Desce


Ele saiu da sala fechando a porta atr�s de si. Como o doutor pedira. A sala de espera estava mais escura que o consult�rio, mas ainda assim pipocavam em seus olhos umas pequenas explos�es brilhantes que o atordoavam.

- Fausto de Mefisto, pode entrar � a secret�ria chamou. Um homem largou a Caras na mesinha de centro, levantou-se e andou rumo ao consult�rio. S� ent�o Arnaldo, que ainda estava ali, parado e atordoado, percebeu que devia se mexer, dar passagem. A secret�ria lhe sorria. O outro paciente entrou, o baque surdo da porta serviu como um empurr�o e Arnaldo sorriu tamb�m, autom�tico.

Arnaldo acomodou melhor o palet� sobre o bra�o e saiu. Sempre em  movimentos lentos, chamou o elevador.

- Sinto muito.

Ele ouvia ainda. Sinto muito. Plim, a luz verde indicava �desce�.

- Desce! o ascensorista confirmava. Sempre em passos lentos, Arnaldo entrou, segurando o palet� e o envelope do laborat�rio junto ao peito, e a porta do elevador fechou.

Havia um v�cuo na mente de Arnaldo, custava a entender o que acontecia � sua volta, apenas de tempos em tempos ele ouvia sinto muito, algumas vezes na sua pr�pria voz, que repetia, um eco, das outras vozes, quando era a voz aguda e anasalada do m�dico.

Com passos lentos Arnaldo ganhou a rua e parou. N�o sabia muito bem se devia subir ou descer a rua. Um menino sujo se aproximou e pediu um trocado.

Arnaldo o olhou aparvalhado. Custou a decodificar a imagem: menino sujo, e a mensagem: tem um trocado, tio? Disse um �ah�, pegou o palet� e do bolso de dentro tirou um chocolate. Os olhos do menino brilharam, ele pegou a barra e virou as costas sem dizer nada.

De repente Arnaldo percebeu que faltava algo e chamou o menino com energia. O menino virou-se com os olhos arregalados de susto, e Arnaldo ent�o lhe estendeu o envelope do laborat�rio. O menino n�o entendeu, mas pegou e Arnaldo desceu a rua, deixando o palet� arrastar no ch�o, sempre em passos muito lentos.

Escrito em 08/08/01


Marco Aur�lio Brasil Lima
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