| Dessa vez � diferente Toda vez que o papai noel do Shopping C... chegava em casa, ca�a no sof� bufando e ligava a televis�o, os p�s sobre uma cadeira que j� n�o sa�a mais de frente do sof�. Passava algum tempo confiando a barba e trocando de canais. Acabava deixando sempre no mesmo. Depois pegava a garrafa estrategicamente esquecida ali ao lado, dava dois longos goles e esperava a madrugada colocar um ponto final no �ltimo programa. Era s� a� que se arrastava para a cama, onde ficava fritando, virando de um lado para o outro at� o sol sair. Era sempre assim: esperava o ano inteiro pelo dezembro com seu emprego certo, e passava dezembro inteiro esperando pelo dia 26, com a alforria que ele trazia. Dos p�s machucados, da c�imbra nos l�bios de tanto beijar criancinhas, dos flashes das m�quinas. Mas aquele dia foi diferente. Era v�spera de natal, o dia seguinte haveria de ser o �ltimo, mas ali, em frente � TV, sentindo as pernas pesadas sobre a cadeira e aquele neg�cio luzindo ali na caixa, ele n�o pensava nisso. Em cima da mesa bamba o folheto natalino do Shopping C.... e a frase nonsense que n�o lhe sa�a da cabe�a: "... � celebrar Aquele que nasceu para que todos tivessem uma nova chance..." Repetia sem tentar entender. Nunca o barulho da ceia dos Souza o havia incomodado. Mas aquele dia, voc� sabe, foi diferente. Depois de ouvir a fam�lia inteira saindo no quintal pra dar feliz natal praquele energ�meno do Chico, saco de pulgas que adora latir a manh� inteira, o papai noel do Shopping C... sentiu-se esburacado por dentro. Depois de ouvi-los cantando "Noite Feliz", achou que precisava de mais dois goles. Ent�o adormeceu olhando a TV. Sentia o vento no rosto imberbe e viu a velha ladeira de Jundia�, cercada daquele mato da sua inf�ncia, e ele sobre o carrinho de rolem� que o irm�o lhe fizera. O vento, a ladeira, o mato, no rosto. L� em baixo, contudo, nada da velha pra�a, mas a escola (que virou estacionamento nos anos 90). - Corre! Voc� est� atrasado! ela dizia e lhe puxava pela m�o. Quem era? Tereza? Tereza... Pobre Tereza. Se o casamento fora com ele, e n�o com Felix, teria sido diferente? Estaria ela viva, ao menos? Mas isso n�o cabe num sonho. Entrou, ela o segurava pela m�o. Sentaram-se no ch�o, como todos e quem falava era M�rcio. M�rcio, seu filho. N�o importa, � sonho, e ele fala. Conta uma hist�ria linda, linda, sobre uma fam�lia... Bom, uma fam�lia feliz, e ele chora, porque sabe que seu filho est� inventando. As crian�as choram comovidas com uma hist�ria assim t�o linda, mas ele evita olhar o rosto dele. De fininho, se esgueira para fora da sala. Uma voz atr�s de si o assusta. Pede para ele olhar por uma janela. � seu pai, de rosto impreciso, pitando um cigarro de palha numa cadeira familiar. Ele sente medo, como sempre, e obedece, e olhando v� uma mulher esfregando roupa num tanque, duas crian�as sentadas no ch�o. A mais velha lia um livro em voz alta e a menor ca�ava bichos no ch�o. A voz infantil de M�rcio lendo uma hist�ria, e o olhar triste da mulher, e sua aus�ncia, sempre a sua aus�ncia, eles ali, e ele n�o, ele olha e chora, n�o � mais a crian�a, a barba no peito outra vez. O pai diz: - Foi a�. - Ele n�o pergunta o que. Foi a� que ele errou, � o que ele quer dizer. A resposta: - N�o, foi antes - ele olha nos olhos do pai, que a princ�pio n�o gosta da contrariedade, mas ent�o anui, olhando ao longe. Ele vai saindo do pr�dio, a luz do sol ofusca. V� uma longa longa estrada e come�a a andar. Na semi-consci�ncia do sonho, pensa: acho que n�o vou mais acordar. Sente o asfalto sob os p�s, a estrada longa, longa. A� Chico late feliz, ele abre os olhos e o sol invade a sala com tudo. Em cima da mesa o folheto, na sacola jogada no ch�o se v� a pontinha da touca vermelha. Hora de levantar, ele pensa. Escrito em 18.12.2001 Marco Aur�lio Brasil Lima |
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