Aos p�s da manjedoura

Tem gente que n�o gosta de natal. Alguma coisa na m�stica dessa data, ou simplesmente o que fazem com ela a m�dia e o resto do mundo atr�s, n�o sei. Tem os que at� gostam, mas evitam ler o monte de mensagens bonitinhas que circulam pela internet e pelos cart�es de felicita��es. Tem os que at� gostam mas vai chegando perto e � tanta fala��o, tanto Papai Noel em tudo que � canto, tanto enfeitinho, luzinha, arvorezinha e presentinho, que o dia 26 acaba sempre representando um santo al�vio. E, enfim, tem os que adoram, n�o cansam de ler e falar do assunto, querem mais � se entupir de natal.

Um serm�o sobre o assunto me trouxe algumas id�ias que me fizeram arriscar tocar nele, mesmo correndo o risco de estourar o limite da paci�ncia de algu�m. Acho que de todos os detalhes do natal, o que mais nos tira do s�rio, a n�s,  pobres cidad�os pobres de um obscuro pa�s do terceiro mundo, � a quest�o dos presentes, porque a� lembramos dos presentes que gostar�amos de ter dado, dos que gostar�amos de ter recebido (e n�o rolou) e do cart�o de cr�dito e/ou
(tomara que seja "ou" no seu caso) estourado(s).

Lembro de um concurso de desenhos que a prefeitura - salvo ledo engano - realizou entre as escolas de primeiro grau quando eu estava l� pela quarta ou quinta s�rie. Tinha que ser um desenho numa folha sulfite com o tema do natal. Eu desenhei uma cena de pres�pio: a manjedoura, Maria e Jos�, uns bichinhos, uma crian�a embrulhada em panos e tudo isso emoldurado, como se fossem as paredes da caverna, uma caixa de presentes com um la�o em cima. E sobre tudo escrevi "O melhor presente". Achei que ia ganhar o concurso, mas a auto-
cr�tica que a idade me trouxe me faz reconhecer que o desenho era absolutamente horr�vel.

A id�ia � que me admira, porque eu era um moleque e j� havia "pescado" que  o melhor presente de natal � o pr�prio aniversariante. Ele, que Se deu por n�s em uma embalagem t�o ins�lita: estrebaria; animais e cheiro ruim, palha como ber�o.

Muito a prop�sito, no natal trocamos presente, certo? Isso quando o saldo banc�rio permite, claro. Pois bem, ao o ser humano receber o maior de todos os presentes, deu em troca alguma coisa.

Ouro, incenso e mirra eram as maiores especiarias de ent�o. E, como eram tr�s os presentes, todo mundo imagina que eram tr�s os reis magos, embora nenhum dos evangelhos assim o diga. Bom, mas que seja. Ouro, incenso e mirra.

Mas n�o foram apenas os magos do Oriente que apareceram por l�. Tamb�m os  pastores. Eles tamb�m reconheceram no presente uma d�diva sem par�metros de compara��o, tamb�m eles sentiram aquele tremor nas pernas, acompanhado de uma taquicardia acentuada e o brotejar de l�grimas, t�picos de quando nossos maiores sonhos e aspira��es se torna real. Se torna real e ressona tranq�ilo � sua frente um sono de rec�m-nascido. E a�, o que eles deram?

Os pastores deram louvor. E O Deus em carne de homem aceitou.

Acontece exatamente isso. Quem tem, d�, e Deus aceita, e quem n�o tem d� louvor, uma coisa que vai al�m de objetos palp�veis, al�m mesmo de palavras, � um sorriso de quem sabe que n�o pode transformar sua gratid�o em retribui��o. E Deus aceita.

Se vc tem e n�o d� - e agora eu come�o a falar n�o de presentes, mas tamb�m de tempo, talento, influ�ncia e por a� adiante - como vai louvar? Como fazer sincera a gratid�o de quem n�o admite abrir m�o de uma coisa min�scula em favor de quem te deu tudo? Mas se vc n�o tem, n�o pode ficar com vergonha e fugir da manjedoura. Achegue-se tal como est� e simplesmente deixe suas pernas, o bater do cora��o e o brilho do olhar falarem um presente, que Ele h� de aceitar.

Natal � um tempo legal. � um momento muito gostoso, eu n�o consigo parar de gostar, independente de e-mails metidos a bonitinhos (como esse - embora esse tenha a vantagem de n�o ter desenhinhos metidos a meigos como pano de fundo), de festas de fam�lia, manipula��o da m�dia, amigo secreto, rabanada, peru, indigest�o. Natal � o momento de lembrar do Presente, e de me juntar �queles pastores e magos.

Obrigado, Pai Nosso, por n�o me deixar na minha ingratid�o habitual, me fazendo lembrar das coisas que realmente importam. Obrigado porque me trazendo para os p�s da manjedoura em gratid�o, meus olhos se abrem para os milh�es de presentes que tenho recebido tamb�m de amigos queridos que Tu me deste.

Na certeza de n�o poder retribuir, fica um b�sico, batido, manjado e surrado Feliz natal!


Enviado em 21/12/2001
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