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O casal

Ela, secretária trilingüe do Ministério da Fazenda. Gosta de tudo nos trinques. Apesar da jornada diária no trabalho - nem tanto por se tratar de órgão público, chega sempre mais cedo em casa para ajeitar o que a empregada deixou de fazer e esperar o marido. Cozinha muito bem. Romântica. Lembra de datas e compromissos sociais. A mulher perfeita.

Ele, corretor de seguros. Gosta de bater uma bolinha e beber cerveja com os amigos três vezes por semana. Não liga pra nada. Memória é uma palavra fora de seu vocabulário. Não vê detalhes. Sai do trabalho e quando não vai encher a cara com os colegas, chega em casa e derrama-se no sofá da sala. O homem imperfeito.

Estavam casados à cinco anos. Ela descontente. Queria mudar. Quis fazer algo diferente naquela noite. Nenhuma data especial, só faze-lo ficar especial. Logo pela manhã, acorda atrasada e corre para se arrumar. O marido, roncando feito um motor de Harley-Davidson. Estava morto. Chegara às duas da manhã depois do joguinho.

Ela tenta avisá-lo de algo:

- Querido, hoje o dia vai ser especial, chega mais cedo...

- Hurrrmmmrmrmrmr... hurrrmrmrm..., responde ele numa língua só conhecida pelos primatas.

- Precisamos mudar isso!

Não adiantou. Virou-se bocejando e roncando o traseiro. Vou mudar, pensa ela. Deixa ordens para a empregada lustrar o apartamento. O quer mais limpo que o Laboratório de Pesquisa Avançada da IBM. Planeja uma noite memorável. Fazer uma super surpresa e depois jantar no melhor restaurante. Faz a reserva. O dia vai passando e a ansiedade vai tomando conta. Sem precisar dar satisfações, vai embora às 15:00h.

Ele está no escritório batendo papo sobre a decisão daquela noite. Palmeiras e Corinthians vão decidir uma vaga nas finais da Libertadores da América. Corinthiano, vai apostando com quem adentra na salinha do café. Combina em ir assistir o jogo no bar ao lado do escritório com os colegas.

Na hora do almoço, ela tenta lembrá-lo da noite:

- Querido, você ouviu o que eu disse pela manhã?

- Pela manhã? - ficou cinco segundos mudo, não vai me dizer que seu irmão vai assistir ao jogo em casa...

- Nada disso. Você não me ouviu? Avisei que hoje é especial.

- Especial por que? - pergunta sem entender nada.

- Porque quero que seja. Chega mais cedo hoje. Você vai ter uma surpresa e não vai se arrepender!

Diante daquelas palavras ditas com a voz macia, não teve como retrucar. No dia do jogo mais importante do seu time. Teve que desmarcar o bar com os colegas alegando que o cunhado iria assistir ao jogo com ele. Hora de ir embora. No carro vai ouvindo as preleções do clássico. Nessa altura, ela já tinha inspecionado a casa, colocado uma garrafa de vinho na geladeira e se arruma no quarto.

Ele chega correndo e sem lembrar de absolutamente nada, liga a TV, vai até a cozinha, pega uma cerveja e azeitonas e vai para o sala. O jogo iria começar dali duas horas e ele, se concentrando. Tira os sapatos e os joga para a ponta direita. As meias vão para a esquerda. Os pés, em cima da mesa de centro. A cerveja e os caroços da azeitona manchando a reluzente mesinha lateral.

Essa é a cena que ela presencia quando desce as escadas para encontrá-lo. Toda perfumada, com um vestido vermelho só usado para festas e lingerie preta. Ela, um clamor. Ele, jogando mais um caroço de azeitona na mesa.

- Querido, não disse que hoje era especial?

- Nossa!

- Eu aqui, toda arrumada e você nem ligando... tento preparar algo especial só para nós dois e você ai, nesse estado.

Ela fica toda emburrada. Não é pra menos. Ele, vendo que se não tomar uma atitude rápida, pode complicar-se, levanta e faz um carinho. Ficam mais ou menos numa boa. Para consertar a mancada, ele sugere que vão ao melhor motel de São Paulo passar a noite. La tem TV e posso dar uma olhadinha no jogo de vez em quando, pensa ele. Ela aceita. Ele calça as mesmas meias, os mesmos sapatos e vão.

Chegando ao motel, ele tem que tomar banho e dar um jeito na barba. Ela fica no quarto. Da uma arrumada na cama, acomoda os travesseiros de forma aconchegante. Liga o rádio em volume baixo na faixa mais romântica do horário. Penteia o cabelo. Últimos retoques: batom, lápis, blush e sombra. Ajeita a lingerie nos mínimos detalhes. Um perfuminho aqui, outro ali e espera deitada numa posição sensual.

Ele, depois do banho, faz a barba e se enxuga. Percebe uma toquinha de plástico, usada para não molhar os cabelos, em cima do gabinete. Tem uma idéia: "já que ela quer mudar, vou entrar no espírito!" Coloca a toquinha e a gravata que estava na sua camisa. Peladão de toquinha e gravata. A água quente fez o banheiro ficar com muito vapor. Ele abre a porta de vidro, sai daquela fumaça com os braços levantados e grita:

- É hoje!

Ela levanta e da uma travesseirada nele. Sai do motel e pede o divorcio por telegrama no dia seguinte.

SP, 11/06/99

Fredy Romano
26 anos. Solteiro, economista e vive em São Paulo.
Correio: [email protected]

 

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