| A filosofia do simplesmente crer Essa semana morreu um de nossos maiores poetas, Jo�o Cabral de Melo Neto. Os jornais destacavam logo nas manchetes uma ironia: Cabral de Melo Neto, ateu ou agn�stico declarado, morreu rezando, de m�os dadas com sua esposa. Ele sofria de depress�o cr�nica, especialmente depois que ficara cego havia alguns anos... Isso me faz remontar a uma bonita manh� do meu quarto ano na faculdade de direito... Eu estava na esvaziada aula de filosofia ministrada pelo professor Sangirardi, um juiz aposentado, verdadeira sumidade tanto em direito como (e especialmente) em filosofia, que ele ensinava de forma atraente e entusiasmada. Minha rela��o com a filosofia era a de um admirador pregui�oso. Ler um texto filos�fico cansa mais do que correr uma maratona, e eu n�o tinha disposi��o para esse tipo de exerc�cio. Na verdade, bem antes da faculdade eu me vi em uma encruzilhada na minha f� crist�, ocasionada pelas primeiras leituras filos�ficas. De forma bem rasteira e resumida, meu racioc�nio era: se o ser humano � capaz de criar sistemas de pensamento t�o complexos e sedutores, ser� que essa hist�ria toda de Jesus Cristo tamb�m n�o pode ser fruto de uma mente qualquer, um Paulo, talvez...? Essa d�vida n�o confessada e para a qual eu n�o tinha resposta alguma da parte de Deus me levou a tomar uma decis�o: ou eu abandono a minha f�, pois sempre prezei pela coer�ncia entre atos e palavras, ou simplesmente creio, antes de ter qualquer evid�ncia concreta pr�-evangelho. Decidi crer. Sem querer, fiz o que Jesus sugeriu que Jairo fizesse, quando vieram dizer-lhe que sua filha havia acabado de morrer: �N�o temas, cr� somente.� O que voc� diria, no lugar dele? �Hein? Crer no que? Eu vim cham�-lo h� um temp�o para ver a minha filha, mas todo mundo te espremendo, o senhor ainda p�ra para perguntar quem Lhe tocou, e agora � tarde demais!!� Por que raz�o Jesus n�o foi logo dizendo: �Jairo, calminha a� que eu vou l� e ressuscito tua filha!� Eu cri, somente. Anos depois, quando eu estava absolutamente convertido e sentindo a paz que s� Jesus pode dar, quando eu vivia o momento mais feliz da minha vida, quando n�o precisava mais de respostas �s minhas indaga��es racionais sobre as coisas de Deus, me vi naquela aula em que Sangirardi falava de Plat�o e seu �mito da caverna�. Resumidamente, esse mito da caverna, descrito na Rep�blica, prega que o homem � como algu�m aprisionado ao fundo de uma caverna escura. O que o aprisiona? As paix�es e desejos do mundo dos sentidos, mais ou menos o que n�s, crist�os, chamamos de as concupisc�ncias da carne. � preciso que o homem, ao ver bruxulear uma luzinha no fim da caverna, se desvencilhe dessas coisinhas rasteiras que o aprisionam e rume para a boca da caverna, onde h� luz perfeita do meio-dia. No princ�pio essa luz nos cega, mas � medida que a ela nos afei�oamos, vivemos com plenitude. Achei tudo muito parecido com a doutrina crist�, com a �nica diferen�a (vital, agora eu sei) de que Jesus vem e nos desamarra l� do fim do t�nel e se encarrega de levar-nos para a luz, basta simplesmente o permitirmos! Mas a moral da hist�ria de Plat�o era outra: precisamos sair do mundo sens�vel e ir para o mundo das id�ias, saindo da carne e indo para deus. Nesse ponto um colega perguntou: �� como o Deus crist�o, professor?