“A
revolução através do hardcore”
Por Ricardo Tibiu - Maio de 2004
Há ordem no caos e desordem por todos os lados. Música é entretenimento? Diversão? Desabafo? Que tal ser isso tudo e muito mais. A banda capixaba Dead Fish está há 13 anos colocando em prática essa máxima. Já trilharam seu caminho no underground nacional, tendo lançado quatro CDs e tocado em todos os cantos do Brasil. Inclusive acompanhando bandas internacionais como as norte-americanas Shelter, All e Pulley.
Agora chegou a hora de cruzar a fronteira entre o indie e o mainstream. Alguém aí pensou em “La Migra”? Quem sabe... O certo é que Rodrigo (voz), Alyand (baixo), Nô (bateria) e os guitarristas Philippe e Hóspede, estão dispostos a isso. Como aliada o grupo tem a Deckdisc, que se responsabilizou pelo lançamento de “Zero e Um”.
O disco foi gravado entre janeiro e fevereiro de 2004 no Estúdio Tambor (Rio de Janeiro) sob comando do guerreiro Rafael Ramos, que já capitaneou álbuns de artistas como Los Hermanos, Ultraje a Rigor e Pitty. A mixagem ficou a cargo de Ryan Greene, responsável por algumas obras “obrigatórias” do hardcore de NOFX e Sick Of It All, no Motor Studios, em São Francisco (Califórnia).
As 14 músicas são, literalmente, inéditas. Além de não regravarem nenhuma canção dos trabalhos anteriores, o Dead Fish nunca soou tão seguro como agora. Inaugurando a nova fase, “A Urgência”, brada, explicitamente, que de mortos os peixes não têm nada e que “há urgência em estar vivo”. Já a faixa que dá nome ao disco capricha nas melodias, tanto vocais, quanto das guitarras.
Se você acredita que tecnologia é sinônimo de progresso, o hardcore rasgado vai lhe dar uma nova visão. Se precisar de ajuda, o clipe - com direção de Eduardo Kurt - pode te ajudar a ter uma idéia. “Queda Livre” é um tapa com luva de pelica... e vai derrubar muita gente. “Bem-vindo ao Clube” tem o clima do Dead Fish ao vivo. E olha que a performance da banda é das mais explosivas. O baixo pulsa forte, a bateria martela com furor, as guitarras duelam entre si e Rodrigo se esgoela e macaqueia como poucos.
“Você” e “Re-aprender” têm pegada roqueira e refrãos marcantes, prontos pra cantar junto, já “Engarrafamento” tem a cara de São Paulo (por que será?), mas se pensa que Rodrigo irá falar de carros e ônibus, esqueça. Suas letras fogem do lugar comum que insiste em pairar sob as cabeças dos compositores do pop rock nacional.
Peso e velocidade marcam o verdadeiro hardcore? A verdade pode ser uma mentira, mas se o que busca é rapidez, sirva-se: “Senhor, Seu Troco” com 26 segundos de puro “dedo na cara” e coro agressivo, “Desencontros” com 49 segundos e “Siga” com pouco menos que dois minutos de questionamento. Afinal questionar é viver...
Enquanto Bush se diverte bombardeando o Afeganistão e Bin Laden provavelmente planeja a vingança, por aqui o Dead Fish faz seu contra-ataque. E a arma escolhida é o hardcore! Porque todo dia é dia de revolução!
"Hoje é o dia da
revolução, não há ninguém nas ruas."
Leonardo
Panço / DeckDisc - Março
de 2004
São com essas frases firmes e convictas que começa o novo álbum do
Dead Fish, Zero e Um.
Pode até ser que as ruas estejam vazias, mas há 13 anos que os shows dos
capixabas estão várias coisas, menos vazios. O Dead
Fish - leia-se Rodrigo (voz),
Nô (bateria), Alyand (baixo), Hóspede e
Philippe (guitarras, e que guitarras) - mostra em
Zero e Um para o Brasil inteiro o que vários milhares de fiéis seguidores dos
tempos do underground já sabem há muitos carnavais: que no punk-rock melódico,
no hardcore, no rock, nas letras inteligentes, não
tem pra ninguém.
Indo ao show da banda, você pode ver o cantor fazendo o "moon walk" de Michael Jackson ou cantando um trechinho de alguma música do Tim Maia. O quase intocável mundo fechado do punk rock se rendeu às boas idéias. Afinal, para que limites bobos e enclausuradores? A música não foi feita para isso.
A transição feita da
autoprodução dos últimos CDs, lançados pela própria
gravadora da banda, para esse novo disco fez muito bem ao som dos peixes. A
qualidade dos arranjos, principalmente das duas guitarras, ficou muito mais
inteligível, ouve-se tudo nos seus mínimos detalhes. Mesmo quando a banda desce
o braço sem dó nem piedade, como em "Senhor, Seu Troco" e "Desencontros",
hardcores sem firulas,
com menos de um minuto. O velho recado dado da maneira mais direta possível.
Certamente, contribuiu para a clareza e o peso do som a mixagem feita pelo mago
Ryan Greene (NoFX,
Sick of it All), no
Motor Studio em San
Francisco, Califórnia, sob direção do produtor Rafael Ramos.
Quem ouviu o CD ao vivo lançado em 2003 e conseguia sentir a emoção da platéia
tão palpável que quase podia ser cortada com uma faca, vai definitivamente
sentir o mesmo ao ouvir "A Urgência", parceria da banda com
Bil (cantor e baterista do Noção de Nada),
"Queda Livre", "Tão Iguais", "Bem-Vindo ao Clube", "Re-Aprender a Andar",
"Engarrafamento". Convicção hoje, dúvidas amanhã. Várias letras podem ser vistas
dessa maneira. Leia "Você" e descubra uma maneira muito peculiar de falar sobre
a ganância, sobre o dinheiro. As interpretações vão se alternando entre a
certeza e aquele olho em direção ao teto com as sobrancelhas em riste.
Já que não há limites, é possível imaginar as pessoas dançando de todas as
maneiras em "Sonhos Colonizados", como no meio de uma roda de
pogo, ou de olhos fechados, cantando o refrão de
"Por Não Ter o que Dizer". São as melodias dobradas da voz (com ajuda de
Alyand e Philippe) ou as
guitarras oitavadas que tornam isso possível? Se um dos versos desse disco diz
que "há urgência em estar vivo", entenda como queira, mas o que mais pode ser
dito?
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