Hist�ria Triste

Existem coisas para as quais n�o existem palavras. A vis�o da menina de cabelos castanhos ondulados e compridos, olhos oce�nicos sombreados por c�lios enoooooormes, seis pulseiras no bra�o esquerdo, cinco no direito, vestido e tamanquinho, andando pela cal�ada. Ah, sim, essa era uma daquelas coisas. Voc� sabe, para as quais n�o existem palavras.

O garoto olha e d�i.

Porque sente no peito uma lacuna, de formato impreciso, que o faz olhar com pasmo um c�u muito estrelado, que o faz calar ante o p�r-do-sol no alto da colina do s�tio do av�, que lhe d� uma quase-tristeza na ponta da praia da Lagoinha, de manh�zinha. E num repente uma menina, olhos oce�nicos, cabelos, boca, andar sacolejante, tudo e o cloc cloc do tamanquinho na cal�ada, vem e transborda o que era v�cuo, aquele ali, no peito, o menino limpa a garganta e molha os l�bios. Tudo junto, ao mesmo tempo: o pasmo, o sil�ncio, a quase-tristeza e palpita��es, engasgos, coisas que varam, que vazam e trespassam e ele tem s� quatorze, coitado.

O que significa a menina e toda aquela sua descomunal envergadura, f�sica e et�rea, toda, no peito do garoto?

Acontece que ela est� chegando muito perto e n�o d� tempo de responder a qualquer pergunta conceitual, a verdade � que alguma coisa h�, ali, que exige a��o. Qual?

Ele pula na frente dela e torpedeia:

- Escuta, eu tenho uma coisa muito, MUITO importante para te dizer, mas n�o sei qu�.

A menina al�a as sobrancelhas e continua andando. Mais � frente, outro garoto cola do lado dela, enla�a com os bra�os e d�-lhe um beijo precoce, desses de novela, consentidos, correspondidos.

MORAL DA HIST�RIA: Mais valem certos gestos que mil n�o-palavras.

Escrito em 15/03/02

Marco Aur�lio Brasil Lima
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