� �N�o� ele respondeu com veem�ncia, e continuou, gesticulando de forma levemente zombeteira: �o Deus crist�o diz: �Eu criei tudo isso e interfiro na vida de voc�s. Voc�s dependem de mim. Tudo � meu... O deus filos�fico n�o � nada disso. Ele � uma id�ia, porque s�s as id�ias n�o sofrem limita��es de tempo e espa�o, e para ser deus s� se pde ser perfeito, sem limites. Pois bem, veja que Plat�o acreditava que o mundo era feito de pequeninas part�culas invis�veis (a que, hoje, chamamos �tomos. Brilhante, n�o?) e que essas part�culas est�o em constante movimento, uma se chocando com a outra e fazendo essa outra se mover. Mas como � que a primeira part�cula se moveu? Ora, ele chegou ao grande impasse que nossos cientistas chegaram hoje, ou seja, de onde veio a primeira part�cula de mat�ria? Ele chegou � conclus�o de que a primeira part�cula foi movimentada por algo que n�o � mat�ria, que � pensamento, que � id�ia. Deus, enfim. E para ser um pensamento capaz de impulsionar a mat�ria, ele precisa ser perfeito. Mas, se � perfeito, n�o pode cuidar de nada que � imperfeito, que � menor do que ele mesmo, ent�o, trata-se de um pensamento que se pensa a si mesmo o tempo todo, mas que nesse ato tem o poder de movimentar o universo. Logo, deus n�o est� nem a� com o mundo sens�vel...� A nossa cabe�a j� estava fundindo, � claro, mas uma coisa me incomodava e eu fiz apenas essa singela perguntinha: �Professor, o senhor disse que o homem est� aprisionado por suas paix�es mais selvagens na caverna, n�o �? � ele anuiu com a cabe�a, ent�o perguntei: �Por que?� Ele ent�o enla�ou as m�os nas costas e come�ou a andar pela sala em atitude de reflex�o. Come�ou a tentar uma explica��o, mas logo depois das primeiras frases parou, meneando a cabe�a e dizendo algo como �n�o, n�o, n�o � por a�...� Todos na sala nos entreolh�vamos, pois jamais o hav�amos flagrado sem uma resposta. Tentou responder � minha pergunta mais umas duas vezes, mas igualmente sem sucesso, at� que parou, nos encarou visivelmente encabulado e disse: � A resposta a essa pergunta �: eu n�o sei� e riu. ��, a filosofia n�o se arroga de ter todas as respostas mesmo, de fato n�s n�o podemos querer saber tudo...� Aquele meu colega que havia perguntado se o deus filos�fico era o mesmo Deus crist�o atalhou: ��, parece que essa pergunta a religi�o j� respondeu...� O professor foi enf�tico: �N�o! Aqui n�o falamos de religi�o, mas de filosofia!� Nesse ponto sua express�o j� n�o era mais zombeteira. �S�o coisas distintas e devem ser separadas.� Ele falou mais alguma coisa e logo em seguida encerrou a aula, mais cedo do que o comum. Sa� dali sentindo um gostinho de vit�ria na boca, sentindo que Deus me dava ali uma resposta que eu procurara h� muito tempo e que agora vinha como um brinde por eu ter simplesmente crido nEle. E a resposta era: a filosofia dos homens jamais poder� explicar tudo. Na verdade ela pode explicar uma por��o de coisas, mas o essencial ela n�o vai explicar, e por isso mesmo apontar� sa�das equivocadas para os problemas do homem. O intelectual Jo�o Cabral de Melo Neto talvez s� tenha percebido o essencial no finalzinho de sua vida. Conta-se que o mesmo aconteceu com o desbocado Voltaire. As respostas mais profundas, aquelas que d�o esperan�a e paz, aquelas que mudam nosso car�ter e provocam a nossa salva��o n�s j� conhecemos, e n�o mudaram com o passar dos anos e com o renovar do pensamento humano. N�o � f�cil crer, simplesmente. Mas bem-aventurados s�o os que conseguem vencer sua s�de de provas objetivas e assim fazer. Palavras de Jesus. Escrito em 15/10/99 Marco Aur�lio Brasil Lima |
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