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Detalhes
Digo para meus amigos e colegas que a vida é decidida em detalhes. Decisões que tomamos ao longo da vida influenciam o resto de nossa existência. Muitas vezes erramos. Às vezes, acertamos. Os acertos sobressaem. Como é bom poder falar para mim mesmo: "é isso aí cara!" Quantas vezes percebi eu no espelho, falando comigo. Xingando, às vezes elogiando. Ou então, num acesso de loucura total, andar pelo centro velho de São Paulo conversando comigo mesmo. Não é raro ver algumas pessoas rindo. Devem pensar que sou mais um estressado desta metrópole.
No fim de 1996, recebi uma proposta de emprego atraente. Uma multinacional. Meu sonho era trabalhar numa empresa assim. Deixei de lado um bom emprego onde tinha status, melhor salário e mordomias para ser estagiário. Resolvi arriscar. Difícil decisão. Meu pai ajudou. Se não fosse ele, não teria deixado a empresa de publicidade. Queria "crescer" na multinacional, fazer carreira. Alguns anos galgando funções e pronto. Status e mordomias novamente. Parecia simples. Em seis meses, pulei um degrau importante. Depois de meses com salário baixo, sem benefícios, pagando faculdade, fui efetivado noutro departamento. Alegria. Estou no caminho certo! Passados dois anos e meio, entre intrigas e injustiças, estou escrevendo sobre minha vida. Vieram crises financeiras, algumas nem tão crises assim, e meu sonho de carreira dentro da multinacional se foi. Desilusão.
No decorrer do ano de 1999, quando a esperança de melhora não se concretizava, mais uma decisão: ir embora. Nada dando certo. País com corruptos para todos os lados, stress e sem vínculos familiares e amorosos. Desiludido, procurava o sentido para a vida. Ir para o outro lado do mundo foi a solução. Começo os preparativos, busca de documentos, contatos e torcida. Para minha surpresa, tudo caminha certo para a viagem. Iria largar tudo aqui. Vender o carro, deixar emprego e família e partir com mochila nas costas. Sonho de muitos adolescentes, inclusive eu.
Tudo planejado e acertado, a garota surge. Paquera, colega de trabalho e 410km de distância. Conversas eletrônicas. Nada mais que isso. Nos meses de setembro e outubro, os papos vão ficando mais íntimos. Seja pela Internet ou pelo telefone. Numa terça-feira, 26 de outubro a grande revelação: estamos loucos um pelo outro. Distantes. Sem se ver... sem se tocar. Disse que minha vida era repleta de aventura, drama, terror e suspense. Ela retruca: e romance? Combinamos um encontro no final de semana. Corajosa e acreditando, disse que viria em quatro dias. Veio para São Paulo. Mais uma aventura, pensei. O que fazer quando a encontrar? Vou abraçá-la? Vou beijá-la? Afinal nos conhecemos virtualmente, apesar de já termos nos encontrado em outra ocasião bem antes de qualquer sentimento surgir. Combinamos o encontro no mais paulista dos lugares, o shopping center. Chegando ao local, estacionando o carro, frio na barriga. Corredores e indo ao ponto de encontro. Friozinho aumentando. Naquele momento, pode-se dizer covarde, pensei em desistir: vou embora! Encarei.
A vejo. Linda. Esplendorosa. Sentada frente à um restaurante japonês olhando para todos os lados. Quiçá me procurando. Vou ao seu encontro. Cumprimento a amiga acompanhante. Dou um beijo, meio sem jeito. Que situação. Ficamos juntos aquele feriado. Todos os dias. Exposição de quadros, passeio pela esquina da Ipiranga com a Av. São João, café da manhã, vinho ao pé da Serra da Cantareira e chope no Bar do Léo, considerado o melhor do Brasil. Cada dia daquele final de semana prolongado, era especial. Estava acontecendo alguma coisa. Incomum.
Ela foi embora e me deixou confuso. Será aventura ou algo mais? Semana seguinte, fui ao encontro dela. Rio de Janeiro. Um dia antes do embarque, recebo a confirmação de inscrição na Universidade de Melbourne, Austrália. Meu "passaporte" para a viagem. Prometi que iria pensar na decisão entre Austrália e Rio somente na segunda-feira. Sábado, olhando para ela, decidi. Achei a garota. Disse a ela que estava adiando a viagem e dando uma chance a nós dois. Um amigo de faculdade comentou com muita propriedade que eu estava precisando de um choque na minha vida.
Minha vida deu uma reviravolta. Não vou mais à Austrália. Quero ficar com a minha garota. Detalhes que tomamos na nossa vida, mudam o curso dela. A série americana "Anos Incríveis", contando a vida de criança até adulto de um jovem nos anos 60, termina com a mensagem que não se deve planejar. Nada acontece como planejado. Detalhes aparecem. Decisões são tomadas. A minha já está. É você Cris.
SP, 02/12/99
Fredy Romano
26 anos. Solteiro, economista e vive em São Paulo.
Correio: [email protected]
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