Breve e humilde resenha liter�ria
Considerando que o t�tulo deste e-mail j� deve ter espantado metade dos meus poss�veis leitores, desde j� um grande abra�o aos remanescentes, acompanhado do meu feliz s�bado! Descanse nele, relaxe nos bra�os de Deus, pare para sentir o Seu abra�o.

Sabe, essa semana a minha edi��o chiqu�rrima, em um s� volume, de "Ana Karenina", de Liev Tolstoi, presente da querida Viviani, voltou �s minhas m�os ap�s mais ou menos tr�s anos zanzando por a�, emprestado. Dei aquela folheada carinhosa de dono, e depois o coloquei em seu lugar na estante (ou melhor, em cima do arm�rio mesmo), olhando com ternura pra ele.

Esse � um dos meus livros prediletos. Eu o li quando tinha 15 anos e me marcou bem profundamente. Passando os olhos de novo por aquele monte de nomes russos, as conclus�es a que cheguei com a leitura me voltaram � memoria, reiluminadas com o conhecimento e as experi�ncias que adquiri nesses dez aninhos.

Ana Karenina � um romance de cerca de 600 p�ginas, obra prima m�xima desse autor fenomenal que ningu�m nega ser um dos maiores de todos os tempos, ao lado de Balzac, Proust, Dostoievski, nosso Machado, Victor Hugo, Dante, Cam�es e alguns outros poucos iluminados. Foi escrito depois do famoso (e enoooooorme) Guerra e Paz, e apesar de passar uma mensagem semelhante, Ana Karenina � mais maduro, mais "ao ponto".

Ele come�a, � guisa de introdu��o, com o texto b�blico "Minha � a vingan�a e a recompensa". E o primeiro paragrafo � antol�gico: "Todas as familias felizes s�o iguais. As fam�lias tristes s�o tristes cada uma � sua maneira".

Conta a hist�ria de v�rios personagens, mas especialmente a de Ana Karenina, que quando vai a Moscou para tentar salvar o casamento em crise do seu irm�o, conhece um cara que, se n�o estou confundindo com algum personagem de Guerra e Paz, chama-se Conde Vronski. Ela se apaixona por ele e essa paix�o a consome tanto e t�o a fundo que � o casamento dela que vai pro buraco. Ela larga o marido e o filho pequenino para viver com o tal conde, eles v�o pro exterior, aquela loucura.

Acontece que ainda no meio da paix�o mais ardente o relacionamento deles possui um certo melancolismo. E � medida que o encantamento "qu�mico" vai-se diluindo, o desespero dela vai crescendo. Ela percebe que aquela paix�o n�o a preeencheu em nada, e, enfim, quando eles rompem, ela se atira em frente a um trem. Vingan�aa divina? N�o, o autor deixa claro que nossas escolhas possuem conseq��ncias.

O brilhante � que mesmo ap�s a morte da personagem-t�tulo a obra continua ainda umas 80 p�ginas adiante, relatando o desfecho da hist�ria de Lievin. Lievin era um rico e jovem propriet�rio rural �s voltas com problemas de conflitos de classe com seus mujiques (os empregados da sua fazenda) e profundos questionamentos existenciais.

Tudo isso fica um pouco esquecido quando ele cai de amores pela cheia de vida Kitty Tchierbatski. Essa a�, por sua vez, arrastava a asa pro lado do tal Vronski, mas depois da desilus�o percebe que o Lievin n�o era mau, ali�s, nada mau e acaba se apaixonando por ele tamb�m e se casam e vivem muito felizes! � o lado iluminado do romance.

A� come�a o outro discurso de Tolstoi. Nesse ponto � que Ana Karenina morre, e talvez a hist�ria devesse terminar por a�, afinal, as novelas costumavam terminar no casamento, com aquele neg�cio de "e foram felizes para sempre", mostrando que o bonzinho se deu bem e a malvada pecadora se deu mal, um recebendo de Deus a vingan�a e o outro a recompensa...

Mas as 80 paginas restantes mostram que ap�s o primeiro ano de casamento, mesmo amando muito sua esposa, e tendo uma fam�lia invej�vel, aqueles seus questionamentos existenciais voltam todos.

Um dia, ele, para fazer um pouco de exerc�cio, vai ajudar seus mujiques na colheita da cevada, e quando o sol vai alto eles param para descansar e comer a marmita, que na verdade tem um outro nome mas esse eu n�o lembro. Ali, ele come�a uma conversa com um velho mujique. Lievin pergunta-lhe como vai sua esposa, que estava acamada e o velho, abrindo um sorriso sem muitos dentes, todo suado, responde com singeleza alguma coisa como "Deus quis que ela ficasse boa. Ele decidiu me dar essa alegria."

Lievin fica t�o impressionado com aquela resposta t�o singela que percebe que a resposta aos seus questionamentos todos possuem uma resposta assim, simples: a f� em Deus. Uma f� sem sofistica��es intelectuais, mas f�, pura e simplesmente, de que h� algu�m ao leme. Lievin percebe que Deus estivera operando em sua vida de forma maravilhosa, ent�o sai correndo para abra�ar a esposa, gr�vida, que estava costurando na varanda do casar�o. Ela n�o entende a raz�o da felicidade dele, mas bastava-lhe saber que o marido estava feliz, e devolve o abra�o forte...

Belo final. Bela mensagem.

O que te preenche? A resposta est� a� h� muito tempo. Lievin percebeu o que todo crist� j� deveria ter notado. Existe algu�m no comando das coisas, e Ele vai fazer com que elas contribuam juntamento para o bem daqueles que O amam.

A� sim, seremos felizes para sempre de verdade. Escolha o destino do personagem que voc� � nesse livro da Vida.

Um grande abra�o pr�-sab�tico a todos.

26/03/00
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