| Passos - I Pela porta-balc�o do quintal, Tadeu, sentado sobre as patas traseiras, o observava com olhar tristonho. "At� tu, Tadeu?" ele pensou. Apagou o cigarro pela metade na mesa de canto, ao lado do cinzeiro cheio e aproximou-se da janela. O c�u lavado pela chuva n�o mostrava estrelas, lua, nada. Buzinas long�nquas, c�es que latiam, o som dos pneus no ch�o molhado e agora o telefone que tocava e ele n�o atendia, n�o atendia, n�o iria atender. - Jonas - a voz na secret�ria - que coisa, a gente n�o te acha mais! Que � que voc� anda fazendo? Perdeu a maior balada de todos os tempos no s�bado. Ali�s, isso est� ficando normal, n�? Duns tempos pra c�... Bom, se voc� estiver por a�, est� intimado a aparecer no Cabral hoje. O M�rcio, a Duda, a L�cia, o Breno... todo mundo... a Silvinha, claro, a Melissa. Tamos te esperando! Ele percebeu, entre o met�lico da voz no aparelho, um tom de preocupa��o. Da �ltima vez que estiveram juntos, quando sua presen�a nas baladas come�ava a rarear, quando sua barba j� estava sempre por fazer e sua risada parecia mais nervosa e amarga que feliz, vendo ele ali no canto, olhando tudo meio ausente, Carlos foram tentar arrast�-lo pra pista de dan�a e, como insistisse, ele explodiu. Empurrou o amigo dizendo "n�o percebe que isso tudo � rid�culo? In�til!?" O olhar dele ali, desconcertado, e agora esse tom de preocupa��o. Ele n�o iria, n�o atenderia, ele n�o sairia da casca. Provavelmente Melissa inventaria que ele estava em algum congresso de arquitetura, n�o importava. Deu uma profunda golada no gargalo da garrafa e se atirou no sof�. Via a prancheta, no est�dio, e provalvemente n�o pela vis�o dos projetos inacabados, desordenados, provavelmente n�o por coisa alguma, lembran�a ou id�ia, ele come�ou a chorar. Chorou muito, como crian�a, em alta voz. Tadeu ganiu intranq�ilo, mas ele n�o ouviu. Depois de algum tempo, quando as l�grimas secaram, levantou-se num repente. Trope�ou em coisas largadas no escuro da casa, at� achar as chaves do carro. Saiu pela cidade sem dire��o, mudando freneticamente de esta��o no r�dio, sentindo uma vontade enorme e inconfessada de morrer. Pegou a estrada do litoral norte. Em alta velocidade fez o caminho sem se perguntar por que ou para onde, dirigiu muito tempo, o r�dio na est�tica da aus�ncia de esta��es. Caminho do Rio, o mar � sua direita, foi revendo paisagens velhas conhecidas entre baforadas nervosas. Num �mpeto repentino, parou o carro de qualquer jeito e correu para a praia deixando o motor ligado, a porta aberta. N�o deu muitos passos, a areia fofa e a mente desordenada o derrubaram e ele chorou de joelhos, depois deitado em posi��o fetal. O violeta do c�u com os primeiros raios do sol atraiu seu olhar para cima. Parou de chorar reparando lentamente no mundo � sua volta: a areia branca, no declive desenhado, o mar sossegado, a floresta fechada nos montes que delimitavam a praia em ferradura, o dourado sobre as �guas verdes e serenas. Assim, de ch�fre, seus olhos se abarrotaram de uma beleza sem tamanho. Respirou fundo. Odor de mato, misturado ao do mar. Sentou-se para olhar melhor e perdeu (ganhou) grande tempo em admirar as coisas, achando na beleza coberta de signos e significados da ba�a desenhada com esmero respostas a perguntas que n�o formulara. Solu�os deram lugar a uma sensa��o nova, acompanhada de um ligeiro arrepio, de quem percebe uma obviedade redentora. Sobre uma rocha, l� adiante, via uma pequena cruz colocada por pescadores. A manh� j� ia muito alta quando Jonas percebeu que era hora de voltar para casa. ----------------- Este texto � o primeiro de uma s�rie que tentar� seguir os cap�tulos do livro "Caminho a Cristo", de Ellen White, que tra�a uma bela e precisa trilha at� Jesus. Ele foi baseado no cap�tulo "O cuidado de Deus", mais especificamente no par�grafo que diz: "'Deus � amor ' est� escrito sobre cada bot�o que desabrocha, sobre cada haste de erva que brota. ...Todos testificam da terna e paternal solicitude de nosso Deus, e de Seu desejo de tornar felizes os Seus filhos" (p. 10) Marco Aur�lio Brasil Lima |
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