Uma das coisas que faz de Bukowski um escritor inconfundível, é a sua
impiedosa sinceridade na maneira de assumir aquilo que qualquer um poderia ver,
mas que não tinha garra suficiente para assumir. Garra essa que ele tinha de
sobra, e que foi suficiente para conseguir destrinchar a América de maneira
nunca antes vista.
Sua genialidade está justamente na simplicidade em trazer de uma maneira tão
coloquial, de forma a que qualquer um possa ler seus romances. Uma simplicidade
necessária para que seus romances sejam suficientemente convincentes e dotados
de uma mordacidade verídica.
Algumas de suas obras foram adaptadas ou escritas para o cinema. Pelo menos duas
delas se encontram em locadoras por aí. "Crônica de um amor louco", já clássico
na literatura, foi a primeira adaptação de um romance seu para o cinema e ganhou
uma versão cinematográfica italiana em 1981. Dirigida por Marco Ferreti, foi
estrelado por Ornella Mutti e Ben Gazarra. Na época, poucos conheciam a obra de
Bukowski, e a curiosidade fez com que o filme virasse cult no Brasil.
Mas a sua obra mais conhecida em cinema é mesmo o argumento que escreveu
especialmente para virar filme: "Barfly - Condenados pelo vício" (por sinal,
subtítulo totalmente equivocado e completamente dispensável) Aliás, a própria
capa da fita na versão nacional (América Vídeo) parece querer mostrar ao
espectador um tom de melodrama degradante do tipo "um casal, destruído pelo
álcool..." Também não é bem assim. Aliás, não é nada disso...
Na certa, não tiveram senso para perceber o espírito bukowskiano, que consiste
em estar na pior e ainda assim conseguir um modo de se sentir bem, ou então, rir
da própria tragédia e pedir mais uma dose. Estrelado por Mickey Rourke e Faye
Dunaway em 1987(eles eram super astros nos anos 80, lembra?) nos papéis
respectivamente de Henry Chinaski, o Hank (evidente alter ego de Bukowski), e
Wanda Wilcox. "Barfly", porém, decepciona. Principalmente para aqueles que leram
"Hollywood", romance feito a partir da experiência de Bukowski ao escrever o
argumento para o filme. A versão de Barbet Schroeder (de posteriores sucessos
como "O reverso da fortuna" e "Mulher solteira procura") é superficial, mesmo
tendo o argumento de Bukowski nas mãos. Havia muita coisa que deixou de ser
aproveitada. Mas o filme também tem seus bons momentos, principalmente na
atuação de Rourke quando profere de forma convincente as tiradas pessoais de
Bukowski, verdadeiras divagações, pregadas como espécie de "lições de vida".
Provocador, Chinaski tem sempre tem algo a dizer, mesmo que não seja lá muito
agradável de se ouvir.
Já o seu lado de escritor foi pouco explorado, e feito de maneira muito ligeira.
Enfim, "Barfly" merece ser assistido, mas tem cara de SuperCine. Uma curiosidade
é a presença do próprio Buk, fazendo uma ponta de luxo relâmpago como um dos
velhos bebuns sentados no bar onde Hank e Wanda se conhecem. Com o filme já
lançado, Bukowski, declarou ter achado o filme apenas "razoável". Até gostou da
atuação de Mickey Rourke como Henry. Mas o mesmo não pôde se dizer da atuação de
Faye Dunaway como Wanda.
Assim como o próprio Buk, seus personagens também são uns bêbados, excluídos
pelos caminhos que tomaram suas próprias vidas, e tidos como verdadeiros
perdedores para a sociedade. Não é nada difícil encontrar muitos deles vagando
por aí. Figuras que não são exatamente boas ou ruins, mas que apenas procuram
alguma maneira de tentar se dar bem.