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Zé Ninguém

A crise. Estamos passando por uma crise. Mas afinal, o que é a crise? A crise acontece quando alguma coisa não está dando certo. Todos perguntam: o que não está dando certo? Na minha opinião, tudo.

Para qualquer pessoa - amigo, colega, amante ou inimigo - que pergunto como andam as coisas, responde que não estão muito bem. O nível de desemprego que assola o pais, é alarmante. Qualquer pessoa conhece outra que foi "descartada" da empresa por não fazer mais parte dos planos da companhia. E não é força de expressão.

Sabemos da proposta do atual governo. Sabemos que o grande trunfo de FHC foi a derrubada da inflação. E o resto? Muitos economistas acreditam que a política de FHC está errada... deveria desvalorizar o Real para as empresas respirarem e voltarem a investir criando emprego. Outros não. A questão é que o governo não pode, ao mesmo tempo, perseguir uma política de estabilidade da moeda, e outra de pleno emprego. Nas condições atuais, ou faz uma ou faz outra. As duas políticas tem um custo social.

Qual o pior custo social? O do desemprego ou o da instabilidade? Como economista recém formado, a opção pelo desemprego parece ser mais acertada. O custo social embutido na política de instabilidade seriam maiores, porque o imposto inflacionário privilegia quem pode lucrar com operações financeiras e nada garante a contratação de mão-de-obra. Um dos motivos do desemprego é a mudança do padrão de produção. Hoje com automação, novos métodos de gestão etc., faz com que se produza mais, melhor e mais barato com menos concurso humano.

A explicação é de fácil entendimento para um economista ou diplomado. E para para alguém, que foi dispensado de sua empresa com um muito obrigado (as vezes nem isso) e tem obrigações e responsabilidades assumidas? Onde está o caráter humano? Para esse dispensado não é fácil entender. Eu, recém formado e recém dispensado não sei o que dizer. Ainda mais quando leio nos jornais noticias de privilégios pelos mesmos governantes da atual política econômica. Por exemplo dois casos:

O deputado Carlos Apolinário entende que é licito o uso de material e serviços do gabinete, como a gráfica do Senado, para fins eleitorais, desde que seja obedecido um limite. Ora, esse limite, seja ele qual for, não é ético nem moral, mesmo porque é fixado pelo próprio Congresso.

Na semana passada, o deputado Arnaldo Madeira, líder do governo na câmara, contou a um correligionário, porque só naquela vez, votaria contra o governo na medida provisória sobre a contribuição dos servidores federais. "Meu pai pediu." Não foi problema de um, muitos parlamentares tem parentes aposentados pelo setor publico e resolveram atende-los.

Isso me faz lembrar de uma musica composta e gravada no inicio dos anos 90 pelo grupo de rock nacional Biquíni Cavadão e é super atual:

"...
Quem foi que disse que Deus é brasileiro.
Que existe Ordem e Progresso,
Enquanto a zona corre solta no Congresso.
...
Eu não sou ministro, eu não sou magnata,
Eu sou do POVO, eu sou um Zé Ninguém.
Aqui em baixo as leis são diferentes.
..."

SP, 07/12/98

Fredy Romano
26 anos. Solteiro, economista e vive em São Paulo.
Correio: [email protected]

 

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