| � voc�? - Mercedes... � voc�? Um estranho arrepio percorreu-lhe a espinha e antes que ela se virasse, por uma dessas inexplic�veis associa��es que nosso c�rebro faz de vez em quando, em fra��es de segundo, viu-se em uma long�nqua manh�. Uma manh� em que o sol entrava pelas frinchas do telhado do Mercad�o Municipal e vinha aquecer-lhe o rosto, tudo emoldurado pelo forte odor das flores e uma indel�vel sensa��o de frescor (no seu pr�prio corpo? no ar matinal e perfumado?): ela estava no extenso corredor das flores, deliciada... uma long�nqua manh�. Piscou os olhos duas ou tr�s vezes, como que para refazer a vista em que o sol bateu, e quando os abriu tinha � frente um homem velho, curvado para ela, com um sorriso torto de esperan�a. Ela admirou longamente a cabe�a com ralos cabelos brancos de fios muito finos e desgrenhados, a boca cuja largo sorriso descobria a aus�ncia de v�rios dentes, as grossas bolsas sob os olhos. Deslizou os olhos com cuidado por cada um dos muitos sulcos da face, tentando descobrir de onde brotava a enorme familiaridade que lhe inspirava aquele rosto. - Sou... mas... quem � voc�? - Voc� n�o lembra de mim? ele aproximou ainda mais a face e alargou o sorriso. Ela instintivamente afastou um pouco a cabe�a. Abriu a boca para arriscar um nome, mas desistiu, al�ou levemente as sobrancelhas, vincando a testa de finas marcas e disse: - N�o lembro, desculpe... Essa resposta despertou o garoto que ressonava de boca aberta ao lado de Mercedes. Ele fechou a boca passando disfar�adamente a m�o pelo queixo, com receio de ter estado babando, e, tranq�ilizado, lan�ou ao redor um olhar pregui�oso. Ao ver o velhinho de p�, meio curvado sobre ele, levantou-se e cedeu-lhe o lugar. Ele olhou para a senhora sentada � janela, pedindo mudamente sua v�nia, que ela concedeu com um meneio de cabe�a, ent�o ele sentou-se ao seu lado com vivacidade. Sempre sorrindo, bateu a m�o espalmada no peito, olhando-a nos olhos: - Sou eu, Milto. A mulher arregalou os olhinhos por tr�s das lentes do �culos, abriu muito a boca, mas sem emitir som algum, e levantou a m�o direita para cobri-la. Passada a enorme surpresa inicial, restou em seu rosto uma express�o mais triste que alegre, enquanto ela continuava a passear os olhos pelo rosto de seu companheiro de viagem. - N�o me reconheceu! o sorriso dele havia atingido o m�ximo da envergadura poss�vel e ao falar balan�ou a cabe�a alegremente para os lados. - N�o! Como � que eu ia conhecer? Faz... tanto tempo � disse num sussurro. Mantinha ainda no queixo as pontas dos dedos e os olhos fixaram-se enfim, com alguma relut�ncia, nos pequeninos olhos claros do homem. Ficaram algum tempo olhando-se. - Eu reconheceria voc� em qualquer lugar. Continua bonita! Ela balan�ou a cabe�a veementemente, como se tivesse ouvido uma heresia. - N�o seja tolo, Milto, voc� � bom fisionomista, s� isso � e sorriu. - Aonde voc� mora? Pega sempre este �nibus? ele perguntou. - Estou vindo da cidade. Conhece ali o col�gio adventista, o internato? Pois �, moro l�. - L� dentro? - �. H� muito tempo, j�. - Como assim? L� dentro? - Ora, h� muitas casas e alguns apartamentos l�, para os funcion�rios, professores... - Voc� trabalha l�? - Eu fui professora � respondeu e emendou como que abrindo um par�ntesis � por trinta e oito anos! Mas h� seis anos eu parei de lecionar, estava muito cansada. Eu continuo trabalhando, s� que na secretaria. - Trinta e oito anos lecionando?! Ele exclamou inclinando a cabe�a com ternura e pousando a m�o direita na face. - N�o, quarenta e dois. Trinta e oito s� nesse col�gio � ela respondeu com orgulho. E voc�, aonde