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Vem pra mim... vem

A brisa do dia outonal bate em mim.....O verde ainda recente das chuvas me choca, me deslumbra. Lá embaixo o rio, o velho rio Pardo misterioso da minha infância, mistério dos olhos da minha avó, ele e o Sapucaí, as fronteiras do seu mundo agora partilhado pelos seus olhos brilhantes, vivos e os meus, águas verdes, lodacentas.... o rio lá embaixo.

As águas do rio Pardo sempre foram barrentas. Elas vão tranqüilas, pequenas ondas, espraiam-se no vale fértil das terras vermelhas nesta época pós-chuvas. Inútil ver o que há no fundo, se é fundo, se há fundo... a água pesada e parda esconde seus segredos, seu sigilo. Mas fascina. A ânsia é gritar, agora, reproduzir nessa tarde amarela o espanto da figura da tela de Munch.

Pego no porta-malas duas grossas pastas de capa negra e de cada plástico vou tirando folhas que solto no ar do alto da ponte. Elas esvoaçam, planam, caem leves na água. Bóiam por um momento e afundam. Com elas, vão para o insondável do rio as palavras e o poder de vida delas, sua magia. Não jogo na ordem em que estão organizadas, cronológica, mas na dimensão do que foi sentido, no que houve de denso e de oco. No papel, entretanto, todas têm o mesmo peso.

Caem na chuva branca dos papéis as hipérboles com o meu morrer de saudades, os vocativos com suas gradações de minha querida, meu amor, paixão da minha vida, amor da minha vida. Tocarão o profundo do meu rio? Tra-lo–ão para um pouco mais perto, para o visível da razão? Ou sedimentarão o meu Pardo? Camadas e camadas de sedimento.

Puxo a carta com o soneto de Neruda. Atada a ela vem a perplexidade de lê-lo lá e descobri-lo. O soneto, a noite e o pardo..."Noturna travessia, brasa negra do sonho/ interceptando o fio das uvas terrestres/ que sombras e pedras frias sem cessar arrastasse". O desejo interceptado? Faço uma bolinha, amasso bem para que caia pesadamente e junto atiro outra bolinha, amassadas as linhas que falavam das sombras das laranjeiras e que despertaram em mim as platônicas: "Ah, esse tempo ideal que amadurece laranjas/ e as torna doces, sumarentas/ e desperta mundos perfeitos, longínquos, mas infinitos."

O rio traga...

Num frenesi, vou espalhando papéis, um festival deles e o rio, ali, coalha-se de branco que vai se desmanchando, desmanchando...No ímpeto, arranco com a última mensagem, o plástico já grudado e lanço ao rio. Impermeabilizada, a carta flutua e vai navegando, nau sem rumo no ritmo da correnteza mansa... Vai brilhando, refletindo o sol dourado desse entardecer, exibindo ao céu as palavras "vem pra mim....vem".

Maria do Carmo Fiori Zanetti
41 anos. Prefessora de português em Ribeirão Preto, S.Paulo.
Correio: [email protected]

 

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