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Sabiás
Não sou dos que entendem de passarinho. Nem posso dizer que sinto "por nossa irmãs, as aves", algum afeto franciscanamente especial. Mas residindo em uma cidade como Brasília, você começa meio sem perceber a reparar neles e acaba tendo algum assunto conversar, até mesmo com um passarinheiro de toda vida.
A capital do Brasil é conhecida, todos sabem, pelas enormes extensões de áreas verdes, pelo número de árvores por habitante, que suplanta em muito os índices usuais, etc. O que pouca gente sabe é que, anos atrás, alguém iniciou o plantio de árvores utilizando espécies frutíferas; essa prática se consolidou com o tempo e hoje, misturadas com sibipirunas, paus-ferro, paineiras, ipês, e as nativas do cerrado, convivem jaqueiras, amoreiras, mangueiras, abacateiros, etc. etc. Assim, é muito comum nesta época do ano - primavera, calor e chuvas, você está transitando por uma autopista e vê, no canteiro central ou lateral, algumas pessoas paradas embaixo de uma árvore, catando alguma coisa em seus galhos. São transeuntes que repararam nas frutas, pararam e estão se deliciando.
Ora, onde tem fruta tem passarinho. Assim, muito além dessas bobagens de pardais e pombos, temos sanhaços, bem-te-vis, sabiás, beija-flores, joões de barro, além da fauna da região, que é imensa. Por isso, não só as pessoas que você vê apanhando as frutas, também os passarinhos fazem a festa. Aí então você pode observá-los com vagar e prazer: voam pousam, tornam a voar, pipilam, trinam, cantam, brigam, andam pelo chão aos pulinhos, como fazem os joões, ou simplesmente deixam-se estar ali, como as solenes graúnas, ou, ainda, vigiam os horizontes dos mais altos galhos, como os bem-te-vis, triste-vidas e seu melancólico canto.
Mas o que eu queria mesmo falar era a respeito de um pássaro que, mesmo sem saber, acabou ficando meu amigo: o sabiá da buganvília. O escritório onde escrevo fica na frente da casa, logo após o jardim, dando para a rua. Nesta, o vizinho da casa ao lado plantou uma dessas árvores, que hoje é um frondoso e respeitável exemplar. Muito grande mesmo, enorme. E é lá que o pássaro tem sua casa, bem protegida, tanto que apesar de exaustivas observações, até agora não consegui descobri-la. Mas em compensação, escuto sempre o canto algo nostálgico e melancólico de seu morador. E nessas tardes de chuvas primaveris, com o céu quase sempre carregado, ouvi-lo cantar ao entardecer, após um aguaceiro daqueles e tão somente uma débil promessa de sol filtrando-se entre as nuvens, é uma experiência única. O seu trinar, repetindo a longa e pausada frase musical, o ritmo "cadenza", isso tudo é muito agradável e, ao mesmo tempo, transmite uma sensação, um não-sei-o-que (talvez um molejo de amor machucado, como disse um dia o poeta) que nos deixa felizes e algo pensativos...
Ouvindo o meu companheiro entoar seu canto, lembro-me de um outro sabiá, o da crônica: com esse, acostumei-me desde pequeno ainda, nas revistas semanais que compravam lá em casa, nos jornais que se esmeravam em ter os melhores dos melhores cronistas. Seu canto semanal era também pausado, não digo melancólico, mas dotado de um humor às vezes severo, se é que vocês me entendem: naquele pequeno espaço, naquelas limitadas linhas impressas, tantas vezes meio espremidas entre um reclame de supermercado e um balanço de uma grande empresa, naquele tema ligeiro havia um conteúdo que, como o canto do meu sabiá, impregnava os matizes do Sol desmaiado, preenchia espaços no ar úmido do entardecer. E a nostalgia que me invade agora enquanto escrevo, me acompanhará para sempre, não como um sentimento ruim, mas como uma lembrança de dois momentos, tão distantes no tempo, mas tão únicos em sensações
Brasília, 6-7 de dezembro de 1942
Paulo da Mata-Machado Jr.
57 anos, Mora em Brasília (pela segunda vez) desde 1980. Teve dois casamentos, cinco filhos, um neto, um livro de poemas, "Dies Irae" publicado em 1983. Tem outro já pronto, aguardando patrocínio. De vez em quando, faz alguma coisa em prosa: crônicas, artigos de jornal, etc. Estes últimos, quando publica, saem no "Estado de Minas". Está escrevendo uma história que no fundo é a dele e dos seus, passada nos últimos cento e poucos anos, na velha MG.Ele conta que "Uma das ocasiões em que achei mais agradável escrever foi quando fiz essa crônica. Estava aqui no meu escritório, na santa paz do mundo, ouvindo uma música (acho que Mozart), tomando um vinho e apreciando o fim da tarde. Aí então um sabiá começou, no flamboyant bem próximo da janela, aquele seu canto melancólico e absorvente. Então fui escrevendo, escrevendo... Espero que vocês apreciem, tanto quanto eu apreciei escrever."
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