| Fim da viagem Peguei um �nibus pra um lugar que eu nunca tinha ido. A pessoa que me chamou deu indica��es sobre aonde eu teria de descer. Disse para eu ficar muito atento na janela. Disse que a partir do momento em que a paisagem estivesse ficando mais violenta, com guerras e rumores de guerras, com fome, com pessoas gritando "paz, paz" mas com tiros atr�s de si, com desastres naturais, com gente correndo de um lado para outro atr�s de conhecimento, com uni�o de velhos inimigos e coisas assim, era melhor que eu n�o pegasse no sono, Ficasse de p�, perto da porta, porque ela se abriria de repente, e seria minha �nica chance de descer no ponto certo. L� fui eu. Estava dando um sono danado, mas olhando pela janela percebi que a coisa estava mais pesada do que h� algum tempo. Vi uns cat�licos e uns luteranos apertando as m�os sorridentes e assinando um papel muito curioso. Vi um avi�o cheinho caindo no mar. Vi um maluco com uma metralhadora entrando num cinema. Vi uma penca de amigos meus sendo seq�estrados. Vi uma correria danada de gente atr�s do padre Marcelo, outras atr�s do Pr Caio F�bio, outras atr�s do pr. Bullon, ou do pr. Mark Finley, e tamb�m vi gente muito compenetrada tentando entender a B�blia ao lado de gente jogando b�zios, consultando esp�ritos, lendo o livro dos m�rmons. Em volta havia muita gente rindo pra televis�o enquanto a Tiazinha rebolava e o Faust�o fazia uma emocionada entrevista com a Xuxa. Vi que havia uma por��o de gente jogando futebol por sal�rios estratosf�ricos, fazendo gol de m�o, ganhando jogos nos tribunais esportivos, dando cotovelada no advers�rio enquanto a torcida quebrava as cabe�as uns dos outros. O mesmo acontecia na quadra de basquete que passava e na quadra de v�lei. Vi que as pessoas na rua pareciam todas angustiadas, que muita gente s� parecia querer tirar vantagem de tudo, e pol�ticos com aparecia de piedade mas negando sua efic�cia. Vi �ndios se suicidando, meninas gr�vidas, meninas prostitutas, meninos assassinos na Febem, meninos assassinados embaixo das pontes. Vi os Estados Unidos entorpecidos com o sucesso e com a abast�ncia enquanto adolescentes levavam bombas pra escola. Vi massacre no Timor Leste. Vi chacina na periferia. Vi div�rcio e desamor. Vi festa de anivers�rio pra cachorro, vi homem cortando a m�o pra ganhar seguro, vi que n�o havia afeto. Vi que n�o havia esperan�a nos olhos das pessoas. Em meio a tudo isso o sono ainda era muito grande, a vontade de me acomodar tamb�m, o banco estava gostoso, o �nibus roncava suave. Mas eu lembrei do que a pessoa que me havia chamado dissera. Ent�o eu levantei e fiquei de olho na porta. Como eu conhecia essa pessoa, sabia que quando a porta se abrisse, o lugar seria muito lindo, distante daquelas vis�es paradoxais que me deixavam perplexo e triste. Ela estaria l� no ponto me esperando. E eu n�o queria perder o ponto por nada. Marco Aur�lio Brasil Lima |
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