As justificativas de Raskolhnikov
Alguns amigos de vez em quando me perguntam que raio � esse neg�cio de "raskolhnikov" que aparece nos destinat�rios de meus e-mails. Aproveito agora pra explicar: eu estava abrindo minha conta no Hotmail e j� tinha tentado tudo que � combina��o com Marc�o, Aurelio, Brasil e Lima que � poss�vel, mas sempre algu�m tinha chegado na minha frente. J� sem paci�ncia, pensei num nome que dificilmente algu�m usaria e o primeiro que me veio na cabe�a foi esse ai. Como se v�, deu certo.

Raskolhnikov � o protagonista de um dos romances mais influentes da hist�ria da literatura mundial, e com certeza o mais impressionante que j� li: Crime e Castigo, do russo (claro, com esse nome...) Fiodor M. Dostoievski.

Em rapidas palavras, o livro trata da historia de um paup�rrimo estudante de direito em S�o Petersburgo que fica enumerando razoes porque ele tinha o direito de matar uma velha para ficar com seu dinheiro. O autor mergulha fundo na mente dele, e assistimos de camarote aquela id�ia tomar forma dentro do personagem. Ele raciocina que � membro de uma classe superior de pessoas, intelectual, acima do bem e do mal, e esta morrendo de fome e frio, morando num cub�culo que mais parece um arm�rio que um quarto, ao passo que a velha � uma usur�ria que mant�m uma casa de penhores, extorquindo assim o dinheiro das camadas mais necessitadas da sociedade, acumulando riquezas sem delas usufruir, sem herdeiros, sem sentido. Ele pensa que o homem superior � livre, e como tal deve achar meios de melhorar sua pr�pria
situa��o...

Dostoievski � famoso pela atmosfera opressiva e angustiante de seus livros, que d�o voz livre a seus personagens, geralmente perturbados, oprimidos, prostitutas e ladroes. Esse livro em especial, me fez andar quase um m�s igual o pr�prio Raskolhnikov, ou seja, com o cenho franzido, os olhos fixos no ch�o, o c�rebro a mil. Mas o livro � um acumulado de nuvens negras que de repente se abrem nas ultimas p�ginas pra que o sol entre e inunde com uma mensagem de reden��o atrav�s de Jesus.

Esse final de semana, lendo uma resenha sobre a primeira tradu��o direta do russo para o portugu�s que esse monumento liter�rio esta ganhando agora, lembrei de todas aquelas sensa��es que vivi enquanto lia o livro, h� uns dez anos, e o cr�tico, enfatizando essa sanha de Raskolhnikov para achar justificativas morais para seu odioso ato, me fez pensar em minha pr�pria
situa��o ante Deus.

Porque eu tamb�m, por causa de minha natureza ca�da, sou h�bil a encontrar justificativas para as piores besteiras. Lembro, como um pueril exemplo disso, de uma vez em que eu estava na quarta s�rie. Era essa �poca do ano, uma sexta-feira como hoje, e eu sa� da escola e fui at� a bomboniere de uns japoneses que tinha l� perto da Escola Adventista de Santo Amaro para comprar uma caixa de bombons pra minha m�e. Na sa�da, com a caixa embaixo do bra�o, vi
uma prateleira cheia de Serenatas de Amor olhando pra mim. Enfiei a m�o l�, peguei um e botei no bolso, dando de ombros e dizendo pra mim mesmo: a caixa de bombons foi muito cara, eles enfiaram faca, ent�o nada mais justo  que eu levar esse "b�nus"...

� por coisas assim que Deus nos apela, dizendo que somos cegos e que precisamos de Seu col�rio, para ver aonde esta o certo e o errado, sem mistifica��es e sem concess�es em assuntos morais. Ai o certo � certo, o errado � errado. Se come�amos a dar espa�a para certas vontades, se admitimos considerar seriamente pros e contras, com certeza vamos achar desculpas pras coisas mais baixas. A consci�ncia vai-se cauterizando, a norma moral vai abaixando, a face de Deus ficando mais distante e o que era uma exce��o se torna um habito, nos jogando pra longe dAquele que tem o col�rio numa m�o e a paz genu�na na outra.

Sabe, Raskolhnikov n�o seria l� um bom apelido, n�o fossem as �ltimas p�ginas do livro. Seria bem chato eu escolher o nome de um assassino frio e nojento. Mas aquele raio de sol no ep�logo da hist�ria me diz que eu preciso mais � seguir o exemplo dele. Mesmo que eu n�o tenha matado nenhuma velhinha a machadadas, e nem esteja planejando nada do g�nero, care�o igualmente da merc� divina, porque tantas e tantas vezes me justifiquei a mim mesmo negando a justi�a dEle em minha vida.

Acho este um �timo momento para aceitar o col�rio de Deus, chegar mais pertinho dEle, conversar mais delongadamente com Ele e parar de uma vez por todas de achar desculpas pra fazer o que n�o devo fazer, porque, afinal de contas, assim, pertinho dEle, eu n�o vou mais querer fazer o que Ele n�o quereria.

11/05/01
voltar
Hosted by www.Geocities.ws

1