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Durex
É um tremendo engano pensar que para os brasileiros que estão morando em Portugal tudo é mais fácil, por falarem a mesma língua. Ajuda bastante, mas existe uma variedade tão grande de nomes e palavras, que um simples artigo de papelaria pode não ser nada daquilo imaginado.
Foi o que descobri num sábado à tarde em Lisboa. Ao embrulhar um presente de aniversário para meu amigo Ricardo, percebi que não havia Durex para fechar o pacote. Revirei as gavetas dos armários, mas não encontrei nenhum rolo. Pedi a minha filha, e ela me disse que tinha utilizado o seu no trabalho escolar. Como a festa seria à noite e ainda havia muito tempo de folga, fui tranqüilamente comprar um novo Durex na papelaria do centro comercial, perto da minha morada.
A papelaria era pequena como um ovo e estava lotada. Fiquei surpreso, pois lá vendia-se de tudo desde vasos de plantas, bolsas, guarda-chuvas, revistas, postais, livros e até brinquedos que, pendurados nas paredes, tornavam o espaço ainda menor. Nesse ambiente, fiquei procurando o Durex nas prateleiras, como se procura uma agulha no palheiro, mas não encontrei nada parecido. Cansado da busca em vão, solicitei o Durex à balconista.
- Só na farmácia – cabisbaixa, respondeu-me seriamente.
Achando aquilo muito estranho, pensei indagar mas, como havia outros clientes a serem atendidos, e ela depois da resposta não me deu mais atenção, saí de lá pensando:
- Por quê venderiam Durex na farmácia ?
Saí da papelaria e logo entrei na farmácia, que ficava no mesmo corredor. O farmacêutico, prestativo, logo me atendeu perguntando:
- O que deseja ?
- Durex - respondi sem demora.
Abriu a gaveta, pegou uma caixa e colocou-a sobre o balcão. Quando tirou a mão da embalagem, pude ver que era uma caixa de preservativos. Surpreso, observei: - Mas isso é camisinha!
- Desconheço o que o senhor está falando, aqui Durex é a marca de um preservativo. Se o senhor pedisse um preservativo, aí sim, mostraria outras marcas: Harmonia, Olla, Jontex... Mas, como pediu Durex, é essa aqui: estás a ver o nome Durex na embalagem ?
- Estou! – respondi admirado. - O que procuro não é nada disso. Fiz um pacote de presente e preciso fechá-lo. No Brasil fazemos isso com Durex, aqui não sei como se chama.
- Ah entendi! O que o senhor está querendo é uma fita adesiva. Vai encontra-la no mercado, nas gôndolas de papelaria - disse-me contente.
Enquanto isso, o outro farmacêutico atendia uma senhora. Após trocarem algumas palavras, entraram numa sala e fecharam a porta atrás do balcão onde conversávamos. Com isso, pude ver uma faixa com letras pretas: Dá-se pica no Cu . Olhando para o farmacêutico, indiquei a frase e perguntei:
- Como vocês dizem isto aos clientes da farmácia?
Ele, já tendo percebido que eu era brasileiro, respondeu:
- Isso na sua terra é palavrão, aqui falamos naturalmente. Quando lemos na receita que o remédio é uma pica perguntamos: "Vai tomar no cu?"
Essa foi boa. Estas palavras em Portugal significam tão somente uma aplicação de injeção nas nádegas. Por isso, não é ofensa nenhuma mandar português tomar no cu. A diversidade da nossa língua portuguesa faz com que esses vocábulos, doutro lado do Atlântico, sejam obscenos e motivo de muitas desavenças.
No supermercado encontrei o Durex, ou melhor, a fita adesiva que tanto procurava.
Agora, um aviso importante aos brasileiros que chegam afoitos à terra de Cabral, querendo trabalhar e fazer um extra para reforço mensal. Fazer um " bico" aqui quer dizer o mesmo que a Monica Lewinsky fez para o Bill Clinton e deu aquela confusão.
Cuidado com a língua!! Estou a avisar !!
José Luiz Moreira
40 anos. Brasileiro, mora em Lisboa a dois anos e foi convidado a trabalhar na Portugal Telecom. Desde que chegou escreve crônicas para os parentes e amigos contando a sua aventura na terra de Cabral.
Correio: [email protected]
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