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Ideologia

Washington Bezerra dos Santos era seu nome e, ao mesmo tempo, sua maior vergonha. Desde criança, todos o chamavam de Guga. Ninguém mais se lembrava da origem do apelido, mas quando alguém lhe perguntava seu nome:

- Não tenho nome, só sobrenome. O pessoal me chama de Guga.

Seu nome foi homenagem a George Washington, presidente dos Estados Unidos. Estavam aí embutidos dois motivos para que ele não gostasse de seu nome. Washington é, na verdade, um sobrenome e, o que era pior: seu nome era oriundo da ideologia americana presente em sua sociedade. Percebeu isso ainda adolescente, daí a razão de usar o pseudônimo como se fosse nome oficial.

À medida que o tempo passava, Washington detestava mais os Estados Unidos. Considerava-os imperialistas, por serem capazes de ter influências políticas, econômicas, ideológicas e até culturais sobre seu país. Achava que os americanos eram, em sua maioria, alienados. Não comia nas "fastfoods" americanas, parou até de beber refrigerante de certa marca. Ia ao cinema, mesmo para assistir aos filmes de Hollywood, mas sempre fazendo críticas. Percebia o mal das multinacionais. O "american way of life", ou "estilo de vida americano", era, para ele, motivo de náuseas. Sempre ridicularizava os graus Fahrenheit, as polegadas, as libras, tudo o que julgasse estupidez ou idiotice norte-americana. Alguns o consideravam extremista, outros o admiravam, mas a maioria respeitava. Passou um tempo na Austrália, fazendo intercâmbio, onde aprendeu a língua inglesa, que julgava, apesar de tudo, importante para a vida profissional. Assim, foi vivendo até os vinte e um anos.

Foi quando conseguiu trocar, legalmente, de nome. Adotou o nome de Gustavo e, finalmente, Gustavo Bezerra do Santos tinha um nome verdadeiro. Formou-se em Direito, dois anos mais tarde. Dr. Gustavo se casou com Sharon, uma gaúcha que conhecera em São Paulo. Têm um filho, chamado José. Guga até que não mudou muito, apesar de estar mais maduro, reconhecer alguns exageros, respeitar mais os cidadãos estadunidenses. Não que tenha perdido toda a sua "americanofobia", continua firme, criticando os ianques e sua ideologia, que passam, exaustivamente, para o resto do mundo. Gustavo vai levando a vida numa boa, aliás, como ele talvez dissesse, numa nice.

Fortaleza, 21 de Julho de 1999.

André Marques Lima
20 anos. Aluno de Computação da UNICAMP, amante da capoeira e gosta de jogar RPG.
Correio: [email protected]

 

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