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Dinheiro não é problema

Apesar de tudo, Paulo Mattos Filho se lembra bem do passado. Quando nasceu, seus pais já eram ricos. Foi criado com muitas vantagens: estudou em escolas caras, fez natação, tênis, judô e esgrima. Era muito paparicado pelos pais. Viajava para a Europa nas férias de Julho e passava a virada do ano nos Estados Unidos. Como foi boa a sua infância!

Na adolescência, fez muitos amigos. Dava a todos presentes caríssimos, que eram o sustentáculo das amizades. Gostou sempre de exibir suas qualidades, nunca viu nenhum problema nisso. Era muito arrogante. Boa parte das garotas do colégio era apaixonada por ele. Chegou, por um tempo, a namorar, simultaneamente, duas meninas, que apesar de relutantes, aceitaram a idéia. Elas não tinham do que reclamar, ganhavam carinho e, principalmente, roupas caras, perfumes de primeira categoria e outras coisas do gênero.

Casou-se aos 20 anos, com uma bela e rica mulher. Tornou-se administrador de empresas e comprou muitas terras. Em poucos anos, já era um representante da elite empresarial, além de ser latifundiário. Tinha muito dinheiro, mas deixava a riqueza dominá-lo. Chegara ao ponto de economizar gastos, cortar despesas, não obstante a fortuna que possuía. Paulo tinha um grande temor: a reforma agrária. Por que tirar dele suas terras? Lutara tanto para comprá-las. Achava que as pessoas eram pobres por incompetência. Se ele conseguiu passar de rico para multimilionário, por que esses miseráveis não atingiam, sequer, a classe média? Na verdade, ele sabia que para quem tem dinheiro é muito mais fácil enricar. Tentava se convencer de que o certo era haver ricos e pobres. Do comunismo ele não tinha medo. Sabia muitas maneiras de impedir que o povo tivesse aquelas idéias absurdas. Idéias como a igualdade social e trabalho justo. A alienação do povo era fundamental, pois dificultava as revoltas e ainda lhe trazia mais lucros, através da mais-valia e do consumismo. Cuba era, para ele, o exemplo de que comunismo era dividir pobreza. Não analisava pelo lado do bloqueio econômico, que impedia qualquer possibilidade de enriquecimento. Como melhorar a qualidade de vida assim?

Tempos depois, vendeu suas terras improdutivas e passou a se dedicar apenas à empresa. No início, ela prosperou. O problema começou, quando fez sociedade com uma mulher oportunista, que desviaria dinheiro da empresa, sem que Paulo soubesse. Ela o leva à falência, em questão de meses. Ele pede ajuda aos amigos, que dizem que não têm condições de contribuir. Vai à procura de outro emprego, mas nem mesmo os que ele recusaria estão disponíveis. Sua mulher pede a separação e passa a trabalhar como modelo. Ele se recusa a mendigar e tenta o suicídio, mas a polícia consegue impedi-lo. Atualmente, está num hospício, mas sabe que não está louco. Costuma ficar recordando aquilo que ocorreu em sua vida, pensando em como ela poderia ter sido diferente.

Fortaleza, 26 de setembro de 1999.

André Marques Lima
20 anos. Aluno de Computação da UNICAMP, amante da capoeira e gosta de jogar RPG.
Correio: [email protected]

 

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