mora? Est� trabalhando ainda? - Ah, eu moro l� pros lados do Graja�, sabe? Cidade Dutra... � e apontava para o lado esquerdo. - Sei, sei. - Meu trabalho � construir umas casinhas para alugar. Eu n�o consigo parar de fazer isso, estou sempre comprando um terreno e levantando um telhadinho. J� virou at� um v�cio � ele riu com a mesma risada esfacelada e rouca. Agora mesmo estou indo ver um corti�o que estou levantando ali na Vila das Belezas. A mulher pousou a m�o sobre a bolsa branca, desviou um pouco os olhos para a janela mas voltou logo a fitar o homem, que por sua vez n�o tirava os seus olhos dela. Um pouco embara�ada, ela perguntou: - Mas... voc� n�o fez isso a vida toda, fez? Ele riu de novo e respondeu: - Ih, Mercedes, eu nessa vida fiz de tudo um pouco. Sabe, eu fui marinheiro, viajei o mundo inteiro. Briguei um tempo na guerra da Espanha. Passei por cada uma, ih, precisava te contar... - Milto, como voc� foi se meter nisso, que perigo! - A vida leva a gente pra tanto lado! Eu fui professor de nata��o no clube Pinheiros tamb�m. Inventei um jeito de ensinar a nadar qualquer um em uma hora! - U�! Como? Rindo e gesticulando bastante ele ia explicando? - Primeiro eu fazia o aluno treinar os movimentos no ch�o, depois, ent�o, que ele j� tinha aprendido a mexer os bra�os e as pernas eu botava ele num neg�cio que eu inventei, um tipo dum cintur�o de couro que ele punha aqui, em toda essa parte � e indicava o tronco com as m�os � e no cintur�o tinha amarrado uma corda ligada numa vara, que eu ia segurando do lado de fora da piscina para o sujeito n�o se afogar... Os dois riram juntos e ele continuou: - Montei uma loja em Presidente Prudente, mas n�o deu certo. Vendi aspirador de p� em Porto Alegre, importei azeitona da Argentina, ih, eu fiz o diabo! N�o d� nem pra falar tudo, sabe? - E a sua esposa foi para todos esses cantos com voc�? ela perguntou vincando a testa. - Esposa? ele inclinou a cabe�a e olhou pra frente, mas sem desfazer o sorrisinho torto. Nisso eu n�o dei sorte, Mercedes. Mulher e filho... eu fui muito burro, sabe, portugu�s turr�o! � disse batendo a palma da m�o na testa. - Ah, eu sei � ela suspirou tristemente � igualzinho ao meu pai. Voc�s dois s�o muito parecidos. Ele considerou isso algum tempo, olhando pra frente, depois voltou-se humilde: - � verdade. Voc� tem raz�o. Nunca havia pensado nisso. Ajeitou os cabelos nas t�mporas com uma m�o tr�mula e continuou falando: - Casei com duas mulheres. Tive cinco filhos, mas n�o falo mais com nenhum deles. A �ltima mulher me roubou todo o dinheiro do meu neg�cio, sabe? Por um tempo eu achei que era melhor ficar sozinho, mas qual o qu�! Eu n�o consigo! Parece que com a velhice foi chegando tamb�m um pavor da solid�o... Para ser sincero, eu moro a� com uma mas voc� teve vida diferente, Mercedes, tenho certeza. Est� mais conservada, parece feliz. - Feliz? Claro, voc� sabe... - Seu marido ainda � vivo? - Nunca casei, Milto � ela respondeu gravemente, afundando seus olhos nos dele. Ele virou-se segurando com as duas m�os no bala�stre do banco da frente. Seus olhos dan�aram por um longo tempo sobre os n�s dos pr�prios dedos, sobre as veias inchadas. - Voc� esqueceu que eu era adventista? ela perguntou como quem quebra um sil�ncio dif�cil. - N�o, n�o. Toda vez que passo na frente de uma igreja adventista eu lembro de voc� � ele riu aquela risada esfacelada. Foi por isso que eu logo te reconheci hoje, eu nunca te esqueci � ele disse e pareceu embara�ar-se: quero dizer, sempre uma coisa me lembrava voc� e daqueles dias em que a gente ia juntos l� naquela igreja na Liberdade... Ainda est� l� aquela