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Amizade insólita

        – Vem cá, quanto você quer para não me assaltar mais?
        – Tá tentando me subornar?
        – Não, claro que não. Só que estou ficando cada vez mais nervoso quando se aproxima a data do pagamento. Acho que tudo isso está prejudicando minha saúde...
        – Escuta aqui, ô meu chapa, eu já fiz compromisso com a grana que tomo de ti todos os meses. Comprei uma geladeira a prestação...
        – Tudo bem, tudo bem. Compreendo... Mas espera aí. E se eu assumir as prestações da geladeira? Assim você não perde tempo, pode assaltar outra pessoa...
        – Num sei não. Tenho medo. Num sou ganancioso. Num quero assaltar mais gente do que já tenho combinado. Sabe como é: já te conheço, já fiz amizade...
        – Tá bem, tá bem, eu entendo. Fico feliz com a sua consideração. Mas sabe o que me adoece? É esse troço apontado pra mim. Isso pode causar um acidente...
        – Ah, a arma? Sabe por que eu uso? Porque fica sem graça assaltar sem ela. As pessoas não acreditam que é assalto de verdade.
        – É, realmente a arma cria um clima de coisa séria, concordo. Mas tenho medo de morrer...
        – Que nada. Isso num mata ninguém não. É de plástico.
        – De plástico?! Arma de brinquedo?!
        – É. Segura aí pra ocê vê...
        O outro examina a arma, incrédulo. Aponta em direção ao assaltante, esboça um sorriso de felicidade.
        – Incrível! Quer dizer que esses meses todos você me assaltou com isso?
        – Hum rum. Só tou lhe mostrando porque lhe quero bem.
        – Agora estou aliviado. Puxa! De plástico... E agora que já sei de tudo, que acontece se eu não lhe der mais o dinheiro?
        – Aí eu uso esta aqui, que é de verdade!
        E sacou uma pistola preta, brilhosa, enorme.
        – Meu Deus! Você tem arma de reserva. Bem pensado. Ainda bem que eu estou brincando sobre não lhe dar mais o dinheiro...
        – Ainda bem.
        E guarda a pistola. O assaltado entrega-lhe o dinheiro e devolve-lhe a arma de plástico.
        – Pode parecer estranho. Me preocupo com ocê. Essas ruas  tão cheia de bandidos. Podem até assaltar ocê na volta pra casa.
        – Se podem! Está aqui o exemplo. Ainda bem que você é compreensivo e não me leva todo o dinheiro.
        – Sabe como é. Num posso exagerar. Num quero assaltar ocê uma vez só. Quando acabar as prestações da geladeira, tou pensando em liberar ocê.
        – São quantos meses?
        – Pra num ficar muito alto o valor, dividi em doze vezes.
        – Está bem. Conte comigo. Agora tenho que ir. Ainda vou passar no supermercado...
        – Espere. Num quero mais que ande desprotegido. Tome. Use isto pra se defender.
         E entrega-lhe a pistola de verdade.

João Batista Gomes
Tem dois livros de contos na linha do humor. É professor de Lingua Portuguesa e Literatura Brasileira há mais de vinte anos, em Manaus. Av. Getúlio Vargas, 671 - Centro - Manaus - AM - CEP 69.020-010 Fone: (92) 633-4867, Fax: (92) 233-8125.
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