Almas g�meas


Oi!!

Acho que a Marisa Monte anda numa fase um tanto ego�sta! Outro dia estava ouvindo o CD dela e a ouvi cantar coisas como: "Eu podia ficar s�, perdido, mas com voc� eu fico muito mais bonito, mais esperto... e podia estar tudo agora dando errado pra mim, mas com voc� d� certo. Por isso n�o v� embora, n�o me deixe nunca..." ou " O que me importa ver voc� t�o triste se triste fui e voc� nem ligou? O que me importa essa tristeza em teu olhar se o meu olhar tem mais tristezas pra chorar que o seu?" e em outra: "se voc� quisesse ia ser t�o legal! Acho que eu seria mais feliz do que qualquer mortal..."

Pensando bem, ela talvez n�o seja ego�sta. Se eu perguntar para algu�m aqui do meu lado o que s�o aquelas musicas, qualquer um vai me responder: s�o can��es de amor. Ent�o, ela n�o � ego�sta, ela � apenas normal. Fruto de seu tempo.

Assisti um filme uma vez que come�a com uma professora contando para os  seus alunos que Plat�o disse que houve um tempo em que �ramos seres arredondados, com duas cabe�as, quatro bra�os e quatro pernas, mas que um dia os deuses nos partiram ao meio, e assim o trabalho de nossas vidas � buscar a nossa "outra metade".  Deu raiva do filme. Plat�o disse justamente o contr�rio! Felizmente eu havia acabado de ler O banquete, livro que trata das diversas vis�es de amor, e tinha o discurso ainda fresco na mente:

Em um jantar os convivas fazem um tipo de um concurso para ver quem fazia o melhor "elogio" ao amor. Pequenos discursos em torno do tema come�am a ser feitos. O pen�ltimo foi de um tal de Arist�fanes, se n�o estou confundindo esses nomes gregos, e foi ele quem contou a tal da hist�ria das almas g�meas. Mas o ultimo discurso, de S�crates, e que d� a vis�o de Plat�o tamb�m, � uma resposta a essa vis�o mesquinha de amor. Ali � definida a famosa classifica��o do amor em "eros", "filia" e "agape".

As musicas da Marisa Monte s�o t�picas do primeiro tipo, o amor "eros". N�o se trata apenas do amor er�tico, mas de uma afei��o pela outra pessoa exclusivamente pelo que ela pode dar para mim. Eu gosto dela porque com ela fico mais bonito, d� tudo certo pra mim. Porque ela me d� a aten��o que eu preciso, ou a proje��o social que eu quero, ou porque ela paga minhas contas, ou porque ela me excita... O que esse "amante" ama mesmo � a si mesmo e o que deseja � parte de um ser; s� gosta dos aspectos que lhe interessam no outro. N�o est� interessado em complet�-lo com o que lhe falta.

Tantas vezes vemos relacionamentos rompidos porque uma das partes n�o estava "satisfeita". A mentalidade da gera��o div�rcio � cada vez mais esta: fico com ele (a) enquanto for conveniente. Enquanto eu puder manter minha liberdade. Enquanto essa minha necessidade estiver sendo suprida. Assim, n�o importa o que voc� est� passando, na verdade. Importa o que acontece comigo. N�o por acaso, essa vis�o � t�o disseminada hoje. Vive-se o conto da
alma g�mea, mas as pessoas percebem que almas g�meas s�o transit�rias, nada se completa eternamente, porque elas buscam apenas completar-se... Creio que seja por isso mesmo que as tais can��es de amor est�o sempre na primeira pessoa do singular!

Ningu�m quer acreditar em outra coisa. Ningu�m quer ver que o que lhes completa de verdade n�o � apenas outra pessoa. As pessoas querem continuar acreditando que s�o suficientes para alcan�ar o que precisam, de prefer�ncia sem fazer concess�es.

Um marceneiro da periferia do imp�rio romano chegou com outro discurso e outra pr�tica, e a hist�ria do mundo mudou. Pena que o mundo em si n�o haja mudado. Um dos que melhor entendeu aquele discurso e aquela pr�tica, Paulo, disse que essa mensagem era loucura para o mundo. Depois de dois mil anos, continua sendo.

Jesus nos convida a sair do vulgar, do lugar comum. A aceitar a pecha de louco, simplesmente dando mais do que se recebe, buscando mais compreender que ser compreendido (como disse Francisco de Assis), estando mais atento �s necessidades do outro do que �s suas pr�prias. Jesus diz que fazendo exatamente o oposto do que todo mundo faz para se completar seremos enfim... completos!

At� l� seremos "pessoas em constru��o", edificados sobre uma s�lida e inamov�vel base. E pessoas em constru��o vivem felizes, acrescentando tijolo a tijolo, sem agonia por se ver acabado de uma hora pra outra.

Gra�as a Deus por tudo isso.

Que n�s todos possamos amar. De verdade.

Escrito em 23/02/01


Marco Aur�lio Brasil Lima
Voltar
Hosted by www.Geocities.ws

1