igreja? - Est�. O homem olhou para fora para verificar em que ponto da viagem j� estava e, visivelmente irrequieto, perguntou: - Mercedes, voc� sabe porque eu fui embora, n�o sabe? Ela balan�ou a cabe�a afirmativamente e respondeu: - Meu pai ofendeu voc�. - �. Sabe, mesmo que ele n�o tivesse dito aquilo na frente das outras pessoas, l� na frente da igreja, eu teria agido do mesmo jeito. Ele perguntou se eu estava interessado em voc� ou no dinheiro dele. V� se pode uma coisa dessas!? Justo para mim, que era todo brioso... Ela abaixou o olhar para a bolsa. - Eu sei, Milto, eu sei... Ele ficou em sil�ncio um tempo, depois voltou-se para ela outra vez? - �s vezes eu fico pensando... ser� que ele n�o estava s� brincando? Mercedes volveu-lhe um olhar t�o triste que ele se calou. Ela falou, ent�o, sorrindo amargamente: - Voc�, como sempre, prometeu e cumpriu. Disse para ele que nunca mais ia me ver, ou ver a ele, e assim foi. At� hoje, pelo menos. Como que respondendo a seus pr�prios pensamentos, sem atentar ao que ela dissera, ele falou: - Tem umas coisas que eu nunca aprendi. Ent�o chacoalhou a cabe�a e disse sobressaltado: - Eu tenho que descer no pr�ximo! Voltou-se para ela estendeu-lhe a m�o. - N�s... foi muito bom encontrar voc�, Mercedes. - Foi, Milto, foi bom ver voc� tamb�m. Lembrou-se de algo e enfiou a m�o na bolsa tirando de l� um folheto religioso que estendeu para Milto com um sorriso significativo. - Deus te aben�oe, Milto. Muito muito. Ele segurou o folheto, sorriu-lhe do mesmo jeito que fizera quando perguntou �� voc�?�, puxou a campainha e desceu olhando para tr�s v�rias vezes. Mercedes continuou a viagem considerando melancolicamente um turbilh�o de coisas concomitantes, e isso a cansou. Deu-lhe dor de cabe�a. Para descansar, fechou os olhos e tentou recuperar uma impress�o muito apraz�vel, que a pouca sentira, uma recorda��o t�o agrad�vel!... O que era mesmo? Ah, sim... o longo corredor das flores do Mercad�o Municipal, uma manh� muito fresca, muito fresca... Ela caminhava deliciada, buscando passar sob os raios de sol que penetravam no amplo recinto, fingindo n�o ouvir os gracejos dos vendedores, aspirando fundo... Repentinamente um rapaz lindo de morrer, forte, corado, vestindo um terno claro com apar�ncia de novo e com os cabelos cuidadosamente alinhados e fixados lhe apareceu na frente e ali ficou, com o rosto a poucos cent�metros do dela, sorrindo ofegante e penetrando com seus olhos brilhantes bem profundamente nos olhos dela. Desconsertada ela esperava uma palavra, uma explica��o, um sinal. Ent�o ele respirou fundo e perguntou, com forte sotaque portugu�s, e era uma entona��o muito caracter�stica, aquela que ela ouvira ainda h� pouco, no �nibus: - � voc�? Mais embara�ada que nunca ela perguntou: - O qu�? Ele fechou os olhos aumentando o sorriso, e explicou, sem pressa: - A mulher por quem eu tenho rogado a Deus todo dia? A quem eu devo amar a vida toda? Aquela que vai esquentar meu ch� quando eu resfriar, aquela que eu vou abra�ar nos dias de tempestade, com quem eu vou discutir o tempo, a pol�tica, as coisas da vida e da morte, aquela por quem eu vou lutar e suar, por quem eu vou vencer o mundo, que vai merecer todas as flores do mundo... � e ele falava e falava e falava e ela j� n�o escutava havia muito. Ela tentou desviar-se, enrubescendo muito, mas ele se colocou � frente dela, tirando de tr�s de si um lindo buqu� de madressilvas. - Pelo menos voc� se parece muito com ela. Ela abriu os olhos. Era hora de descer, ela tamb�m. Escrito em 05/09/97 Marco Aur�lio Brasil Lima |
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