o diferem dos djinns, que por sua vez se ligam aos anjos hebraicos. Como Surtur, Uriel carrega uma espada de fogo, e sua sombra tanto pode levar � destrui��o quanto a um renascimento. Assim, tanto os anjos e seus nephilins hebraicos quanto os "antigos" de Alhazred poderiam ser as duas faces de uma mesma moeda.
 

COMO OS ANTIGOS S�O INVOCADOS?

� ineg�vel que o sistema enochiano de Dee e Kelley estava diretamente inspirado em partes do Necronomicon, onde h� t�cnicas de Alhazred para a invoca��o dos "antigos". Embora o Necronomicon fosse basicamente um livro de hist�rias, haviam alguns detalhes pr�ticos e f�rmulas que funcionavam quase como um guia passo a passo para o iniciado entrar em contato com os seres sobre-humanos. Dee e Kelley tiveram que preencher muitas lacunas, sendo a 1inguagem enochiana um h�brido que re�ne, basicamente, um alfabeto de 21 letras, dezenove "chaves"(invoca��es) em linguagem enochiana, mais de l00 quadros m�gicos compostos de at� 240l caracteres al�m de grande quantidade de conhecimento oculto. � improv�vel que esse material lhes tivesse sido realmente passado pelo arcanjo Uriel. Bulwer Lytton, que estudou a tradu��o de Dee para o Necronomicon, afirma que ela foi transcrita diretamente do livro original, e se eram ensinamentos de Uriel, o mais prov�vel � que ele os tenha passado a Alhazred.

A liga��o entre a linguagem enochiana e o Livro de Enoch parece �bvia. Como o livro de Enoch s� foi redescoberto no s�culo XVII, Dee s� teria acesso � fragmentos do mesmo citados em outros manuscritos, como o Necronomicon de Alhazred, o que mais uma vez reafirma sua prov�vel fonte de origem. N�o h� nenhuma d�vida que Alhazred teve acesso ao livro de Enoch, que s� desapareceria no s�culo IX d.C., sendo at� ent�o relativamente conhecido. Outra pista para essa liga��o pode ser a chave dos trinta Aethyrs, a d�cima nona das invoca��es enochianas. Crowley chamava-a de " a maldi��o original da cria��o". � como se o pr�prio Deus a enunciasse, pondo fim � ra�a humana, � todas as criaturas e ao mundo que ele pr�prio criara. Isso � id�ntico ao G�nese 6.6, onde se l�: "E arrependeu-se o Senhor de ter posto o homem sobre a Terra, e o lamentou do fundo de seu cora��o". Esse trecho segue-se � descri��o dos pecados dos nephilins, que resulta na destrui��o do mundo pelo dil�vio. Crowley, um profundo conhecedor da B�blia, reconheceu nisso a chave dos trinta Aethyrs, estabelecendo uma liga��o.

Em resumo, a chave(ou port�o) para explorar os trinta Aethyrs � uma invoca��o no idioma enochiano, que segundo Dee seria o idioma dos anjos, e esta invoca��o seria a maldi��o que lan�ou os nephilins(ou "antigos") no Abismo. Isto se liga � pr�ticas antigas de magia negra e satanismo: qualquer meio usado pelo mago no passado para subordinar uma entidade pode ser usado tamb�m como um m�todo de controle. Tal f�rmula existe em todo grimoire medieval, em alguns casos de forma bastante expl�cita. A entrada no trig�simo Aethyr come�a com uma maldi��o divina porque esse � um dos meios de afirmar controle sobre as entidades que se invoca: o nephilin, o anjo ca�do, o grande "antigo". Isso demonstra, al�m de qualquer d�vida, que o sistema enochiano de Dee e Kelley era id�ntico, na pr�tica e em cad�ncia, ao sistema que Alhazred descreveu no Necronomicon.

Crowley sabia disso. Uma das partes mais importantes de seu trabalho m�gico(registrou-o em "A Vis�o e a Voz") era sua tentativa de penetrar nos trinta Aethyrs enochianos. Para isso, ele percorreu o deserto ao norte da �frica, em companhia do poeta Winner Neuberg. Ele j� havia tentado faz�-lo no M�xico, mas teve dificuldade ao chegar ao 28� Aethyr, e decidiu reproduzir a experi�ncia de Alhazred o mais proximamente poss�vel. Afinal, Alhazred levou a cabo seus estudos mais significativos enquanto vagava pela regi�o de Khali, uma �rea deserta e hostil ao sul da Ar�bia. O isolamento o ajudou a entrar em contato com os Aethyrs. Para um plagiador como Crowley, a imita��o � o primeiro passo para a admira��o, n�o � surpresa essa tentativa, al�m do que ele tamb�m pretendia repetir os feitos de Robert Burton, explorador, aventureiro, escritor, ling�ista e adepto de pr�ticas obscuras de magia sexual. Se obteve sucesso ou n�o, � desconhecido pois jamais admitiu suas inten��es quanto � viagem, atribuindo tudo ao acaso.

 

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