| Determinismo No entender de todo mundo � a oportunidade perfeita para Renato solidificar o reinado e cortar pela raiz a fala��o de que est� amolecendo. Ele n�o tem alternativa: � certo que a manh� de s�bado amanheceria pra encontr�-lo de p� no campinho do Germ�nia, a velha e infal�vel l�mina na m�o e o sangue do Jota e do irm�o dele escorrendo sem parar pelo arei�o. Sabe, essa vida � amargosa, trabalhosa. Um homem precisa de tempo e vontade f�rrea pra saber o que seja respeito. A� ele tem o que se conv�m chamar poder; gente que o teme, que o obedece, que quer agrad�-lo. Seja num c�rculo pequeno, seja num grande, isso n�o tem pre�o. Voc� h� de, na sua pressa t�pica, rotular o c�rculo de Renato como pequeno, j� que � gente parda da periferia que mata e morre todo santo dia, fala sua l�ngua estranha e chafurda na sua lama sem fim. Daqui, contudo, de tr�s desse balc�o de bar, onde as pessoas v�m comentar tudo o que acontece na adjac�ncia, eu tenho que discordar. Na verdade le garanto que Renato tem grande c�rculo de respeito, porque a gente que orbita em volta dele � muita, irm�o, muita! Custou o couro de seis homens. Seis homens. Quer dizer, pela m�o dele, que pelas dos comparsas foi mais. Come�ou cedo, com quatorze foi o primeiro e nem se h� de dizer que foi um pirralho, mas o Mutum, sujeito tinhoso que mais de uma vez me quebrou o bar em briga, ligeiro em sacar o berro e em passar a m�o em mulher dos outros. Agora tem seu dom�nio, coisa cara. Quanta gente voc� n�o v� no alto de suas fortalezas blindadas, com insulfilme e olhar aparvalhado, que jamais h� de saber o que seja isso? Respeito? Temor? E n�o s� isso. Amor, tamb�m, que Renato � homem admirado, modelo pra muito guri que cresce sem refer�ncia nesse sarjet�o. Da� porque o que Renato tem, le digo, n�o se joga fora de hora para outra, como quem cospe um baga�o de cana. Por essas e outras que todos t�m como certo que o s�bado h� de amanhecer para encontrar Renato dando curso ao seu destino, fazendo calar a boca de quem o desafia, confirmando a sua hist�ria. Euz�bio diz que acha que n�o. Que Renato tem perdido tempo demais em leroleros com a menina crente. �gua e �leo, ele diz, �gua e �leo. Seria o caso de o dito estar virando �leo tamb�m, pra poder se misturar. Sei que eu agora olho para ele ali, sentado a uma de minhas mesas, comendo um palito de dente com o olho meio perdido na selva da favela e o que estar� pensando? Estar� vendo a m�e, abominando o pai dele, que ele n�o conheceu. Estar� vendo os dias de barriga vazia e a necessidade de estar com os que o desprezavam. Estar� vendo as surras que levou naquele mesmo campinho, as pedras dadas e recebidas, a vida esgueirenta por entre os barracos, pulando as lajes, vendo a marcha de um mundo que o p�e revel e calado, que n�o quer saber da sua voz. Estar� vendo tudo o que o fez ser o que �. - Ela quer casar na igreja, diz, sem saber que eu ou�o enquanto seco um copo. O s�bado amanhece com fala��o. Jota e o irm�o cospem no ch�o, agitam os bra�os e esbravejam. Renato n�o apareceu. Ao saberem que tomou a menina crente na noite e correu alguma estrada desse mundo todos dir�o que se acovardou, que pensou aqueles dois coisa demais pra faca dele e que era o seu sangue quem perigava irrigar o campinho. Mas eu, que sei, direi apenas que Renato exorcizou seus fantasmas. Escrito em 15/05/02 Marco Aur�lio Brasil Lima |
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